Estudo sobre histeria

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    23-Jun-2015

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Psicanlise

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  • 1. VOLUME IIEstudos sobre a histeriaJosef Breuer e Sigmund FreudVOLUME II(1893-1895)SIGMUND FREUD EM 1891

2. NOTA DO EDITOR INGLS(James Strachey)(A) BER DEN PSYCHISCHEN MECHANISMUS HYSTERISCHERPHNOMENE (VORLUFIGE MITTEILUNG)(a) EDIES ALEMES:1893 Neurol. Centralbl., 12 (1), 4-10 (Sees I-II), e 12 (2), 43-7(Sees III-V). (1 e 15 de janeiro.)1893 Wien. med. Bltter, 16 (3), 33-5 (Sees I-II), e 16 (4), 49-51(Sees III-V). (19 e 26 de janeiro.)1895, etc. Em Studien ber Hysterie. (Ver adiante.)1906 S.K.S.N., I, 14-29. (1911, 2 ed.; 1920, 3 ed.; 1922, 4 ed.)(b) TRADUES INGLESAS:The Psychic Mechanism of Hysterical Phenomena(Preliminary Communication)1909 S.P.H., 1-13. (Trad. A. A. Brill.) (1912, 2. ed., 1920, 3 ed.)1936 Em Studies in Hysteria. (Ver adiante.)On the Psychical Mechanism of Hysterical Phenomena1924 C.P., 1, 24-41. (Trad. J. Rickman.)(B) STUDIEN BER HYSTERIE(a) EDIES ALEMS:1895 Leipzig e Viena: Deuticke. Pgs. v + 269.1909 2 ed. Mesmos editores. (Sem modificaes, mas com novoprefcio.) Pgs. vii + 269.1916 3 ed. Mesmos editores. (Sem modificaes.) Pgs. vii + 2691922 4 ed. Mesmos editores. (Sem modificaes.) Pgs. vii + 269.1925 G.S., 1, 3-238. (Com omisso das contribuies de Breuer; comnotasde rodap adicionais de Freud.)1952 G.W., 1, 77-312. (Reimpresso de 1925.)(b) TRADUES INGLESAS:Studies in Hysteria1909 S.P.H., 1-120. (1912, 2 ed.; 1920, 3 ed.; 1922, 4 ed.) (Trad. A.A. Brill.) (Somente em parte: com omisso dos casos clnicosda Srta. Anna O., Sra. Emmy von N. e Katharina, bem como docaptulo terico de Breuer.)1936 New York: Nervous and Mental Disease Publishing. Co. 3. (Monograph Series n 61.) Pgs. ix + 241. (Trad. A. A. Brill.)(Completo, salvo quanto omisso das notas de rodapadicionais de Freud, de 1925.)A traduo inglesa, inteiramente nova e completa, de James e AlixStrachey, inclui as contribuies de Breuer, mas quanto ao restobaseia-se na edio alem de 1925, contendo as notas de rodapadicionais de Freud. A omisso das contribuies de Breuer das duascoletneas alems (G.S. e G.W.) acarretou algumas modificaesnecessrias e notas de rodap adicionais, onde Freud tinha feitoreferncia, na edio original, s partes omitidas. Nessas ediescompletas, tambm a numerao dos casos clnicos foi alterada, emvista da ausncia do caso clnico de Anna O. Todas essas alteraesforam abandonadas na presente traduo. Os extratos daComunicao Preliminar e do volume principal tinham sido includospor Freud em sua primeira coletnea de extratos de seus prpriostrabalhos (1897b, ns XXIV e XXXI).(1)ALGUMAS NOTAS HISTRICAS SOBRE OS ESTUDOSConhecemos a histria da redao deste livro com algum detalhe.O tratamento da Srta. Anna O. por Breuer, no qual se baseou toda aobra, ocorreu entre 1880 e 1882. Naquela ocasio, Josef Breuer(1842-1925) j gozava de alta reputao em Viena, tanto como mdicocom grande clnica, como por realizaes cientficas, enquantoSigmund Freud (1856-1939) apenas acabara de formar-se emmedicina. Os dois, contudo, j eram amigosh vrios anos. Otratamento terminou no incio de junho de 1882, e em novembro Breuerrelatou a notvel histria a Freud, que (embora, naquela poca, tivesseseus principais interesses concentrados na anatomia do sistemanervoso) ficou muito impressionado com ela. Tanto assim que quando,cerca de trs anos depois, estava estudando em Paris sob aorientao de Charcot, deu-lhe conhecimento do caso. Mas o grandehomem no mostrou nenhum interesse por meu primeiro esboo doassunto, de modo que jamais voltei ao tema e deixei que sasse deminha mente. (Um Estudo Autobiogrfico 1925d, Captulo II.)Os estudos de Freud sob a orientao de Charcot tinham-seconcentrado, em grande parte, na histeria, e quando Freud voltou aViena em 1886 e ali se fixou para estabelecer uma clnica de doenasnervosas, a histeria forneceu uma grande proporo de sua clientela.De incio, ele se baseou nos mtodos de tratamento ento 4. correntemente recomendados, como a hidroterapia, a eletroterapia,massagens e a cura pelo repouso, de Weir Mitchell. Mas quando essesmtodos se revelaram insatisfatrios, seus pensamentos se voltarampara outra rea. Nessas ltimas semanas, escreve ele a seu amigoFliess em 28 de dezembro de 1887, atirei-me hipnose e logrei todaespcie de sucessos pequeninos, mas dignos de nota (Freud, 1950a,Carta 2). E nos deu uma descrio pormenorizada de um dessestratamentos bem-sucedidos (1892-3b). Mas o caso de Anna O. aindaestava em sua mente, e desde o incio, conta-nos ele (1925d),vali-me da hipnose de outra maneira, independentemente da sugestohipntica. Essa outra maneira foi o mtodo catrtico, que constitui otema do presente volume.O caso da Sra. Emmy von N. foi o primeiro, como sabemos por Freud(ver em. [1] e [2]), que ele tratou pelo mtodo catrtico. Numa nota derodap acrescentada ao livro em 1925, ele explica melhor essaobservao e diz que esse foi o primeiro caso em que utilizou essemtodo extensivamente (ver em [1]); e verdade que, nessa faseinicial, ele vinha constantemente empregando a hipnose na formaconvencional para dar sugestes teraputicas diretas. Mais oumenos na mesma poca, de fato, seu interesse pela sugestohipntica era acentuado o bastante para lev-lo a traduzir um dos livrosde Bernheim em 1888 e outro em 1892, bem como a fazer uma visitade algumas semanas s clnicas de Libeault e Bernheim em Nancy,no vero de 1889. A intensidade com que ele estava utilizando asugesto teraputica no caso da Sra. Emmy indicada de maneirabem ntida no seu relato cotidiano dasduas ou trs primeiras semanasdo tratamento, reproduzido por ele a partir das anotaes que fiztodas as noites (ver em [1]). No podemos, infelizmente, ter certezade quando ele iniciou esse caso (ver Apndice A, em [1]); foi em maiode 1888 ou 1889 isto , cerca de quatro ou cerca de dezesseismeses depois de ele haver pela primeira vez adotado a hipnotismo. Otratamento terminou um ano depois, no vero de 1889 ou 1890. Numaou noutra alternativa, h um considervel hiato antes da data do casoclnico seguinte (em ordem cronolgica, embora no em ordem deapresentao). Esse foi o caso da Srta. Elisabeth von R., que teveincio no outono de 1892 (ver em. [1]) e que Freud descreve como suaprimeira anlise integral de uma histeria ( ver em [1]). Foi logoseguido pelo de Miss Lucy R., que comeou no fim do mesmo ano (verem [1]). No se atribui nenhuma data ao caso restante, o de Katharina(ver.em [1]). Mas, no intervalo entre 1889 e 1892, Freud por certo teveexperincia com outros casos. Em particular, houve o da Srta. CcilieM., a quem ele veio a conhecer de forma muito mais completa do quequalquer das outras pacientes mencionadas nestes estudos (ver em 5. [1]), mas cujo caso no pde ser descrito em detalhes em virtude deconsideraes pessoais. Contudo, ela freqentemente mencionadapor Freud, bem como por Breuer, no decorrer do volume, e sabemos(ver em [1]) por Freud que foi o estudo desse caso notvel, feito emconjunto com Breuer, que levou diretamente publicao de nossaComunicao Preliminar. [1]O rascunho daquele memorvel artigo (que compe a primeira seodo presente volume) se iniciara em junho de 1892. Uma carta a Fliess,de 28 de junho (Freud, 1950a, Carta 9), anuncia que Breuerconcordou em que a teoria da ab-reao e os outros resultados sobrea histeria a que chegamos em conjunto tambm sejam apresentadosconjuntamente numa publicao pormenorizada. Uma parte dela,prossegue, que, a princpio, eu queria escrever sozinho, estconcluda. Evidentemente, a essa parte concluda do artigo faz novareferncia numa carta a Breuer escrita no dia seguinte, 29 de junho de1892 (Freud, 1941a): A inocente satisfao que senti quando lheentreguei aquelas poucas pginas minhas deu margem a ()inquietao. Essa carta prossegue fornecendo um resumo muitocondensado do contedo proposto do artigo. A seguir, temos uma notade rodap acrescentada por Freud a sua traduo de um volume dasLeons du Mardi, de Charcot (Freud, 1892-94, 107), que apresenta, emtrs curtos pargrafos, um resumo da tese da ComunicaoPreliminar e se refere a ele como estando comeado. Alm disso,dois rascunhos bem mais elaborados chegaram at ns. O primeiro(Freud, 1940d) deles (escrito com a caligrafia de Freud, embora seafirme ter sido escrito em conjunto com Breuer) est datado de Finalde novembro de 1892. Versa sobre ataques histricos e a maior partede seu contedo foi includa, embora com palavras diferentes, naSeo IV da Comunicao Preliminar (ver em [1]). Entretanto, umimportante pargrafo relacionado com o princpio da constncia foiinexplicavelmente omitido, e nesse volume o tema tratado apenaspor Breuer, na parte final da obra (ver em [1] e [2].). Por fim, h ummemorando (Freud, 1941b) com o ttulo III, que no tem data.Examina os estados hipnides e a dissociao histrica, estandoestreitamente relacionado com a Seo III do artigo publicado (ver em[1]).Em 18 de dezembro de 1892, Freud escreveu a Fliess (1950a,Carta11): Apraz-me poder dizer-lhe que nossa teoria sobre a histeria(reminiscncia, ab-reao, etc.) vai aparecer no NeurologischesCentralblatt no dia 1 de janeiro de 1893, sob a forma de umacomunicao preliminar pormenorizada. Custou-me longa batalha commeu colaborador. O artigo, datado de dezembro de 1892, foi na 6. realidade publicado em dois nmeros do peridico: as duas primeirassees em 1 de janeiro, e as trs restantes em 15 de janeiro. ONeurologisches Centralblatt (que saa quinzenalmente) era publicadoem Berlim; e a Comunicao Preliminar foi quase imediatamentereimpressa na ntegra em Viena, nas Wiener medizinische Bltter (em19 e 26 de janeiro). Em 11 de janeiro, quando apenas metade do artigofora publicada, Freud pronunciou uma conferncia sobre o tema noWiener medizinischer Club. A transcrio taquigrfica completa daconferncia, revista pelo conferencista, apareceu no Wienermedizinische Presse em 22 e 29 de janeiro (34, 122-6 e 165-7). Aconferncia (Freud, 1893h) abrangia aproximadamente o mesmo temaque o artigo, mas tratava o material de forma bem diferente e demaneira muito menos formal.A publicao do artigo parece ter surtido pouco efeito visvel em Vienaou na Alemanha. Na Frana, por outro lado, como relata Freud a Fliessnuma carta de 10 de julho de 1893 (1950a, Carta 13), o trabalho foifavoravelmente notado por Janet, cuja resistncia s idias de Freuds surgiria mais tarde. Janet incluiu uma nota longa e altamenteelogiosa sobre a Comunicao Preliminar num artigo sobre AlgumasDefinies Recentes da Histeria, publicado nos Archives deNeurologie em junho e julho de 1893. Utilizou esse artigo comocaptulo final de seu livro Ltat Mental des Hystriques, publicado em1894. Mais inesperado, talvez, o fato de que em abril de 1893 apenas trs meses aps a publicao da Comunicao Preliminar um relato razoavelmente completo da mesma foi apresentado por F.W. H. Myers numa reunio geral da Society for Psychical Research, emLondres, tendo sido impresso em sua Ata (Proceedings) no ms dejunho seguinte. A Comunicao Preliminar tambm foi totalmenteresumida e examinada por Michell Clarke em Brain (1894, 125). Areao mais surpreendente e inexplicvel, porm, foi a publicao, emfevereiro e maro de 1893, de uma traduo completa daComunicao Preliminar para o espanhol, na Gazeta Mdica deGranada (11, 105-11 e 129-35).A tarefa seguinte dos autores foi a preparao do material dos casosclnicos e, j em 7 de fevereiro de 1894, Freud referiu-se ao livrocomosemi-acabado: o que resta a fazer apenas uma pequena partedos casos clnicos e dois captulos gerais. Num trecho no publicadoda carta de 21 de maio, ele menciona que est justamente escrevendoo ltimo caso clnico, e em 22 de junho (1950a, Carta 19) apresentauma lista do que o livro com Breuer ir conter: cinco casos clnicos,um ensaio da autoria dele, com o qual no tenho absolutamente nadaa ver, sobre as teorias da histeria (resumo e crtica), e um meu sobre 7. terapia, que ainda no comecei. Depois disso, bvio que houve umaparalisao, pois s em 4 de maro de 1895 (ibid., Carta 22) que eleescreve dizendo estar trabalhando apressadamente no ensaio sobre aterapia da histeria, concludo em 13 de maro (carta no publicada).Em outra carta no publicada, de 10 de abril, Freud envia a Fliess asegunda metade das provas tipogrficas do livro, e no dia seguinte lhediz que este sair em trs semanas.Os Estudos sobre a Histeria parecem ter sido publicados, como seesperava, em maio de 1895, embora a data exata no seja indicada. Olivro foi recebido desfavoravelmente nos crculos mdicos alemes;recebeu, por exemplo, forte crtica de Adolf von Strmpell, o conhecidoneurologista (Deutsch. Z. Nervenheilk., 1896, 159). Por outro lado, umescritor no-mdico, Alfred von Berger, mais tarde diretor doBurgtheater de Viena, sobre ele se expressou com apreo no NeueFreie Presse (2 de fevereiro de 1896). Na Inglaterra, o livro foi alvo delonga e favorvel nota de Mitchell Clarke em Brain (1896, 401) e maisuma vez Myers mostrou seu interesse pela obra numa palestra deconsidervel extenso, originariamente proferida em maro de 1897,que acabou sendo includa em seu Human Personality (1903).Decorreram mais de dez anos antes que houvesse um pedido desegunda edio do livro, e j nessa poca os caminhos de seus doisautores se haviam separado. Em maio de 1906 Breuer escreveu aFreud concordando com uma reimpresso, mas houve certa discussopara determinar se seria desejvel um novo prefcio em conjunto.Seguiram-se outras delongas e, no final, como se ver mais adiante,foram escritos dois prefcios separados. Estes trazem a data de julhode 1908, embora a segunda edio s fosse realmente publicada em1909. O texto continuou inalterado nessa e nas edies posteriores dolivro. Mas, em 1924, Freud escreveu algumas notas de rodapadicionais para o volume de suas obras completas que continha suaparte dos Estudos (publicado em 1925) e fez uma ou duas pequenasmodificaes no texto.(2)A RELAO DOS ESTUDOS COM A PSICANLISEOs Estudos sobre a Histeria costumam ser considerados como o pontode partida da psicanlise. Vale a pena considerar brevemente se essaafirmao verdadeira, e em que sentido. Para os objetivos dessadiscusso, a questo das parcelas do trabalho atribuveis aos doisautores ser posta de lado, para considerao posterior, e o livro sertratado como um todo. A investigao sobre a relao dos Estudoscom o desenvolvimento subseqente da psicanlise pode ser dividida, 8. por convenincia, em duas partes, embora tal separao sejanecessariamente artificial. At que ponto e de que maneira osprocedimentos tcnicos descritos nos Estudos e as descobertasclnicas a que conduziram prepararam o terreno para a prtica dapsicanlise? Em que medida os pontos de vista tericos aqui propostosforam aceitos nas doutrinas posteriores de Freud?Raras vezes se aprecia suficientemente o fato de que a maisimportante das realizaes de Freud talvez tenha sido sua inveno doprimeiro instrumento para o exame cientfico da mente humana. Umdos principais atrativos do presente volume que ele nos permiterastrear os primeiros passos do desenvolvimento desse instrumento. Oque ele nos relata no simplesmente a histria da superao de umasrie de obstculos; a histria da descoberta de uma srie deobstculos a serem superados. A prpria paciente de Breuer, Anna O.,demonstrou e superou o primeiro desses obstculos a amnsiacaracterstica dos pacientes histricos. Quando a existncia dessaamnsia foi trazida luz, seguiu-se de imediato a compreenso de quea mente manifesta do paciente no a mente em sua totalidade,havendo por trs uma mente inconsciente (ver em [1]). Tornou-seassim patente, desde o incio, que o problema no era meramente ainvestigao dos processos mentais conscientes, para a qualbastariam os mtodos corriqueiros de indagao empregados na vidacotidiana. Se havia tambm processos mentais inconscientes, eraclaramente necessrio algum instrumento especial. O instrumentobvio para esse fim era a sugesto hipntica a sugesto hipnticautilizada no para finalidades diretamente teraputicas, mas parapersuadir o paciente a produzir material proveniente da regioinconsciente da mente. Com Anna O. apenas um ligeiro uso desseinstrumento se afigurou necessrio. Ela produzia torrentes de materialvindo de seu inconsciente, e tudo o que Breuer tinha de fazer eraficar sentado e ouvi-las sem interromp-la. Mas isso no era to fcilcomo parece, e o caso clnico da Sra. Emmy revela em muitos pontoscomo foi difcil para Freud adaptar-se a esse novo uso da sugestohipntica e ouvir tudo o que a paciente tinha a dizer, sem qualquertentativa de interferir ou de lev-la a encurtar o relato (por exemplo em[1] e [2]). Nem todos os pacientes histricos alm disso eram todceis quanto Anna O.; a hipnose profunda em que ela caa,aparentemente por sua prpria vontade, no era to prontamentealcanada com qualquer um. E aqui surgia outro obstculo: conta-nosFreud que ele estava longe de ser adepto do hipnotismo. Neste livro(por exemplo em [1]), ele nos fornece vrios relatos de comocontornava essa dificuldade, de como pouco a pouco foi abandonandosuas tentativas de provocar a hipnose e se contentava em levar os 9. pacientes a um estado de concentrao, com o uso ocasional dapresso na testa. Mas foi o abandono do hipnotismo que ampliou aindamais sua compreenso dos processos mentais. Esse abandonorevelou a presena de mais um obstculo a resistncia dospacientes ao tratamento (ver em [1] e [2]), sua relutncia emcooperarem na prpria cura. Como se deveria lidar com essarelutncia? Deveria ser suprimida com gritos ou afastada pelasugesto? Ou deveria, como outros fenmenos mentais, sersimplesmente investigada? A opo de Freud por esse segundocaminho levou-o diretamente ao mundo desconhecido que iria passar avida inteira explorando.Nos anos que se seguiram aos Estudos, Freud abandonou cada vezmais a tcnica da sugesto deliberada | ver em [1]| e passou cada vezmais a confiar no fluxo de associaes livres do paciente. Estavaaberto o caminho para a anlise dos sonhos. Essa anlise permitiu-lhe,em primeiro lugar, obter uma compreenso do funcionamento doprocesso primrio na mente e das formas pelas quais ele influenciavaos produtos de nossos pensamentos mais acessveis, e assim Freudadquiriu um novo recurso tcnico o da interpretao. Mas a anlisedos sonhos possibilitou, em segundo lugar, sua prpria auto-anlise esuas conseqentes descobertas da sexualidade infantil e do complexode dipo. Todas essas questes, porm, salvo por alguns levesindcios, ainda estavam por surgir. No entanto, nas ltimas pginasdeste volume, Freud j se havia defrontado com outro obstculo nocaminho do pesquisador a transferncia (ver em [1]). J tivera umvislumbre de sua impressionante natureza, e talvez j tivessecomeando a reconhecer que ela iria revelar-se no s um obstculocomo tambm mais um instrumento fundamental da tcnicapsicanaltica. primeira vista, a principal posio terica adotada pelos autores daComunicao Preliminar parece simples. Eles sustentam que, nocurso normal das coisas, se uma experincia for acompanhada de umagrande dose de afeto, esse afeto descarregado numa variedadedeatos reflexos conscientes, ou ento vai-se desgastandogradativamente pela associao com outros materiais mentaisconscientes. No caso dos pacientes histricos, por outro lado (pormotivos que logo mencionaremos), nenhuma dessas coisas acontece.O afeto permanece num estado estrangulado, e a lembrana daexperincia a que est ligado isolada da conscincia. A partir da, alembrana afetiva se manifesta em sintomas histricos, que podem serconsiderados como smbolos mnmicos vale dizer, como smbolosda lembrana suprimida (ver em [1]-[2]). Sugerem-se duas razesprincipais para explicar a ocorrncia desse resultado patolgico. Uma 10. delas que a experincia original ocorreu enquanto o indivduo seencontrava num particular estado de dissociao mental, descritocomo hipnide; a outra que o ego do indivduo considerou essaexperincia como sendo incompatvel com ele prprio e, portanto, elateve de ser rechaada. Em ambos os casos, a eficcia teraputica domtodo catrtico explicada com base nos mesmos fundamentos: sea experincia original, juntamente com seu afeto, puder ser introduzidana conscincia, o afeto por si mesmo descarregado ou ab-reagido,a fora que at ento manteve o sintoma deixa de atuar, e o prpriosintoma desaparece.Tudo isso parece muito claro, mas uma pequena reflexo mostra querestam ainda muitas coisas por explicar. Por que um afeto precisa serdescarregado? E por que so to terrveis as conseqncias de eleno ser descarregado? Esses problemas subjacentes no soconsiderados de modo algum na Comunicao Preliminar, embora aeles se fizesse uma breve aluso em dois dos rascunhospostumamente publicados (1941a e 1940d) e j existisse uma hiptesepara explic-los. Curiosamente, na verdade essa hiptese foiformulada por Freud em sua conferncia de 11 de janeiro de 1893(veja em [1]), apesar de ter sido omitida na prpria ComunicaoPreliminar. Ele aludiu de novo a essa hiptese nos dois ltimospargrafos do seu primeiro artigo sobre As Neuropsicoses de Defesa(1894a), onde declara especificamente que ela fundamentava a teoriada ab-reao na Comunicao Preliminar de um ano antes. Mas essahiptese bsica foi formalmente enunciada e designada pela primeiravez em 1895, na segunda parte da contribuio de Breuer ao presentevolume (ver em [1]). curioso que esta, a mais fundamental dasteorias de Freud, tenha sido integralmente examinada, pela primeiravez, por Breuer (se bem que, de fato, atribuda por ele a Freud), e queo prprio Freud, embora retornasse vez por outra a seu tema (comonas primeiras pginas de seu artigo sobre As Pulses e suasVicissitudes, 1915c), no a mencionasse explicitamente at escreverAlm do Princpio do Prazer (1920g). Freud, como sabemos agora,referiu-se a essa hiptese pelo nome numa comunicao de dataincerta a Fliess, possivelmente 1894 (Rascunho D, 1950a), eexaminou-a na ntegra, embora sob outro nome (veja adiante, ver em[1]), no Projeto para uma Psicologia Cientfica, que escreveu algunsmeses aps a publicao dos Estudos. Mas s cinqenta e cinco anosdepois (1950a) que o Rascunho D e o Projeto foram publicados.O princpio da constncia (pois esta foi a denominao dada hiptese) pode ser definido nos termos empregados pelo prprio Freudem Alm do Princpio do Prazer: O aparelho mental esfora-se pormanter a quantidade de excitao nele presente em um nvel to baixo 11. quanto possvel, ou pelo menos por mant-la constante (EdioStandard Brasileira, Vol. XVIII, em [1], 1 edio, Imago). Breuer oenuncia mais adiante, neste livro (ver em [1]), em termos muitosemelhantes, mas com uma inclinao neurolgica, como umatendncia a manter constante a excitao intracerebral. Em suadiscusso em [1] e segs., argumenta ele que os afetos devem suaimportncia na etiologia da histeria ao fato de serem acompanhadospela produo de grandes quantidades de excitao, e de estas, porsua vez, exigirem uma descarga, de acordo com o princpio daconstncia. De modo semelhante, tambm as experincias traumticasdevem sua fora patognica ao fato de produzirem quantidades deexcitao grandes demais para serem tratadas da maneira normal.Assim, a posio terica essencial subjacente aos Estudos que anecessidade clnica da ab-reao do afeto e os resultados patognicosque surgem quando ele fica estrangulado so explicados pelatendncia muito mais geral (expressa no princpio da constncia) amanter constante a quantidade de excitao.Tem-se pensado com freqncia que os autores dos Estudos atribuamos fenmenos da histeria apenas aos traumas e s lembranasinextirpveis deles, e que s mais tarde que Freud, depois dedeslocar a nfase dos traumas infantis para as fantasias infantis,chegou a sua momentosa concepo dinmica dos processos damente. Ver-se-, contudo, pelo que acaba de ser dito, que umahiptese dinmica sob aforma do princpio da constncia j estavasubjacente teoria do trauma e da ab-reao. E quando chegou omomento de ampliar os horizontes e atribuir uma importncia muitomaior s pulses, em contraste com a experincia, no houvenecessidade de modificar a hiptese bsica. Na realidade, Breuer jressalta o papel desempenhado pelas principais necessidades epulses fisiolgicas do organismo na gnese dos aumentos deexcitao que exigem descarga (ver em [1]), e frisa a importncia dapulso sexual como a fonte mais poderosa dos acmulossistemticos de excitao (e, conseqentemente, de neuroses) (verem [1]). Alm disso, toda a noo de conflito e do recalcamento dasidias incompatveis explicitamente baseada no ocorrncia dosaumentos desagradveis de excitao. Isso conduz consideraoadicional de que, como salienta Freud em Alm do Princpio do Prazer(Edio Standard Brasileira, 1 edio, Vol. XVIII, ver em [1]), o prprioprincpio do prazer est estreitamente vinculado ao princpio daconstncia. Ele chega mesmo a ir mais adiante e declarar (ibid., 83)que o princpio do prazer uma tendncia que atua a servio de umafuno cuja tarefa libertar inteiramente da excitao o aparelhomental, ou manter constncia o nvel de excitao dentro dele, ou 12. mant-lo to baixo quanto possvel. O carter conservador queFreud atribui s pulses em seus trabalhos posteriores, assim como acompulso repetio, tambm so vistos no mesmo trecho comomanifestaes do princpio da constncia; e fica claro que a hipteseem que se basearam esses primeiros Estudos sobre a Histeria aindacontinuava a ser considerada fundamental por Freud em suas ltimasespeculaes.(3)AS DIVERGNCIAS ENTRE OS DOIS AUTORESNo estamos interessados aqui nas relaes pessoais entre Breuer eFreud, descritas com detalhes no primeiro volume da biografia escritapor Ernest Jones, mas interessante examinarmos brevemente suasdivergncias cientficas. A existncia de tais divergncias foiabertamente mencionada no prefcio primeira edio e muitas vezesfalou-se nelas com exagero nas publicaes posteriores de Freud. Masno prprio livro, por estranho que parea, elas esto longe de ganharpreeminncia e, muito embora a Comunicao Preliminar seja a nicaparte do livrode autoria explicitamente conjunta, no fcil determinarcom certeza de quem a responsabilidade pela origem dos vrioselementos componentes do trabalho como um todo.Sem dvida, podemos com segurana atribuir a Freud osdesenvolvimentos tcnicos posteriores, bem como os conceitostericos vitais de resistncia, defesa e recalcamento que decorreramdeles. fcil ver pelo relato apresentado em [1] como esses conceitosdecorreram da substituio da hipnose pela tcnica da presso. Oprprio Freud, em sua Histria do Movimento Psicanaltico (1914d),declara que a teoria do recalcamento a pedra angular em querepousa toda a estrutura da psicanlise, e d a mesma explicaoaqui apresentada sobre a maneira como se chegou a ela. Afirmatambm sua crena de ter chegado de forma independente a essateoria, e a histria da descoberta confirma amplamente essa crena.No mesmo trecho, Freud observa que uma sugesto da idia dorecalcamento encontra-se em Schopenhauer (1844), cujas obras,contudo, ele s veio a ler em idade avanada; e h pouco tempo seressaltou que a palavra Verdrngung (recalcamento) ocorre nosescritos do psiclogo Herbart (1824), do incio do sculo XIX, cujasidias tiveram grande influncia sobre numerosas pessoas que faziamparte do crculo de Freud, em particular seu professor imediato depsiquiatria, Meynert. Mas nenhuma dessas sugestes diminui de modosignificativo a originalidade da teoria de Freud, com sua base emprica, 13. que encontrou sua primeira expresso na Comunicao Preliminar(ver em [1]-[2]).Em contraposio a isso, no h nenhuma dvida de que Breuer deuorigem noo dos estados hipnides, ponto a que voltaremosdentro em breve, e parece possvel que tenha sido responsvel pelostermos catarse e ab-reao.Todavia, muitas das concluses tericas dos Estudos devem ter sidoproduto de discusses entre os dois autores durante seus anos decolaborao, e o prprio Breuer comenta (ver em [1]-[2]) sobre adificuldade de determinar a prioridade em tais casos. Afora a influnciade Charcot, sobre a qual Freud jamais deixou de insistir, deve-setambm recordar que tanto Breuer como Freud eram basicamente fiis escola de Helmholz, da qual um professor deles, Ernst Brcke, foimembro preeminente. Grande parte da teoria subjacente aos Estudossobre a Histeria deriva da doutrina daquela escola, teoria que dizserem todos os fenmenos naturais, em ltima anlise, explicveis emfuno de foras fsicas e qumicas.J vimos (em [1]) que, embora Breuer fosse o primeiro a mencionar oprincpio da constncia pelo nome, ele atribuiu essa hiptese a Freud.De modo semelhante, ele ligou o nome de Freud ao termo converso,mas (como ser explicado mais adiante, em [1]), o prprio Freuddeclarou que isso se aplicava apenas palavra e que se chegou emconjunto ao conceito.Por outro lado, h um grande nmero de conceitos muito importantesque parecem ser corretamente atribuveis a Breuer: a idia de aalucinao ser uma retrogresso das imagens mentais para apercepo (ver em [1]), a tese de que as funes da percepo e damemria no podem ser realizadas pelo mesmo aparelho (ver em [1]),e, finalmente, causando grande surpresa, a distino entre a energiapsquica ligada (tnica) e a no-ligada (mvel) e a distino correlataentre os processos psquicos primrio e secundrio (ver em [1]).O emprego do termo Besetzung (catexia), que aparece pelaprimeira vez em [1]-[2] com o sentido que iria tornar-se to familiar nateoria psicanaltica, provavelmente deve ser atribudo a Freud. Como natural, a idia de todo o aparelho mental, ou parte dele, transportaruma carga de energia pressuposta pelo princpio da constncia. Eembora o termo real que iria transformar-se no padro fosseempregado pela primeira vez neste volume, a idia fora antes expressapor Freud sob outras formas. Assim, encontramo-lo utilizandoexpresses tais como mit Energie ausgestattet (suprido de energia)(1895b), mit einer Erregungssumme behaftet (carregado de uma 14. soma de excitao) (1894a), munie dune valeur affective (providode uma cota de afeto) (1893c), Verschiebungen von Erregungssummen (deslocamentos de somas de excitao) (1941a |1892|) e,j no prefcio a sua primeira traduo de Bernheim (1888-9)Verschiebungen von Erregbarkeit im Nervensystem (deslocamentosde excitabilidade no sistema nervoso).Esta ltima citao, porm, constitui um lembrete de algo de grandeimportncia que pode muito facilmente ser desprezado. No h dvidaalguma de que, na poca da publicao dos Estudos, Freudconsiderava o termo catexia como puramente fisiolgico. Isso comprovado pela definio do termo dada por ele na Parte I, Seo 2,de seu Projeto para uma Psicologia Cientfica, com o qual sua mentej estava ocupada (como se verifica nas cartas a Fliess) e que foiescrito apenas alguns meses depois. Ali, aps fornecer uma explicaosobre uma entidade neurolgica recm-descoberta, o neurnio,prossegue ele: Se combinarmos esta descrio dos neurnios comuma abordagem nos moldes da teoria da quantidade, chegaremos idia de uma neurnio catexizado, cheio de certa quantidade, emboraem outras ocasies possa estar vazio. A propenso neurolgica dasteorias de Freud nesse perodo indicada ainda pela forma como oprincpio da constncia enunciado no mesmo trecho do Projeto.Recebe a designao de o princpio da inrcia neuronal e definidocomo indicativo de que os neurnios tendem a desembaraar-se daquantidade. Revela-se assim um notvel paradoxo. Breuer, comoveremos adiante (ver em [1]), declara sua inteno de tratar o assuntoda histeria em moldes puramente psicolgicos: No que se segue,pouca meno ser feita ao crebro e absolutamente nenhuma smolculas. Os processos psquicos sero tratados na linguagem dapsicologia. Na verdade, porm, seu captulo terico versa basicamentesobre as excitaes intracerebrais e sobre paralelos entre o sistemanervoso e as instalaes eltricas. Por outro lado, Freud dedicavatodas as suas energias a explicar os fenmenos mentais em termosfisiolgicos e qumicos. No obstante, como ele prprio confessa compesar (ver em [1]), seus casos clnicos tm a forma de contos e suasanlises so psicolgicas.A verdade que, em 1895, Freud encontrava-se a meio caminho noprocesso de passar das explicaes fisiolgicas dos estadospsicopatolgicos para as explicaes psicolgicas. Por um lado,propunha o que era, em linhas gerais, uma explicao qumica dasneuroses atuais neurastenia e neurose de angstia (em seusdois artigos sobre neurose de angstia, 1895b e 1895f), e, por outro,propunha uma explicao essencialmente psicolgica em termos dedefesa e recalcamento para a histeria e as obsesses (em seus 15. dois artigos sobre As Neuropsicoses de Defesa, 1894a e 1896b). Suaformao anterior e sua carreira como neurologista levavam-no aresistir aceitao das explicaes psicolgicas como definitivas; e eleestava empenhado em elaborar uma estrutura complexa de hiptesesdestinadas a possibilitar a descrio dos eventos mentais em termospuramente neurolgicos. Essa tentativa culminou no Projeto e foiabandonada no muito depois. At o fim da vida, porm, Freudcontinuou adepto da etiologia qumica das neuroses atuais e aacreditar que se acabaria encontrando uma base fsica para todos osfenmenos mentais. Entrementes, ele chegou pouco a pouco ao pontode vista expresso por Breuer de que os processos psquicos s podemser tratados na linguagem da psicologia. Foi s em 1905 (em seu livrosobre o chiste, Captulo V) que ele pela primeira vez repudiou de formaexplcita qualquer inteno de empregar o termo catexia em algumsentido que no fosse o psicolgico e abandonou todas as tentativasde relacionar os tratos nervosos ou os neurnios com as vias deassociao mental.Quais eram, porm, as divergncias cientficas essenciais entre Breuere Freud? Em seu Estudo Autobiogrfico (1925d) Freud afirma que aprimeira delas relacionava-se com a etiologia da histeria e poderia serdescrita como os estados hipnides versus as neuroses de defesa.Mais uma vez, no entanto, aqui mesmo neste volume, o problema menos ntido. Na Comunicao Preliminar elaborada em conjunto,ambas as etiologias so aceitas (ver em [1]). Breuer, em seu captuloterico, evidentemente d maior nfase aos estados hipnides (ver em[1]), mas tambm acentua a importncia da defesa (ver em [1] e [2]),embora de modo pouco entusistico. Freud parece aceitar a noo dosestados hipnides no caso clnico de Katharina (ver em [1]) e, demodo menos definitivo, no da Sra. Elisabeth (ver em [1]). s nocaptulo final que seu ceticismo comea a tornar-se evidente (ver em[1]). Num artigo sobre A Etiologia da Histeria, publicado no anoseguinte (1896c), esse ceticismo expresso de forma ainda maisfranca e, numa nota de rodap ao caso de Dora (1905e), Freuddeclara que a expresso estados hipnides desnecessria econfusa e que a hiptese decorreu inteiramente da iniciativa deBreuer (Edio Standard Brasileira, 1 edio, Vol. VII, pg. 25n).Mas a principal diferena de opinio entre os dois autores, na qualFreud posteriormente insistiu, dizia respeito ao papel desempenhadopelos impulsos sexuais na causao da histeria. Tambm aqui,contudo, verificaremos que a divergncia expressa aparece de umaforma menos clara do que seria de se esperar. A crena de Freud naorigem sexual da histeria pode ser inferida com bastante clareza a 16. partir da discusso em seu captulo sobre a psicoterapia (ver em. [1]),mas em nenhum ponto ele chega a afirmar, como faria mais tarde, queuma etiologia sexual se mostra invariavelmente presente nos casos dehisteria. Por outro lado, Breuer fala em vrios pontos, e usando ostermos mais incisivos, sobre a importncia do papel desempenhadopela sexualidade nas neuroses, e o faz em especial no longo trechoem [1] e segs. Diz ele, por exemplo (como j se observou, em [1]), quea pulso sexual sem dvida a fonte mais poderosa dos aumentospersistentes de excitao (e, conseqentemente, das neuroses) (verem [1]), e declara (ver em [1]) que a grande maioria das neurosesgraves nas mulheres tem sua origem no leito conjugal.Parece que, para encontrarmos uma explicao satisfatria para adissoluo dessa parceria cientfica, deveramos olhar o que est atrsda palavra impressa. As cartas de Freud a Fliess mostram Breuercomo um homem cheio de dvidas e reservas, sempre inseguro emsuas concluses. H um exemplo extremo disso numa carta de 8 denovembro de 1895 (1950a, Carta 35), cerca de seis meses aps apublicao dos Estudos: No faz muito tempo, no Colgio deMedicina, Breuer fez um longo discurso falando de mim, no qualanunciou sua converso crena na etiologia sexual |das neuroses|.Quando o chamei de lado para agradecer-lhe, ele estragou meuprazer, dizendo: Ainda assim no creio nisso. Voc consegueentender isso? Eu, no. Algo dessa natureza pode ser lido nasentrelinhas das contribuies de Breuer aos Estudos, onde temos oquadro de um homem meio temeroso de suas prprias descobertasnotveis. Era inevitvel que ele ficasse ainda mais desconcertado pelopressentimento das descobertas ainda mais inquietantes que estavampor vir; e era inevitvel que Freud, por sua vez, se sentisse prejudicadoe irritado com as incmodas hesitaes de seu companheiro detrabalho.Seria enfadonho enumerar os muitos trechos, nas obras posteriores deFreud, nos quais ele se refere aos Estudos sobre a Histeria e a Breuer;porm, algumas citaes ilustraro a variao da nfase em suaatitude para com eles.Nos numerosos relatos abreviados de seus mtodos teraputicos edas teorias psicolgicas que publicou durante os anos logo aps olanamento dos Estudos, Freud se esforou por ressaltar as diferenasentre a psicanlise e o mtodo catrtico as inovaes tcnicas, aextenso de seu processo quanto s outras neuroses que no ahisteria, o estabelecimento da motivao da defesa, a insistncianuma etiologia sexual e, como j vimos, a rejeio final dos estadoshipnides. Ao chegarmos primeira srie das obras principais deFreud os volumes sobre sonhos (1900a), parapraxias (1901b), 17. chistes (1905c) e sexualidade (1905d) naturalmente h pouco ounenhum material retrospectivo; e somente nas cinco confernciasproferidas na Universidade de Clark (1910a) que vamos encontrar umlevantamento histrico extenso. Nessas conferncias, Freud pareciaansioso por estabelecer a continuidade entre sua obra e a de Breuer.Toda a primeira conferncia e grande parte da segunda so dedicadasa um resumo dos Estudos, e a impresso dadaera a de que no Freud,e sim Breuer era o verdadeiro fundador da psicanlise.O longo levantamento retrospectivo seguinte, na Histria doMovimento Psicanaltico (1914d), teve um tom muito diferente. Todo oartigo, naturalmente, teve uma inteno polmica, e no desurpreender que, ao esboar a histria inicial da psicanlise, Freudfrisasse mais suas divergncias com Breuer do que sua dvida paracom ele, e que revogasse explicitamente sua viso de Breuer como ofundador da psicanlise. Tambm nesse artigo Freud discorreulargamente sobre a incapacidade de Breuer para enfrentar atransferncia sexual e revelou o lastimvel evento que encerrou aanlise de Anna O (ver em [1]).A seguir veio o que parece ser quase uma amende j mencionadana ver em [1]: a inesperada atribuio a Breuer da distino entre aenergia psquica ligada e a no-ligada e entre os processos primrio esecundrio. No tinha havido nenhuma sugesto dessa atribuioquando essas hipteses foram originalmente introduzidas por Freud(em A Interpretao dos Sonhos); ela foi feita pela primeira vez numanota de rodap Seo V do artigo metapsicolgico sobre OInconsciente (1915e) e repetida em Alm do Princpio do Prazer(1920g); (Edio Standard Brasileira, Vol. XVIII, em [1] e [2]). Nomuito tempo depois houve algumas frases de louvor num artigopreparado por Freud para o Handwrterbuch de Marcuse (1923a;Edio Standard Brasileira, Vol. XVIII, em [1]): Numa seo tericados Estudos, Breuer props algumas idias especulativas sobre osprocessos de excitao da mente. Essas idias determinaram adireo das futuras linhas de pensamento Mais ou menos namesma orientao, Freud escreveu, um pouco depois, numacontribuio para uma publicao norte-americana (1924f): O mtodocatrtico foi o precursor imediato da psicanlise e, apesar de todaamplitude da experincia e de todas as modificaes de teoria, aindase acha contido nela como seu ncleo.O longo levantamento histrico de Freud que se seguiu, Um EstudoAutobiogrfico (1925d), pareceu mais uma vez afastar-se da obraconjunta: Se o relato que fiz at agora, escreveu, levou o leitor aesperar que os Estudos sobre a Histeria, em todos os pontosessenciais de seu contedo, tenham sido um produto da mente de 18. Breuer, isso precisamente o que eu mesmo sempre sustentei Notocante teoria formulada no livro, fui parcialmente responsvel, masnuma medida que hoje no mais possvel determinar. Aquela teoria,de qualquer modo, era despretensiosa e mal foialm da descriodireta das observaes. E acrescentou que teria sido difcil adivinhar,pelos Estudos sobre a Histeria, a importncia que tem a sexualidadena etiologia das neuroses, passando mais uma vez a descrever arelutncia de Breuer em reconhecer esse fator.Logo depois disso Breuer faleceu, e talvez seja apropriado encerraresta introduo obra conjunta com uma citao do necrolgio feitopor Freud sobre seu colaborador (1925g). Depois de comentar arelutncia de Breuer em publicar os Estudos e de declarar que oprincipal mrito dele prprio em relao a essa obra fora o de haverpersuadido Breuer a concordar com seu lanamento, prosseguiu: Napoca em que ele aceitou minha influncia e estava elaborando osEstudos para publicao, seu julgamento do significado da obrapareceu confirmar-se. Creio, disse-me ele, que esta a coisa maisimportante que ns dois temos a dar ao mundo. Alm do caso clnicode sua primeira paciente, Breuer redigiu um artigo terico para osEstudos. Esse texto est muito longe de ser desatualizado; pelocontrrio, oculta pensamentos e sugestes que no foramsuficientemente levados em conta. Qualquer um que se aprofundenesse ensaio especulativo formar uma verdadeira impresso daestatura mental desse homem cujos interesses cientficos,infelizmente, s foram orientados na direo de nossa psicopatologiapor um curto episdio de sua longa vida. 19. PREFCIO PRIMEIRA EDIOEm 1893 publicamos a Comunicao Preliminar sobre um novomtodo de examinar e tratar os fenmenos histricos. A elaacrescentamos, de forma to concisa quanto possvel, as conclusestericas a que havamos chegado. Estamos aqui reimprimindo essaComunicao Preliminar para servir como a tese que temos porfinalidade ilustrar e provar.Anexamos a ela uma srie de casos clnicos cuja seleo, infelizmente,no pde ser determinada em bases puramente cientficas. Nossaexperincia provm da clnica particular numa classe social culta eletrada, e o assunto com que lidamos muitas vezes aborda a vida e ahistria mais ntimas de nossos pacientes. Constituiria grave quebra deconfiana publicar material dessa espcie, com o risco de os pacientesserem identificados e seus conhecidos ficarem a par de fatos confiadosapenas ao mdico. Foi-nos portanto impossvel fazer uso de algumasdas nossas observaes mais instrutivas e convincentes. Issonaturalmente se aplica de forma especial a todos os casos em que asrelaes sexuais e maritais desempenham um importante papeletiolgico. Assim, ocorre que s conseguimos apresentar provas muitoincompletas em favor de nosso ponto de vista de que a sexualidadeparece desempenhar um papel fundamental na patognese da histeria,como fonte de traumas psquicos e como motivao para a defesa isto , para que as idias sejam recalcadas da conscincia. Foramprecisamente as observaes de natureza marcadamente sexual quenos vimos obrigados a no publicar.Os casos clnicos so seguidos de diversas consideraes tericas e,num captulo final sobre terapia, prope-se a tcnica do mtodocatrtico tal como se desenvolveu nas mos do neurologista.Se em algumas ocasies se expressam opinies divergentes e atmesmo contraditrias, isso no deve ser considerado como prova dequalquer vacilao em nossos pontos de vista. Decorre dasdivergncias naturais e justificveis entre as opinies dos doisobservadores que esto de acordo quanto aos fatos e leitura bsicados mesmos, mas que nem sempre concordam invariavelmente emsuas interpretaes e conjeturas.J. BREUER, S. FREUDAbril de 1895 20. PREFCIO SEGUNDA EDIOO interesse que, em grau sempre crescente, vem se voltando para apsicanlise parece agora estar-se estendendo a estes Estudos sobre aHisteria. O editor deseja publicar nova edio do livro, que no momentose acha esgotado. Aparece ele agora numa reimpresso semquaisquer alteraes, embora as opinies e os mtodos apresentadosna primeira edio tenham desde ento passado por desenvolvimentosde longo alcance e profundidade. No que me diz respeito,pessoalmente, desde aquela poca no lidei ativamente com oassunto; no tive nenhuma participao em seu importantedesenvolvimento e nada poderia acrescentar de novo ao que foi escritoem 1895. Assim, nada pude fazer alm de expressar o desejo de queminhas duas contribuies ao volume fossem reimpressas semalterao.BREUERTambm quanto a minha participao no livro, a nica deciso possvel que o texto da primeira edio seja reimpresso sem alterao. Osdesenvolvimentos e mudanas ocorridos em meus pontos de vista nodecorrer de treze anos de trabalho foram extensos demais para queseja possvel vincul-los a minha anterior exposio sem destruirinteiramente seu carter essencial. Tampouco tenho qualquer motivopara desejar eliminar esta prova de meus conceitos iniciais. Ainda hojeno os considero como erros, mas como valiosas primeirasaproximaes de um conhecimento que s poderia ser plenamenteadquirido aps longos e continuados esforos. O leitor atento sercapaz de descobrir neste livro os germes de tudo aquilo que desdeento foi acrescentado teoria da catarse; por exemplo, o papeldesempenhado pelos fatores psicossexuais e pelo infantilismo, e aimportncia dos sonhos e do simbolismo inconsciente. E no posso darmelhor conselho a qualquer interessado no desenvolvimento dacatarse at chegar psicanlise do que comear pelos Estudos sobrea Histeria e, desse modo, seguir o caminho que eu prprio trilhei.FREUDVIENA, julho de 1908 21. I - SOBRE O MECANISMO PSQUICO DOS FENMENOSHISTRICOS: COMUNICAO PRELIMINAR (1893)(BREUER E FREUD)IUma observao casual levou-nos, durante vrios anos, a pesquisaruma grande variedade de diferentes formas e sintomas de histeria,com vistas a descobrir sua causa precipitante o fato que teriaprovocado a primeira ocorrncia, muitos anos antes com freqncia,do fenmeno em questo. Na grande maioria dos casos no possvelestabelecer o ponto de origem atravs da simples interrogao dopaciente, por mais minuciosamente que seja levada a efeito. Isso severifica, em parte, porque o que est em questo , muitas vezes,alguma experincia que o paciente no gosta de discutir; mas ocorreprincipalmente porque ele de fato incapaz de record-la e, muitasvezes, no tem nenhuma suspeita da conexo causal entre o eventodesencadeador e o fenmeno patolgico. Via de regra, necessriohipnotizar o paciente e provocar, sob hipnose, suas lembranas dapoca em que o sintoma surgiu pela primeira vez; feito isso, torna-sepossvel demonstrar a conexo causal da forma mais clara econvincente.Esse mtodo de exame tem produzido, num grande nmero de casos,resultados que se afiguram valiosos tanto do ponto de vista tericocomo do ponto de vista prtico.Eles so teoricamente valiosos porque nos ensinaram que os fatosexternos determinam a patologia da histeria numa medida muito maiordo que se sabe e reconhece. Naturalmente, bvio que, nos casos dehisteria traumtica, o que provoca os sintomas o acidente. A ligaocausal evidencia-se igualmente nos ataques histricos quando possvel deduzir dos enunciados do paciente que, em cada ataque, eleest alucinando o mesmo evento que provocou o primeiro deles. Asituao mais obscura no caso de outros fenmenos.Nossas experincias, porm, tm demonstrado que os mais variadossintomas, que so ostensivamente espontneos e, como se poderiadizer, produtos idiopticos da histeria, esto to estritamenterelacionados com o trauma desencadeador quanto os fenmenos aque acabamos de aludir e que exibem a conexo causal de maneirabem clara. Os sintomas cujo rastro pudemos seguir at os referidosfatores desencadeadores deste tipo abrangem nevralgias e anestesiasde naturezas muito diversas, muitas das quais haviam persistidodurante anos, contraturas e paralisias, ataques histricos e convulsesepileptides, que os observadores consideravam como epilepsiaverdadeira, petit mal e perturbaes da ordem dos tiques, vmitos 22. crnicos e anorexia, levados at o extremo de rejeio de todos osalimentos, vrias formas de perturbao da viso, alucinaes visuaisconstantemente recorrentes, etc. A desproporo entre os muitos anosde durao do sintoma histrico e a ocorrncia isolada que o provocou o que estamos invariavelmente habituados a encontrar nas neurosestraumticas. Com grande freqncia, algum fato da infncia queestabelece um sintoma mais ou menos grave, que persiste durante osanos subseqentes.Muitas vezes, a ligao to ntida que se torna bem evidente comofoi que o fato desencadeante produziu um dado fenmeno especfico,de preferncia a qualquer outro. Nesse caso, o sintoma foi de formabem bvia determinado pela causa desencadeadora. Podemos tomarcomo exemplo muito comum uma emoo penosa surgida duranteuma refeio, mas suprimida na poca, e que produz ento nuseas evmitos que persistem por meses sob a forma de vmitos histricos.Uma jovem que velava o leito de um enfermo, atormentada por umagrande angstia, caiu num estado crepuscular e teve uma alucinaoaterrorizante, enquanto seu brao direito, que pendia sobre o dorso dacadeira, ficou dormente; disso proveio uma paresia do mesmo brao,acompanhada de contratura e anestesia. Ela tentou rezar, mas noconseguiu encontrar as palavras; por fim, conseguiu repetir umaorao para crianas em ingls. Posteriormente, ao surgir uma histeriagrave e altamente complicada, ela s conseguia falar, escrever ecompreender o ingls, enquanto sua lngua materna permaneceuininteligvel para ela por dezoito meses. A me de uma crianamuito doente, que finalmente adormecera, concentrou toda a sua forade vontade em manter-se imvel a fim de no despert-la.Precisamente por causa da sua inteno, produziu um rudo de estalocom a lngua. (Um exemplo de contravontade histrica.) Esse rudose repetiu numa ocasio subseqente em que ela desejava manter-seperfeitamente imvel, tendo dele surgido um tique que, sob a forma deum estalido com a lngua, ocorreu durante um perodo de muitos anossempre que ela se sentia excitada. Um homem muito inteligenteestava presente quando uma articulao da coxa anquilosada de seuirmo foi submetida a uma manobra de extenso sob a ao de umanestsico. No momento em que a articulao cedeu com um estalido,ele sentiu uma dor violenta em sua prpria articulao, que persistiupor quase um ano. Outros exemplos poderiam ser citados.Em outros casos a conexo causal no to simples. Consiste apenasno que se poderia denominar uma relao simblica entre a causaprecipitante e o fenmeno patolgico uma relao do tipo da que aspessoas saudveis formam nos sonhos. Por exemplo, uma nevralgiapode sobrevir aps um sofrimento mental, ou vmitos aps um 23. sentimento de repulsa moral. Temos estudado pacientes quecostumavam fazer o mais abundante uso dessa espcie desimbolizao. Noutros casos ainda, no possvel compreender primeira vista como os sintomas podem ser determinados maneiracomo sugerimos. So precisamente os sintomas histricos tpicos quese enquadram nessa classe, tais como a hemianestesia, a contraodo campo visual, as convulses epileptiformes e assim por diante. Umaexplicao de nossos pontos de vista sobre esse grupo deve serreservada para um exame mais acurado do assunto.Observaes como essas nos parecem estabelecer uma analogiaentre a patognese da histeria comum e a das neuroses traumticas ejustificar uma extenso do conceito de histeria traumtica. Nasneuroses traumticas, a causa atuante da doena no o dano fsicoinsignificante, mas o afeto do susto o trauma psquico. De maneiraanloga, nossas pesquisas revelam para muitos, se no para a maioriados sintomas histricos, causas desencadeadoras que s podem serdescritas como traumas psquicos. Qualquer experincia que possaevocar afetos aflitivos tais como os de susto, angstia, vergonha oudor fsica pode atuar como um trauma dessa natureza; e o fato deisso acontecer de verdade depende, naturalmente, da suscetibilidadeda pessoa afetada (bem como de outra condio que ser mencionadaadiante). No caso da histeria comum no rara a ocorrncia, em vezde um trauma principal isolado, de vrios traumas parciais que formamum grupo de causas desencadeadoras. Essas causas s puderamexercer um efeito traumtico por adio e constituem um conjunto porserem, em parte, componentes de uma mesma histria de sofrimento.Existem outros casos em que uma circunstncia aparentemente trivialse combina com o fato realmente atuante ou ocorre numa ocasio depeculiar suscetibilidade ao estmulo e, dessa forma, atinge a categoriade um trauma, que de outra forma no teria tido, mas que da pordiante persiste.Mas a relao causal entre o trauma psquico determinante e ofenmeno histrico no de natureza a implicar que o trauma atuecomo mero agent provocateur na liberao do sintoma, que passaento a levar uma existncia independente. Devemos antes presumirque o trauma psquico ou, mais precisamente, a lembrana dotrauma age como um corpo estranho que, muito depois de suaentrada, deve continuar a ser considerado como um agente que aindaest em ao; encontramos a prova disso num fenmeno invulgar que,ao mesmo tempo, traz um importante interesse prtico para nossasdescobertas. que verificamos, a princpio com grande surpresa, que cada sintomahistrico individual desaparecia, de forma imediata e permanente, 24. quando conseguamos trazer luz com clareza a lembrana do fatoque o havia provocado e despertar o afeto que o acompanhara, equando o paciente havia descrito esse fato com o maior nmero dedetalhes possvel e traduzido o afeto em palavras. A lembrana semafeto quase invariavelmente no produz nenhum resultado. O processopsquico originalmente ocorrido deve ser repetido o mais nitidamentepossvel; deve ser levado de volta a seu status nascendi e entoreceber expresso verbal. Quando aquilo com que estamos lidandoso fenmenos que envolvem estmulos (espasmos, nevralgias ealucinaes), estes reaparecem mais uma vez com intensidademxima e a seguir desaparecem para sempre. As deficinciasfuncionais, tais como paralisias e anestesias, desaparecem da mesmamaneira, embora, claro, sem que a intensificao temporria sejadiscernvel. plausvel supor que se trata aqui de sugesto inconsciente: opaciente espera ser aliviado de seus sofrimentos por esseprocedimento, e essa expectativa, e no a expresso verbal, o fatoroperativo. Mas no isso que ocorre. O primeiro caso dessa naturezaa ser objeto de observao remonta ao ano de 1881, isto , era dapr-sugesto. Um caso muito complicado de histeria foi analisadodessa maneira, e os sintomas que decorriam de causas distintas foramdistintamente eliminados. Essa observao foi possibilitada porauto-hipnoses espontneas por parte do paciente, e surgiu com umagrande surpresa para o observador.Podemos inverter a mxima cessante causa cessat effectus|cessando a causa cessa o efeito| e concluir dessas observaes queo processo determinante continua a atuar, de uma forma ou de outra,durante anos no indiretamente, atravs de uma corrente de eloscausais intermedirios, mas como uma causa diretamente liberadora da mesma forma que um sofrimento psquico que recordado noestado consciente de viglia ainda provoca uma secreo lacrimalmuito tempo depois de ocorrido o fato. Os histricos sofremprincipalmente de reminiscncias.II primeira vista parece extraordinrio que fatos experimentados htanto tempo possam continuar a agir de forma to intensa que sualembrana no esteja sujeita ao processo de desgaste a que, afinal decontas, vemos sucumbirem todas as nossas recordaes. Talvez asconsideraes que se seguem possam tornar isso um pouco maisinteligvel. 25. O esmaecimento de uma lembrana ou a perda de seu afetodependem de vrios fatores. O mais importante destes se houve umareao energtica ao fato capaz de provocar um afeto. Pelo termoreao compreendemos aqui toda a classe de reflexos voluntrios einvoluntrios das lgrimas aos atos de vingana nos quais, comoa experincia nos mostra, os afetos so descarregados. Quando essareao ocorre em grau suficiente, grande parte do afeto desaparececomo resultado. O uso da linguagem comprova esse fato deobservao cotidiana com expresses como desabafar pelo pranto|sich ausweinen| e desabafar atravs de um acesso de clera |sichaustoben, literalmente esvair-se em clera|. Quando a reao reprimida, o afeto permanece vinculado lembrana. Uma ofensarevidada, mesmo que apenas com palavras, recordada de modo bemdiferente de outra que teve que ser aceita. A linguagem tambmreconhece essa distino, em suas conseqncias mentais e fsicas;de maneira bem caracterstica, ela descreve uma ofensa sofrida emsilncio como uma mortificao |Krnkung, literalmente, um fazeradoecer|. A reao da pessoa insultada em relao ao trauma sexerce um efeito inteiramente catrtico se for uma reao adequada como, por exemplo, a vingana. Mas a linguagem serve desubstituta para a ao; com sua ajuda, um afeto pode ser ab-reagidoquase com a mesma eficcia. Em outros casos, o prprio falar oreflexo adequado: quando, por exemplo, essa fala corresponde a umlamento ou a enunciao de um segredo torturante, por exemplo,uma confisso. Quando no h uma reao desse tipo, seja em aesou palavras, ou, nos casos mais benignos, por meio de lgrimas,qualquer lembrana do fato preserva sua tonalidade afetiva do incio.A ab-reao, contudo, no o nico mtodo de lidar com a situaopara uma pessoa normal que tenha experimentado um traumapsquico. Uma lembrana desse trauma, mesmo que no tenha sidoab-reagida, penetra no grande complexo de associaes, entra emconfronto com outras experincias que possam contradiz-la, e estsujeita retificao por outras representaes. Depois de um acidente,por exemplo, a lembrana do perigo e a repetio (mitigada) do medo associada lembrana do que ocorreu depois o socorro e asituao consciente da segurana atual. Da mesma forma, alembrana de uma humilhao corrigida quando a pessoa situa osfatos no devidos lugares, considerando seu prprio valor, etc. Dessemodo, uma pessoa normal capaz de provocar o desaparecimento doafeto concomitante por meio do processo de associao.A isso devemos acrescentar a obliterao geral das impresses, oevanescimento das lembranas a que chamamos esquecimento eque desgasta as representaes no mais afetivamente atuantes. 26. Nossas observaes demonstraram, por outro lado, que as lembranasque se tornaram os determinantes de fenmenos histricos persistempor longo tempo com surpreendente vigor e com todo o seu coloridoafetivo. Devemos, contudo, mencionar outro fato notvel do qualposteriormente poderemos tirar proveito, a saber, que essaslembranas, em contraste com outras de sua vida passada, no seacham disposio do paciente. Pelo contrrio, essas experinciasesto inteiramente ausentes da lembrana dos pacientes quando emestado psquico normal, ou s se fazem presentes de forma bastantesumria. Apenas quando o paciente inquirido sob hipnose queessas lembranas emergem com a nitidez inalterada de um fatorecente.Assim, durante nada menos de seis meses, uma de nossas pacientesreproduziu sob hipnose, com uma nitidez alucinatria, tudo o que ahavia excitado no mesmo dia no ano anterior (durante um ataque dehisteria aguda). Um dirio mantido por sua me sem o conhecimentoda paciente provou a inteireza da reproduo |ver em [1]|. Outrapaciente, em parte sob hipnose e em parte durante ataquesespontneos, reviveu com clareza alucinatria todos os fatos de umapsicose histrica que experimentara dez anos antes e que haviaesquecido, em sua maior parte, at o momento em que ela ressurgiu.Alm disso, verificou-se que certas lembranas de importnciaetiolgica que datavam dos quinze aos vinte e cinco anos estavamsurpreendentemente intactas e possuam uma intensidade sensorialnotvel, e que, ao retornarem, atuaram com toda a fora afetiva dasexperincias novas |ver em [1]-[2]|.Isso s pode ser explicado pelo fato de que essas lembranasconstituem uma exceo em sua relao com todos os processos dedesgaste que examinamos atrs. Em outras palavras: parece queessas lembranas correspondem a traumas que no foramsuficientemente ab-reagidos; e se penetrarmos mais a fundo nosmotivos que impediram isso, encontraremos pelo menos dois gruposde condies sob as quais a reao ao trauma deixa de ocorrer.No primeiro grupo acham-se os casos em que os pacientes noreagiram a um trauma psquico porque a natureza do trauma nocomportava reao, como no caso da perda obviamente irreparvel deum ente querido, ou porque as circunstncias sociais impossibilitavamuma reao, ou porque se tratava de coisas que o paciente desejavaesquecer, e portanto, recalcara intencionalmente do pensamentoconsciente, inibindo-as e suprimindo-as. So precisamente as coisasaflitivas dessa natureza que, sob hipnose, constatamos serem a basedos fenmenos histricos (por exemplo, os delrios histricos de santose freiras, de mulheres que guardam a castidade e de crianas 27. bem-educadas).O segundo grupo de condies determinado, no pelo contedo daslembranas, mas pelos estados psquicos em que o paciente recebeuas experincias em questo, pois encontramos sob hipnose, dentre ascausas dos sintomas histricos, representaes que em si mesmasno so importantes, mas cuja persistncia se deve ao fato de que seoriginaram durante a prevalncia de afetos gravemente paralisantes,tais como o susto, ou durante estados psquicos positivamenteanormais, como o estado crepuscular semi-hipntico dos devaneios, aauto-hipnose, etc. Em tais casos, a natureza dos estados que tornaimpossvel uma reao ao acontecimento. claro que ambas as espcies de condies podem estar presentesao mesmo tempo, e isso de fato ocorre com freqncia. o queacontece quando um trauma que atuante por si mesmo ocorreenquanto predomina um afeto gravemente paralisante, ou durante umestado de alterao da conscincia. Mas tambm parece ser verdadeque em muitas pessoas um trauma psquico produz um dessesestados anormais, o que, por sua vez, torna a reao impossvel.Ambos os grupos de condies, porm, possuem em comum o fato deque os traumas psquicos que no foram eliminados pela reaotambm no podem s-lo pela elaborao por meio da associao. Noprimeiro grupo, o paciente est decidido a esquecer as experinciasaflitivas e, por conseguinte, as exclui tanto quanto possvel daassociao; j no segundo grupo, a elaborao associativa deixa deocorrer porque no existe nenhuma vinculao associativa abrangenteentre o estado normal da conscincia e os estados patolgicos em queas representaes surgiram. Logo teremos ocasio de nosaprofundarmos nesse assunto.Assim, pode-se dizer que as representaes que se tornarampatolgicas persistiram com tal nitidez e intensidade afetiva porquelhes foram negados os processos normais de desgaste por meio daab-reao e da reproduo em estados de associao no inibida.IIIMencionamos as condies que, como demonstra nossa experincia,so responsveis pelo desenvolvimento de fenmenos histricosprovenientes de traumas psquicos. Ao faz-lo, j fomos obrigados afalar nos estados anormais de conscincia em que surgem essasrepresentaes patognicas e a ressaltar o fato de que a lembrana dotrauma psquico atuante no se encontra na memria normal dopaciente, mas em sua memria ao ser hipnotizado. Quanto mais nosocupamos desses fenmenos, mais nos convencemos de que a 28. diviso da conscincia, que to marcante nos casos clssicosconhecidos sob a forma de double conscience, acha-se presente emgrau rudimentar em toda histeria, e que a tendncia a tal dissociao, ecom ela ao surgimento dos estados anormais da conscincia que(reuniremos sob a designao de hipnides), constitui o fenmenobsico dessa neurose. Quanto a esses concordamos com Binet e comos dois Janets, embora no tenhamos tido nenhuma experincia dasnotveis descobertas que eles fizeram com pacientes anestsicos.Gostaramos de contrabalanar a conhecida tese de que a hipnose uma histeria artificial com uma outra a de que a base e condiosine qua non da histeria a existncia de estados hipnides. Essesestados hipnides partilham uns com os outros e com a hipnose, pormais que difiram sob outros aspectos, uma caracterstica comum: asrepresentaes que neles surgem so muito intensas, mas estoisoladas da comunicao associativa com o restante do contedo daconscincia. Podem ocorrer associaes entre esses estadoshipnides, e seu contedo representativo pode, dessa forma, atingirum grau mais ou menos elevado de organizao psquica. Alm disso,deve-se supor que a natureza desses estados e a extenso em queficam isolados dos demais processos da conscincia variam do mesmomodo que ocorre na hipnose, que vai desde uma leve sonolncia at osonambulismo, de uma lembrana completa at a amnsia total.Quando os estados hipnides dessa natureza j se acham presentesantes da instalao da doena manifesta, eles fornecem o terreno emque o afeto planta a lembrana patognica com suas conseqentesmanifestaes somticas. Isso corresponde histeria disposicional.Verificamos, todavia, que um trauma grave (tal como ocorre numaneurose traumtica) ou uma supresso trabalhosa (como a de umafeto sexual, por exemplo) podem ocasionar uma diviso expulsiva degrupos de representaes mesmo em pessoas que, sob outrosaspectos, no esto afetadas; e esse seria o mecanismo da histeriapsiquicamente adquirida. Entre os extremos dessas duas formasdevemos presumir a existncia de uma srie de casos dentro dos quaisa tendncia dissociao do indivduo e a magnitude afetiva do traumavariam numa proporo inversa.Nada temos de novo a dizer sobre a questo da origem dessesestados hipnides disposicionais. Ao que parece, eles freqentementeemergem dos devaneios que so to comuns at mesmo nas pessoassadias e aos quais os trabalhos de costura e ocupaes semelhantestornam as mulheres particularmente propensas. Por que que asassociaes patolgicas surgidas nesses estados so to estveis, epor que que exercem uma influncia to maior sobre os processossomticos do que costumam fazer as representaes, so perguntas 29. que coincidem com o problema geral da eficcia das sugesteshipnticas. Nossas observaes no trazem nenhuma novacontribuio para esse assunto, mas lanam luz sobre a contradioentre a mxima a histeria uma psicose e o fato de que, entre oshistricos, podem-se encontrar pessoas da mais lcida inteligncia, damaior fora de vontade, do melhor carter e da mais alta capacidadecrtica. Essa caracterizao vlida em relao a seus pensamentosem estado de viglia, mas, em seus estados hipnides, elas soinsanas, como somos todos nos sonhos. Todavia, enquanto nossaspsicoses onricas no exercem nenhum efeito sobre nosso estado deviglia, os produtos dos estados hipnides intrometem-se na viglia soba forma de sintomas histricos.IVO que afirmamos sobre os sintomas histricos crnicos pode seraplicado quase que integralmente aos ataques histricos. Charcot,como se sabe, deu-nos uma descrio esquemtica do grandeataque histrico, segundo a qual se podem distinguir quatro fases numataque completo: (1) a fase epileptide, (2) a fase dos movimentosamplos, (3) a fase das atittudes passionnelles (fase alucinatria) e (4)a fase de delrio terminal. Charcot deduz todas as formas de ataquehistrico que, na prtica, so encontradas com maior freqncia doque o grande attaque completo, a partir da abreviao ou doprolongamento, da ausncia ou do isolamento dessas quatro fasesdistintas.Nossa tentativa de explicao tem como ponto de partida a terceiradessas fases, a das atittudes passionnelles. Quando esta se achapresente numa forma bem acentuada, ela apresenta a reproduoalucinatria de uma lembrana que foi importante nodesencadeamento da histeria a lembrana de um grande traumaisolado (que encontramos par excellence no que denominado histeriatraumtica) ou de uma srie de traumas parciais interligados (como ossubjacentes histeria comum). Ou, finalmente, o ataque pode reviveros fatos que se tornaram relevantes em virtude de sua coincidnciacom um momento de predisposio especial ao trauma.Entretanto, h tambm ataques que parecem consistir exclusivamenteem fenmenos motores e nos quais a fase de atittudes passionnellesse acha ausente. Quando se consegue entrar em rapport com opaciente durante um ataque como esse, de espasmos clnicosgeneralizados ou rigidez catalptica, ou durante um attaque desommeil |acesso de sono| ou quando, melhor ainda, se consegueprovocar o acesso sob hipnose verifica-se que tambm aqui h umalembrana subjacente do trauma psquico ou da srie de traumas, que, 30. de modo geral, chama nossa ateno numa fase alucinatria.Dessa forma, durante anos, uma menina sofreu ataques de convulsesgeneralizadas que poderiam ser, e realmente foram, consideradoscomo epilpticos. Ela foi hipnotizada com vistas a um diagnsticodiferencial, e de imediato teve um de seus acessos. Perguntaram-lhe oque estava vendo e ela respondeu: O cachorro! O cachorro estvindo!; e de fato verificou-se que tivera o primeiro de seus ataquesaps ter sido perseguida por um co feroz. O xito do tratamentoconfirmou o diagnstico.Por sua vez, um funcionrio que ficara histrico em decorrncia de sermaltratado por seu superior sofria de ataques em que caa no cho etinha acessos de raiva, mas sem dizer uma s palavra ou demonstrarqualquer sinal de alucinao. Foi possvel provocar um ataque sobhipnose, e o paciente ento revelou estar revivendo a cena em que seupatro o insultara na rua e batera nele com a bengala. Dias depois opaciente voltou e queixou-se de ter tido outro ataque da mesmanatureza. Nessa ocasio, verificou-se sob hipnose que ele estiverarevivendo a cena com que estava relacionada a instalao real dadoena: a cena no tribunal em que ele no conseguira obter reparaopelas injrias sofridas.Tambm em todos os demais aspectos as lembranas que emergemou podem ser provocadas nos ataques histricos correspondem scausas desencadeadoras que temos encontrado na raiz dos sintomashistricos crnicos. Tais como estas ltimas causas, as lembranassubjacentes aos ataques histricos relacionam-se com traumaspsquicos que no foram eliminados pela ab-reao ou pela atividadeassociativa do pensamento. semelhana delas, estas esto, querinteiramente, quer em seus elementos essenciais, fora do alcance dalembrana da conscincia normal, e mostram pertencer ao contedorepresentativo dos estados hipnides de conscincia, com associaorestrita. Por fim, tambm o teste teraputico pode ser aplicado a elas.Nossas observaes nos tm com freqncia ensinado que umarecordao dessa espcie, que at ento havia provocado ataques,deixa de ser capaz de faz-lo depois que os processos de reao e decorreo associativa so a ela aplicados sob hipnose.Os fenmenos motores dos ataques histricos podem ser parcialmenteinterpretados como formas universais de reao apropriadas ao afetoque acompanha a lembrana (tais como espernear e agitar os braos epernas, o que at mesmo os bebs de tenra idade fazem), e em partecomo uma expresso direta dessas lembranas; mas em parte, comono caso dos estigmas histricos verificados entre os sintomas crnicos,no podem ser explicadas dessa maneira.Os ataques histricos, alm disso, so especialmente interessantes se 31. tivermos em mente uma teoria que mencionamos atrs, a saber, quena histeria certos grupos de representaes que se originam nosestados hipnides esto presentes e so isolados da ligaoassociativa com as outras representaes, mas podem associar-seentre si, formando assim o rudimento mais ou menos altamenteorganizado de uma segunda conscincia, uma condition seconde. Seassim for, um sintoma histrico crnico corresponder intruso dessesegundo estado na inervao somtica, que, em geral, se acha sob ocontrole da conscincia normal. O ataque histrico, por outro lado, prova de uma organizao mais elevada desse segundo estado.Quando o ataque surge pela primeira vez, indica um momento em queessa conscincia hipnide adquiriu controle sobre toda a existncia doindivduo indica, em outras palavras, uma histeria aguda; quandoocorre em ocasies subseqentes e contm uma lembrana, indica umretorno daquele momento. Charcot j sugeriu que os ataques histricosconstituem uma forma rudimentar de uma condition seconde. Duranteo ataque, o controle sobre toda a inervao somtica passa para aconscincia hipnide. A conscincia normal, como o demonstramobservaes bem conhecidas, nem sempre inteiramente recalcada.Ela pode at mesmo perceber os fenmenos motores do ataque,enquanto os fatos psquicos concomitantes ficam fora de seuconhecimento.O curso caracterstico de um caso grave de histeria , como sabemos,o seguinte: de incio, forma-se um contedo representativo durante osestados hipnides; quando esse contedo aumenta de formasuficiente, ele assume o controle, durante um perodo de histeriaaguda, da inervao somtica e de toda a existncia do paciente,criando sintomas crnicos e ataques; depois disso, desaparece, a noser por certos resduos. Quando a personalidade normal conseguerecuperar o controle, o que resta do contedo representativo hipnidereaparece em ataques histricos e, de tempos em tempos, leva osujeito de volta a estados semelhantes, eles prprios novamenteinfluenciveis a traumas. Um estado de equilbrio, por assim dizer,pode ento ser estabelecido entre os dois grupos psquicos que secombinam na mesma pessoa: os ataques histricos e a vida normalprosseguem lado a lado sem que um interfira no outro. O ataqueocorre de modo espontneo, como fazem as lembranas nas pessoasnormais; contudo, possvel provoc-lo, do mesmo modo que qualquerlembrana pode ser suscitada de acordo com as leis da associao.Pode-se provoc-lo, quer pela estimulao de uma zona histerognica,quer por uma nova experincia que o desencadeia graas a umasemelhana com a experincia patognica. Esperamos poderdemonstrar que essas duas espcies de determinantes, embora 32. paream to diferentes, no diferem quanto aos pontos essenciais,mas que em ambas uma lembrana hiperestsica evocada.Em outros casos esse equilbrio muito instvel. O ataque surge comomanifestao do resduo da conscincia hipnide sempre que apersonalidade est esgotada e incapacitada. No se pode afastar apossibilidade de que, nessa situao, o ataque tenha sido despojadode seu significado original e esteja recorrendo como uma reaomotora sem qualquer contedo.Cabe a uma pesquisa ulterior descobrir o que que determina se umapersonalidade histrica se manifestar em ataques, em sintomascrnicos ou numa mistura de ambos.VAgora poder ficar claro por que o mtodo psicoterpico quedescrevemos nestas pginas tem um efeito curativo. Ele pe termo fora atuante da representao que no fora ab-reagida no primeiromomento, ao permitir que seu afeto estrangulado encontre uma sadaatravs da fala; e submete essa representao correo associativa,ao introduzi-la na conscincia normal (sob hipnose leve) ou elimin-lapor sugesto do mdico, como se faz no sonambulismo acompanhadode amnsia.Em nossa opinio, as vantagens teraputicas desse mtodo soconsiderveis. Naturalmente, verdade que no curamos a histeria namedida em que ela dependa de fatores disposicionais. Nada podemosfazer contra a recorrncia dos estados hipnides. Alm disso, durantea fase produtiva de uma histeria aguda, nosso mtodo no podeimpedir que os fenmenos to laboriosamente eliminados sejamimediatamente substitudos por outros. To logo passa essa faseaguda, porm, quaisquer resduos que possam ter ficado sob a formade sintomas crnicos ou ataques costumam ser removidos de formapermanente por nosso mtodo, porque ele radical; e nesse sentidoele nos parece muito superior em sua eficcia remoo atravs dasugesto direta, tal como hoje praticada pelos psicoterapeutas.Se, ao descobrirmos o mecanismo psquico dos fenmenos histricos,demos um passo frente na trilha inicialmente aberta com tanto xitopor Charcot, com sua explicao e sua imitao artificial das paralisiashstero-traumticas, no podemos ocultar de ns mesmos que isso snos aproximou um pouco mais da compreenso do mecanismo dossintomas histricos, e no das causas internas da histeria. No fizemosmais do que tocar de leve na etiologia da histeria e, a rigor, sconseguimos lanar luz sobre suas formas adquiridas sobre aimportncia dos fatores acidentais nessa neurose. 33. VIENA, dezembro de 1892 34. II - CASOS CLNICOS(BREUER E FREUD) 35. CASO 1 - SRTA. ANNA O. (BREUER)Na ocasio em que adoeceu (em 1880), a Srta. Anna O. contava vintee um anos de idade. Pode-se considerar que era portadora de umahereditariedade neuroptica moderadamente grave, visto que algumaspsicoses haviam ocorrido entre seus parentes mais distantes. Seuspais eram normais nesse aspecto. A prpria paciente fora sempresaudvel at ento e no havia mostrado nenhum sinal de neurosedurante seu perodo de crescimento. Era dotada de grande intelignciae aprendia as coisas com impressionante rapidez e intuio aguada.Possua um intelecto poderoso, que teria sido capaz de assimilar umslido acervo mental e que dele necessitava embora no orecebesse desde que sara da escola. Anna tinha grandes dotespoticos e imaginativos, que estavam sob o controle de um agudo ecrtico bom senso. Graas a esta ltima qualidade, ela era inteiramenteno sugestionvel, sendo influenciada apenas por argumentos e nuncapor meras asseres. Sua fora de vontade era vigorosa, tenaz epersistente; algumas vezes, chegava ao extremo da obstinao, que scedia pela bondade e considerao para com as outras pessoas.Um de seus traos de carter essenciais era a generosa solidariedade.Mesmo durante a doena, pde ajudar muito a si mesma por terconseguido cuidar de grande nmero de pessoas pobres e enfermas,pois assim satisfazia a um poderoso instinto. Seus estados de espritosempre tenderam para um leve exagero, tanto na alegria como natristeza; por conseguinte, era s vezes sujeita a oscilaes de humor.A noo da sexualidade era surpreendentemente no desenvolvidanela. A paciente, cuja vida se tornou conhecida pormim num grau emque raras vezes a vida de uma pessoa conhecida de outra, nunca seapaixonara; e em todo o imenso nmero de alucinaes que ocorreramdurante sua doena a noo da sexualidade nunca emergiu.Essa moa, cheia de vitalidade intelectual, levava uma vidaextremamente montona no ambiente de sua famlia de mentalidadepuritana. Embelezava sua vida de um modo que provavelmente ainfluenciou de maneira decisiva em direo doena, entregando-se adevaneios sistemticos que descrevia como seu teatro particular.Enquanto todos pensavam que ela estava prestando ateno, ela seimaginava vivendo contos de fada; mas estava sempre alerta quandolhe dirigiam a palavra, de modo que ningum se dava conta de seuestado. Exercia essa atividade de modo quase ininterrupto enquanto seocupava de seus afazeres domsticos, dos quais se desincumbia deforma irrepreensvel. Terei a seguir que descrever a maneira pela qualesses devaneios habituais, no perodo em que ela estava com sade, 36. foram-se convertendo gradativamente em doena.O curso da doena enquadrou-se em vrias fases nitidamenteseparveis:(A)Incubao latente. De meados de julho at cerca de 10 dedezembro de 1880. Essa fase da doena costuma ficar omissa parans; mas, nesse caso, graas a seu carter peculiar, foi-noscompletamente acessvel; esse fato, por si s, traz um aprecivelinteresse patolgico para o caso. Descreverei esta fase em seguida.(B)A doena manifesta. Uma psicose de natureza peculiar, comparafasia, estrabismo convergente, graves perturbaes da viso,paralisias (sob a forma de contraturas) completa na extremidadesuperior direita e em ambas as extremidades inferiores, e parcial naextremidade superior esquerda, e paresia dos msculos do pescoo.Reduo gradual da contratura nas extremidades da mo direita.Alguma melhora, interrompida por um grave trauma psquico (a mortedo pai da paciente) em abril, depois do que se seguiram:(C)Um perodo de sonambulismo persistente, alternando-sesubseqentemente com estados mais normais. Grande nmero desintomas crnicos perduraram at dezembro de 1881.(D)Cessao gradual dos estados e sintomas patolgicos at junho de1882.Em julho de 1880, o pai da paciente, a quem ela era extremamenteafeioada, adoeceu de um abscesso peripleurtico que no sarou e doqual veio a morrer em abril de 1881. Durante os primeiros meses dadoena, Anna dedicou todas as suas energias a cuidar do pai, eningum ficou muito surpreso quando, pouco a pouco, sua prpriasade foi-se deteriorando de forma acentuada. Ningum, talvez nemmesmo a prpria paciente, sabia oque lhe estava acontecendo; masafinal, o estado de debilidade, anemia e averso pelos alimentos seagravou a tal ponto que, para seu grande pesar, no lhe permitirammais que continuasse a cuidar do paciente. A causa imediata dessaproibio foi uma tosse muito intensa, razo pela qual a examinei pelaprimeira vez. Era uma tussis nervosa tpica. Anna logo comeou amostrar uma pronunciada necessidade de repouso durante a tarde,continuada, ao anoitecer, por um estado semelhante a sono e, aseguir, por uma condio de intensa excitao.No incio de dezembro apareceu um estrabismo convergente. Umoftalmologista o explicou (erroneamente) como decorrente da paresiade um dos abdutores. Em 11 de dezembro a paciente caiu de cama eassim permaneceu at 1 de abril.Surgiu em rpida sucesso uma srie de perturbaes graves queeram aparentemente novas: dor de cabea occipital esquerda;estrabismo convergente (diplopia), acentuadamente aumentado pela 37. excitao; queixas de que as paredes do quarto pareciam estar vindoabaixo (afeco do nervo oblquo); perturbaes da viso difceis deser analisadas; paresia dos msculos anteriores do pescoo, de modoque, afinal, a paciente s conseguia mover a cabea pressionando-apara trs entre os ombros erguidos e movendo as costas inteiramente;contratura e anestesia da extremidade superior direita e, depois decerto tempo, da extremidade inferior direita. Esta ltima sofreu totalextenso, aduo e rotao para dentro. Posteriormente, surgiu omesmo sintoma na extremidade inferior esquerda e, por fim, no braoesquerdo, cujos dedos, contudo conservaram at certo ponto acapacidade de movimento. De igual modo, tambm no havia umarigidez completa nas articulaes do ombro. A contratura atingiu seuponto mximo nos msculos dos braos. Da mesma forma, a regiodos cotovelos revelou-se a mais atingida pela anestesia quando, numestgio posterior, tornou-se possvel fazer um exame mais cuidadosoda sensibilidade. No incio da doena a anestesia no pde ser testadade modo eficiente em virtude da resistncia da paciente emdecorrncia de sentimentos de angstia.Foi enquanto a paciente se achava nesse estado que comecei atrat-la, havendo logo reconhecido a gravidade da perturbaopsquica com que teria de lidar. Havia dois estados de conscinciainteiramente distintos, que se alternavam, de modo freqente e sbitoe que se tornaram cada vez mais diferenciados no curso da doena.Num desses estados ela reconhecia seu ambiente; ficava melanclicae angustiada, mas relativamente normal. No outro, tinha alucinaes eficava travessa isto , agressiva, e jogava almofadas nas pessoas,tanto quanto o permitiam as contraturas, arrancavabotes da roupa decama e de suas roupas com os dedos que conseguia movimentar, eassim por diante. Nesse estgio da doena, se alguma coisa tivessesido tirada do lugar no quarto ou algum tivesse entrado ou sado dele|durante seu outro estado de conscincia|, ela se queixava de haverperdido tempo e tecia comentrios sobre as lacunas na seqncia deseus pensamentos conscientes. Visto que as pessoas que a cercavamtentavam negar isso e confort-la quando ela se queixava de estarficando louca, Anna, depois de jogar os travesseiros, acusava aspessoas de fazerem coisas contra ela e de a deixarem num estado deconfuso, etc.Essas absences j tinham sido observadas antes de ela cair decama; costumava parar no meio de uma frase, repetir as ltimaspalavras e, depois de uma breve pausa, continuar a falar. Essasinterrupes aumentaram de forma gradual at atingirem as dimensesque acabam de ser descritas; e no auge da doena, quando ascontraturas se haviam estendido at o lado esquerdo do corpo, s 38. durante um curto perodo do dia que ela apresentava certo grau denormalidade. Mas as perturbaes invadiram at mesmo seusmomentos de conscincia relativamente clara. Haveria modificaesmuitssimo rpidas de humor, que levavam a uma fase de animaointensa, mas bastante passageira, e em outras ocasies havia umaangstia acentuada, uma oposio tenaz a qualquer esforoteraputico e alucinaes assustadoras com cobras negras, que erama maneira como Anna via seus cabelos, fitas e coisas semelhantes. Aomesmo tempo, ficava dizendo a si mesma para deixar de ser to tola: oque na verdade via eram apenas seus cabelos, etc. Em certosmomentos, quando sua mente estava inteiramente lcida, queixava-seda profunda escurido na cabea, de no conseguir pensar, de ficarcega e surda, de ter dois eus, um real e um mau, que a forava acomportar-se mal, e assim por diante.s tardes caa num estado de sonolncia que durava at cerca de umahora depois do pr-do-sol. Ento despertava e se queixava de que algoa estava atormentando ou melhor, ficava a repetir na formaimpessoal: atormentando, atormentando, e isso porque,paralelamente ao desenvolvimento das contraturas, surgiu umaprofunda desorganizao funcional da fala. A princpio, ficou claro queela sentia dificuldade de encontrar as palavras, e essa dificuldade foiaumentando de maneira gradativa. Posteriormente, ela perdeu odomnio da gramtica e da sintaxe; no mais conjugava verbos eacabou por empregar apenas os infinitivos, em sua maioria formadosincorretamente a partir dos particpios passados, e omitia tanto oartigodefinido quanto o indefinido. Com o passar do tempo, ficou quasetotalmente desprovida de palavras. Juntava-as penosamente a partirde quatro ou cinco idiomas e tornou-se quase ininteligvel. Quandotentava escrever (at que as contraturas a impediram totalmente defaz-lo), empregava o mesmo jargo. Durante duas semanasemudeceu por completo e, apesar de envidar grandes e contnuosesforos, foi incapaz de emitir uma nica slaba. E ento, pela primeiravez, o mecanismo psquico do distrbio ficou claro. Como eu sabia, elase sentira extremamente ofendida com alguma coisa e tomara adeliberao de no falar a esse respeito. Quando adivinhei isso e aobriguei a falar sobre o assunto, a inibio, que tambm tornaraimpossvel qualquer outra forma de expresso, desapareceu.Essa mudana coincidiu com a volta da capacidade de movimento dasextremidades do lado esquerdo do corpo, em maro de 1881. Aparafasia regrediu, mas da por diante ela passou a falar apenas ingls s que, aparentemente, sem saber que o estava fazendo. Tinhadiscusses com a enfermeira, que, como lgico, no conseguiaentend-la. S alguns meses depois que pude convenc-la de que 39. estava falando ingls. No obstante, ela prpria ainda compreendia aspessoas a seu redor que falavam alemo. S em momentos deextrema ansiedade que sua capacidade de falar a abandonava porcompleto, ou ento ela utilizava uma mistura de toda sorte de lnguas.s vezes, quando se encontrava em seu melhor estado e com amxima liberdade, falava francs e italiano. Havia uma amnsia totalentre essas ocasies e aquelas em que falava ingls. Tambm nessapoca seu estrabismo comeou a diminuir e passou a se apresentarapenas nos momentos de grande excitao. Ela voltou a conseguirsustentar a cabea. No dia 1 de abril, levantou-se pela primeira vez.No dia 5 de abril morreu seu adorado pai. Durante a doena dapaciente ela o vira muito raramente e por perodos curtos. Esse foitalvez o trauma psquico mais grave que ela poderia ter experimentado.Uma violenta exploso de excitao foi acompanhada de um profundoestupor, que durou cerca de dois dias e do qual ela emergiu numestado acentuadamente modificado. No comeo, ficou muito maistranqila e seus sentimentos de angstia tiveram uma reduoconsidervel. A contratura do brao e perna direitos persistiu, bemcomo a anestesia de ambos, embora esta no fosse profunda. Houveum alto grau de restrio do campo visual: num buqu de flores quelhe proporcionou muito prazer, s pde ver uma flor de cada vez.Queixava-se de no conseguir reconhecer as pessoas. Normalmente,dizia, fora capaz de reconhecer os rostos sem ter de fazer nenhumesforo deliberado; agora era obrigada a fazer umlaboriosorecognizing work e tinha que dizer a si mesma: o narizdessa pessoa assim e assim e o cabelo assim ou assado, de modoque deve ser fulano. Todas as pessoas que via pareciam figuras decera, sem qualquer ligao com ela. Achava muito aflitiva a presenade alguns de seus parentes prximos, e essa atitude negativa foi-seacentuando cada vez mais. Quando algum a quem comumente viacom prazer entrava no quarto, ela o reconhecia e ficava consciente dascoisas por um curto espao de tempo, mas logo mergulhava de novoem suas elucubraes, e o visitante se apagava. Eu era a nicapessoa que ela sempre reconhecia quando entrava; enquanto euconversava com ela, a paciente permanecia animada e em contatocom as coisas exceto pelas sbitas interrupes causadas por uma desuas absences alucinatrias.Nesses momentos, s falava ingls e no conseguia compreender oque lhe diziam em alemo. Os que a cercavam eram obrigados adirigir-lhe a palavra em ingls, e at a enfermeira aprendeu, at certoponto, a se fazer entender dessa maneira. Anna, porm, conseguia lerem francs e italiano. Se tivesse que ler uma dessas lnguas em vozalta, o que produzia, com extraordinria fluncia, era uma admirvel 40. traduo improvisada do ingls.Ela recomeou a escrever, mas de maneira peculiar. Escrevia com amo esquerda, a menos rgida, e empregava letras de forma romanas,copiando o alfabeto da sua edio de Shakespeare.Anteriormente, ela costumava comer muito pouco, mas agora recusavaqualquer alimento. Entretanto, permitiu-me que a alimentasse, de modoque logo comeou a se alimentar mais. Mas nunca consentia emcomer po. Aps a refeio, lavava invariavelmente a boca, e o faziaat mesmo quando, por qualquer motivo, nada era comido o queindica como era distrada a respeito dessas coisas.Seus estados de sonolncia tarde e seu sono profundo depois docrepsculo persistiram. Quando, depois disso, ela se havia esgotadode tanto falar (terei que explicar depois o que quero dizer com isso),ficava com a mente clara, calma e alegre.Esse estado relativamente tolervel no durou muito. Cerca de dezdias aps a morte do pai, chamou-se um mdico para opinar sobre ocaso, a quem, como fazia com todos os estranhos, ela ignorouinteiramente enquanto eu demonstrava a ele todas as peculiaridadesda paciente. Thats like an examination, disse ela a rir quando fiz comque lesse em ingls, em voz alta, um texto escrito em francs. O outromdico interveio na conversa etentou atrair-lhe a ateno, mas foiintil. Era uma autntica alucinao negativa do tipo que, desdeento, vem sendo produzida com freqncia em carter experimental.No fim, ele conseguiu romper a alucinao ao soprar fumaa no rostoda paciente. De sbito, ela viu diante de si um estranho, precipitou-separa a porta a fim de retirar a chave e caiu no cho, inconsciente.Seguiu-se um breve acesso de raiva e depois uma grave crise deangstia, que tive grande dificuldade em acalmar. Infelizmente, tive quesair de Viena naquela noite e, ao retornar, passados vrios dias,encontrei a paciente muito pior. Ela ficara sem qualquer alimentaodurante todo aquele tempo, estava extremamente angustiada e, emsuas absences alucinatrias, via figuras aterradoras, caveiras eesqueletos. Dado que se comportava diante dessas coisas como se asestivesse vivenciando e em parte as traduzia em palavras, as pessoasem torno dela ficaram amplamente cientes do contedo dessasalucinaes.A ordem habitual das coisas era: o estado sonolento tarde, seguido,aps o pr-do-sol, pela hipnose profunda, para a qual ela inventou onome tcnico de clouds. Quando, durante a hipnose, ela conseguianarrar as alucinaes que tivera no decorrer do dia, despertava com amente desanuviada, calma e alegre. Sentava-se para trabalhar eescrever ou desenhar at altas horas da noite, de maneira bemracional. Por volta das quatro horas ia deitar-se. No dia seguinte, toda 41. a srie de fatos se repetia. Era um contraste realmente notvel:durante o dia, a paciente irresponsvel, perseguida por alucinaes, e noite a moa com a mente inteiramente lcida.Apesar de sua euforia noturna, seu estado psquico continuava a sedeteriorar. Surgiram fortes impulsos suicidas, que tornaramdesaconselhvel que ela permanecesse morando no terceiro andar.Contra sua vontade, portanto, foi transferida para uma casa de camponas imediaes de Viena (em 7 de junho de 1881). Eu nunca a haviaameaado com essa mudana de seu lar, que ela encarava comhorror, mas ela, sem o dizer, havia esperado e temido tal medida. Essefato deixou claro, mais uma vez, at que ponto o afeto de angstiadominava seu distrbio psquico. Assim como se havia instalado umestado de maior tranqilidade logo aps a morte do pai da paciente,tambm agora, quando o que ela temia de fato ocorreu, de novo elaficou mais calma. No obstante, a mudana foi imediatamente seguidapor trs dias e trs noites sem qualquer sono e sem alimento, pornumerosas tentativas de suicdio (embora, como Anna ficasse numjardim, tais tentativas no fossem perigosas), pela quebra de janelas eassim por diante, e poralucinaes no acompanhadas de absences que ela era capaz de distinguir facilmente de suas outras alucinaes.Depois disso, ficou mais calma, passou a deixar que a enfermeira aalimentasse e chegou at a tomar cloral noite.Antes de prosseguir em meu relato do caso, preciso voltar mais umavez para descrever uma de suas peculiaridades, que at agora smencionei de passagem. J disse que ao longo de toda a doena, atesse ponto, a paciente caa num estado de sonolncia todas as tardes,e que, aps o pr-do-sol, esse perodo passava para um sono maisprofundo clouds. (Parece plausvel atribuir essa seqncia regulardos acontecimentos apenas experincia dela enquanto cuidava dopai, o que teve de fazer por vrios meses. Durante as noites, ela velava cabeceira do paciente ou ficava acordada, escutando ansiosamenteat amanhecer; s tardes, deitava-se para um ligeiro repouso, como o costume habitual das enfermeiras. Esse padro de ficar acordada noite e dormir tarde parece ter sido transposto para sua prpriadoena e persistido muito depois de o sono ter sido substitudo por umestado hipntico.) Aps cerca de uma hora de sono profundo, elaficava irrequieta, virava de um lado para outro e repetia atormentando,atormentando, com os olhos fechados o tempo todo. Tambm seobservou como, durante suas absences diuturnas, ela obviamentecriava alguma situao ou episdio para o qual dava uma pistamurmurando algumas palavras. Acontecia ento de incio por acaso,mas depois a propsito que algum perto dela repetia uma dessas 42. suas frases enquanto ela se queixava do atormentando. Elaimediatamente fazia coro e comeava a retratar alguma situao ou anarrar alguma histria, a princpio com hesitao e no seu jargoparafsico; mas, quanto mais se estendia, mais fluente se tornava, atque por fim falava um alemo bem fluente. (Isso se aplica ao perodoinicial, antes que comeasse a falar somente em ingls |ver em [1]|.)As histrias eram sempre tristes, e algumas delas, encantadoras, noestilo do lbum de Figuras sem Figuras, de Hans Andersen, e de fato provvel que se estruturassem sobre aquele modelo. Via de regra, seuponto de partida ou situao central era o de uma moa ansiosamentesentada cabeceira de um doente. Mas ela tambm construa suashistrias com outros temas bem diversos. Alguns momentos depoisde haver concludo a narrativa, ela despertava, obviamente acalmada,ou, como dizia, gehaeglich. Durante a noite, tornava a ficar irrequieta,e pela manh, aps algumas horas de sono, estava visivelmenteenvolvida emalgum outro grupo de representaes. Quando, porqualquer motivo, no podia narrar-me a histria durante a hipnose doanoitecer, no conseguia acalmar-se depois, e no dia seguinte tinhaque me contar duas histrias para que isso acontecesse.As caractersticas essenciais desse fenmeno o aumento e aintensificao de suas absences at sua auto-hipnose do anoitecer, oefeito dos produtos de sua imaginao como estmulos psquicos e oafrouxamento e a remoo de seu estado de estimulao quando osexpressava verbalmente em sua hipnose permaneceram constantesdurante todos os dezoito meses em que a paciente ficou emobservao.As histrias naturalmente se tornaram ainda mais trgicas aps amorte do pai. Contudo, foi s depois da deteriorao do estado mentalda paciente, o que se seguiu quando seu estado de sonambulismosofreu uma interrupo abrupta, da maneira j descrita, que suasnarrativas do anoitecer deixaram de ter o carter de composiespoticas, criadas de forma mais ou menos livre, e se transformaramnuma cadeia de alucinaes medonhas e apavorantes. (J erapossvel chegar a elas a partir do comportamento da paciente duranteo dia). J descrevi | [1]-[2]| como sua mente ficava inteiramente aliviadadepois que, trmula de medo e horror, havia reproduzido essasimagens assustadoras e dado expresso verbal a elas.Enquanto Anna ficou no campo, ocasio em que no pude fazer-lhe asvisitas dirias, a situao processou-se da seguinte maneira. Visitava-a tardinha, quando sabia que a encontraria em hipnose, e ento aaliviava de toda a carga de produtos imaginativos que ela haviaacumulado desde minha ltima visita. Era essencial que isso fosse 43. feito de forma completa se se quisesse alcanar bons resultados.Quando isso era levado a efeito, ela ficava perfeitamente calma e, nodia seguinte, mostrava-se agradvel, fcil de lidar, diligente e atmesmo alegre; no segundo dia, porm, tornava-se cada vez maismal-humorada, voluntariosa e desagradvel, o que se acentuava aindamais no terceiro dia. Quando ficava assim, nem sempre era fcilfaz-la falar, mesmo em seu estado hipntico. Ela descrevia de modoapropriado esse mtodo, falando a srio, como uma talking cure, aomesmo tempo em que se referia a ele, em tom de brincadeira, comochimney-sweeping. A paciente sabia que, depois que houvesse dadoexpresso a suas alucinaes, perderia toda a sua obstinao e aquiloque descrevia como sua energia; equando, aps um intervalorelativamente longo, ficava de mau humor, recusava-se a falar, sendoeu obrigado a superar sua falta de disposio encarecendo esuplicando, e at usando recursos como repetir uma frmula com aqual ela estava habituada a iniciar suas histrias. Mas ela jamaiscomeava a falar antes de haver confirmado plenamente minhaidentidade, apalpando-me as mos com cuidado. Nas noites em queno se acalmava pela enunciao verbal, era necessrio recorrernovamente ao cloral. Eu j o havia experimentado em algumasocasies anteriores, mas vi-me obrigado a aplicar-lhe 5 gramas, sendoo sono precedido por um estado de intoxicao que durava algumashoras. Quando me achava presente, esse estado era de euforia, masem minha ausncia era altamente desagradvel e caracterizado porangstia e excitao. (Pode-se observar, a propsito, que esse estadode intoxicao aguda no fazia nenhuma diferena quanto a suascontraturas.) Eu havia conseguido evitar o uso de narcticos, visto quea expresso verbal de suas alucinaes a tranqilizava, ainda que noinduzisse ao sono; entretanto, quando ela estava no campo, as noitesem que no conseguia alvio hipntico eram to insuportveis que,apesar de tudo, era necessrio recorrer ao cloral. Mas foi possvelreduzir a dose, de forma gradual.O sonambulismo persistente no reapareceu, mas, por outro lado, aalternncia entre os dois estados de conscincia perdurou. Elacostumava ter alucinaes no meio de uma conversa, sair correndo,subir numa rvore, etc. Quando algum a agarrava, com granderapidez retomava a frase interrompida, sem tomar nenhumconhecimento do que acontecera no intervalo. Todas essasalucinaes, contudo, sobrevinham e eram relatadas em sua hipnose.Seu estado, de modo geral, experimentou melhoras. Ela ingeriaalimentos sem dificuldades e permitia que a enfermeira a alimentassecom exceo do po, que pedia mas rejeitava no momento em que lhetocava os lbios. A paralisia espstica da perna teve uma diminuio 44. acentuada. Verificaram-se tambm melhoras em sua capacidade dejulgamento, e ela ficou muito apegada a um amigo meu, o Dr. B.,mdico que a visitava. Beneficiou-se muito da presena de um coterra-nova que lhe tinha sido presenteado e pelo qual tinha umaafeio apaixonada. Em certa ocasio, porm, seu animal deestimao atacou um gato, e foi extraordinrio ver a forma como afrgil moa tomou de um chicote na mo esquerda e afastou achicotadas o enorme animal para salvar sua vtima. Mais tarde, cuidoude algumas pessoas pobres e doentes, e isto a ajudou.Foi aps minha volta de uma viagem de frias, que durou vriassemanas, que tive a prova mais convincente do efeito patognico eexcitante ocasionado pelos complexos de representaes produzidosdurante suas absences, ou condition seconde, e do fato de que essescomplexos eram eliminados ao receberem expresso verbal durante ahipnose. Nesse intervalo no fora efetuada nenhuma cura pela fala,porque foi impossvel persuadi-la a confiar o que tinha a dizer aqualquer pessoa seno eu nem mesmo ao Dr. B., a quem, soboutros aspectos, ela se havia afeioado. Encontrei-a num estado moraldeplorvel, inerte, intratvel, mal-humorada e at mesmo malvola.Tornou-se claro por suas histrias noturnas que sua veia imaginativa epotica se estava esgotando. O que ela relatava dizia respeito, cadavez mais, a suas alucinaes e, por exemplo, s coisas que a haviamaborrecido nos ltimos dias. Estas eram revestidas de uma formaimaginativa, mas apenas formuladas em imagens estereotipadas, eno elaboradas em produes poticas. Mas a situao s ficoutolervel depois de eu haver providenciado o retorno da paciente aViena por uma semana e de, noite aps noite, fazer com que ela mecontasse trs a cinco histrias. Quando levei isso a termo, tudo o quese acumulara durante as semanas de minha ausncia foradescarregado. Foi s ento que se restabeleceu o ritmo anterior: no diaseguinte quele em que dava expresso verbal a suas fantasias, elaficava amvel e alegre; no segundo dia, mais irritadia e menosagradvel e, no terceiro, verdadeiramente detestvel. Seu estadomoral era uma funo do tempo decorrido desde a ltima expressooral. Isso ocorria porque cada um dos produtos espontneos de suaimaginao e todos os fatos que tinham sido assimilados pela partepatolgica de sua mente persistiam como um estmulo psquico atserem narrados em sua hipnose, aps o que deixavam inteiramente deatuar.Quando, no outono, a paciente retornou a Viena (embora para umacasa diferente daquela em que adoecera), sua condio erasuportvel, tanto fsica como mentalmente, pois pouqussimas de suasexperincias de fato, apenas as mais marcantes eram 45. transformadas em estmulos psquicos de maneira patolgica. Eu tinhaesperana de uma melhora contnua e progressiva, desde que opermanente carregamento de sua mente com novos estmulospudesse ser evitado atravs da expresso verbal dada a eles. Mas, deincio, fiquei decepcionado. Em dezembro houve um agravamentoacentuado de seu estado psquico. Ela voltou a ficar excitada, taciturnae irritvel. No tinha mais nenhum dia realmente bom, mesmoquando era impossvel detectar alguma coisa que estivessepermanecendo presa dentro dela. Em fins de dezembro, na poca doNatal, a paciente ficou particularmente inquieta e por uma semanainteira, nos fins de tarde, nada me disse de novo alm dos produtosimaginativos que havia elaborado dia a dia sob presso deumaangstia e emoo intensas durante o Natal de 1880 |um ano antes|.Quando as sries eram concludas, ela sentia um enorme alvio.J havia transcorrido um ano desde que Anna se separara do pai ecara de cama, e a partir dessa poca seu estado tornou-se mais claroe foi sistematizado de maneira muito peculiar. Seus estados deconscincia alternados, que se caracterizavam pelo fato de que, apartir da manh, suas absences (isto , o surgimento de sua conditionseconde) sempre se tornavam mais freqentes medida que o diaavanava e exerciam seu domnio absoluto at o anoitecer essesestados alternados tinham diferido um do outro, no passado, pelo fatode o primeiro ser normal, e o segundo, alienado; agora, porm, elesdiferiam ainda mais pelo fato de que, no primeiro, ela estava vivendo,como o restante de ns, no inverno de 1881-2, ao passo que, nosegundo, vivia no inverno de 1880-1 e se esquecera por completo detodos os eventos subseqentes. A nica coisa que, no obstante,parecia permanecer consciente a maior parte do tempo era o fato deque o pai morrera. Ela se via transportada ao ano anterior com talintensidade que, na casa nova, tinha alucinaes com seu antigoquarto, de modo que quando queria ir at a porta, tropeava na estufa,que ficava situada em relao janela do mesmo modo que a porta emseu antigo quarto. A transio de um estado para outro ocorria deforma espontnea, mas tambm podia ser facilmente promovida porqualquer impresso sensorial que lembrasse o ano anterior comnitidez. Bastava segurar uma laranja diante dos olhos dela (essa frutatinha constitudo seu principal alimento durante a primeira parte dadoena) para que ela se visse transportada para o ano de 1881. Masessa transferncia ao passado no ocorria de modo geral ouindefinido; ela revivia o inverno anterior dia a dia. Eu s teria podidosuspeitar de que isso estava acontecendo, no fosse pelo fato de quetodas as noites, durante a hipnose, ela falava sobre o que a haviaexcitado no mesmo dia em 1881, e no fosse pelo fato de um dirio 46. particular mantido pela me dela em 1881 ter confirmado, sem sombrade dvida, a ocorrncia dos fatos subjacentes. Essa revivescncia doano anterior continuou at que a doena chegasse a seu final, emjunho de 1882.Tambm foi interessante observar, nesse aspecto, a forma pela qualesses estmulos psquicos revividos, pertencentes a seu estadosecundrio, insinuavam-se em seu primeiro estado, mais normal.Aconteceu, por exemplo, que certa manh a paciente me disse rindoque no tinha nenhuma idia de qual era o problema, mas estava comraiva de mim. Graas ao dirio eu sabia o que estava ocorrendo, e ditoe feito, a situao foi revivida na hipnose do anoitecer; eu tinhaaborrecido muito a paciente na mesma noite, em 1881. Houve outraocasio em que ela me disse que havia algo errado com seus olhos:estava vendo as cores erradas. Sabia estar usando um vestidomarrom, mas o via como se fosse azul. Logo verificamos que ela sabiadistinguir todas as cores das folhas de teste visual de forma correta eclara, e que a perturbao s se relacionava com o material do vestido.O motivo foi que, durante o mesmo perodo em 1881, ela estiveramuito atarefada com a confeco de um roupo para o pai, que erafeito do mesmo material de seu atual vestido, porm era azul em vezde marrom. A propsito, constatava-se com freqncia que essaslembranas emergentes revelavam de antemo seu efeito; aperturbao do estado normal ocorria mais cedo, e a lembrana eradespertada de forma gradativa apenas em sua condition seconde.Sua hipnose da noite ficava assim intensamente sobrecarregada, poistnhamos que escoar pela fala no s seus produtos imaginrioscontemporneos, como tambm os eventos e vexations de 1881.(Felizmente, nessa poca eu j a havia aliviado dos produtosimaginrios daquele ano.) Mas, alm de tudo isso, o trabalho a serexecutado pela paciente e por seu mdico era imensamenteaumentado por um terceiro grupo de perturbaes isoladas, quetinham de ser eliminadas da mesma maneira. Tratava-se dos eventospsquicos em jogo no perodo de incubao da molstia, entre julho edezembro de 1880; eles que haviam produzido todos os fenmenoshistricos e, quando receberam expresso verbal, os sintomasdesapareceram.Quando isso aconteceu pela primeira vez quando, em decorrnciade um enunciado acidental e espontneo dessa natureza, durante ahipnose da noite, uma perturbao que havia persistido por um tempoconsidervel veio a desaparecer fiquei extremamente surpreso. Eravero, numa poca de calor intenso, e a paciente sofria de uma sedehorrvel, pois, sem que pudesse explicar a causa, viu-se de repenteimpossibilitada de beber. Apanhava o copo de gua desejado, mas, 47. assim que o tocava com os lbios, repelia-o como algum que sofressede hidrofobia. Ao faz-lo, ficava obviamente numa absence por algunssegundos. Para mitigar a sede que a martirizava, vivia somente defrutas, como meles, etc. Quando isso j durava perto de seissemanas, um dia, durante a hipnose, ela resmungou qualquer coisa arespeito de sua dama de companhia inglesa, de quem no gostava, ecomeou ento a descrever, com demonstraes da maiorrepugnncia, como fora certa vez ao quarto dessa senhora e como lpudera ver o cozinho dela criatura nojenta! bebendo num copo.A paciente no tinha dito nada, pois quisera ser gentil. Depois deexteriorizar energicamente a clera que havia contido,pediu para beberalguma coisa, bebeu sem qualquer dificuldade uma grande quantidadede gua e despertou da hipnose com o copo nos lbios. A partir da, aperturbao desapareceu de uma vez por todas. Vrios outroscaprichos extremamente obstinados foram eliminados de formasemelhante, depois de ela haver descrito as experincias que ostinham ocasionado. A paciente deu um grande passo frente quando oprimeiro de seus sintomas crnicos desapareceu da mesma maneira a contratura da perna direita, que, verdade, j havia diminudomuito. Esses achados de que, no caso dessa paciente, osfenmenos histricos desapareciam to logo o fato que os haviaprovocado era reproduzido em sua hipnose tornaram possvelchegar-se a uma tcnica teraputica que nada deixava a desejar emsua coerncia lgica e sua aplicao sistemtica. Cada sintomaindividual nesse caso complicado era considerado de forma isolada;todas as ocasies em que tinha surgido eram descritas na ordeminversa, comeando pela poca em que a paciente ficara acamada eretrocedendo at o fato que levara sua primeira apario. Quandoeste era descrito, o sintoma era eliminado de maneira permanente.Dessa forma, suas paralisias espsticas e anestesias, os diferentesdistrbios da viso e da audio, as nevralgias, tosses, tremores, etc.,e por fim seus distrbios da fala foram removidos pela fala. Entresuas perturbaes da viso, os seguintes, por exemplo, forameliminados um de cada vez: o estrabismo convergente com diplopia; odesvio de ambos os olhos para a direita, de modo que quando a mose estendia para apanhar algo, sempre se dirigia para a esquerda doobjeto; a restrio do campo visual; a ambliopia central; a macropsia; aviso de uma caveira em vez do pai; e a incapacidade para a leitura.Apenas alguns fenmenos dispersos (como, por exemplo, a extensodas paralisias espsticas para o lado esquerdo do corpo), que surgiramenquanto ela estava confinada ao leito, permaneceram intocados poresse processo de anlise, sendo provvel, na realidade, que de fatono tivessem nenhuma causa psquica imediata | ver em [1]-[2]|. 48. Revelou-se inteiramente impraticvel abreviar o trabalho pela tentativade evocar de imediato em sua memria a primeira causa provocadorade seus sintomas. Ela era incapaz de descobri-la, ficava confusa e ascoisas se processavam ainda com maior lentido do que se lhe fossepermitido, de modo tranqilo e firme, retomar o fio retrospectivo dasrecordaes em que se havia envolvido. Dado que este ltimo mtodo,porm, levava muito tempo na hipnose noturna, em vista de ela estarmuito tensa e profundamente perturbada por eliminar pela fala osdois outros grupos de experincias e tambm em virtude do fato deque as reminiscncias precisavam de tempo antes para poderematingir uma nitidez suficiente elaboramos o seguinte mtodo. Eucostumava visit-la pela manh e hipnotiz-la. (Alguns mtodos muitosimples para isso foram obtidos de forma emprica.) A seguir, pedia-lheque concentrasse os pensamentos no sintoma que estvamos tratandono momento e me dissesse as ocasies em que ele surgira. A pacientepassava a descrever em rpida sucesso e em frases sucintas os fatosexternos em causa, os quais eu anotava. Durante sua subseqentehipnose noturna, ela ento me fazia, com a ajuda de minhasanotaes, um relato razoavelmente minucioso dessas circunstncias.Um exemplo revelar a forma completa pela qual ela realizava isso.Nossa experincia comum era que a paciente no ouvisse quando lheera dirigida a palavra. Foi possvel diferenciar da seguinte forma essehbito passageiro de no ouvir:(a) No ouvir quando algum entrava, enquanto se abstraa em seuspensamentos. 108 exemplos detalhados e isolados desses casos, commeno das pessoas e circunstncias, muitas vezes com datas.Primeiro exemplo: no ouvir o pai entrar.(b) No compreender quando vrias pessoas conversavam. 27exemplos. Primeiro exemplo: o pai, mais uma vez, e um conhecido.(c) No ouvir quando estava sozinha e lhe dirigiam a palavradiretamente. 50 exemplos. Origem: o pai tendo em vo lhe pedidovinho.(d) Surdez ocasionada por ter sido sacudida (numa carruagem, etc.).15 exemplos. Origem: por ter sido sacudida com raiva pelo irmo maisnovo quando este a surpreendeu, certa noite, com o ouvido colado aoquarto do doente.(e) Surdez provocada ao assustar-se com um rudo. 37 exemplos.Origem: um acesso de sufocao do pai, causado por ter engolido mal.(f) Surdez durante absence profunda. 12 exemplos.(g) Surdez ocasionada por ouvir mal durante muito tempo, de modoque, quando lhe dirigiam a palavra, deixava de ouvir. 54 exemplos. claro que todos esse episdios eram, numa ampla medida, idnticos,no sentido de que era possvel relacion-los com estados de 49. alheamento, absences ou susto. Mas, na memria da paciente, eramdiferenciados de modo to claro que, se acontecia ela cometer algumerro em sua seqncia, era obrigada a corrigir-se e p-los na ordemcerta; se isso no fosse feito, seu relato ficava paralisado. Os fatos queela descrevia eram to sem interesse e significao, e narrados comtanta riqueza de detalhes, que no se poderia suspeitar de quetivessem sido inventados. Muitos desses incidentes consistiam emexperincias puramente internas e, assim, no podiam ser verificados;outros (ou as circunstncias que os cercavam) estavam na lembranadas pessoas do ambiente de Anna.Tambm esse exemplo apresentava uma caracterstica que erasempre observvel quando um sintoma estava sendo eliminado pelafala: o sintoma especfico surgia com maior intensidade enquanto elao abordava. Assim, durante a anlise de sua incapacidade de ouvir, elaficou to surda que numa parte do tempo fui obrigado a comunicar-mecom ela por escrito. A primeira causa provocadora costumava ser umsusto de alguma espcie, experimentado enquanto ela cuidava do pai alguma negligncia da parte dela, por exemplo.O trabalho de recordao nem sempre era fcil e, algumas vezes, apaciente tinha que fazer grandes esforos. Certa ocasio, todo o nossoprogresso ficou obstrudo por algum tempo porque uma lembranarecusava-se a emergir. Tratava-se de uma alucinao particularmentepavorosa. Quando cuidava do pai, vira seu rosto como se fosse umacaveira. Ela e as pessoas a seu redor lembravam que, certa vez,enquanto parecia ainda gozar de boa sade, ela fizera uma visita a umde seus parentes. Abrira a porta e imediatamente cara no cho,inconsciente. Para superar a obstruo a nosso progresso, ela tornou avisitar o mesmo lugar e, ao entrar no quarto, mais uma vez caiu nocho, inconsciente. Durante a hipnose noturna seguinte, o obstculo foisuperado. Ao entrar no quarto, ela vira seu rosto plido refletido numespelho que pendia defronte porta, mas no fora a si mesma quetinha visto, e sim o pai com um rosto de caveira. Muitas vezesobservamos que seu pavor de uma lembrana, como no presenteexemplo, inibia o surgimento da mesma, e esta precisava serprovocada fora pela paciente ou pelo mdico.O seguinte incidente, entre outros, ilustra o alto grau de coerncialgica de seus estados. Durante esse perodo, como j se teve ocasiode explicar, a paciente estava sempre em sua condition seconde isto , no ano de 1881 noite. Certa ocasio, despertou durante anoite, declarando ter sido levada para longe de casa mais uma vez, eficou de tal forma excitada que todas as pessoas da casa sealarmaram. A razo foi simples. Na noite anterior, a cura pela falahavia dissipado o distrbio da viso, e isso tambm se aplicava a sua 50. condition seconde. Assim, ao acordar durante a noite, ela se viu numquarto estranho, pois a famlia se mudara na primavera de 1881.Acontecimentos desagradveis dessa espcie eram evitados por mimpelo fato de (a pedido da paciente) eu sempre fechar seus olhos noite e dar-lhe a sugesto de que ela no poderia abri-los at que euprprio o fizesse na manh seguinte. Essa perturbao s se repetiuuma vez, quando a paciente gritou num sonho e abriu os olhos aodespertar dele.Visto que essa trabalhosa anlise de seus sintomas versou sobre osmeses do vero de 1880, o perodo preparatrio de sua doena,consegui uma compreenso completa da incubao e patognesedesse caso de histeria, que agora passarei a descrever de formasucinta.Em julho de 1880, quando se encontrava no campo, o pai de Annaadoeceu gravemente em decorrncia de um abscesso subpleural. Eladividia com a me as tarefas de cuidar do enfermo. Certa vez, acordoude madrugada, muito ansiosa pelo doente, que estava com febre alta;e ela estava sob a tenso de aguardar a chegada de um cirurgio deViena que iria oper-lo. Sua me se ausentara por algum tempo, eAnna, sentada cabeceira do doente, ps o brao direito sobre oespaldar da cadeira. Entrou num estado de devaneio e viu, como seviesse da parede, uma cobra negra que se aproximava do enfermopara mord-lo. ( muito provvel que, no terreno situado atrs da casa,algumas cobras tivessem de fato aparecido anteriormente, assustandoa moa e fornecendo agora o material para a alucinao.) Ela tentoumanter a cobra a distncia, mas estava como que paralisada. O braodireito, que pendia sobre o espaldar da cadeira, ficara dormente,insensvel e partico; e quando ela o contemplou seus dedos setransformaram em cobrinhas cujas cabeas eram caveiras (as unhas).( provvel que ela tenha tentado afugentar a cobra com o braodireito paralisado e por isso a anestesia e a paralisia do brao seassociaram com a alucinao da cobra.) Quando a cobra desapareceu,Anna, aterrorizada, tentou rezar. Mas no achou palavras em idiomaalgum, at que, lembrando-se de um poema infantil em ingls, pdepensar e rezar nessa lngua. O apito do trem que trazia o mdico porela esperado desfez o encanto.No dia seguinte, durante um jogo, Anna atirou uma argola em algunsarbustos e, quando foi busc-la, um galho recurvado fez com que elarevivesse a alucinao da cobra, e ao mesmo tempo seu brao direitoficou distendido com rigidez. A partir de ento, ocorria invariavelmentea mesma coisa sempre que a alucinao era recordada por algumobjeto com aparncia mais ou menos semelhante de uma cobra.Essa alucinao, contudo, bem como a contratura, s apareciam 51. durante as curtas absences, que se tornaram cada vez maisfreqentes a partir daquela noite. (A contratura s veio a se estabilizarem dezembro, quando a paciente ficou inteiramente prostrada eacamada de forma permanente.) Como resultado de algum fatoparticular cujo registro no consigo encontrar em minhas anotaes edo qual no me recordo mais, a contratura da perna direita foiacrescida do brao direito.Sua tendncia s absences auto-hipnticas fixou-se a partir daquelemomento. Na manh seguinte noite que descrevi, enquanto esperavaa chegada do cirurgio, Anna caiu num tal estado de alheamento queele por fim chegou ao quarto sem que ela o ouvisse aproximar-se. Suaangstia persistente interferia com a ingesto de alimentos e conduziuaos poucos a intensas sensaes de nusea. Afora isso, a rigor, cadaum de seus sintomas histricos surgiu sob a ao de um afeto. No bem certo se em cada um dos casos houve um estado momentneo deabsence, mas isso parece provvel em vista do fato de que, em seuestado de viglia, a paciente ficava totalmente alheia ao que haviaacontecido.Alguns de seus sintomas, contudo, parecem no haver surgido emsuas absences, mas apenas quando de algum afeto durante sua vidade viglia; se foi esse o caso, porm, eles reapareciam da mesmaforma. Assim pudemos rastrear todas as suas diversas perturbaesda viso at diferentes causas determinantes mais ou menos claras.Por exemplo, certa ocasio, quando, com lgrimas nos olhos, seachava sentada cabeceira do pai, ele de repente lhe perguntou quehoras eram. Ela no conseguia enxergar com nitidez; fez um grandeesforo e aproximou o relgio dos olhos. O mostrador pareceu-lheento muito grande, explicando assim sua macropsia e seu estrabismoconvergente. Ou ento ela se esforou para reprimir as lgrimas paraque o doente no as visse.Uma discusso, durante a qual Anna reprimiu uma resposta altura,provocou um espasmo de glote, e isso se repetia em todas as ocasiessemelhantes.Perdeu a capacidade de falar (a) como resultado do medo, depois desua primeira alucinao noite, (b) aps haver reprimido umaobservao noutra ocasio (por inibio ativa), (c) depois de ter sidoinjustamente culpada de algo e (d) em todas as ocasies anlogas(quando se sentia mortificada). Comeou a tossir pela primeira vezquando, certa feita, sentada cabeceira do pai, ouviu o som de msicapara danar que vinha de uma casa vizinha sentiu um sbito desejo deestar l e foi dominada por auto-recriminaes. Apartir de ento,durante toda a sua doena, reagia a qualquer msica acentuadamenteritmada com uma tussis nervosa. 52. No lamento muito que o fato de minhas anotaes serem incompletastorne impossvel para mim enumerar todas as ocasies em que seusvrios sintomas histricos apareciam. Ela prpria os relatava a mim emcada caso isolado, com uma nica exceo por mim mencionada |em[1] e tambm mais adiante, em [1]-[2]|; e, como j disse, todos ossintomas desapareciam depois de ela descrever sua primeiraocorrncia.Tambm dessa maneira toda a doena desapareceu. A prpriapaciente formara o firme propsito de que todo o tratamento deveriaterminar no dia em que fizesse um ano da data em que foi levada parao campo |7 de junho (ver em [1])|. Por conseguinte, no comeo dejunho, ela iniciou a cura pela fala com a maior energia. No ltimo dia recorrendo, como ajuda, a uma nova arrumao do quarto, a fim deassemelh-lo ao quarto de doente do pai ela reproduziu aaterrorizante alucinao j descrita acima e que constitui a raiz de todaa sua doena. Durante a cena original, Anna s havia conseguidopensar e rezar em ingls; mas, logo aps sua reproduo, pde falaralemo. Alm disso, libertou-se das inmeras perturbaes que exibiraantes. Depois, saiu de Viena e viajou por algum tempo, mas passou-seum perodo considervel antes que recuperasse inteiramente seuequilbrio mental. Desde ento tem gozado de perfeita sade.Embora eu tenha suprimido um grande nmero de detalhes beminteressantes, este caso clnico de Anna O. tornou-se mais volumosodo que pareceria necessrio para uma doena histrica que, em simesma, no foi de carter inusitado. Entretanto, foi impossveldescrever o caso sem entrar em pormenores, e suas caractersticasme parecem suficientemente importantes para justificar esta exposioextensa. Da mesma maneira, os ovos dos equinodermos soimportantes na embriologia, no porque o ourio-do-mar seja umanimal interessante, mas porque o protoplasma de seus ovos transparente e porque o que neles observamos lana luz, desse modo,sobre o provvel curso dos acontecimentos nos ovos cujo protoplasma opaco. O interesse do presente caso me parece residir, acima detudo, na extrema clareza e inteligibilidade de sua patognese.Havia nessa moa, enquanto ainda gozava de perfeita sade, duascaractersticas psquicas que atuaram como causas de predisposiopara sua subseqente doena histrica:(1)Sua vida familiar montona e a ausncia de ocupao intelectualadequada deixavam-na com um excedente no utilizado de vivacidadee energia mentais, tendo esse excedente encontrado uma sada naatividade constante de sua imaginao.(2)Isso a levou ao hbito dos devaneios (seu teatro particular), quelanou as bases para uma dissociao de sua personalidade mental. 53. No obstante, uma dissociao desse grau ainda se acha nos limitesda normalidade. Os devaneios e as reflexes durante ocupaes maisou menos mecnicas no implicam, em si mesmos, uma divisopatolgica da conscincia visto que, ao serem interrompidos quando, por exemplo, algum dirige a palavra pessoa a unidadenormal da conscincia restaurada; no implicam tampouco aexistncia de amnsia. No caso de Anna O., porm, esse hbitopreparou o terreno em que o afeto de angstia e pavor pdeestabelecer-se na forma que descrevi, to logo esse afeto transformouos devaneios habituais da paciente numa absence alucinatria. notvel que a primeira manifestao da doena em seus primrdios jexibisse de modo to completo suas principais caractersticas, quedepois permaneceram inalteradas por quase dois anos. Estascompreendiam a existncia de um segundo estado de conscincia, quesurgiu primeiro como uma absence temporria e depois se organizousob a forma de uma double conscience; uma inibio da fala,determinada pelo afeto de angstia, que encontrou uma descargafortuita nos versos em lngua inglesa; posteriormente, a parafasia e aperda da lngua materna, que foi substituda por um ingls excelente;e, por fim, a paralisia acidental do brao direito, em virtude da presso,que depois evoluiu para uma paresia espstica e anestesia do ladodireito. O mecanismo pelo qual esta segunda afeco veio a existirmostrou-se em inteira consonncia com a teoria da histeria traumticade Charcot um ligeiro trauma ocorrido durante um estado dehipnose.Mas, enquanto a paralisia experimentalmente provocada por Charcotem seus pacientes se estabilizava de imediato, e enquanto a paralisiacausada em vtimas de neuroses traumticas devidas a grave choquetraumtico logo se estabelece, o sistema nervoso dessa moaofereceu uma resistncia bem-sucedida durante quatro meses. Suacontratura, bem como as outras perturbaes que se acompanharam,s se estabeleceu durante as curtas absences e em sua conditionseconde, deixando-a, durante seu estado normal, com pleno controledo corpo, e em posse de seus sentidos, de modo que nada foiobservado nem por ela prpria nem por aqueles que a cercavam, sebem que a ateno deles estivesse enfocada no pai enfermo dapaciente e, por conseguinte, desviada dela.Entretanto, uma vez que suas absences, com sua amnsia total, efenmenos histricos concomitantes, tornaram-se cada vez maisfreqentes a partir da poca de sua primeira auto-hipnose alucinatria,as oportunidades se multiplicaram para a formao de novos sintomasda mesma espcie, e os que j se haviam formado tornaram-se mais 54. fortemente entrincheirados pela freqente repetio. Alm disso,qualquer afeto angustiante sbito passou gradativamente a ter omesmo resultado de uma absence (embora, a rigor, seja possvel queesses afetos causassem de fato uma absence temporria em todos oscasos); algumas coincidncias fortuitas formaram associaespatolgicas e perturbaes sensoriais ou motoras, que da por diantepassaram a surgir junto com o afeto. Mas at ento isso s haviaocorrido durante momentos passageiros. Antes de ficarpermanentemente acamada, a paciente j havia desenvolvido todo oconjunto de fenmenos histricos, sem que ningum o soubesse. Sdepois de ela ter entrado em colapso completo, graas aoesgotamento acarretado pela falta de alimentos, insnia e angstiaconstante, e s depois de ter comeado a passar mais tempo em suacondition seconde do que em seu estado normal, foi que os fenmenoshistricos se estenderam a este ltimo e passaram da condio desintomas agudos intermitentes de sintomas crnicos.Surge agora a questo de determinar at que ponto se pode confiarnas declaraes da paciente e de saber se as ocasies e o modo deorigem dos fenmenos foram realmente tais como ela os representou.Quanto aos fatos mais importantes e fundamentais, o grau deconfiabilidade de seu relato me parece estar fora de dvida. Quanto aofato de os sintomas desaparecerem depois de verbalizados, noposso empregar isso como prova; bem possvel que isso se expliquepela sugesto. Mas sempre achei que a paciente era inteiramente fiel verdade e digna de toda confiana. As coisas que me relatou estavamintimamente vinculadas com o que lhe era mais sagrado. O que querque pudesse ser verificado atravs de outras pessoas era plenamenteconfirmado. At mesmo a moa mais bem-dotada seria incapaz deengendrar uma trama de dados com tal grau de coerncia internacomo o exibido na histria deste caso. No se pode duvidar, contudo,de que precisamente sua coerncia talvez a tenha levado (em absolutaboa-f) a atribuir a alguns dos seus sintomas uma causadesencadeadora que na verdade no possuam. Mas tambm a essasuspeita considero injustificada. A prpria insignificncia de tantasdessas causas e o carter irracional de tantas das conexesenvolvidas depem a favor de sua realidade. A paciente no conseguiaentender como que a msica para danar a fazia tossir; umaconstruo dessa natureza por demais destituda de sentido para tersido deliberada. (Pareceu-me muito provvel, alis, que cada um deseus dramas de conscincia acarretasse um de seus habituaisespasmos da glote e que os impulsos motores que sentia pois elagostava muito de danar transformassem o espasmo numa tussisnervosa.) Por conseguinte, em minha opinio, as declaraes da 55. paciente mereciam toda a confiana e correspondiam aos fatos.E agora devemos considerar at que ponto justificvel supor que ahisteria se produza de maneira anloga em outros pacientes e que oprocesso seja semelhante quando nenhuma condition seconde toclaramente distinta tenha-se organizado. Para sustentar esse ponto devista, posso assinalar o fato de que, tambm no presente caso, ahistria da evoluo da doena teria permanecido inteiramentedesconhecida, tanto da paciente quanto do mdico, se no fosse apeculiaridade de a paciente se recordar de coisas na hipnose, comodescrevi, e de conseguir relacion-las. Enquanto estava em seu estadode viglia, ela no tinha nenhum conhecimento de tudo isso. Portanto, impossvel, nos outros casos, chegar-se ao que est acontecendoatravs de um exame dos pacientes em estado de viglia, pois, com amelhor boa vontade do mundo, eles no podem dar informao algumaa ningum. E j ressaltei como as pessoas que cercavam a pacienteeram pouco capazes de observar aquilo que estava acontecendo. Porconseguinte, s seria possvel descobrir o estado de coisas em outrospacientes por meio de um mtodo semelhante ao que foiproporcionado, no caso de Anna O., por suas auto-hipnoses. Porenquanto, podemos apenas externar o ponto de vista de queseqncias de fatos semelhantes aos aqui descritos ocorrem commaior freqncia do que nos levou a supor nossa ignorncia domecanismo patognico em causa.Quando a paciente ficou de cama e sua conscincia passou a oscilarde forma constante entre o estado normal e o secundrio, toda asrie de sintomas histricos, que haviam surgido isoladamente e atento se achavam latentes, tornou-se manifesta, como j vimos, comosintomas crnicos. Acrescentou-se ento a estes um novo grupo defenmenos que pareciam ter tido uma origem diferente: as paralisiasespsticas das extremidades esquerdas e a paresia dos msculoselevadores da cabea. Eu os distingo dos outros fenmenos porque,uma vez que tivessem desaparecido, nunca mais retornavam, mesmona forma mais breve ou branda, ou durante a fase conclusiva e derecuperao, quando todos os outros sintomas se tornaram de novoativos aps terem ficado inativos por algum tempo. Da mesma forma,jamais vieram tona nas anlises hipnticas e no foram rastreadosat as fontes emocionais ou imaginativas. Inclino-me a pensar,portanto, que seu surgimento no se deveu ao mesmo processopsquico dos outros sintomas, mas que cabe atribu-lo a uma extensosecundria daquela condio desconhecida que constitui o fundamentosomtico dos fenmenos histricos.Durante toda a doena seus dois estados de conscincia persistiramlado a lado: o primrio, em que ela era bastante normal psiquicamente, 56. e o secundrio, que bem pode ser assemelhado a um sonho, em vistade sua abundncia de produes imaginrias e alucinaes, suasgrandes lacunas de memria e a falta de inibio e controle em suasassociaes. Nesse estado secundrio, a paciente ficava numasituao de alienao. O fato de que toda a condio mental dapaciente estava na dependncia da intruso desse estado secundriono normal parece lanar uma considervel luz sobre pelo menos umtipo de psicose histrica. Cada uma de suas hipnoses noite ofereciaprovas de que a paciente estava inteiramente lcida e bem ordenadaem sua mente e normal no tocante a seus sentimentos e a sua volio,desde que nenhum dos produtos de seu estado secundrio atuassecomo um estmulo no inconsciente. A psicose extremamenteacentuada que surgia sempre que havia um intervalo considervelnesse processo de desabafo revelou o grau em que esses produtosinfluenciavam os fatos psquicos de seu estadolatentes, tornou-semanifesta, como j vimos, como sintomas crnicos. Acrescentou-seento a estes um novo grupo de fenmenos que pareciam ter tido umaorigem diferente: as paralisias espsticas das extremidades esquerdase a paresia dos msculos elevadores da cabea. Eu os distingo dosoutros fenmenos porque, uma vez que tivessem desaparecido, nuncamais retornavam, mesmo na forma mais breve ou branda, ou durante afase conclusiva e de recuperao, quando todos os outros sintomas setornaram de novo ativos aps terem ficado inativos por algum tempo.Da mesma forma, jamais vieram tona nas anlises hipnticas e noforam rastreados at as fontes emocionais ou imaginativas. Inclino-mea pensar, portanto, que seu surgimento no se deveu ao mesmoprocesso psquico dos outros sintomas, mas que cabe atribu-lo a umaextenso secundria daquela condio desconhecida que constitui ofundamento somtico dos fenmenos histricos.Durante toda a doena seus dois estados de conscincia persistiramlado a lado: o primrio, em que ela era bastante normal psiquicamente,e o secundrio, que bem pode ser assemelhado a um sonho, em vistade sua abundncia de produes imaginrias e alucinaes, suasgrandes lacunas de memria e a falta de inibio e controle em suasassociaes. Nesse estado secundrio, a paciente ficava numasituao de alienao. O fato de que toda a condio mental dapaciente estava na dependncia da intruso desse estado secundriono normal parece lanar uma considervel luz sobre pelo menos umtipo de psicose histrica. Cada uma de suas hipnoses noite ofereciaprovas de que a paciente estava inteiramente lcida e bem ordenadaem sua mente e normal no tocante a seus sentimentos e a sua volio,desde que nenhum dos produtos de seu estado secundrio atuassecomo um estmulo no inconsciente. A psicose extremamente 57. acentuada que surgia sempre que havia um intervalo considervelnesse processo de desabafo revelou o grau em que esses produtosinfluenciavam os fatos psquicos de seu estado normal. difcil evitarexpressar a situao afirmando que a paciente estava dividida em duaspersonalidades, das quais uma era mentalmente normal, e a outra,insana. Em minha opinio, a ntida diviso entre os dois estados nessapaciente s vem revelar com maior clareza aquilo que ocasionou umgrande nmero de problemas inexplicados em muitos outros pacienteshistricos. Foi especialmente observvel, em Anna O., o grau em queos produtos de seu mau eu, conforme ela prpria o denominava,afetavam seu senso tico mental. Se esses produtos no tivessem sidocontinuamente eliminados, ter-nos-amos confrontado com umahistrica do tipo malvolo teimosa, indolente, desagradvel erabugenta; mas o que se passava era que, aps a remoo dessesestmulos, seu verdadeiro carter, que era o oposto de tudo isso,sempre ressurgia de imediato.No obstante, embora seus dois estados fossem assim nitidamenteseparados, no s o estado secundrio invadia o primeiro, comotambm e isso se dava com freqncia em todas as ocasies,mesmo quando ela se encontrava numa condio muito ruim umobservador lcido e calmo ficava sentado, conforme ela dizia, numcanto de seu crebro, contemplando toda aquela loucura a seu redor.Essa persistncia do pensamento claro enquanto a psicose estava empleno processo encontrava expresso numa forma muito curiosa.Numa ocasio em que, depois de terem cessado os fenmenoshistricos, a paciente estava atravessando uma depresso temporria,ela apresentou grande nmero de temores e auto-recriminaesinfantis, entre eles a idia de que de modo algum estivera doente etudo aquilo fora simulado. Observaes semelhantes, como sabemos,tm sido feitas com freqncia. Depois que um distrbio dessanatureza desapareceu e os dois estados de conscincia voltaram a sefundir num s, os pacientes, lanando um olhar retrospectivo para opassado, se vem como a personalidade nica e indivisa que se davaconta de todo aquele absurdo; acham que poderiam t-lo impedido seassim tivessem desejado e se sentem como se tivessem praticadotodo o mal de forma deliberada. Deve-se acrescentar que esseraciocnio normal que persistia durante o estado secundrio deve tervariado enormemente de intensidade e, muitas vezes, at deve terestado ausente de todo.J descrevi o surpreendente fato de que, do comeo ao fim da doena,todos os estmulos decorrentes do estado secundrio, junto com suasconseqncias, eram eliminados de maneira permanente aoreceberem expresso verbal na hipnose, e resta-me apenas 58. acrescentar a certeza de que isso no foi uma inveno minha imposta paciente por sugesto. Fui apanhado inteiramente de surpresa, e sdepois de todos os sintomas serem assim eliminados em toda umasrie de situaes que desenvolvi uma tcnica teraputica a partirdessa experincia.A cura final da histeria merece mais algumas palavras. Ela foiacompanhada, como j tive oportunidade de dizer, por perturbaesconsiderveis e uma deteriorao do estado mental da paciente. Tiveimpresso muito forte de que os numerosos produtos do seu estadosecundrio que ficaram latentes foravam agora sua entrada naconscincia; e embora de incio fossem recordados apenas em seuestado secundrio, estavam ainda assim sobrecarregando eperturbando seu estado normal. Resta verificar se no deveramosprocurar a mesma origem nos outros casos em que a histeria crnicatermina numa psicose. 59. CASO 2 - SRA EMMY VON N., IDADE 40 ANOS, DA LIVNIA(FREUD)Em 1 de maio de 1889, comecei o tratamento de uma senhora decerca de quarenta anos, cujos sintomas e personalidade meinteressaram de tal forma que lhe dediquei grande parte de meu tempoe decidi fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para recuper-la.Era histrica e podia ser posta com a maior facilidade num estado desonambulismo; ao tomar cincia disso, resolvi fazer uso da tcnica deinvestigao sob hipnose, de Breuer, que eu viera a conhecer pelorelato que ele me fizera do bem-sucedido tratamento de sua primeirapaciente. Essa foi minha primeira tentativa de lidar com aquele mtodoteraputico | ver em [1] e [2]|. Estava ainda longe de t-lo dominado; defato, no fui bastante frente na anlise dos sintomas, nem o segui demaneira suficientemente sistemtica. Talvez possa apresentar melhorum quadro da condio da paciente e de minha conduta clnicareproduzindo as anotaes que fiz todas as noites durante as trsprimeiras semanas do tratamento. Onde quer que a experinciaposterior me haja proporcionado melhor compreenso, eu aincorporarei em notas de rodap e comentrios intercalados.1 de maio de 1889. Essa senhora, quando a vi pela primeira vez,estava deitava num sof com a cabea repousando numa almofada decouro. Parecia ainda jovem e as feies eram delicadas e marcantes.O rosto tinha uma expresso tensa e penosa, as plpebras estavamcerradas e os olhos, baixos; a testa apresentava profundas rugas e asdobras nasolabiais eram acentuadas. Falava em voz baixa, como setivesse dificuldade, e a fala ficava de tempos em tempos sujeita ainterrupes espsticas, a ponto de ela gaguejar. Conservava osdedos firmemente entrelaados, e eles exibiam uma agitaoincessante, parecida com a que ocorre na atetose. Haviafreqentesmovimentos convulsivos semelhantes a tiques, no rosto enos msculos do pescoo, durante os quais alguns destes,especialmente o esternoclidomastideo direito, se tornavam muitosalientes. Alm disso, ela interrompia com freqncia suasobservaes emitindo um curioso estalido com a boca, um somimpossvel de imitar.O que a paciente me dizia era perfeitamente coerente e revelava umgrau inusitado de instruo e inteligncia. Isso fazia com queparecesse ainda mais estranho que, a cada dois ou trs minutos, elade sbito se calasse, contorcesse o rosto numa expresso de horror enojo, estendesse a mo em minha direo, abrindo e entortando osdedos, e exclamasse numa voz alterada, carregada de angstia: Fique 60. quieto! No diga nada! No me toque! provvel que estivessesob a influncia de alguma alucinao recorrente de naturezaapavorante e que, com essa frmula, estivesse mantendo afastado omaterial intromissivo. Essas interpolaes chegavam ao fim to desbito quanto comeavam, e a paciente retomava seu relato anterior,sem dar continuidade a sua excitao momentnea e sem explicar oupedir desculpas por seu comportamento provavelmente, portanto,sem que ela prpria notasse a interpolao.Tomei conhecimento do seguinte sobre as circunstncias de sua vida:Sua famlia era originria da Alemanha Central, mas duas de suasgeraes haviam fixado residncia nas provncias blticas da Rssia,onde possua grandes propriedades. Ela era a dcima terceira dequatorze filhos. Apenas quatro dentre eles sobreviveram. A pacienterecebeu uma educao cuidadosa, mas sob a disciplina rgida de umame excessivamente enrgica e severa. Quando contava vinte e trsanos, casou-se com um homem muito bem-dotado e capaz, quealcanara uma posio elevada como grande industrial, mas que eramuito mais velho do que ela. Depois de um casamento de curtadurao, ele morreu de derrame cerebral. A esse fato, bem como tarefa de educar as duas filhas, ento com dezesseis e quatorze anos,muitasvezes enfermas e que sofriam de distrbios nervosos, elaatribua sua prpria doena. Desde a morte do marido, quatorze anosantes, vivera constantemente doente, com variados graus degravidade. H quatro anos, seu estado sofrera uma melhora temporriacom uma srie de massagens combinadas com banhos eltricos. Aforaisso, todos os seus esforos para melhorar de sade tm sidoinfrutferos. Ela viajou muito e tem um vivo interesse por muitas coisas.Atualmente, mora numa casa de campo num ponto do Bltico, perto deuma grande cidade. H vrios meses tem estado outra vez muitodoente, sofrendo de depresso e insnia e atormentada por dores; foiat Abbazia na v esperana de obter melhoras, e nas ltimas seissemanas est em Viena, at agora sob os cuidados de um mdico deexcelente reputao.Sugeri que ela se separasse das duas filhas, que tm governanta, e seinternasse numa casa de sade, onde eu poderia v-la todos os dias.Concordou com isso sem levantar a menor objeo.Na noite de 2 de maio visitei-a na casa de sade. Notei que seassustava muito sempre que a porta se abria de modo inesperado.Assim, providenciei para que, ao visit-la, as enfermeiras e os mdicosinternos batessem com fora na porta e s entrassem depois de eladizer que podiam faz-lo. Mesmo assim, ela ainda fazia trejeitos faciaise dava um pulo toda vez que algum entrava. 61. Sua principal queixa hoje foi sobre sensaes de frio e dor na pernaesquerda, que se originavam nas costas, acima da crista do ilaco.Ordenei que lhe dessem banhos quentes e lhe aplicarei massagenspor todo o corpo duas vezes ao dia.Ela uma excelente paciente para o hipnotismo. Bastou eu levantarum dedo diante dela e ordenar-lhe que dormisse para que sereclinasse com uma expresso atordoada e confusa. Sugeri que eladormiria bem, que todos os seus sintomas melhorariam, e assim pordiante. Ela ouviu tudo isso com os olhos fechados, mas sem dvidacom uma ateno inconfundivelmente concentrada, e suas feies aospoucos se relaxaram e assumiram uma aparncia pacfica. Depoisdessa primeira hipnose, conservou uma tnue lembrana de minhaspalavras, mas, j na segunda, houve completo sonambulismo (comamnsia). Tinha-a avisado de que pretendia hipnotiz-la, ao que elano opusera nenhuma dificuldade. Ela nunca fora hipnotizada antes,mas pode-se supor que j leu sobre o hipnotismo, embora eu nosaiba dizer quais so suas idias sobre o estado hipntico.Esse tratamento base de banhos quentes, massagens duas vezes aodia e sugesto hipntica prosseguiu por mais alguns dias. Ela dormiabem, melhorava a olhos vistos e passava a maior parte do diatranqilamente deitada. No lhe foi proibido ver as filhas, ler, ou cuidarda correspondncia.8 de maio, manh. Ela me entreteve, num estado que parecianormal, com histrias aterradoras sobre animais. Lera no FrankfurterZeitung, que estava na mesa em frente a ela, uma histria de como umaprendiz amarrara um menino e lhe pusera na boca um rato branco. Omenino morrera de susto. O Dr. K. lhe dissera ter mandado uma caixacheia de ratos brancos para Tiflis. Ao narrar-me isso, ela demonstravatodos os sinais de horror. Torcia e retorcia as mos vrias vezes.Fique quieto! No diga nada! No me toque! Imagine s sehouvesse uma criatura dessas na cama! (Estremeceu.) Pense s,quando for aberta! H um rato morto entre eles um que foi ro-o--do!Durante a hipnose tentei eliminar essas alucinaes com animais.Enquanto ela dormia, apanhei o Frankfurter Zeitung. Achei a histria domenino que fora maltratado, mas sem nenhuma referncia acamundongos ou ratos. Logo, ela os havia introduzido a partir de seudelrio enquanto lia. ( noite, falei-lhe de nossa conversa sobre osratos brancos. Ela no sabia de nada daquilo, ficou muito surpresa edeu boas risadas.) tarde teve o que chamou de uma cibra no pescoo, que noentanto, como disse, s durou pouco tempo umas poucas horas. 62. Noite. Pedi-lhe que, sob hipnose, falasse, o que, depois de certoesforo, ela conseguiu fazer. Falava baixo e refletia por um momento,cada vez, antes de responder. Sua expresso se alterava de acordocom o tema de suas observaes e se acalmava to logo minhasugesto punha termo impresso nela causada pelo que dizia.Perguntei-lhe por que se assustava com tanta facilidade e elarespondeu: Est relacionado com as lembranas de minha meninice.Quando? Primeiro, quando eu tinha cinco anos e meus irmos eirms costumavam atirar animais mortos em mim. Foi a que tive meuprimeiro desmaio e espasmos. Mas minha tia disse que aquilo era umavergonha e que eu no devia ter daqueles ataques, de modo que elespararam. Depois me assustei de novo quando tinha sete anos, einesperadamente, vi minha irm no caixo; e outra vez quando contavaoito anos e meu irmo me aterrorizou uma poro de vezes,enrolando-se em lenis como um fantasma; e tambm quando tinhanove anos e vi minha tia no caixo e de repente o queixo dela caiu. claro que essa srie de causas desencadeadoras traumticas queela citou em resposta a minha pergunta sobre a razo de ser topropensa a se assustar j estava pronta em sua memria. Ela nopoderia ter reunido to depressa esses episdios de diferentesperodos de sua infncia no curto intervalo transcorrido entre minhapergunta e sua resposta. No fim de cada uma das histrias ela secrispava toda e assumia uma expresso de medo e horror. Ao final daltima, escancarou a boca e ficou ofegante. As palavras com quedescreveu o tema pavoroso de sua experincia foram pronunciadascom dificuldade e entremeadas de estertores. Depois, suas feies setranqilizaram.Em resposta a uma pergunta, disse-me que enquanto descrevia essascenas via-as diante de si, numa forma plstica e em suas coresnaturais. Contou que, em geral, pensava nessas experincias commuita freqncia e o fizera nos ltimos dias. Sempre que issoacontecia, via essas cenas com toda a nitidez da realidade.Compreendo agora por que tantas vezes ela me entretm com cenasde animais e quadros de cadveres. Minha terapia consiste emeliminar esses quadros, de modo que ela no possa mais v-los diantede si. Para reforar minha sugesto, passei suavemente a mo porseus olhos vrias vezes.9 de maio, |manh.| Sem que lhe tivesse dado nenhumaoutrasugesto, ela dormiu bem. Mas sentiu dores gstricas pelamanh. Estas surgiram ontem, no jardim, onde ela permaneceu muitotempo com as filhas. Concordou em que eu limitasse as visitas dasmoas a duas horas e meia. Alguns dias atrs recriminara a si prpria 63. por deixar as filhas sozinhas. Encontrei-a um tanto agitada hoje; a testaestava enrugada, a fala era hesitante e ela produzia aqueles estalidoscaractersticos. Enquanto era massageada, disse-me apenas que agovernanta das filhas lhe levara um atlas etnolgico e que algumasfotografias de ndios norte-americanos vestidos como animais lheproduziram um grande choque. Pense s se eles ganhassem vida!(Estremeceu.)Sob hipnose perguntei-lhe por que se assustara tanto com essasfotografias, visto j no ter mais medo de animais. Respondeu que atinham feito recordar as vises que tivera (aos dezenove anos) napoca da morte do irmo. (Deixarei para depois as indagaes sobreessa lembrana.) A seguir, perguntei-lhe se sempre gaguejara e hquanto tempo tinha o tique (o estalido peculiar): A gagueira, disse,surgira quando estava doente; tinha o tique h cinco anos, desde otempo em que estivera sentada cabeceira da filha mais nova, quandoesta esteve muito doente, e desejara ficar absolutamente quieta. Tenteireduzir a importncia dessa lembrana, ressaltando que, afinal decontas, nada acontecera filha, e assim por diante. A coisa surgia,disse-me ela, sempre que ficava apreensiva ou assustada. Dei-lheinstrues para que no se assustasse com os retratos dospeles-vermelhas, mas que risse vontade deles e at chamasse paraeles minha ateno. E isso de fato aconteceu depois de ela despertar:olhou para o livro, perguntou-me se o tinha visto, abriu-o na pgina eriu alto das figuras grotescas, sem o menor indcio de medo e sem quesuas feies denotassem a menor tenso. O Dr. Breuer entrousubitamente com o mdico interno para visit-la. Ela se assustou ecomeou a produzir o estalido caracterstico, de modo que eles logo seretiraram. A paciente me explicou que ficara agitada daquela maneirapor ser desagradavelmente afetada pelo fato de o mdico internotambm entrar a todo instante.Eu tambm havia eliminado suas dores gstricas durante a hipnose,tocando-a levemente no abdome, e lhe disse que, embora elaesperasse pelo retorno da dor depois do almoo, isso no aconteceria.Noite. Pela primeira vez ela se mostrou alegre e falante e deumostras de um senso de humor que eu no teria esperado numamulher to sria; e entre outras coisas, com a acentuada sensao deestar melhor, zombou do tratamento feito por meu antecessor. De hmuito pretendia, segundo me disse, desistir daquele tratamento, masno conseguia encontrar o mtodo certo de faz-lo, at que umaobservao fortuita feita pelo Dr. Breuer, numa ocasio em que avisitou, indicou-lhe a soluo. Quando pareci surpreso com isso,assustou-se e comeou a recriminar-se asperamente por ter sidoindiscreta. Ao que parece, porm, consegui reassegur-la. Ela no 64. tinha sentido as dores gstricas, embora as houvesse esperado.Sob hipnose pedi-lhe que me contasse outras experincias quetivessem dado margem a um medo duradouro. Ela forneceu umasegunda seqncia dessa espcie, que datava do final de suajuventude, com a mesma rapidez da primeira seqncia, e meassegurou mais uma vez que todas essas cenas surgiram diante delamuitas vezes, nitidamente e em cores. Uma delas era de como viu umaprima ser levada para um asilo de loucos (quando ela estava comquinze anos). Ela havia tentado pedir socorro, mas no conseguira eperdera a capacidade de falar at a noite do mesmo dia. Visto que elafalava em hospcios com muita freqncia em seu estado de viglia,interrompi-a e perguntei em que outras ocasies ela se preocuparacom a loucura. Ela me contou que sua prpria me tinha passadoalgum tempo num hospcio. Em certa poca, tiveram uma empregadacuja antiga patroa estivera muito tempo internada numa dessasinstituies e que costumava contar-lhes histrias aterradoras de comoos pacientes eram amarrados a cadeiras, espancados, etc. Aonarrar-me isso, retorceu as mos, horrorizada; estava vendo tudodiante dos olhos. Esforcei-me por corrigir-lhe as idias sobre osmanicmios e lhe assegurei que ela conseguiria ouvir falar deinstituies dessa natureza sem referi-las a si mesma. Com isso, suasfeies se relaxaram.Prosseguiu com sua relao de lembranas aterradoras. Uma, aosquinze anos, de como encontrara a me, que tivera um derramecerebral, estendida no cho (a me viveu mais quatro anos); de novo,aos dezenove, de como chegou a casa certo dia e encontrou a memorta, com o rosto contorcido. Naturalmente, tive uma dificuldadeconsidervel em atenuar-lhe essas lembranas. Aps uma explicaobastante longa, assegurei-lhe que tambm esse quadro s lhe surgiriaoutra vez de forma indistinta e sem intensidade. Outra lembranaera a da maneira como, aos dezenove anos, ela levantou uma pedra eencontrou debaixo dela um sapo, o que a fez perder a fala durantehoras.Durante essa hipnose convenci-me de que ela sabia de tudo oqueacontecera na ltima hipnose, enquanto na vida de viglia no temnenhum conhecimento disso.10 de maio, manh. Pela primeira vez, deram-lhe hoje um banho defarelo, em vez de seu habitual banho morno. Achei-a com umaexpresso de aborrecimento e angstia, com as mos envoltas numxale. Queixava-se de frio e dores. Quando lhe perguntei o que sepassava, disse-me que o banho fora incomodamente curto e provocaradores. Durante a massagem, comeou por dizer que ainda se sentia 65. mal por ter atraioado o Dr. Breuer ontem. Acalmei-a com umapequena mentira e disse que eu j sabia daquilo o tempo todo, ao quesua agitao (estalidos, trejeitos faciais) cessou. Todas as vezes,portanto, mesmo enquanto a massageio, minha influncia j comea aafet-la; a paciente fica mais tranqila e mais lcida, e mesmo sem quehaja perguntas sob hipnose consegue descobrir a causa de seu mauhumor daquele dia. Tampouco sua conversa durante a massagem to sem objetivo como poderia parecer. Pelo contrrio, encerra umareproduo razoavelmente completa das lembranas e das novasimpresses que a afetaram desde nossa ltima conversa e, muitasvezes, de maneira bem inesperada, progride at as reminiscnciaspatognicas, que ela vai desabafando sem ser solicitada. como setivesse adotado meu mtodo e se valesse de nossa conversa,aparentemente sem constrangimento e guiada pelo acaso, como umcomplemento de sua hipnose. Por exemplo, hoje comeou a falarsobre sua famlia e, com muitos rodeios, passou ao assunto de umprimo. Este no era muito bom da cabea e os pais mandaramarrancar-lhe todos os dentes de uma s vez. Ela acompanhou ahistria com expresses de horror e ficou repetindo sua frmulaprotetora (Fique quieto! No diga nada! No me toque!). Depoisdisso, seu rosto se descontraiu e ela ficou alegre. Assim, seucomportamento na vida de viglia dirigido pelas experincias que tevedurante o sonambulismo, embora acredite, enquanto est acordada,nada saber a respeito delas.Sob hipnose repeti minha pergunta quanto quilo que a perturbara erecebi as mesmas respostas, mas na ordem inversa: (1) sua conversaindiscreta de ontem, e (2) suas dores provocadas por ter sentido muitodesconforto no banho. Perguntei-lhe hoje o significado de sua fraseFique quieto!, etc. Explicou que, quando tinha pensamentosassustadores, temia que eles fossem interrompidos em seu curso,porque ento tudo ficaria confuso e ascoisas ficariam ainda piores. OFique quieto! relacionava-se com o fato de que as formas animaisque lhe apareciam quando ela se achava em mau estado comeavama mover-se e a atac-la se algum fizesse um movimento em suapresena. A exortao final No me toque! provinha das seguintesexperincias: contou-me como, quando o irmo estivera muito doentepor ter ingerido muita morfina ela estava com dezenove anos naocasio costumava muitas vezes agarr-la, e como, de outra feita,um conhecido enlouquecera de sbito em sua casa e a tinha seguradopelo brao (houve um terceiro exemplo semelhante, do qual no serecordava com exatido); e por ltimo, como, quando tinha vinte e oitoanos e a filha estava muito doente, a criana se agarrara nela comtanta fora em seu delrio que ela quase fora sufocada. Embora esses 66. quatro exemplos fossem to separados no tempo, ela os relatou numanica frase e numa sucesso to rpida que poderiam ter constitudoum nico episdio em quatro atos. A propsito, todos os relatos queme fazia de traumas como esses, dispostos em grupos, comeavampor um como, sendo os traumas componentes separados por um e.Uma vez que percebi que a frmula protetora se destinava asalvaguard-la contra uma repetio dessas experincias, elimineiesse medo por meio da sugesto e, de fato, jamais a ouvi dizer afrmula de novo.Noite. Encontrei-a muito animada. Contou-me, sorridente, que seassustara com um cozinho que havia latido para ela no jardim. Seurosto, porm, estava um pouco contrado, e havia certa agitaointerna, que s desapareceu quando ela me perguntou se eu estavaaborrecido com alguma coisa que ela dissera durante a massagemnessa manh e respondi no. Sua menstruao recomeou hoje,aps um intervalo que mal chegou a uma quinzena. Prometi-lheregul-la por sugesto hipntica e, sob hipnose, fixei o intervalo em 28dias.Em hipnose, tambm lhe perguntei se se recordava da ltima coisa queme contara; ao perguntar-lhe isso, o que eu tinha em mente era umatarefa que restara da noite passada, mas ela comeou, muitocorretamente, pelo no me toque da hipnose de hoje de manh.Assim, levei-a de volta ao assunto de ontem. Eu lhe havia perguntadoqual a origem de sua gagueira e ela respondera no sei. Pedira-lhe,portanto, que se lembrasse disso na horada hipnose de hoje. Emconseqncia, me respondeu hoje, sem nenhuma reflexo adicional,mas com grande agitao e com dificuldades espsticas na fala:Como os cavalos certa vez saram em disparada com as crianas nacarruagem; e como outra vez eu estava passando de carruagem pelafloresta com as meninas, durante uma tempestade, e uma rvore bem frente dos cavalos foi atingida por um raio e os cavalos seassustaram e eu pensei: Agora voc precisa ficar bem quietinha,seno seus gritos vo assustar os cavalos ainda mais e o cocheiro noconseguir cont-los de jeito nenhum. Surgiu a partir daquelemomento. A paciente ficou extraordinariamente agitada ao contar-meessa histria. Soube tambm por ela que a gagueira tinha comeadologo aps a primeira dessas duas ocasies, mas havia desaparecidopouco depois e ento se estabelecera de uma vez por todas aps asegunda ocasio semelhante. Apaguei sua lembrana plstica dessascenas, mas pedi-lhe que as imaginasse mais uma vez. Ela pareceutentar faz-lo e permaneceu quieta enquanto atendia a meu pedido; apartir de ento, falou durante a hipnose sem qualquer impedimentoespstico. 67. Verificando que ela estava disposta a ser comunicativa, perguntei-lheque outros fatos em sua vida a haviam assustado tanto a ponto de aterem deixado com lembranas plsticas. Ela respondeufornecendo-me uma coleo de tais experincias: |1| Como um anoaps a morte da me, estava visitando uma francesa que era suaamiga, quando lhe disseram que fosse ao quarto contguo com outramoa para buscar um dicionrio e ela viu, sentado na cama, algumque tinha a aparncia idntica da mulher que ela acabara de deixarno outro aposento. Ficou toda rgida e pregada no cho. Depois, ficarasabendo que se tratava de um manequim especialmente preparado.Asseverei que o que a paciente tinha visto fora uma alucinao eapelei para seu bom senso, e ento seu rosto se relaxou. |2| Comocuidara do irmo enfermo e este tivera acessos terrveis por causa damorfina, aterrorizando-a e agarrando-a. Lembrei que ela j haviamencionado essa experincia hoje de manh e, a ttulo deexperimentao, perguntei-lhe em que outras ocasies esseagarramento havia ocorrido. Para minha agradvel surpresa, ela fezuma longa pausa dessa vez antes de responder e ento perguntou,num tom de dvida: Minha filhinha? Ficou inteiramente incapaz derecordar-se das outras duas ocasies (ver atrs |em [1]|). Minhaproibio o apagamento de suas lembranas tinha sido, portanto,eficaz. E mais: |3| como, enquanto cuidava do irmo, o rosto plidoda tia havia aparecido de sbito por cima do biombo. Ela acabara deconvert-lo ao catolicismo.Vi que havia chegado raiz de seu constante temor das surpresas epedi-lhe outros exemplos. Prosseguiu: como tinha na casa dela umamigo que gostava de entrar furtivamente no quarto, de modo que derepente estava l; como ela ficara muito doente aps a morte da me efora para uma casa de sade, e um luntico havia entrado por enganoem seu quarto vrias vezes, noite, chegando bem perto de suacama; e por fim, como, na vinda de Abbazia para c, um estranhoabrira quatro vezes a porta de sua cabine e cada vez fixara nela umolhar demorado. A Sra. Emmy tinha ficado to apavorada que chegoua chamar o condutor.Apaguei todas essas lembranas, despertei-a e lhe garanti que eladormiria bem noite, tendo deixado de fazer-lhe essa sugesto nahipnose. A melhora de seu estado geral foi revelada por suaobservao de que no lera nada hoje, pois estava vivendo num sonhomuito feliz ela, que sempre tinha que estar fazendo alguma coisaem virtude de sua inquietude interior.11 de maio, manh. Hoje teve uma entrevista com o Dr. N., oginecologista, que deve examinar sua filha mais velha por causa das 68. complicaes menstruais. Encontrei a Sra. Emmy bastante agitada,embora isso se traduzisse em sinais fsicos mais leves que antes. Devez em quando, exclamava: Estou com medo, estou com tanto medoque acho que vou morrer. Perguntei-lhe de que estava com medo. Erao Dr. N.? No sabia, respondeu; simplesmente estava com medo. Soba hipnose, que induzi antes da chegada de meu colega, declarou termedo de que me tivesse ofendido por alguma coisa que disseradurante a massagem, ontem, que lhe parecera indelicada. Tambmtinha medo de tudo o que era novo e, por conseguinte, do novomdico. Consegui acalm-la e, embora se assustasse uma ou duasvezes na presena do Dr. N., ela se comportou muito bem e noproduziu nenhum de seus estalidos nem houve qualquer inibio dafala. Depois que ele se foi, tornei a coloc-la sob hipnose para eliminarqualquer possvel resduo da excitao provocada pela visita. Elaprpria ficou muito contente com seu comportamento e depositougrandes esperanas no tratamento; tentei convenc-la, a partir desseexemplo, de que no preciso ter medo do que novo, j que o que novo tambm contm o que bom.Noite. Estava muito animada e desabafou um grande nmero dedvidas e escrpulos em nossa conversa antes da hipnose. Durante ahipnose, perguntei-lhe que acontecimento de sua vida havia produzidoefeito mais duradouro sobre ela e que mais surgia em sua memria. Amorte do marido, respondeu. Fiz com que me descrevesse esse fatocom todos os pormenores e ela o fez, com todos os sinais da maisprofunda emoo, mas sem nenhum estalido e sem gaguejar: Como, comeou a dizer, tinham ido a um lugar de que ambosgostavam muito na Riviera e, ao atravessarem uma ponte, ele cara derepente no cho e l ficara inerte por alguns minutos, mas depois selevantara, parecendo estar muito bem; como, pouco tempo depois,quando ela estava de cama aps seu segundo parto, o marido, queestivera tomando o caf da manh numa mesinha ao lado de sua camae lendo o jornal, levantara-se de sbito, olhando-a de modo muitoestranho, dera alguns passos frente e, em seguida, cara morto; elahavia se levantado da cama, e os mdicos que foram chamados seesforaram para reanim-lo, o que ela ouviu do quarto contguo, masem vo. E, prosseguiu a Sra. Emmy, como o beb, que contava entoalgumas semanas de idade, fora tomado de grave molstia, que durouseis meses, durante a qual ela prpria ficara de cama com muita febre. E vieram ento, em ordem cronolgica, suas reclamaes contraessa criana, que ela externou rapidamente, com uma expressozangada no rosto, da maneira como algum falaria de uma pessoa quese houvesse tornado um incmodo. Essa criana, disse, se comportara 69. de forma muito estranha por longo tempo; gritava o tempo todo e nodormia, e desenvolvera uma paralisia da perna esquerda cujarecuperao parecera apresentar muito poucas esperanas. Aosquatro anos, a criana tivera vises; aprendera a andar e a falar,tardiamente, de modo que por muito tempo fora julgada idiota. Deacordo com os mdicos, tivera encefalite e mielite e ela no sabia maiso qu. Interrompi-a nesse ponto e a fiz ver que essa mesma crianaera hoje uma menina normal, que gozava de perfeita sade, eimpossibilitei-a de voltar a ver qualquer dessas coisas melanclicas,no apenas apagando suas lembranas das mesmas na formaplstica, mas tambm removendo toda a sua recordao dessascoisas, como se nunca tivessem existido em sua mente. Prometi-lheque isso a levaria a libertar-se da expectativa de infortnios que nocessava de atorment-la e tambm das dores por todo o corpo, dasquais se queixara precisamente durante sua narrativa, depois depassarmos vrios dias sem ouvir falar nelas.Para minha surpresa, depois dessa minha sugesto, ela comeou afalar, sem qualquer transio, sobre o Prncipe L., cuja fuga de umhospcio era objeto de muitos comentrios nessa poca. Externounovos temores sobre os hospcios de que as pessoas que l seencontravam recebiam duchas de gua gelada na cabea e erampostas num aparelho que as fazia girar ininterruptamente at seacalmarem. Quando, h trs dias, ela se queixara pela primeira vez doseu medo dos hospcios, eu a havia interrompido aps sua primeirahistria, a de que os pacientes eram amarrados a cadeiras. Vi entoque nada tinha ganho com essa interrupo e que no posso me furtara escutar suas histrias com todos os detalhes at a ltima palavra.Depois de reparar essas falhas, livrei-a tambm dessa nova safra detemores. Apelei para seu bom senso e lhe disse que ela realmentedeveria acreditar mais em mim do que na moa tola de quem ouviraaquelas histrias horripilantes sobre a maneira como se trabalha noshospcios. Como notei que ela s vezes ainda gaguejava ao narrar-meessas outras coisas, perguntei-lhe mais uma vez de onde provinha agagueira. Nenhuma resposta. A senhora no sabe? No. Por que no? Por que no? Porque no posso saber!(Pronunciou estas ltimas palavras com violncia e raiva). Essadeclarao me parece ser a prova do xito de minha sugesto, mas elame expressou o desejo de que a despertasse da hipnose, e assim fiz.12 de maio, |manh|. Contrariamente a minha expectativa, eladormira mal e por pouco tempo. Encontrei-a num estado de grandeangstia, embora, incidentalmente, sem demonstrar seus costumeiros 70. sinais fsicos desta. No disse o que estava acontecendo, mas apenasque tivera sonhosruins e ficava vendo as mesmas coisas. Como seriahorrvel, disse, se eles se tornassem realidade. Durante amassagem, ela abordou alguns pontos em resposta a minhasperguntas. Ficou alegre ento; falou-me de sua vida social na casa doBltico que lhe coubera por morte do marido, das pessoas importantesque recebe da cidade vizinha, etc.Hipnose. Ela tivera alguns sonhos de horror. Os ps e braos dascadeiras se haviam transformado todos em cobras; um monstro combico de abutre estraalhava e comia todo o seu corpo; outros animaisselvagens saltavam sobre ela, etc. Passou ento a outros delrios comanimais, que, contudo, qualificou acrescentando: Isso foi real (no umsonho): como (numa ocasio anterior) ela fora apanhar um novelo de le era um rato que sara correndo; como estivera fazendo umacaminhada e um grande sapo saltara de repente sobre ela, e assim pordiante. Compreendi que minha proibio geral fora ineficaz e que teriade afastar dela suas impresses assustadoras uma a uma. Aproveiteitambm a oportunidade para lhe perguntar por que ela sofria de doresgstricas e de onde provinham. (Creio que todos os seus acessos dezoopsia |alucinaes com animais| so acompanhados de doresgstricas.) Sua resposta, dada a contragosto, foi que no sabia.Pedi-lhe que se lembrasse at amanh. Disse-me ento, num clarotom de queixa, que eu no devia continuar a perguntar-lhe de ondeprovinha isso ou aquilo, mas que a deixasse contar-me o que tinha adizer. Concordei com isso e ela prosseguiu, sem nenhum prembulo:Quando o levaram embora, no pude acreditar que ele estivessemorto. (Estava, portanto, falando sobre o marido mais uma vez, ecompreendi ento que a causa de seu mau humor era que ela estiverasofrendo em virtude dos resduos no revelados dessa histria.)Depois disso, contou-me, odiara a filha por trs anos, pois sempredisse a si mesma que talvez tivesse podido restaurar a sade domarido se no estivesse de cama por causa da criana. Alm disso,aps a morte do marido, no tinha havido nada seno insultos eagitaes. Os parentes dele, que sempre foram contra o casamento eque tinham ficado com raiva por eles serem to felizes juntos,espalharam o boato de que ela o havia envenenado, de modo que eladesejara abrir um inqurito. Os parentes tinham-na envolvido em todaespcie de processoslegais, com a ajuda de um jornalista suspeito. Omiservel espalhara agentes a fim de incitar as pessoas contra ela.Fazia com que os jornais locais publicassem artigos difamantes a seurespeito e depois lhe mandava recortes. Essa fora a origem de suainsociabilidade e de seu dio por todos os estranhos. Aps eu dizeralgumas palavras tranqilizadoras sobre o que me contara, ela disse 71. que se sentia melhor.13 de maio, |manh|. Mais uma vez ela dormira mal, por causa dedores gstricas. No tinha jantado. Tambm no se queixou de doresno brao direito. Mas estava de bom humor; mostrou-se alegre e,desde ontem, tem-me tratado com especial distino. Pediu minhaopinio sobre toda espcie de coisas que lhe pareciam importantes eficou excessivamente agitada, por exemplo, quando tive de procurar astoalhas necessrias massagem, e assim por diante. Seu estalido eseu tique facial eram freqentes.Hipnose. Ontem noite, sbito lhe ocorrera por que os animaizinhosque ela via se tornavam to grandes. Isso lhe acontecera pela primeiravez em D , durante um espetculo teatral em que um enorme lagartoaparecia em cena. Essa lembrana a havia atormentado muito ontemtambm.O motivo do reaparecimento dos estalidos foi que ontem ela teve doresabdominais e tentou no gemer para no demonstr-las. No tinhanenhuma idia da verdadeira causa desencadeadora do estalido (verem |[1]|.) Tambm se recordou de que eu lhe dera instrues paradescobrir a origem de suas dores gstricas. No o sabia, contudo, eme pediu que a ajudasse. Perguntei-lhe se, talvez, em alguma ocasioaps uma grande excitao, ela se haveria forado a comer. Elaconfirmou isso. Aps a morte do marido, perdera inteiramente o apetitepor muito tempo e havia comido apenas por um sentimento deobrigao, e as dores gstricas haviam de fato comeado naquelapoca. Eliminei ento essas dores passando a mo algumas vezessobre seu epigstrio. A seguir, por conta prpria, ela comeou a falarsobre as coisas que mais a haviam afetado. J lhe contei, disse, queno gostava da criana. Mas devo acrescentar que ningum poderiaadivinhar isso pormeu comportamento. Fiz tudo o que era necessrio.At hoje me recrimino por ter gostado mais da primognita.14 de maio, |manh.| Estava bem e alegre e dormira at 7h30min damanh. Queixou-se apenas de ligeiras dores na regio radial da mo ena cabea e rosto. O que ela me diz antes da hipnose vai adquirindoum significado cada vez maior. Hoje no teve quase nada de horrvelpara apresentar. Queixou-se de dores e perda de sensibilidade naperna direita. Disse-me que teve um surto de inflamao abdominal em1871; mal se havia recuperado, ficou tratando do irmo doente, e foiento que as dores apareceram pela primeira vez, chegando at alevar a uma paralisia temporria da perna direita.Durante a hipnose, perguntei-lhe se agora lhe seria possvel participarda vida social, ou se ainda estava muito temerosa. Respondeu-me que 72. ainda lhe era desagradvel ter algum de p atrs dela ou mesmo aseu lado. A esse respeito, falou-me de outras ocasies em que foradesagradavelmente surpreendida pelo sbito aparecimento de algum.Certa feita, por exemplo, quando passeava com as filhas na ilha deRgen, dois indivduos de aparncia suspeita haviam sado de unsarbustos e lhes dirigido insultos. Em Abbazia, quando estavapasseando certa noite, um mendigo sara de repente de detrs de umapedra e se ajoelhara diante dela. Parece que era um louco inofensivo.Por ltimo, contou-me como sua isolada casa de campo foraarrombada noite, o que muito a havia alarmado. fcil ver,entretanto, que a origem essencial desse medo das pessoas foi aperseguio a que ela se viu sujeita aps a morte do marido.Noite. Embora parecesse muito animada, saudou-me com aexclamao: Estou morta de medo; oh, mal posso lhe dizer, eu meodeio! Afinal fui informado de que ela havia recebido a visita do Dr.Breuer e levara um susto ao v-lo aparecer. Como ele percebeu isso,ela lhe assegurou que fora s aquela vez. Ficou profundamentepenalizada por minha causa, por ter trado esse vestgio de seu antigonervosismo. Em mais de uma ocasio tive oportunidade de notar,nestes ltimos dias, o quanto ela severa consigo mesma, como tendea se culpar com severidade pelos nfimos sinais de negligncia quando as toalhas para a massagem no esto em seu lugar habitualou quando o jornal para eu ler enquanto ela adormece no seencontraprontamente mo. Aps a eliminao da primeira e maissuperficial camada de lembranas torturantes, sua personalidademoralmente supersensvel, com tendncia autodepreciao, veio tona. Tanto em seu estado de viglia como sob a hipnose, eu lhe disse(o que correspondeu ao velho preceito legal de minimis non curat lexque existe uma multido de coisinhas insignificantes entre o que bome o que mau coisas sobre as quais ningum precisa censurar-se.Ela no aceitou minha lio, suponho, tal como no o faria um mongemedieval, que v o dedo de Deus ou a tentao do Demnio em cadafato trivial de sua vida e que incapaz de imaginar o mundo, sequerpor um momento fugaz ou em seu menor recanto, como destitudo deuma referncia a ele prprio.Em sua hipnose, ela trouxe baila algumas outras imagensapavorantes (em Abbazia, por exemplo, via cabeas ensangentadasem cada onda do mar). Fi-la repetir as instrues que lhe deraenquanto estava acordada.15 de maio, |manh.| Ela dormira at as 8h30min da manh, masdepois ficara inquieta, tendo-me recebido com ligeiros sinais de seutique, dos estalidos e da inibio da fala. Estou morta de medo, disse 73. mais uma vez. Em resposta a uma pergunta, falou-me que a pensoonde se encontravam suas filhas ficava no quarto andar de um prdio el se chegava de elevador. Ontem havia insistido em que as filhasusassem o elevador tanto para descer como para subir, e agora serecriminava por isso, porque no se devia confiar inteiramente noascensor. O prprio dono da penso tinha dito isso. Teria eu ouvido,perguntou, a histria da Condessa Sch., que encontrara a morte emRoma num acidente dessa natureza? Por coincidncia, conheo essapenso e sei que o elevador propriedade particular do dono damesma; no me parece provvel que esse homem, que chama umaateno especial para o elevador num anncio, fosse ele prprioadvertir algum contra sua utilizao. Pareceu-me que teramos a umadas paramnsias acarretadas pela angstia. Dei a minha opinio Sra.Emmy e consegui, sem nenhuma dificuldade, faz-la rir daimprobabilidade de seus temores. Exatamente por essa razo, nopude acreditar que esta fosse a causa da sua angstia e decidiformular a pergunta a sua conscincia hipntica. Durante a massagem,que hoje reiniciei aps um intervalo de alguns dias, ela me contou umasrie de histrias sem ligao umas com as outras, que talvez tenhamsido reais sobre um sapo que foi encontrado num poro, uma meexcntrica quecuidava do filho idiota de maneira estranha, uma mulherque foi trancada num hospcio porque sofria de melancolia e querevelavam o tipo de recordaes que lhe passavam pela cabeaquando ela estava intranqila. Depois de se livrar dessas histrias,ficou muito animada. Descreveu a vida em sua propriedade e seuscontatos com homens preeminentes da Rssia teutnica e daAlemanha setentrional e, na verdade, achei extremamente difcilconciliar atividades desse tipo com o quadro de uma mulher togravemente neurtica.Assim, perguntei-lhe em sua hipnose por que ela estava todesassossegada esta manh. Em vez de suas dvidas sobre oelevador, informou-me ter sentido medo de que sua menstruaorecomeasse e tornasse a interferir na massagem.Fiz ento com que ela me contasse a histria das dores na perna.Comeou da mesma forma que ontem |falando sobre haver cuidado doirmo| e prosseguiu com uma longa srie de exemplos de experincias,alternadamenteaflitivas e irritantes, que tivera ao mesmo tempo que asdores na perna e cujo efeito fora o de torn-las cada vez piores, atmesmo a ponto de ela ficar com paralisia bilateral e perda desensibilidade nas pernas. O mesmo se aplicava s dores do brao.Elas tambm surgiram enquanto a paciente cuidava de algum doente,ao mesmo tempo que as cibras no pescoo.Quanto a estas, fiquei 74. sabendo apenas que se seguiram a alguns curiosos estados deinquietude acompanhados de depresso, que j existiam antes.Consistem num aperto gelado na nuca, juntamente com o surgimentoda rigidez e um frio doloroso em todas as extremidades da paciente,incapacidade de falar e completa prostrao. Duram de seis a dozehoras. Falharam minhas tentativas de demonstrar que esse complexode sintomas representava uma lembrana. Fiz-lhe algumas perguntascom a finalidade de descobrir se seu irmo, enquanto a paciente oassistia durante o delrio dele, alguma vez a agarrara pelo pescoo;mas ela negou e disse no saber de onde provinham esses acessos.Noite. Ela estava muito animada e demonstrava grande senso dehumor. Contou-me, alis, que o caso do elevador no era como mehavia relatado. O proprietrio s dissera aquilo para dar uma desculpapelo fato de o elevador no ser utilizado para descer. Ela me fez umgrande nmero de perguntas que nada tinham de patolgicas. Temsofrido de lancinantes dores no rosto, na mo junto ao polegar e naperna. Fica rgida e sente dores no rosto se ficar sentada sem semexer ou se olhar fixamente para algum ponto por um perodoconsidervel de tempo. Quando levanta qualquer coisa pesada, issolhe causa dores no brao. O exame da perna direita revelousensibilidade relativamente boa na coxa, alto grau de insensibilidadena parte inferior da perna e no p e menor na regio das ndegas e doquadril.Sob hipnose, ela me informou que ocasionalmente ainda tem idiasassustadoras, como a de que algo pode acontecer com suas filhas,que elas poderiam adoecer ou morrer, ou que o irmo dela, que estagora em lua-de-mel, poderia sofrer um acidente, ou que a esposadele poderia morrer (porque os casamentos de todos os seus irmos eirms tinham sido muito curtos). No consegui arrancar da pacientequaisquer outros temores. Proibi-a de sentir qualquer necessidade dese assustar quando no houvesse nenhum motivo para isso.Prometeu-me desistir disso porque o senhor est pedindo. Dei-lheoutras sugestes quanto s dores, perna, etc.16 de maio, |manh|. Ela havia dormindo bem. Queixava-se aindade dores no rosto, braos e pernas. Estava muito alegre. Sua hipnoseno rendeu nada. Apliquei um pincel fardico em sua pernainsensibilizada.Noite. Sobressaltou-se assim que entrei: Estou muito contente comsua vinda, disse, estou muito assustada. Ao mesmo tempo, davatodos os sinais de terror, juntamente com a gagueira e o tique. Primeirofiz com queme contasse, em estado de viglia, o que tinha acontecido. 75. Retorcendo os dedos e estendendo as mos para a frente, pintou umquadro ntido de seu terror ao dizer: Um camundongo enorme passoude repente sobre minha mo no jardim e desapareceu num segundo;as coisas ficaram deslizando para trs e para a frente. (Uma iluso dojogo de sombras?) Um bando inteiro de ratinhos estava sentado nasrvores. O senhor no est ouvindo os cavalos batendo com aspatas no circo? H um homem gemendo no quarto ao lado; deveestar sentindo dores depois de sua operao. Ser que estou emRgen? Eu tinha uma estufa como essa l? Ela estava confusa com amultido de pensamentos que se entrecruzavam em seu crebro ecom o esforo que fazia para separ-los do ambiente que a cercava defato. Quando lhe formulei perguntas sobre coisas atuais, tais como seas filhas estavam aqui, no soube dar nenhuma resposta.Tentei desembaraar por meio da hipnose a confuso que lhe ia pelamente. Perguntei-lhe o que era que a assustava. Repetiu a histria docamundongo, com todos os sinais de terror, e acrescentou que,quando descia os degraus, viu um animal horrvel deitado, quedesapareceu imediatamente. Disse-lhe que isso eram alucinaes elhe instru para que no se assustasse com os camundongos; s osbbados que os viam (ela detestava bbados). Contei-lhe a histriado Bispo Hatto. Ela tambm a conhecia, e ouviu-a horrorizada. Como foi que a senhora veio a pensar no circo? perguntei-lhe ento.Disse-me que tinha ouvido claramente os cavalos batendo com aspatas nos estbulos ali perto e acabando presos nos arreios, o quepoderia machuc-los. Quando isso acontecia, Johann costumava sairpara desamarr-los. Neguei que houvesse estbulos por perto ou quealgum no quarto contguo tivesse gemido. Ela sabia onde estava?Respondeu que agora sabia, mas antes pensara estar em Rgen.Perguntei-lhe como tinha chegado a essa lembrana. Tinham estadoconversando no jardim, disse, sobre como fazia calor numa parte dele,e imediatamente lhe viera a idia do terrao sem sombra em Rgen.Muito bem, perguntei-lhe, quais eram as recordaes tristes queguardava de sua estada em Rgen? Ela citou uma srie delas. Lsentira as dores mais terrveis nas pernas e nos braos; quando saaem excurses, fora vrias vezes apanhada por um nevoeiro e seperdera; duas vezes, quando passeava, um touro tinha corrido atrsdela, e assim por diante. Como quando tinha tido essa crise hoje? Como (respondeu)? Escrevera grande nmero de cartas; tinha levadotrs horas e isso lhe deixara a cabea confusa. Pude presumir, porconseguinte, que seu surto delirante foraprovocado pelo cansao e queseu contedo fora determinado por associaes tais como a do lugarsem sombra do jardim, etc. Repeti todos os conselhos que tinha ohbito de lhe dar e deixei-a recomposta para dormir. 76. 17 de maio, |manh|. Ela passou a noite muito bem. No banho defarelo que tomou hoje, deu alguns gritos, por ter confundido o farelocom vermes. Fui informado disso pela enfermeira. A prpria pacienterelutou em falar-me a respeito. Estava quase exageradamente alegre,mas interrompia-se com exclamaes de horror e asco e fazia caretasque expressavam terror. Tambm gaguejou mais do que nos ltimosdias. Contou-me haver sonhado, na noite passada, que estavacaminhando sobre uma poro de sanguessugas. Na noite anteriortinha tido sonhos horrveis. Tivera que amortalhar um grande nmerode defuntos e coloc-los em caixes, mas no os tampava.(Obviamente, uma lembrana do marido.) Disse-me ainda que, nodecurso de sua vida, tivera inmeros incidentes com animais. O piortinha sido com um morcego que ficara preso em seu guarda-roupa, demodo que ela se precipitara para fora do quarto sem nenhuma roupa.Para cur-la desse medo, o irmo lhe dera um belo broche com aforma de um morcego, mas ela nunca pudera us-lo.Sob hipnose, explicou-me que seu medo de vermes provinha de terrecebido como presente, certa vez, uma linda almofada para alfinetes;na manh seguinte, porm, quando quis us-la, uma poro devermezinhos saram da almofada, que tinha sido enchida com fareloque no estava bem seco. (Uma alucinao? Talvez um fato real.)Pedi-lhe que me contasse outras histrias de animais. Certa feita,disse ela, quando passeava com o marido num parque de SoPetersburgo, todo o caminho que levava a um pequeno lago estavarecoberto de sapos, de modo que foram obrigados a voltar. Houvepocas em que ela ficara impossibilitada de estender a mo paraqualquer pessoa, temendo que a mo se transformasse num animalterrvel, como tantas vezes tinha acontecido. Tentei libert-la de seumedo de animais designando-os um por um e perguntando-lhe se tinhamedo deles. Em alguns casos, respondeu no; em outros, no devoter medo deles. Perguntei-lhe por que havia gaguejado e se mexidotanto ontem. Respondeu que sempre fazia isso quando estava muitoassustada. Mas por que tinha estado toassustada ontem? Porque todas as espcies de pensamentos opressivos lhe haviampassado pela cabea no jardim: em particular, a idia de como poderiaimpedir que algo se acumulasse de novo dentro dela depois que seutratamento terminasse. Repeti as trs razes que eu j lhe tinha dadopara sentir-se reassegurada: (1) que ela se tornara mais sadia e maiscapaz de ter resistncia, (2) que adquiriria o hbito de contar seuspensamentos a algum com quem mantivesse estreitas relaes, e (3)que, da por diante, consideraria indiferente um grande nmero decoisas que at ento a haviam oprimido. Ela prosseguiu dizendo que 77. tambm estivera preocupada porque no me havia agradecido pelavisita que eu lhe fizera ao fim do dia, e temia que eu perdesse apacincia com ela em vista de sua recente recada. Ficara muitoperturbada e alarmada porque o mdico interno perguntara a umsenhor no jardim se ele agora se sentia capaz de enfrentar suaoperao. A esposa estava sentada ao lado dele, e ela (a paciente)no pde deixar de pensar que talvez aquela fosse a ltima noite dopobre homem. Aps esta ltima explicao, sua depresso pareceudissipar-se.Noite. Ela estava muito animada e satisfeita. A hipnose noproduziu absolutamente nada. Dediquei-me a cuidar de suas doresmusculares e restaurar-lhe a sensibilidade da perna direita. Isso foiconseguido com muita facilidade na hipnose, mas sua sensibilidaderestaurada tornou a perder-se parcialmente quando ela despertou.Antes de eu deix-la, externou seu espanto de que h tanto tempo notivesse cibras no pescoo, j que elas costumavam sobrevir antes decada tempestade.18 de maio. H anos no dormia to bem como na noite passada.Depois do banho, porm, queixou-se de frio na nuca, contraes edores no rosto, nas mos e nos ps. Suas feies estavam tensas, eos punhos, cerrados. A hipnose no revelou qualquer contedopsquico subjacente s cibras no pescoo. Melhorei-as atravs demassagens, depois que ela havia despertado.Espero que este resumo do histrico das trs primeiras semanas dotratamento seja suficiente para fornecer um quadro ntido do estado dapaciente, da natureza de meus esforos teraputicos e da medida deseu xito. Passarei agora a ampliar o relato do caso.O delrio que acabo de descrever foi tambm a ltima perturbaoimportante no estado da Sra. Emmy von N. Visto que eu no tomava ainiciativa de procurar os sintomas e sua base, mas esperava que algosurgisse na paciente ou que ela me revelasse algum pensamento quelhe estivesse causando angstia, suas hipnoses logo deixaram deproduzir material. Assim, passei a us-las principalmente com afinalidade de proporcionar-lhe mximas que ficassem sempre em suamente e que a protegessem contra recadas em estados semelhantesquando voltasse para casa. Naquela poca, eu estava sob totalinfluncia do livro de Bernheim sobre sugesto e previa maisresultados dessas medidas didticas do que o faria hoje. O estado deminha paciente melhorou to depressa que ela logo me assegurou queno se sentia to bem desde a morte do marido. Aps um tratamentoque durou ao todo sete semanas, permiti-lhe que voltasse para sua 78. casa no Bltico.No fui eu, mas o Dr. Breuer, quem recebeu notcias dela cerca desetemeses depois. Seu estado de sade continuara bom durantevrios meses, mas depois havia voltado a piorar como resultado de umnovo choque psquico. Sua filha mais velha, durante a primeira estadade ambas em Viena, j havia tido, como a me, cibras no pescoo eligeiros estados histricos; em particular, porm, sofrera de dores aoandar, em virtude de uma retroverso do tero. A conselho meu,procurara para tratamento o Dr. N., um de nossos mais famososginecologistas, que recolocara o tero em sua posio por meio demassagens, havendo ela ficado livre de problemas durante vriosmeses. Seus problemas reapareceram, contudo, enquanto as duasestavam em casa, e a me chamou um ginecologista da cidadeuniversitria vizinha. Ele receitou para a moa um tratamento local egeral que, todavia, acarretou uma grave doena nervosa (ela estava,na poca, com dezessete anos). provvel que isso j fosse umindcio da sua predisposio patolgica que iria manifestar-se um anodepois numa alterao do carter. |Ver em [1].| A me, que haviaentregue a moa s mos dos mdicos com sua habitual mistura dedocilidade e desconfiana, foi dominada pelas mais violentasauto-recriminaes aps o infeliz resultado do tratamento. Umaassociao de idias que eu no tinha investigado levou-a conclusode que eu e o Dr. N. ramos os responsveis pela doena da filha,porque havamos feito pouco caso da gravidade de seu estado. Por umato de vontade, por assim dizer, ela desfez os efeitos do meutratamento e de imediato recaiu nos estados dos quais eu a havialibertado. Um ilustre mdico de suas redondezas, a quem procuroupara obter orientao, juntamente com o Dr. Breuer, que secorrespondia com ela, conseguiram convenc-la da inocncia dos doisalvos de suas acusaes; mas, mesmo depois que isso se dissipou, aaverso formada contra mim nessa poca permaneceu como umresduo histrico, e ela declarou que lhe era impossvel reiniciar otratamento comigo. A conselho da mesma autoridade mdica, recorreu ajuda de um sanatrio na Alemanha setentrional. Por desejo deBreuer, expliquei ao mdico encarregado as modificaes da terapiahipntica que eu julgara eficazes no caso dessa paciente.Essa tentativa de transferncia falhou completamente. Desde o incioela parece ter mostrado uma disposio contrria ao mdico.Esgotava-se na resistncia ao que quer que fosse feito por ela. Ficoudeprimida, perdeu o sono e o apetite e s se recuperou depois queuma amiga sua, que foi visit-la no sanatrio, na verdade a seqestrous escondidas e tratou-a em sua casa. Pouco tempo depois,exatamente um ano aps seu primeiro encontro comigo, ela estava de 79. novo em Viena e mais uma vez se entregou a meus cuidados.Achei-a muito melhor do que esperava pelos relatos que recebera porcarta. Podia movimentar-se e estava livre da angstia, e grande partedo que eu conseguira um ano antes ainda se mantinha. Sua principalqueixa era com relao a freqentes estados de confuso tempestades na cabea, como as denominava. Alm disso, sofria deinsnia e muitas vezes ficava em prantos por horas a fio. Sentia-setriste numa determinada hora do dia (cinco horas). Esse era o horriohabitual em que, no inverno, pudera visitar a filha na casa de sade.Gaguejava e emitia o estalido com grande freqncia e esfregava asmos como se estivesse enfurecida, e quando lhe perguntei se estavavendo muitos animais, apenas respondeu: Oh, fique quieto! minha primeira tentativa de induzir a hipnose, cerrou os punhos eexclamou: No deixarei que me apliquem nenhuma injeoantipirtica; prefiro ter minhas dores! No gosto do Dr. R.; ele me antiptico. Compreendi que ela estava presa lembrana de serhipnotizada no sanatrio, e acalmou-se to logo eu a trouxe de volta situao atual.Logo no incio do tratamento |reiniciado| tive uma experincia instrutiva.Eu lhe havia perguntado h quanto tempo a gagueira voltara, e elarespondera de forma hesitante (sob hipnose) que tinha sido desde umchoque que experimentara em D durante o inverno. Um garom dohotel em que estava hospedada havia se escondido em seu quarto dedormir. Na escurido, disse ela, confundira o objeto com um sobretudoe estendera a mo para apanh-lo, tendo o homem de repente dadoum pulo para o alto. Eliminei essa imagem mental e, de fato, a partirdaquele momento, ela deixou de gaguejar visivelmente, quer nahipnose, quer na vida de viglia. No me recordo do que foi que melevou a testar o xito da minha sugesto, mas quando voltei na mesmanoite, perguntei-lhe, num tom aparentemente inocente, como eupoderia trancar a porta quando fosse embora (quando ela estivessedeitada dormindo), de modo que ningum pudesse entrar furtivamenteno quarto. Para meu assombro, ela levou um susto horrvel e comeoua rilhar os dentes e esfregar as mos. Revelou que tivera um choqueviolento desse tipo em D , mas no consegui persuadi-la a me contara histria. Percebi que tinha em mente a mesma histria que me narraraquela manh, durante a hipnose, e que eu julgara haver apagado. Emsua hipnose seguinte, contou-me a histria com maior riqueza dedetalhes e maior verossimilhana. Agitada, estivera andando pelocorredor de um lado para o outro e encontrara aberta a porta do quartoda empregada. Tentou entrar e sentar-se. A empregada lhe bloqueou ocaminho, mas a paciente no se deixou deter e entrou, e foi ento queviucontra a parede o objeto escuro que veio a se revelar como sendo 80. um homem. Evidentemente, o fator ertico dessa pequena aventura que a levara a fazer um relato falso da mesma. Isso me ensinou queuma histria incompleta sob hipnose no produz nenhum efeitoteraputico. Acostumei-me a considerar incompleta qualquer histriaque no trouxesse nenhuma melhora, e aos poucos tornei-me capazde ler nos rostos dos pacientes se eles no estariam ocultando umaparte essencial de suas confisses.O trabalho que tive de levar a efeito com ela nessa ocasio consistiuem lidar, por meio da hipnose, com as impresses desagradveis queela recebera durante o tratamento da filha e quando de sua prpriaestada no sanatrio. Ela estava cheia de raiva, reprimida, pelo mdicoque a tinha obrigado, sob hipnose, a soletrar a palavra sapo eme fez prometer que jamais a faria dizer isso. A esse respeito,aventurei-me a fazer uma brincadeira prtica numa de minhassugestes a ela. Este foi o nico abuso da hipnose alis um abusomuito inocente cuja culpa para com essa paciente tenho deconfessar. Assegurei-lhe que sua estada no sanatrio em -tal |vale|se tornaria to remota para ela que nem sequer conseguiria lembrar-sedo nome, e sempre que quisesse referir-se a ele hesitaria entre -berg|colina|, -tal, -wald |bosque|, e assim por diante. Issoefetivamente aconteceu, e logo o nico sinal remanescente de suainibio da fala foi sua incerteza sobre esse nome. Por fim, aps umaobservao do Dr. Breuer, aliviei-a dessa paramnsia compulsiva.Travei com o que ela descrevia como as tempestades na cabea umaluta mais longa do que com os resduos dessas experincias. Quandoa vi pela primeira vez num desses estados, estava deitada no sof comas feies transtornadas e todo o corpo em permanente agitao.Ficava a pressionar a testa com as mos e a chamar, em tons desplica e desnimo, o nome Emmy, que era o de sua filha mais velhae tambm o seu. Sob hipnose, confessou-me que esse estado era umarepetio dos numerosos acessos de desespero pelos quais se viradominada durante o tratamento da filha, quando, depois de passarhoras tentando descobrir algum meio de corrigir seus efeitos negativos,no se lhe apresentava nenhuma sada. Quando, em tais ocasies,sentia que seus pensamentos ficavam confusos, adotava o hbito dechamar pelo nome da filha, de modo que pudesse ajud-la adesanuviar a cabea; e isso porque, durante o perodo em que adoena da filha lhe estava impondo novos deveres e ela sentia que seuprprio estado nervoso mais uma vez comeava a domin-la, eladeterminou que o que quer que tivesse a ver com a moa devia ficarisento de confuso, por mais catico que tudo o mais pudesse estarem sua cabea. 81. No decurso de algumas semanas conseguimos eliminar tambm essaslembranas, e a Sra. Emmy permaneceu sob minha observao pormais algum tempo, sentindo-se perfeitamente bem. Ao final da suaestada aconteceu algo que passarei a descrever com pormenores,visto que lana a mais intensa luz sobre o carter da paciente e amaneira pela qual seus estados se produziam.Visitei-a um belo dia na hora do almoo e surpreendi-a no ato de atirarno jardim algo embrulhado em papel, que foi apanhado pelos filhos doporteiro. Em resposta minha pergunta, ela admitiu que era o seupudim (seco) e que a mesma coisa acontecia todos os dias. Isso melevou a investigar o que sobrava dos outros pratos e verifiquei querestava mais da metade da comida. Quando lhe perguntei por quecomia to pouco, respondeu que no tinha o hbito de comer mais eque passava mal se o fizesse; a Sra. Emmy tinha a mesmaconstituio do pai, que tambm tinha o hbito de comer pouco.Quando lhe perguntei o que bebia, disse-me que s podia tolerarlquidos espessos, como leite, caf ou chocolate; beber gua, comumou mineral, lhe perturbava a digesto. Isso tinha todos os sinais deuma escolha neurtica. Tirei uma amostra de sua urina e verifiquei queestava altamente concentrada e sobrecarregada de uratos.Julguei portanto aconselhvel recomendar-lhe que bebesse mais eresolvi tambm aumentar a quantidade de seus alimentos. verdadeque ela de modo algum parecia magra a ponto de chamar ateno,mas mesmo assim achei que valeria a pena faz-la comer mais umpouco. Quando, em minha visita seguinte, ordenei-lhe que ingerissegua alcalina e proibi-a de lidar com o pudim da maneira como fazia,demonstrou agitao considervel. Farei isso porque o senhor estpedindo, disse mas posso dizer-lhe de antemo que dar mauresultado, porque contrrio minha natureza, e o mesmo aconteceucom meu pai. Quando lhe perguntei sob hipnose por que no podiacomer mais nem beber gua, respondeu num tom mal-humorado: Nosei. No dia seguinte, a enfermeira informou que ela havia comido tudoo que lhe fora servido e bebera um copo de gua alcalina. Masencontrei a prpria Sra. Emmy numa profunda depresso e numestado de humor muito irritado. Queixou-se de sentir dores gstricasmuito violentas. Eu lhe disse o que aconteceria, falou. Sacrificamostodos os bons resultados pelos quais vimos lutando h tanto tempo.Estraguei minha digesto, como sempre acontece quando como maisou bebo gua, e agora terei de morrer de fome por cinco dias a umasemana antes que possa tolerar qualquer coisa. Assegurei-lhe queno havia nenhuma necessidade de ela morrer de fome e que eraimpossvel estragar a digesto dessa forma: suas dores sedeviamsomente angstia em relao a comer e beber. Ficou claro 82. que essa explicao minha no causou nela a mais leve impresso,pois quando, logo depois, tentei faz-la dormir, pela primeira vez noconsegui provocar a hipnose; e o olhar furioso que ela me dirigiuconvenceu-me de que estava em franca rebelio e de que a situaoera muito grave. Desisti de tentar hipnotiz-la e anunciei que lhe dariavinte e quatro horas para pensar bem e aceitar a opinio de que suasdores gstricas provinham apenas de seu medo. No fim desse perodo,eu lhe perguntaria se ainda era de opinio que sua digesto podia serestragada por uma semana pela ingesto de um copo de gua minerale de uma modesta refeio; se ela dissesse que sim, eu lhe pediriaque fosse embora. Essa pequena cena apresentava um acentuadocontraste com nossas relaes normais, que eram as mais amistosas.Encontrei-a vinte e quatro horas depois, dcil e submissa. Quando lheperguntei o que pensava sobre a origem de suas dores gstricas, elarespondeu, porque era incapaz de subterfgios: Penso que provm daminha angstia, mas s porque o senhor dessa opinio. Emseguida, coloquei-a em hipnose e perguntei mais uma vez: Por que asenhora no consegue comer mais?A resposta veio prontamente e consistiu, mais uma vez, numa srie derazes dispostas em ordem cronolgica a partir de seu acervo delembranas: Estou pensando em como, quando eu era criana, muitasvezes acontecia que, por malcriao, recusava-me a comer carne aojantar. Minha me era muito severa a esse respeito e, sob a ameaade um castigo exemplar, eu era obrigada, duas horas depois, a comera carne, que era deixada no mesmo prato. A essa altura a carne jestava muito fria e a gordura, muito dura (ela demonstrou sua repulsa)Ainda posso ver o garfo na minha frente um de seus dentes erameio torto. Sempre que me sento mesa vejo os pratos diante de mim,com a carne e a gordura frias. E me lembro como, muitos anos depois,morei com meu irmo, que era oficial e teve aquela doena horrvel. Eusabia que era contagiosa e tinha um medo terrvel de apanhar sua facae seu garfo por engano (estremeceu) e apesar disso, fazia minhasrefeies com ele, para que ningum soubesse que ele estava doente.E como, logo depois disso, cuidei de meu outro irmo quando estevemuito doente de tuberculose. Sentvamos ao lado de sua cama, e aescarradeira ficava sempre sobre a mesa, aberta (estremeceu denovo) ele tinha o hbito de escarrar por sobre os pratos naescarradeira. Isso sempre me provocava muita nusea, mas eu nopodia demonstr-la, temendo magoar os sentimentos dele. E essasescarradeiras ainda esto na mesa sempre que fao uma refeio, eainda me causam nuseas. Naturalmente, removi com cuidado todoesse conjunto defomentadores da repulsa e ento lhe perguntei porque ela no conseguia beber gua. Quando tinha dezessete anos, 83. respondeu, a famlia havia passado alguns meses em Munique equase todos os membros haviam contrado catarro gstrico, graas gua potvel de m qualidade. No caso dos outros, o distrbio foi logoaliviado pelos cuidados mdicos, mas com ela havia persistido.Tampouco melhorara com a gua mineral que lhe fora recomendada.Quando o mdico a receitou, ela logo pensou: isso no vai adiantarnada. A partir daquela ocasio, essa intolerncia pela gua comum epela gua mineral repetiu-se inmeras vezes.O efeito teraputico dessas descobertas sob hipnose foi imediato eduradouro. Ela no passou fome durante uma semana, mas logo nodia seguinte comeu e bebeu sem nenhuma dificuldade. Dois mesesdepois, informou-me numa carta: Estou comendo muitssimo bem eganhei bastante peso. J bebi quarenta garrafas de gua. O senhoracha que devo continuar?Revi a Sra. von N. na primavera do ano seguinte em sua propriedaderural perto de D. Nessa ocasio, sua filha mais velha, por cujo nomeela havia chamado durante suas tempestades na cabea, entrounuma fase de desenvolvimento anormal. Exibia ambiesdesenfreadas, inteiramente desproporcionais a seus escassos dons, etornou-se desobediente e at violenta para com a me. Eu aindagozava da confiana da Sra. Emmy e fui chamado para dar minhaopinio sobre o estado da moa. Tive uma impresso desfavorvel daalterao psicolgica que se processara na jovem e, para chegar a umprognstico, tambm tive que levar em conta o fato de que todos osseus meio-irmos e irms (os filhos do primeiro matrimnio do Sr. vonN.) tinham sucumbido parania. Tambm na famlia de sua me nofaltava uma hereditariedade neuroptica, embora nenhum de seusparentes mais prximos houvesse desenvolvido psicose crnica.Comuniquei Sra. von N., sem qualquer reserva, a opinio que mehavia pedido, e ela a recebeu com calma e compreenso. Ela haviaengordado, e sua sade era florescente. Tinha-se sentidorelativamente bem durante os nove meses decorridos desde o trminode seu ltimo tratamento. Fora perturbada apenas por ligeiras cibrasno pescoo e outros males de pequena monta. Nos vrios dias quepassei em sua casa vim a compreender, pela primeira vez, toda aextenso de seus deveres, ocupaes e interesses intelectuais.Conheci tambm o mdico da famlia, que no tinha muitas queixas dapaciente: logo, at certo ponto, ela fizera as pazes com a profissomdica.Em inmeros aspectos, portanto, ela estava mais saudvel e maisapta; porm, apesar de todas as minhas sugestes de melhora,verificara-se pouca alterao em seu carter fundamental. Ela noparecia ter aceito a existnciade uma categoria de coisas sem 84. importncia. Sua inclinao para atormentar-se era muito poucomenor do que na poca do tratamento, e tampouco sua disposiohistrica estivera estagnada durante esse bom perodo. Ela sequeixava, por exemplo, de uma impossibilidade de fazer viagens detrem, de qualquer durao. Isso aparecera nos ltimos meses. Umatentativa necessariamente apressada de alivi-la dessa dificuldaderesultou apenas na produo de diversas impresses desagradveis einsignificantes deixadas por algumas viagens recentes que ela fizera aD e suas imediaes. Entretanto, ela parecia relutar em sercomunicativa sob hipnose, e comecei mesmo a suspeitar de queestava a ponto de se afastar mais uma vez da minha influncia e deque a finalidade secreta de sua inibio em relao aos trens eraimpedir que fizesse uma nova viagem a Viena.Foi tambm durante esses dias que ela formulou suas queixas arespeito de lacunas na memria, em especial quanto aos fatos maisimportantes |ver em [1]|, donde conclu que o trabalho que euexecutara dois anos antes tinha sido inteiramente eficaz e duradouro. Um dia, ela passeava comigo por uma avenida que se estendia dacasa at uma enseada no mar e me arrisquei a perguntar se o caminhocostumava ficar infestado de sapos. Como resposta, ela me lanou umolhar de censura, embora no acompanhado de sinais de horror;ampliou isso um momento depois, com as palavras mas os daqui soreais. Durante a hipnose, que induzi para lidar com sua inibio arespeito dos trens, ela prpria pareceu insatisfeita com as respostasque me deu e externou o temor de que, no futuro, era provvel quefosse menos obediente sob hipnose do que antes. Decidi-me aconvenc-la do contrrio. Escrevi algumas palavras num pedao depapel, entreguei-o a ela e disse: No almoo de hoje a senhora meservir um copo de vinho tinto, da mesma forma que ontem. Quandoeu levar o copo aos lbios, a senhora dir: Oh, por favor, sirva-metambm um copo de vinho, e quando eu estender a mo para apanhara garrafa, dir: No, obrigada; afinal, acho que no vou querer. Asenhora ento por a mo em sua bolsa, retirar dela um pedao depapel e encontrar essas mesmas palavras escritas nele. Isso foi pelamanh. Algumas horas depois, o pequeno episdio ocorreuexatamente como eu o havia predisposto, e de maneira to natural quenenhuma das muitas pessoas presentes notou qualquer coisa. Quandome pediu o vinho, ela revelou visveis sinais de uma luta interna poisnunca bebia vinho e depois de haver recusado a bebida comevidente alvio, ps a mo na bolsa e retirou o pedao de papel em quefiguravam as ltimas palavras que havia pronunciado. Balanou acabea e olhou-me com assombro.Aps minha visita em maio de 1890, minhas notcias da Sra. von 85. N.foram ficando cada vez mais escassas. Soube indiretamente que oestado deplorvel da filha, que lhe causava todas as espcies deaflies e agitaes, acabou por minar-lhe a sade. Por fim, no verode 1893, recebi dela um bilhete pedindo-me permisso para serhipnotizada por outro mdico, visto que voltara a ficar doente e nopodia vir a Viena. A princpio, no compreendi por que minhapermisso era necessria, at me recordar que, em 1890, por suaprpria solicitao, eu a havia protegido de ser hipnotizada porqualquer outra pessoa, para que no houvesse nenhum risco de elaficar aflita ao se colocar sob o controle de algum mdico que lhe fosseantiptico, tal como acontecera em -berg (-tal, -wald). Por conseguinte,renunciei por escrito a minha prerrogativa exclusiva.DISCUSSOA menos que tenhamos em primeiro lugar chegado a um acordocompleto sobre a terminologia em jogo, no fcil resolver se um casoparticular deve ser considerado como sendo de histeria ou de algumaoutra neurose (refiro-me aqui s neuroses que no so de tipopuramente neurastnico); e ainda temos de aguardar a moorientadora que fixar os marcos fronteirios na regio das neurosesmistas, que ocorrem comumente, e que trar tona os aspectosessenciais para a caracterizao destas. Por conseguinte, se aindaestivermos acostumados a diagnosticar uma histeria, no sentido maisestrito do termo, por sua semelhana com casos tpicos j conhecidos,dificilmente poderemos questionar o fato de que o caso da Sra. Emmyvon N. era de histeria. O carter brando de seus delrios e alucinaes(enquanto suas outras atividades mentais permaneciam intactas), amodificao de sua personalidade e de seu acervo de lembranasquando se encontrava num estado de sonambulismo artificial, aanestesia em sua perna dolorida, certos dados revelados em suaanamnese, sua nevralgia ovariana, etc. no admitem dvida quanto natureza histrica da doena, ou, pelo menos, da paciente. Se algumaquesto pode ser levantada, apenas graas a um aspecto particulardo caso, que tambm d oportunidade para um comentrio de validadegeral. Como explicamos na Comunicao Preliminar que aparece noincio deste volume, consideramos os sintomas histricos como efeitose resduos de excitaes que atuaram sobre o sistema nervoso comotraumas. No h permanncia de resduos dessa natureza quando aexcitao original descarregada por ab-reao ou pela atividade dopensamento. No mais possvel, a esta altura, evitar a introduo daidia de quantidades (ainda queno mensurveis). Devemos 86. considerar o processo como se uma soma de excitao, atuando sobreo sistema nervoso, se transformasse em sintomas crnicos, na medidaem que no fosse empregada em aes externas na proporo de suaquantidade. Ora, estamos habituados a verificar que, na histeria, umaparte considervel dessa soma de excitao do trauma transformada em sintomas puramente somticos. Foi essacaracterstica da histeria que por tanto tempo atrapalhou seureconhecimento como um distrbio psquico.Se, para sermos breves, adotarmos o termo converso para designara transformao da excitao psquica em sintomas somticoscrnicos, que to caracterstica da histeria, podemos ento dizer queo caso da Sra. Emmy von N. apresentava apenas uma pequenaquantidade de converso. A excitao, que era originariamentepsquica, permaneceu em sua maior parte nessa esfera, e fcilcompreender que isso lhe confere uma semelhana com as outrasneuroses, no histricas. Existem casos de histeria em que todo oexcedente da estimulao sofre converso, de modo que os sintomassomticos da histeria se intrometem no que parece ser umaconscincia inteiramente normal. A transformao incompleta, noentanto, mais comum, de modo que pelo menos parte do afeto queacompanha o trauma persiste na conscincia como um componente doestado emocional do indivduo.Os sintomas psquicos em nosso atual caso de histeria, em que haviamuito pouca converso, podem ser divididos em alteraes do humor(angstia, depresso melanclica), fobias e abulias (inibies davontade). As duas ltimas classes de perturbao psquica soconsideradas pela escola francesa de psiquiatria como estigmas dadegenerescncia neurtica, mas em nosso caso verifica-se que foramsuficientemente determinadas por experincias traumticas. Essasfobias e abulias eram, na sua maior parte, de origem traumtica, comomostrarei com detalhes.Algumas das fobias da paciente, verdade, correspondiam s fobiasprimrias dos seres humanos, e especialmente dos neuropatas emparticular, por exemplo, seu medo de animais (cobras e sapos, bemcomo todos os vermes de que Mefistfeles se gabava de ser o senhor),de tempestades e assim por diante. Mas tambm essas fobias sefirmaram mais graas a acontecimentos traumticos. Assim, seu medodos sapos foi fortalecido pela experincia, nos primeiros anos deinfncia, de um de seus irmos lhe ter atirado um sapo morto, o quelevou a seu primeiro acesso de espasmos histricos |ver em [1]|; e demodo semelhante, seu medo de tempestades foi provocado pelochoque que deu lugar a seu estalido caracterstico | ver em [1]|, e omedo de nevoeiros pelo passeio na Ilha de Rgen |ver em [1]|. No 87. obstante, neste grupo o medo primrio ou talvez se pudesse dizer omedo instintivo (considerado como um estigma psquico)desempenha o papel preponderante.As outras fobias, mais especficas, tambm foram explicadas poracontecimentos bem determinados. Seu temor de choquesinesperados e sbitos era conseqncia da terrvel impresso que teveao ver o marido, que parecia estar gozando de tima sade, sucumbira um ataque cardaco diante de seus prprios olhos. Seu medo dosestranhos e das pessoas em geral revelou-se originrio da poca emque estava sendo perseguida pela famlia |do marido| e tendia a ver umagente deles em cada estranho, e de quando lhe pareceu provvel queos estranhos soubessem das coisas que estavam sendo espalhadaspor toda parte a respeito dela, por escrito e verbalmente |ver em[1]-[2]|. Seu medo dos hospcios e de seus ocupantes remontava atoda uma srie de acontecimentos tristes ocorridos em sua famlia e shistrias despejadas em seus ouvidos atentos por uma empregadaestpida |ver em [1]|. Independentemente disso, essa fobia erasustentada, de um lado, pelo horror primrio e instintivo que aspessoas sadias tm loucura, e de outro, pelo medo sentido por ela,no menos do que por todos os neurticos, de que ela mesma viesse aenlouquecer. Seu medo altamente especfico de que houvesse algumde p atrs dela |ver em [1]| foi determinado por diversas experinciasapavorantes na mocidade e mais tarde. Desde o episdio do hotel |verem [1]|, que lhe foi especialmente aflitivo por causa de suasimplicaes erticas, seu medo de que um estranho se esgueirassepara seu quarto foi muito acentuado. Por fim, seu medo de serenterrada viva, que partilhava com tantos neuropatas, era inteiramenteexplicado por sua crena de que o marido no estava morto quandoseu corpo foi levado crena esta que expressava de modo tocomovente sua incapacidade de aceitar o fato de que sua vida com ohomem a quem amava chegara a um fim sbito. Na minha opinio,contudo,todos esses fatores psquicos embora possam responder pelaescolha dessas fobias, no podem explicar-lhe a persistncia. necessrio, julgo eu, acrescentar um fator neurtico para explicar suapersistncia o fato de que a paciente vinha vivendo h anos emestado de abstinncia sexual. Tais circunstncias se acham entre ascausas mais freqentes de uma tendncia angstia.As abulias de nossa paciente (inibies da vontade, incapacidade deagir) admitem ainda menos que as fobias sejam consideradas comoestigmas psquicos causados por uma limitao geral da capacidade.Pelo contrrio, a anlise hipntica do caso tornou claro que suasabulias eram determinadas por um duplo mecanismo psquico oqual, no fundo, era um s. Em primeiro lugar, uma abulia pode ser 88. simples conseqncia de uma fobia. Isso ocorre quando a fobia seacha ligada a uma ao do prprio sujeito, e no a uma expectativa |deum fato externo| por exemplo, em nosso caso atual, o medo de sairou de se relacionar com as pessoas, em contraste com o medo dealgum se esgueirar para dentro do quarto. Aqui, a inibio da vontade causada pela angstia concomitante realizao da ao. Seriaerrado considerar tais espcies de abulias como sintomas distintos dasfobias correspondentes, embora se deva admitir que essas fobiaspodem existir (contanto que no sejam graves demais) sem produzirabulias. A segunda classe de abulias depende da presena deassociaes carregadas de afeto e no resolvidas que se oponham vinculao com outras associaes, e particularmente com qualqueruma que seja incompatvel com elas. A anorexia da nossa pacienteoferece o mais brilhante exemplo dessa espcie de abulia |ver em [1] |.Ela comia to pouco por no gostar do sabor, e no podia apreciar osabor porque o ato de comer, desde os primeiros tempos, se vincularaa lembranas de repulsa cuja soma de afeto jamais diminura emqualquer grau; e impossvel comer com repulsa e prazer ao mesmotempo. Sua antiga repulsa s refeies permanecera inalterada porqueela era constantemente obrigada a reprimi-la, em vez de livrar-se delapor reao. Na infncia ela fora forada, sob ameaa de punio, acomer a refeio fria que lhe era repugnante, e nos anos posteriorestinha sido impedida, por considerao aos irmos, de externar osafetos a que ficava exposta durante suas refeies em comum.Neste ponto, talvez deva referir-me a um pequeno artigo no qual tenteidar uma explicao psicolgica das paralisias histricas (Freud 1893c).Nele cheguei hiptese de que a causa dessas paralisias residiria nainacessibilidade a novas associaes por parte de um grupo derepresentaes vinculadas, digamos, a uma das extremidades docorpo; essa inacessibilidade associativa dependeria, por sua vez, dofato de a representao do membro paralisado estar ligada lembrana do trauma uma lembrana carregada de afeto que nofora descarregado. Mostrei, a partir de exemplos extrados da vidacotidiana, que uma catexia como essa, de uma representao cujoafeto no foi decomposto, envolve sempre uma certa dose deinacessibilidade associativa e de incompatibilidade com novas catexias.At agora no consegui confirmar, por meio da anlise hipntica, essateoria sobre as paralisias motoras, mas posso citar a anorexia da Sra.von N. como prova de que esse mecanismo o que opera em certasabulias, e de que as abulias nada mais so que uma espcie altamenteespecializada ou, para usar uma expresso francesa,sistematizada de paralisia psquica. 89. A situao psquica da Sra. von N. pode ser caracterizada no seuessencial, ressaltando-se dois pontos. (1) Os afetos aflitivos vinculadosa suas experincias traumticas tinham ficado indecompostos porexemplo, sua depresso, sua dor (pela morte do marido), seuressentimento (por ser perseguida pelos parentes dele), sua repulsa(pelas refeies compulsrias), seu medo (das numerosasexperincias assustadoras), e assim por diante. (2) Sua memria exibiauma intensa atividade, que, ora espontaneamente, ora em reao a umestmulo contemporneo (por exemplo, as notcias da revoluo emSo Domingos |ver em [1]|), trazia seus traumas e os afetosconcomitantes, pouco a pouco, at sua conscincia atual. Minhaconduta teraputica baseou-se nessa atividade de sua memria, eesforcei-me todos os dias para resolver e livrar-me de tudo o que cadadia trazia tona, at que o acervo acessvel de suas lembranaspatolgicas pareceu estar esgotado.Essas duas caractersticas psquicas, que considero como geralmentepresentes nos paroxismos histricos, abriram caminho para muitasconsideraes importantes. Adiarei, contudo, a discusso das mesmasat que tenha dispensado certa ateno ao mecanismo dos sintomassomticos.No possvel atribuir a mesma origem a todos os sintomas somticosdesses pacientes. Pelo contrrio, mesmo a partir deste caso, que noos apresentava em grande nmero, verificamos que os sintomassomticos deuma histeria podem surgir de vrias maneiras. Ousarei,em primeiro lugar, incluir as dores entre os sintomas somticos. Atonde posso ver, um grupo de dores da Sra. von N. fora por certoorganicamente determinado por ligeiras modificaes (de naturezareumtica) nos msculos, tendes ou feixes, que causam muito maisdor nos neurticos do que nas pessoas normais. Outro grupo de doresera, com certeza, as lembranas de dores eram smbolos mnmicosdas pocas de agitao e cuidados prestados aos doentes, pocasque desempenharam papel de grande relevncia na vida da paciente. bem possvel que essas dores tambm se tenham justificado,originariamente, em bases orgnicas, mas foram depois adaptadaspara as finalidades da neurose. Baseio estas afirmativas sobre asdores da Sra. von N. principalmente em observaes feitas em outrocaso, as quais relatarei mais adiante. Quanto a este ponto particular,poucas informaes puderam ser colhidas com a prpria paciente.Alguns dos notveis fenmenos motores revelados pela Sra. von N.eram simplesmente expresso das emoes e podiam serreconhecidos com facilidade como tal. Assim, a maneira como estendiaas mos para a frente com os dedos separados e retorcidosexpressava horror, do mesmo modo que seu jogo facial. Esta era, com 90. certeza, uma maneira mais viva e desinibida de expressar as emoesdo que era comum entre as mulheres de sua instruo e raa. Narealidade, ela prpria era comedida, quase rgida em seus movimentosexpressivos quando no se encontrava em estado histrico. Outros deseus sintomas motores estavam, de acordo com ela prpria,relacionados diretamente com suas dores. Agitada, ela brincava comos dedos (1888) |ver em [1]| ou esfregava as mos uma na outra(1889) |ver em [1]| para impedir-se de gritar. Esse raciocnio nos obrigaa lembrar de um dos princpios formulados por Darwin para explicar aexpresso das emoes o princpio do extravasamento da excitao|Darwin, 1872, Cap. III|, que explica, por exemplo, por que os cesabanam as caudas. Todos ns estamos acostumados, ao sermosatingidos por estmulos dolorosos, a substituir o grito por outros tiposde inervaes motoras. Uma pessoa que tenha tomado a firme decisode, no consultrio do dentista, conservar a cabea e a boca imveis, eno colocar a mo no caminho, poder no mnimo comear a batercom os ps.Um mtodo mais complicado de converso revelado pelosmovimentos semelhantes a tiques da Sra. von N., como estalar alngua e gaguejar, chamar pelo nome Emmy nos estadosconfusionais |ver em [1]| e empregar a expresso Fique quieto! Nodiga nada! No me toque! (1888) |ver em [1]|. Dessas manifestaesmotoras, a gagueira e o estalido com a lngua podem ser explicadossegundo um mecanismo que descrevi, num breve artigo sobre otratamento de um caso por sugesto hipntica (1892-93), como oacionamento de idias antitticas. O processo, tal como exemplificadoem nosso caso atual |ver em [1]| seria como se segue. Nossa pacientehistrica, esgotada pela preocupao e pelas longas horas de vigliajunto ao leito da filha enferma que afinal adormecera, disse a simesma: Agora voc precisa ficar inteiramente imvel para no acordara menina. provvel que essa inteno tenha dado origem a umarepresentao antittica, sob a forma de um medo de que, mesmoassim, ela fizesse um rudo que despertasse a criana do sono quetanto esperara. Representaes antitticas como essa surgem em nsde forma marcante quando nos sentimos inseguros de poder pr emprtica alguma inteno importante.Os neurticos, em cujo sentimento a respeito de si mesmos difcildeixar de encontrar uma veia de depresso ou de expectativa ansiosa,formam um nmero maior dessas idias antitticas do que as pessoasnormais, ou as percebem com mais facilidade, e as consideram maisimportantes. No estado de exausto de nossa paciente a idiaantittica, que seria normalmente rejeitada, mostrou-se a mais forte. 91. Foi essa idia que entrou em ao e que, para horror da paciente, narealidade produziu o rudo que ela tanto temia. A fim de explicar todo oprocesso, pode-se ainda presumir que sua exausto fosse apenasparcial; ela afetava, para empregarmos a terminologia de Janet e seusseguidores, apenas seu ego primrio, e no resultava igualmentenum enfraquecimento da representao antittica.Pode-se ainda presumir que foi seu horror ao rudo produzido contrasua vontade que tornou traumtico aquele momento e fixou o rudo emsi como um sintoma mnmico somtico de toda a cena. Creio,realmente, que o carter do prprio tique, que consistia numasucesso de sons emitidos de forma convulsiva e separados porpausas e que melhor se assemelharia a estalidos, revela traos doprocesso ao qual devia sua origem. Parece terhavido um conflito entrea inteno dela e a idia antittica (a contravontade), o que deu aotique seu carter descontnuo e confinou a representao antittica emoutras vias que no as habituais para inervar o aparelho muscular dafala.A inibio espstica da fala da paciente sua gagueira peculiar erao resduo de uma causa excitante fundamentalmente similar |ver em[1]-[2]|. Nesse caso, contudo, no foi o resultado da inervao final aexclamao mas o prprio processo de inervao a tentativa deinibio convulsiva dos rgos da fala que foi transformado numsmbolo do acontecimento em sua memria.Esses dois sintomas, o estalido e a gagueira, que estavam assimintimamente relacionados pela histria de sua origem, continuaram ase associar e se transformaram em sintomas crnicos aps serepetirem numa ocasio semelhante. A partir da, passaram a serutilizados em mais um sentido. Tendo-se originado num momento deviolento pavor, foram desde ento ligados a qualquer medo (de acordocom o mecanismo da histeria monossintomtica, que ser descrito noCaso 5 |ver em [1] |), mesmo quando o medo no podia levar aoacionamento de uma representao antittica.Os dois sintomas acabaram sendo vinculados a tantos traumas, etiveram tantas razes para serem reproduzidos na memria, quepassaram a interromper sempre a fala da paciente, sem nenhumacausa especfica, maneira de um tique sem significado. A anlisehipntica, entretanto, pde demonstrar quanto significado se ocultavapor trs desse aparente tique; e se o mtodo de Breuer no conseguiu,nesse caso, eliminar de todo os dois sintomas de um s golpe, foiporque a catarse se estendera apenas aos trs traumas principais, eno aos traumas associados de forma secundria.Segundo as normas que regem os ataques histricos, a exclamao 92. Emmy durante seus acessos de confuso reproduzia, como havemosde recordar, seus freqentes estados de desamparo durante otratamento da filha. Essa exclamao estava ligada ao contedo doataque por um complexo encadeamento de idias e sua natureza era afrmula protetora contra o ataque. A exclamao, por uma aplicaomais ampla do seu significado, provavelmente degeneraria num tique,como de fato j havia acontecido no caso da complicada frmulaprotetora No me toque, etc. Em ambas as situaes o tratamentohipntico impediu qualquer outra progresso dos sintomas; mas aexclamao Emmy mal havia surgido, e apanhei-a enquanto aindaestava em seu solo nativo, restrito aos ataques de confuso.Como vimos, esses sintomas motores se originaram de vriasmaneiras: por meio do acionamento de uma representao antittica(como no estalido), por uma simples converso da excitao psquicaem atividade motora (como na gagueira), ou por uma ao voluntriadurante um paroxismo histrico (como nas medidas protetorasexemplificadas pela exclamao Emmy e pela frmula mais longa).Mas como quer que esses sintomas motores se tenham originado,todos tm uma coisa em comum. Pode-se demonstrar que possuemuma ligao originria ou de longa data com os traumas, erepresentam smbolos destes nas atividades da memria.Outros dos sintomas somticos da paciente no eram em absoluto denatureza histrica. Isto se aplica, por exemplo, s cibras no pescoo,que considero como uma forma modificada de enxaqueca |ver em [1]| eque, como tal, no devem ser classificadas como uma neurose, mascomo um distrbio orgnico. Os sintomas histricos, porm, ligam-seregularmente a tais distrbios. As cibras no pescoo da Sra. von N.,por exemplo, eram empregadas para fins dos ataques histricos,embora ela no tivesse a seu dispor a sintomatologia tpica dosataques histricos.Ampliarei esta descrio do estado psquico da Sra. von N. comalgumas consideraes sobre as alteraes patolgicas de conscinciaque puderam ser observadas nela. Tais como suas cibras nopescoo, os acontecimentos aflitivos presentes (cf. seu ltimo delriono jardim |em [1]|) ou qualquer coisa que a fizesse recordar comintensidade qualquer de seus traumas levavam-na a um estado dedelrio. Em tais estados e as poucas observaes que fiz no meconduziram a nenhuma outra concluso havia uma limitao daconscincia e uma compulso a associar, semelhante que predominanos sonhos |em. [1]|; as alucinaes e iluses eram facilitadas{V2_P125}at o mais alto grau e faziam-se inferncias tolas ou mesmodisparatadas. Esse estado, que era comparvel ao da alienaoalucinatria, provavelmente representava um ataque. Poderia ser 93. encarado como uma psicose aguda (servindo como equivalente de umataque) que seria classificada como uma situao de confusoalucinatria. Uma outra semelhana entre esses seus estados e umataque histrico tpico foi mostrada pelo fato de que uma parcela daslembranas traumticas enraizadas desde longa data podia em geralser detectada como subjacente ao delrio. A transio de um estadonormal para um delrio ocorria muitas vezes de forma imperceptvel.Num dado momento, ela ia conversando de modo perfeitamenteracional sobre assuntos de pequena importncia emocional e, medida que a conversa passava para idias de natureza aflitiva, eunotava por seus gestos exagerados ou pelo surgimento de suasfrmulas habituais de fala, etc., que ela se encontrava num estado dedelrio. No incio do tratamento o delrio durava o dia inteiro, de modoque era difcil definir com certeza se quaisquer sintomas como seusgestos faziam parte de seu estado psquico como meros sintomasde um ataque, ou se como o estalido e a gagueira tinham-setornado autnticos sintomas crnicos. Muitas vezes, s aps o evento que era possvel distinguir entre o que tinha acontecido num delrio eo que tinha acontecido em seu estado normal, pois os dois estadosestavam separados em sua memria e, algumas vezes, ela ficavaextremamente surpresa ao saber das coisas que o delrio haviaintroduzido aos poucos em sua conversa normal. Minha primeiraentrevista com ela constituiu o exemplo mais marcante da maneiracomo os dois estados se entrelaavam sem prestar nenhuma atenoum ao outro. Somente num momento dessa gangorra psquica foi quesua conscincia normal, em contato com o tempo presente, mostrou-seafetada: foi quando me deu uma resposta oriunda do delrio e disse seruma mulher que datava do sculo passado |ver em [1]|.A anlise desses estados delirantes na Sra. von N. no foi realizada deforma completa, em virtude de ter sua condio melhorado todepressa que os delrios se tornaram nitidamente diferenciados de suavida normal e se restringiram aos perodos de suas cibras nopescoo. Por outro lado, colhi grande nmero de informaes sobre ocomportamento da paciente num terceiro estado, o do sonambulismoartificial. Enquanto, em seu estado normal, ela no tinha nenhumconhecimento das experincias psquicas ocorridas durante seusdelrios e o sonambulismo, tinha acesso durante o sonambulismo, slembranas de todos os trs estados. A rigor, portanto, era no estadode sonambulismo que ela se encontrava no auge de sua normalidade.Realmente, se eu deixar de lado o fato de que no sonambulismo elaera muito menos reservada comigo do que em seus melhoresmomentos da vida cotidiana isto , que no sonambulismo medavainformaes sobre sua famlia e coisas semelhantes, enquanto 94. nas outras ocasies me tratava como um estranho e se, alm disso,eu desprezar o fato de que ela exibia o grau pleno desugestionabilidade que caracterstico do sonambulismo, serei foradoa dizer que durante o sonambulismo ela se achava num estadointeiramente normal. Era interessante observar que, por outro lado, seusonambulismo no apresentava nenhum sinal de ser supernormal, masestava sujeito a todas as falhas mentais que estamos acostumados aassociar a um estado normal de conscincia.Os exemplos que se seguem esclarecem o comportamento de suamemria no sonambulismo. Certo dia, numa conversa, ela expressouseu encanto pela beleza de uma planta num vaso que decorava osaguo de entrada da casa de sade. Mas qual o nome dela,doutor? O senhor sabe? Eu sabia seus nomes em alemo e latim, masesqueci. A paciente tinha amplo conhecimento de plantas, ao passoque fui obrigado, nessa ocasio, a admitir minha falta de preparo embotnica. Alguns minutos depois perguntei-lhe, sob hipnose, se elaagora sabia o nome da planta do saguo. Sem qualquer hesitao,respondeu: O nome em alemo Tuerkenlilie |martago|; esquecimesmo o nome em latim. De outra feita, quando se sentia bem desade, falou-me de uma visita que fizera s catacumbas romanas, masno conseguia recordar-se de dois termos tcnicos, nem pude euajud-la. Logo depois perguntei-lhe, sob hipnose, quais as palavrasque estavam em sua mente. Mas ela tambm no soube diz-las emhipnose, de modo que lhe falei: No se preocupe mais com elasagora, mas quando estiver no jardim amanh, entre cinco e seis datarde mais perto das seis do que das cinco elas subitamente lheocorrero. Na noite seguinte, enquanto conversvamos sobre algoque no tinha nenhuma relao com as catacumbas, ela subitamenteexclamou: Cripta, doutor, e Columbrio. Ah! essas so as palavrasem que a senhora no conseguia pensar ontem. Quando foi que lheocorreram? Hoje tarde no jardim, pouco antes de eu subir para meuquarto. Vi que, com isso, ela queria que eu soubesse que haviaseguido com preciso minhas instrues quanto ao horrio, j quetinha o hbito de sair do jardim por volta das seis horas da tarde.Vemos assim que mesmo no sonambulismo ela no tinha acesso atoda a extenso do seu conhecimento. Mesmo nesse estado haviauma conscincia real e outra potencial. Muitas vezes acontecia que,quando eu lhe perguntava, durante seu sonambulismo, de ondeprovinha esse ou aquele fenmeno, ela franzia a testa e, depois deuma pausa, respondia num tom de desculpas: No sei. Em taisocasies eu tinha adquirido o hbito de dizer: Pense por um momento;vir sem nenhum rodeio; e depois de breve reflexo, elaconseguiadar-me a informao desejada. Mas algumas vezes acontecia nada lhe 95. ocorrer, e eu era obrigado a deix-la com a tarefa de lembrar-sedaquilo no dia seguinte, o que nunca deixou de acontecer.Em sua vida cotidiana a Sra. von N. evitava escrupulosamentequalquer inverdade, e jamais mentiu para mim sob hipnose. s vezes,contudo, dava-me respostas incompletas e retinha parte da histria ateu insistir uma segunda vez para que a completasse. Em geral, comono exemplo citado em [1], era o desagrado inspirado pelo assunto quelhe fechava a boca no sonambulismo, assim como na vida cotidiana.No obstante, apesar desses traos restritivos, a impresso causadapor seu comportamento mental durante o sonambulismo era, noconjunto, a de um desinibido desenrolar de seus poderes mentais e deum pleno domnio sobre seu acervo de lembranas.Embora no se possa negar que no estado de sonambulismo ela eraaltamente sugestionvel, estava longe de exibir uma ausnciapatolgica de resistncia. Pode-se asseverar, de modo geral, que euno lhe causava maior impresso nesse estado de que esperariaconseguir se estivesse procedendo a uma pesquisa dessa naturezasobre os mecanismos psquicos de algum em pleno gozo de suasfaculdades e que tivesse plena confiana no que eu dizia. A nicadiferena era que a Sra. von N. era incapaz, no que era consideradoseu estado normal, de ter para comigo tal atitude mental favorvel.Quando, como aconteceu com sua fobia por animais, eu noconseguia apresentar-lhe razes convincentes, ou no penetrava nahistria psquica da origem de um sintoma, mas tentava atuar por meiode sugesto autoritria, invariavelmente notava em seu rosto umaexpresso tensa e insatisfeita; e quando, ao final da hipnose,perguntava-lhe se ainda tinha medo do animal, ela respondia: Noj que o senhor insiste. Uma afirmao como esta, baseada apenasem sua obedincia a mim, nunca tinha xito, como tambm no oalcanavam as numerosas injunes genricas que lhe fazia em lugardas quais bem poderia ter repetido a simples sugesto de que elaficasse boa.Mas essa mesma pessoa que se apegava to obstinadamente a seussintomas em face da sugesto e s os abandonava em resposta anlise psquica ou convico pessoal era, por outro lado, to dcilquanto a melhor paciente encontrvel em qualquer hospital, no quedizia respeito s sugestes irrelevantes na medida em que setratasse de assuntos no relacionados com sua doena. J apresenteiexemplos de sua obedincia ps-hipntica ao longo do relato do caso.No me parece haver nada de contraditrio nesse comportamento.Tambm aqui a idia mais forte estava destinada a se afirmar. Sepenetrarmos no mecanismo das ides fixes, constataremos que seacham baseadas e apoiadas por tantas experincias, que atuam com 96. tal intensidade, queno nos podemos surpreender ao descobrir queessas idias so capazes de opor uma resistncia bem-sucedida idia contrria apresentada pela sugesto, que s est revestida depoderes limitados. Apenas de um crebro verdadeiramente patolgico que se poderiam varrer por mera sugesto produtos to bemfundamentados de eventos psquicos intensos.Foi enquanto estudava as abulias da Sra. von N. que comecei a tersriasdvidas quanto validade da assero de Bernheim de que toutest dans la suggestion |tudo est na sugesto| e sobre a deduo doseu sagaz amigo Delboeuf: Comme quoi il ny a pas dhypnotisme|Sendo assim, no existe o que se chama de hipnotismo|. E at hojeno posso compreender como se pode supor que, apenas levantandoum dedo e dizendo uma vez durma, eu tinha criado na paciente oestado psquico peculiar em que sua memria tinha acesso a todas assuas experincias psquicas. Talvez eu tenha evocado esse estadocom minha sugesto, mas no o criei, visto que suas caractersticas que, alis, so encontradas universalmente foram uma grandesurpresa para mim.O relato do caso esclarece suficientemente a maneira como o trabalhoteraputico foi conduzido durante o sonambulismo. Como praxe napsicoterapia hipntica, lutei contra as representaes patolgicas dapaciente por meio de garantias e proibies e apresentando todaespcie de representaes opostas. Mas no me contentei com isso.Investiguei a gnese dos sintomas individuais a fim de poder combateras premissas sobre as quais se erguiam as representaespatolgicas. No curso dessa anlise costumava acontecer que apaciente expressava verbalmente, com a mais violenta agitao,assuntos cujo afeto associado at ento s se manifestara como umaexpresso de emoo. |ver em [1].| No sei dizer quanto do xitoteraputico, em cada situao, deveu-se ao fato de eu ter eliminado osintoma por sugesto in statu nascendi, e quanto se deveu transformao do afeto por ab-reao, j que combinei esses doisfatores teraputicos. Por conseguinte, este caso no pode serrigorosamente utilizado como prova da eficcia teraputica do mtodocatrtico; ao mesmo tempo, devo acrescentar que s os sintomas deque fiz uma anlise psquica foram de fato eliminados de formapermanente.De modo geral o xito teraputico foi considervel, mas no duradouro.A tendncia da paciente a adoecer de forma semelhante sob o impactode novos traumas no foi afastada. Qualquer um que desejasseempreender a cura definitiva de um caso de histeria como este teriaque penetrar mais a fundo do que eu o fiz, em minha tentativa, nocomplexo de fenmenos. A Sra. von N. era, sem dvida, uma 97. personalidade com grave hereditariedade neuroptica. Parece provvelque no pode haver histeria independente de uma predisposio dessanatureza. Mas, por outro lado, a predisposio sozinha no faz ahisteria. Deve haver razes que a trazem tona, e, na minha opinio,essas razes devem ser apropriadas: a etiologia de naturezaespecfica. J tive ocasio de mencionar que, na Sra. von N., os afetospertinentes a um grande nmero de experincias traumticas tinhamficado retidos, e que a atividade dinmica de sua memria fazia aflorar sua mente ora um, ora outro desses traumas. Aventurar-me-ei agoraa formular uma explicao do motivo por que ela retinha os afetosdessa maneira. Esse motivo, verdade, estava ligado a suapredisposio hereditria. Por um lado, seus sentimentos eram muitointensos; ela possua uma natureza veemente, capaz das mais fortespaixes. Por outro, desde a morte do marido, tinha vivido em completasolido mental; a perseguio que lhe moveram os parentes a haviatornado desconfiada dos amigos, e ela ficou atentamente em guardapara impedir que qualquer pessoa adquirisse demasiada influnciasobre suas aes. O crculo de suas obrigaes era muito amplo, e elarealizava sozinha todo o trabalho mental que estas lhe impunham, semum amigo ou confidente, quase isolada da famlia e prejudicada porsua conscienciosidade, sua tendncia a se atormentar e tambm,muitas vezes, pelo desamparo natural da mulher. Em suma, omecanismo da reteno de grandes quantidades de excitao,independente de tudo o mais, no pode ser desprezado neste caso.Baseava-se em parte nas circunstncias de sua vida, e em parte emsua predisposio natural. Sua averso, por exemplo, a dizer qualquercoisa sobre si mesma era to grande, que, como notei com assombro,em 1891, nenhum dos visitantes dirios que iam sua casa percebiaque ela estava doente nem tinha conscincia de que eu era seumdico.Ser que isso esgota a etiologia deste caso de histeria? Penso queno, pois, na poca de seus dois tratamentos, eu ainda no levantaraem minha prpria mente as questes a que preciso responder antesque seja possvel uma explicao completa de um caso como este.Sou agora de opinio que deve ter havido algum fator adicional paraprovocar a irrupo da doena precisamente nestes ltimos anos,considerando-se que as condies etiolgicas operantes tinham estadopresentes durante muitos anos anteriormente. Tambm me ocorreuque, dentre todas as informaes ntimas que me foram dadas pelapaciente, houve uma ausncia completa do elemento sexual, que ,afinal de contas, passvel mais do que qualquer outro de ocasionartraumas. impossvel que suas excitaes nesse campo no tivessemdeixado quaisquer vestgios; o que me foi permitido ouvir foi, sem 98. dvida, uma editio in usum delphini |uma edio expurgada| da histriade sua vida. A paciente comportava-se com o maior e mais naturalsenso de decoro, a julgar pelas aparncias, sem nenhum trao depudiccia. Quando, porm, reflito sobre a reserva com que me narrou,sob hipnose, a pequena aventura de sua empregada no hotel, noposso deixar de suspeitar de que essa mulher, que era to passional eto capaz de sentimentos fortes, no tenha vencido suas necessidadessexuais sem grandes lutas, e que, por vezes, suas tentativas desuprimir essa pulso, que de todas a mais poderosa, tinham-naexposto a seu grave esgotamento mental. Uma vez, ela admitiu queainda no se havia casado de novo porque, em vista da sua grandefortuna, no podia dar crdito ao desinteresse de seus pretendentes eporque se recriminaria por prejudicar as expectativas de suas duasfilhas com um novo matrimnio.Cabe-me fazer mais uma observao antes de encerrar o caso clnicoda Sra. von N. O Dr. Breuer e eu a conhecamos razoavelmente bem eh bastante tempo, e costumvamos sorrir ao comparar seu cartercom o quadro da psique histrica que pode ser acompanhado desdeos primeiros tempos por meio dos trabalhos e das opinies dosmdicos. Ns tnhamos aprendido, a partir de nossas observaes daSra. Caecilie M., que o tipo mais grave de histeria pode coexistir comdons da natureza mais rica e mais original uma concluso mais doque comprovada na biografia de mulheres eminentes na histria e naliteratura. Da mesma forma, a Sra. Emmy von N. nos deu um exemplode como a histeria compatvel com um carter impecvel e um modode vida bem orientado. A mulher que viemos a conhecer era admirvel.A seriedade moral com que encarava suas obrigaes, sua intelignciae energia, que no eram inferiores s de um homem, e seu alto graude instruo e de amor verdade nos impressionaram grandemente,enquanto seu generoso cuidado para com o bem-estar de todos osseus dependentes, sua humildade de esprito e o requinte de suasmaneiras revelaram tambm suas qualidades de verdadeira dama.Descrever essa mulher como degenerada seria distorcer porcompleto o significado desse termo. Faramos bem em distinguir oconceito de predisposio do de degenerescncia tais comoaplicados s pessoas; de outra forma, ver-nos-emos forados a admitirque a humanidade deve uma grande parcela de suas maioresrealizaes ao esforo de degenerados.Devo igualmente confessar que no vejo na histria da Sra. von N.nenhum sinal da ineficincia psquica qual Janet atribui a gnese dahisteria. De acordo com ele, a predisposio histrica consiste numarestrio anormal do campo da conscincia (em virtude dadegenerescncia hereditria), que resulta no desprezo por grupos 99. inteiros de representaes e, mais tarde, numa desintegrao do ego ena organizao de personalidades secundrias. Se assim fosse, o queresta do ego aps a retirada dos grupos psquicos histericamenteorganizados seria, por necessidade, tambm menos eficiente do queum ego normal; e de fato, de acordo com Janet, o ego na histeria afligido por estigmas psquicos, condenado ao monoidesmo e incapazdos atos volitivos da vida cotidiana. Janet, julgo eu, cometeu aqui oerro de promover o que constituem os efeitos secundrios dasalteraes da conscincia decorrentes da histeria posio dedeterminantes primrios da histeria. O assunto merece maiorconsiderao em outro trecho, mas na Sra. von N. no havia qualquersinal de tal ineficincia. Por ocasio de seus piores momentos, ela erae continuou a ser capaz de desempenhar seu papel na administraode uma grande empresa industrial, de manter uma vigilncia constantesobre a educao das filhas e de manter sua correspondncia compessoas preeminentes do mundo intelectual em suma, de cumprircom suas obrigaes bastante bem para que sua doenapermanecesse oculta. Inclino-me a acreditar, portanto, que tudo issoenvolvia com excesso considervel de eficincia, que talvez nopudesse ser mantido por muito tempo e estava fadado a levar aoesgotamento a uma misre psychologique |empobrecimentopsicolgico| secundria. Parece provvel que algumas perturbaesdesse tipo em sua eficincia estivessem comeando a se fazer sentirna poca em que a vi pela primeira vez, mas, seja como for, umahisteria grave estivera presente por muitos anos antes do aparecimentodos sintomas de esgotamento. 100. CASO 3 - MISS LUCY R., 30 ANOS (FREUD)No fim do ano de 1892, um colega conhecido meu encaminhou-meuma jovem que estava sendo tratada por ele de rinite supurativacronicamente recorrente. Verificou-se em seguida que a obstinadapersistncia do problema da jovem se devia a uma crie do ossoetmide. Ultimamente, ela se vinha queixando de alguns sintomasnovos que o competente clnico no pde mais continuar a atribuir auma afeco local. Ela perdera todo o sentido do olfato e era quasecontinuamente perseguida por uma ou duas sensaes olfativassubjetivas, que lhe eram muito aflitivas. Alm disso, estavadesanimada e fatigada e se queixava de peso na cabea, poucoapetite e perda de eficincia.A jovem, que vivia como governanta na casa do diretor-gerente de umafbrica nos arredores de Viena, vinha visitar-me de vez em quando emmeus horrios de consulta. Era de nacionalidade inglesa. Tinha umaconstituio delicada, de pigmentao deficiente, mas gozava de boasade, salvo por sua afeco nasal. Suas primeiras declaraesconfirmaram o que o mdico me dissera. Sofria de depresso e fadigae era atormentada por sensaes subjetivas do olfato. Quanto aossintomas histricos, apresentava uma analgesia geral mais ou menosdefinida, sem nenhuma perda da sensibilidade ttil, e um examegrosseiro (com a mo) no revelou nenhuma restrio do campovisual. O interior de seu nariz era inteiramente analgsico e semreflexos: ela era sensvel presso ttil no local, mas a percepopropriamente dita do nariz como rgo dos sentidos estava ausente,tanto para estmulos especficos quanto para outros (por exemplo,amnia, ou cido actico). O catarro nasal purulento estava entonuma fase de melhora.Em nossas primeiras tentativas de tornar a doena inteligvel, foinecessrio interpretar as sensaes olfativas subjetivas, visto queeram alucinaes recorrentes, como sintomas histricos crnicos. Suadepresso talvez fosse o afeto ligado ao trauma, e deveria ser possvelencontrar uma experincia em que esses odores, que agora se haviamtornado subjetivos, tivessem sido objetivos. Essa experincia devia tersido o trauma que as sensaes recorrentes do olfato simbolizavam namemria. Talvez seja mais correto considerar as alucinaes olfativasrecorrentes, em conjunto com a depresso que as acompanhava,como equivalentes de um ataque histrico. A natureza das alucinaesrecorrentes, a rigor, torna-as inadequadas para desempenharem opapel de sintomas crnicos. Mas na verdade essa questo nosurgiunum caso como este, que mostrava apenas um desenvolvimento 101. rudimentar. Era essencial, contudo, que as sensaes subjetivas doolfato tivessem tido uma origem especializada de uma natureza queadmitisse terem-se derivado de algum objeto real bem especfico.Essa expectativa foi logo realizada. Quando lhe perguntei qual era oodor pelo qual era mais constantemente perturbada, ela merespondeu: Um cheiro de pudim queimado. Assim, eu s precisavapresumir que um cheiro de pudim queimado tinha de fato ocorrido naexperincia que atuara como trauma. muito incomum, sem dvida,que as sensaes olfativas sejam escolhidas como smbolosmnmicos de traumas, mas no foi difcil explicar essa escolha. Apaciente vinha sofrendo de rinite supurativa e, em conseqncia disso,sua ateno estava especialmente enfocada no nariz e nas sensaesnasais. O que eu sabia das circunstncias da vida da pacientelimitava-se ao fato de que as duas crianas de quem ela cuidava notinham me; esta morrera alguns anos antes em decorrncia de umamolstia aguda.Resolvi ento fazer do cheiro de pudim queimado o ponto de partida daanlise. Descreverei o curso dessa anlise como se tivesse ocorridoem condies favorveis. De fato, o que deveria ter sido uma nicasesso estendeu-se por vrias. Isso se verificou porque a paciente spodia visitar-me em meus horrios de consulta, quando eu s lhe podiadedicar pouco tempo. Alm disso, uma nica discusso dessanatureza costumava estender-se por mais de uma semana, visto queas obrigaes dela no lhe permitiam fazer a longa viagem da fbricaat minha casa com grande freqncia. Costumvamos, portanto,interromper nossa conversa em meio a seu curso e retomar o fio dameada no mesmo ponto na vez seguinte.Miss Lucy R. no entrou em estado de sonambulismo quando tenteihipnotiz-la. Assim, abri mo do sonambulismo e conduzi toda a suaanlise enquanto ela se encontrava num estado que, a rigor, talveztenha diferido muito pouco de um estado normal.Terei que falar com mais detalhes sobre esse aspecto de meuprocedimento tcnico. Quando, em 1889, visitei as clnicas de Nancy,ouvi o Dr. Libeault, o doyen (decano) do hipnotismo, dizer: Se aomenos tivssemos meios de pr todos os pacientes em estado desonambulismo, a terapia hipntica seria a mais poderosa de todas. Naclnica de Bernheim chegava quase a parecer que essa arte realmenteexistia e que era possvel aprend-la com Bernheim. Mas logo quetentei pratic-la com meus prprios pacientes, descobri que pelomenos meus poderes estavam sujeitos a graves limitaes e que,quando o sonambulismo no era provocado num paciente nastrsprimeiras tentativas, eu no tinha nenhum meio de induzi-lo. A 102. percentagem de casos acessveis ao sonambulismo era muito menor,em minha experincia, do que a relatada por Bernheim.Vi-me, por conseguinte, defrontado com a opo de abandonar omtodo catrtico na maioria dos casos que lhe seriam apropriados ouaventurar-me experincia de empregar esse mtodo sem osonambulismo, quando a influncia hipntica fosse leve ou mesmoquando sua existncia fosse duvidosa. Parecia-me indiferente qual ograu de hipnose de acordo com uma ou outra das escalas propostaspara medi-la que era alcanado nesse estado sonamblico, pois,como sabemos, de qualquer modo cada uma das vrias formasassumidas pela sugestionabilidade independe das outras, e a obtenoda catalepsia, de movimentos automticos e assim por diante nofunciona nem favorecendo, nem prejudicando aquilo de que euprecisaria para minhas finalidades, ou seja, que o despertar daslembranas esquecidas fosse facilitado. Alm disso, logo abandonei aprtica de fazer testes para indicar o grau de hipnose alcanado, vistoque num bom nmero de casos isso provocava a resistncia dospacientes e abalava sua confiana em mim, da qual eu necessitavapara executar o trabalho psquico mais importante. Ademais, logocomecei a ficar cansado de proferir asseguramentos e ordens taiscomo Voc vai dormir durma! e de ouvir o paciente, como tantasvezes acontecia quando o grau de hipnose era leve, reclamar comigo:Mas doutor, eu no estou dormindo, e de ter ento que fazerdistines sutis: No me refiro a um sono comum, mas sim hipnose.Como v, voc est hipnotizado, no consegue abrir os olhos, etc., ede qualquer modo, no h necessidade de que voc adormea, eassim por diante. Estou certo de que muitos outros mdicos quepraticam a psicoterapia sabem sair dessas dificuldades de forma maishbil do que eu. Se assim for, ho de poder adotar algum outro mtodoque no o meu. Parece-me, contudo, que quando algum espera comtanta freqncia descobrir-se numa situao embaraosa pelo uso dedeterminada palavra, ser prudente evitar tanto a palavra quanto oembarao. Quando, portanto, minha primeira tentativa no meconduzia nem ao sonambulismo nem a um grau de hipnose queacarretasse modificaes fsicas marcantes, eu abandonava de modoostensivo a hipnose e pedia apenas concentrao; e ordenava aopaciente que se deitasse e deliberadamente fechasse os olhos comomeio de alcanar essa concentrao. possvel que, dessa forma,eu obtivesse com apenas um ligeiro esforo o mais profundo grau dehipnose possvel de ser alcanado naquele caso particular.Mas, ao abrir mo do sonambulismo, talvez me estivesse privando deuma precondio sem a qual o mtodo catrtico no parecia utilizvel,poisesse mtodo era claramente baseado na possibilidade de os 103. pacientes, em seu estado alterado de conscincia, terem acesso slembranas e serem capazes de identificar ligaes que no pareciamestar presentes em seu estado de conscincia normal. Se a extensosonamblica da memria estivesse ausente, tambm no haverianenhuma possibilidade de estabelecer quaisquer causasdeterminantes que o paciente pudesse apresentar ao mdico comoalgo desconhecido para ele (o paciente); e est claro que soprecisamente as lembranas patognicas que, como j tivemosocasio de dizer em nossa Comunicao Preliminar |ver em [1]|, seacham ausentes da lembrana dos pacientes quando em estadopsquico normal, ou s se fazem presentes de forma bastante sumria.Poupei-me desse novo embarao ao me lembrar de que eu prprio viraBernheim dar provas de que as lembranas dos acontecimentosocorridos durante o sonambulismo so apenas aparentementeesquecidas no estado de viglia, e podem ser revividas por meio deuma ordem delicada e de uma presso com a mo, destinada a indicarum estado diferente de conscincia. Ele havia, por exemplo, dado auma mulher em estado de sonambulismo uma alucinao negativa, nosentido de que ele no estava mais presente, e depois se esforavapor chamar a ateno dela para si prprio de diversas maneirasdiferentes, inclusive algumas de natureza decididamente agressiva.No teve sucesso. Depois de ela ser despertada, ele lhe pediu quecontasse o que lhe fizera enquanto ela achava que ele no estavamais l. Surpresa, ela respondeu nada saber a esse respeito. Mas eleno aceitou essa resposta, insistindo em que ela podia recordar-se detudo, e ps a mo em sua testa a fim de ajud-la a lembrar-se. E vejams! Ela acabou por descrever tudo o que aparentemente no haviapercebido durante o sonambulismo e aparentemente no haviarecordado no estado de viglia.Essa surpreendente e instrutiva experincia me serviu de modelo.Resolvi partir do pressuposto de que meus pacientes sabiam tudo oque tinha qualquer significado patognico e que se tratava apenas deuma questo de obrig-los a comunic-lo. Assim, quando alcanavaum ponto em que, depois de formular ao paciente uma pergunta comoH quanto tempo tem este sintoma? ou Qual foi sua origem?,recebia como resposta Realmente no sei, eu prosseguia da seguintemaneira. Colocava a mo na testa do paciente ou lhe tomava a cabeaentre a mos e dizia: Voc pensar nisso sob a presso da minhamo. No momento em que eu relaxar a presso, ver algo sua frente,ou algo aparecer em sua cabea. Agarre-o. Ser o que estamosprocurando. E ento, o que foi que viu ou o que lhe ocorreu?Nas primeiras ocasies em que usei esse mtodo (no foi com Miss 104. Lucy R.), eu prprio me surpreendi ao constatar que ele meproporcionava precisamente os resultados de que eu necessitava. Eposso afirmar com segurana que quase nunca me deixou emdificuldades desde ento. Sempre apontou o caminho que a anlisedeveria seguir e me permitiu conduzir cada uma dessas anlises at ofim sem o emprego do sonambulismo. Afinal fiquei to confiante que,quando os pacientes respondiam no vejo nada ou nada meocorreu, podia descartar essa afirmao como uma impossibilidade eassegurar-lhes que por certo haviam ficado conscientes do que sedesejava, mas se recusavam a acreditar que fosse aquilo e orejeitavam. Dizia-lhes que estava pronto a repetir o mtodo quantasvezes desejassem e que eles veriam a mesma coisa todas as vezes.Invariavelmente, eu tinha razo. Os pacientes ainda no tinhamaprendido a relaxar sua faculdade crtica. Haviam rejeitado alembrana que surgira ou a idia que lhes tinha ocorrido, sob aalegao de que no servia e era uma interrupo irrelevante. E depoisque a relatavam a mim, ela sempre revelava ser aquilo que sedesejava. s vezes, quando aps trs ou quatro presses eu tinha porfim extrado a informao, o pacientereplicava: Alis, eu de fato jsabia disso desde a primeira vez, mas era justamente o que eu noqueria dizer, ou ento, Eu tinha esperana de que no fosse isso.Era trabalhosa essa questo de ampliar o que se supunha ser umaconscincia limitada muito mais trabalhosa, pelo menos, do queuma investigao durante o sonambulismo. No obstante, tornou-seindependente do sonambulismo e me proporcionou uma compreensodos motivos que muitas vezes determinam o esquecimento daslembranas. Posso afirmar que esse esquecimento muitas vezesintencional e desejado, e seu xito nunca mais do que aparente.Achei ainda mais surpreendente, talvez, que pelo mesmo mtodo fossepossvel fazer retornarem nmeros e datas que, a um examesuperficial, h muito tinham sido esquecidos, e assim revelar como amemria pode ser inesperadamente precisa.O fato de, ao procurarmos nmeros e datas, nossa escolha ser tolimitada permite-nos chamar em nosso auxlio uma proposio que nos familiar a partir da teoria da afasia, ou seja, que reconhecer algumacoisa uma tarefa mais leve para a memria do que pensar nelaespontaneamente. Assim, quando o paciente incapaz de recordar-sedo ano, ms ou dia em que um fato particular ocorreu, podemosrepetir-lhe os nmeros dos anos possivelmente relevantes, os nomesdos doze meses e os trinta e um nmeros dos dias do ms,assegurando-lhe que, quando chegarmos ao nmero certo, ou aonome certo, seus olhos se abriro por sua livre vontade ou ele sentirqual o certo. Na grande maioria dos casos, de fato o paciente se 105. decide por uma data particular. Com grande freqncia (como no casoda Sra. Caecilie M.) possvel comprovar, por documentos do perodoem questo, que a data foi reconhecida de forma correta, enquanto emoutros casos e em outras ocasies a indiscutvel exatido da dataescolhida pode ser inferida pelo contexto dos fatos recordados. Porexemplo, depois que uma paciente teve sua ateno atrada para adata a que se tinha chegado por esse mtodo de contagem, eladisse: Ora, esse o aniversrio do meu pai! e acrescentou: claro!foi por ser aniversrio dele que eu estava esperando o acontecimentode que estvamos falando.Aqui, s de passagem posso tocar nesse tema. A concluso que extrade todas essas observaes foi que as experincias quedesempenharam um papel patognico importante, junto com todos osseus concomitantes secundrios, so retidas com exatido na memriado paciente, mesmo quando parecem ter sido esquecidas quandoele incapaz de relembr-las.Aps essa longa mais inevitvel digresso, voltarei ao caso de MissLucy R. Como disse, portanto, minhas tentativas de hipnose com elano produziram o sonambulismo. Ela simplesmente ficava deitada,quieta, num estado acessvel a um discreto grau de influncia, com osolhos fechados o tempo todo, as feies um pouco rgidas e semmexer nem as mos nem os ps. Perguntei-lhe se conseguialembrar-se da ocasio em que sentira pela primeira vez o cheiro depudim queimado. Ah, sim, sei exatamente. Foi h uns dois meses,dois dias antes do meu aniversrio. Estava com as crianas na sala deaula e brincava de cozinhar com elas (eram duas meninas). Chegou uma carta que acabara de ser entregue pelo carteiro. Vi pelocarimbo postal e pela letra que era da minha me, em Glasgow, equeria abri-la e l-la, mas as crianas se precipitaram sobre mim,arrancaram a carta de minhas mos e gritaram: No, voc no vai leragora! Deve ser pelo seu aniversrio, vamos guardar a carta paravoc! Enquanto as crianas faziam essa brincadeira comigo, houve derepente um cheiro forte. Elas haviam esquecido o pudim que estavamassando, e ele estava queimando. Desde ento tenho sido perseguidapelo cheiro, que est sempre presente e fica mais forte quando estouagitada. Voc v essa cena com nitidez diante de seus olhos? Emtamanho natural, exatamente como a experimentei. Que poderiahaver a respeito dela que fosse to perturbador? Fiqueiemocionada porque as crianas foram muito afetuosas comigo. Eno o eram sempre? Sim mas justamente quando recebi a cartade minha me. Nocompreendo por que h um contraste entre a 106. afeio das crianas e a carta de sua me, pois o que voc pareceestar sugerindo. Eu estava pretendendo voltar para a casa deminha me, e pensar em deixar aquelas crianas queridas me deixavamuito triste. Qual o problema com sua me? Tem se sentidosozinha e mandou buscar voc? Ou estava doente na ocasio, e vocesperava notcias dela? No; ela no muito forte, mas no estexatamente doente, e tem algum que lhe faz companhia. Entopor que voc precisava deixar as crianas? No podia maissuportar ficar naquela casa. A empregada, a cozinheira e a governantafrancesa pareciam pensar que eu me estava colocando acima do meulugar. Aliaram-se numa pequena intriga contra mim e disseram todaespcie de coisas a meu respeito ao av das crianas, e no obtivetanto apoio quanto esperava dos dois cavalheiros quando me queixei aeles. Assim, notifiquei o Diretor (o pai das crianas) de que pretendia irembora. Ele respondeu de maneira muito amvel que seria melhor eupensar mais sobre o assunto durante umas duas ou trs semanas,antes de dar-lhe minha deciso final. Eu estava nessa situao deincerteza na poca e achava que iria deixar a casa, mas acabeificando. Havia algo em particular, afora a afeio delas por voc,que a ligasse s crianas? Havia. A me delas era parentedistante da minha me, e eu lhe prometera em seu leito de morte queme devotaria com todas as minhas foras s crianas, que no asdeixaria e que ocuparia o lugar da me junto a elas. Ao dar anotificao de minha sada eu havia quebrado essa promessa.Isso pareceu completar a anlise da sensao objetiva de cheiroapresentada pela paciente. De fato, ela mostrara ter sido, em suaorigem, uma sensao objetiva, intimamente associada a umaexperincia uma pequena cena em que dois afetos antagnicostinham estado em conflito: sua tristeza por deixar as crianas e asdesconsideraes que, no obstante, a estavam impelindo a decidir-sepor aquele curso de ao. A carta da me naturalmente a havia feitorelembrar suas razes para tomar essa deciso, visto que era suainteno juntar-se a ela ao partir. O conflito entre seus afetospromovera o momento da chegada da carta categoria de um trauma,e a sensao de cheiro associada a esse trauma persistiu como seusmbolo. Ainda era necessrio explicar por que, de todas aspercepes sensoriais proporcionadas pela cena, ela havia escolhidoaquele odor como smbolo. Eu j estava preparado, contudo, pararecorrer afeco crnica do nariz de minha paciente para ajudar aexplicar esse ponto. Em resposta a uma pergunta direta, disse-me que,justamente naquela poca, estava mais uma vez com um resfriadonasal to forte que mal podia sentir o cheiro do que quer que fosse.Entretanto, quando em seu estado de agitao, percebeu o cheiro 107. dopudim queimado, que transps a barreira da perda organicamentedeterminada de seu sentido de olfato.Mas no fiquei satisfeito com a explicao assim alcanada. Tudoparecia muito plausvel, mas havia algo que me escapava, algumarazo adequada por que essas agitaes e esse conflito de afetoslevaram histeria, e no a qualquer outra coisa. Por que tudo nohavia permanecido no nvel da vida psquica normal? Em outraspalavras, qual era a justificativa para a converso que havia ocorrido?Por que ela no se recordava sempre da prpria cena, em vez dasensao associada que ela isolava como o smbolo da lembrana?Tais questes poderiam parecer curiosas demais e suprfluas, seestivssemos lidando com uma histrica de longa data em quem omecanismo da converso fosse habitual. Mas no fora seno quandodo advento desse trauma, ou pelo menos dessa pequena histria deperturbaes, que a moa ficara histrica.Ora, eu j sabia, pela anlise de casos semelhantes, que antes de ahisteria poder ser adquirida pela primeira vez, uma condio essencialprecisa ser preenchida: uma representao precisa serintencionalmente recalcada da conscincia e excluda dasmodificaes associativas. Em minha opinio, esse recalcamentointencional constitui tambm a base para a converso total ou parcialda soma de excitao. A soma de excitao, estando isolada daassociao psquica, encontra ainda com mais facilidade seu caminhopela trilha errada para a inervao somtica. A base do prpriorecalcamento s pode ser uma sensao de desprazer, umaincompatibilidade entre a representao isolada a ser recalcada e amassa dominante de representaes que constituem o ego. Arepresentao recalcada vinga-se, contudo, tornando-se patognica.Por conseguinte, do fato de Miss Lucy R. ter sucumbido conversohistrica no momento em questo, inferi que, entre os determinantesdo trauma, devia ter havido um que ela intencionalmente procuraradeixar na obscuridade e se esforara por esquecer. Se sua afeiopelas crianas e sua sensibilidade em relao aos outros membros dacasa fossem consideradas em conjunto, s se poderia tirar umaconcluso. Fui ousado o bastante para informar minha paciente dessainterpretao. Disse-lhe: No consigo conceber que essas sejamtodas as razes para seus sentimentos a respeito das crianas. Creioque, na verdade, voc est apaixonada por seu patro, o Diretor,embora talvez sem que voc prpria esteja consciente disso, e quenutre a esperana secreta de tomar de verdade o lugar da me delas.Edevemos tambm recordar a sensibilidade que voc agora tem emrelao s criadas, aps ter vivido pacificamente com elas duranteanos. Voc teme que elas suspeitem de suas esperanas e se divirtam 108. sua custa.Ela respondeu em seu habitual estilo lacnico: Sim, acho que isso verdade. Mas, se voc sabia que amava seu patro, por que nome disse? No sabia ou melhor, no queria saber. Queria tirarisso de minha cabea e no pensar mais no assunto, e creio queultimamente tenho conseguido. Por que foi que voc no estavadisposta a admitir essa inclinao? Estava envergonhada de amar umhomem? De forma alguma, no sou assim to pudica. De qualquerforma, no somos responsveis por nossos sentimentos. Isso me foiaflitivo apenas porque ele meu patro e estou a seu servio, morandoem sua casa. No sinto em relao a ele a mesma independnciacompleta que sentiria em relao a qualquer outro. E depois, souapenas uma moa pobre, e ele um homem muito rico e de boafamlia. As pessoas iriam rir de mim se tivessem alguma idia disso.A essa altura, ela no ops nenhuma resistncia a esclarecer a origemdessa inclinao. Disse-me que nos primeiros anos vivera feliz nacasa, cumprindo com seus deveres e livre de quaisquer desejosirrealizveis. Um dia, porm, seu patro, um homem srio esobrecarregado de trabalho, cujo comportamento em relao a elasempre fora reservado, iniciou uma discusso sobre os moldes em queas crianas deveriam ser educadas. Ele foi menos formal e maiscordial do que de costume e lhe disse o quanto dependia dela paracuidar de seus filhos rfos; e ao dizer isso, olhou-a de modosignificativo O amor da jovem por ele havia comeado nessemomento, e ela se permitira at mesmo apoiar-se nas esperanasgratificantes que havia baseado nessa conversa. Mas quando nohouve nenhum outro progresso, e depois de esperar em vo por outrahora ntima de troca de opinies, ela decidiu banir tudo aquilo damente. Miss Lucy concordou inteiramentecomigo em que era provvelque o olhar por ela notado durante a conversa havia brotado dospensamentos dele sobre a esposa, e reconheceu de maneira bemclara que no havia nenhuma perspectiva de que seus sentimentos porele fossem de algum modo correspondidos.Esperava que essa conversa trouxesse uma modificao fundamentalem seu estado, mas por algum tempo isso no se verificou. Elacontinuou desanimada e deprimida. Sentia-se um pouco revigoradapela manh, graas ao tratamento hidroptico que eu lhe receitara aomesmo tempo. O cheiro de pudim queimado no desapareceu porcompleto, embora se tornasse menos freqente e mais fraco. Saparecia, disse-me ela, quando ficava extremamente agitada. Apersistncia desse smbolo mnmico levou-me a suspeitar que, almda cena principal, ele havia assumido a representao dos numerosostraumas secundrios associados quela cena. Assim, procuramos 109. alguma outra coisa que pudesse ter relao com o pudim queimado;penetramos na questo do atrito domstico, do comportamento do ave assim por diante, e medida que o fazamos o cheiro de queimadofoi-se dissipando cada vez mais. Tambm durante essa poca otratamento foi interrompido por um tempo considervel, graas a umnovo ataque de seu distrbio nasal, que levou ento descoberta dacrie do etmide |ver em [1]|.Ao retornar, contou ela que no Natal recebera muitos presentes dosdois cavalheiros da casa e at das empregadas, como se todosestivessem ansiosos por fazer as pazes com ela e apagar de sualembrana os conflitos dos ltimos meses. Mas esses sinais de boasintenes no haviam causado nenhuma impresso nela.Quando lhe perguntei mais uma vez sobre o cheiro de pudimqueimado, ela me informou que ele havia desaparecido, mas queagora vinha sendo importunada por outro cheiro semelhante, parecidocom o de fumaa de charuto. Esse cheiro tambm estivera presenteantes, mas fora encoberto, por assim dizer, pelo cheiro do pudim.Agora aparecera por si mesmo.No fiquei muito satisfeito com os resultados do tratamento. O queacontecera fora exatamente o que sempre se consegue com umtratamento sintomtico: eu apenas eliminara um sintoma s para queseu lugar fosse ocupado por outro. Entretanto, no hesitei emdedicar-me tarefa de eliminar esse novo smbolo mnmico atravs daanlise.Mas dessa vez ela no sabia de onde provinha a sensao olfativasubjetiva em que ocasio importante ela fora uma sensaoobjetiva. Todos os dias as pessoas fumam em nossa casa, disse, erealmente no sei se o cheiro que sinto se refere a alguma ocasioespecial. Insisti ento em que ela tentasse recordar sob a presso deminha mo. J tive oportunidade de mencionar |ver em [1]| que suaslembranas possuam a qualidade de uma nitidez plstica, que ela eraum tipo visual. E de fato, por insistncia minha, um quadro surgiugradativamente diante dela, a princpio de maneira hesitante efragmentada. Era a sala de jantar de sua casa, onde ela esperava comas crianas que os dois cavalheiros voltassem da fbrica para almoar.Agora estamos todos sentados mesa: os cavalheiros, a governantafrancesa, a empregada, as crianas e eu. Mas isso o que acontecetodos os dias. Continue a olhar para o quadro; ele se desenvolvere ficar mais especfico. Sim, h um convidado. ocontador-chefe. um senhor e to afeioado s crianas como sefossem seus prprios netos. Mas ele vem tantas vezes almoar quetambm no h nada de especial nisso. Tenha pacincia econtinue a olhar para o quadro; certo que acontecer alguma coisa. 110. No est acontecendo nada. Estamos nos levantando da mesa; ascrianas se despedem e sobem conosco, como de costume, para osegundo andar. E ento? Ora, afinal de contas uma ocasioespecial. Agora reconheo a cena. Quando as crianas se despedem,o contador tenta beij-las. Meu patro se exalta e chega a gritar comele: No beije as crianas! Sinto uma punhalada no corao, e comoos cavalheiros j esto fumando, a fumaa dos charutos fica em minhamemria.Essa, portanto, era uma segunda cena, mais profunda, que semelhana da primeira funcionou como um trauma e deixou atrs desi um smbolo mnmico. Mas a que essa cena devera sua eficcia? Qual das duas cenas foi a primeira, perguntei, essa ou a do pudimqueimado? A cena que acabo de lhe contar foi a primeira, comuma diferena de quase dois meses. Ento por que voc sentiuessa punhalada quando o pai das crianas deteve o velho? Areprimenda dele no visava a voc. No foi certo da parte delegritar com um senhor idoso, que era um bom amigo e, ainda por cima,um convidado. Ele poderia ter dito aquilo com delicadeza. Entofoi s a violncia com que ele se expressou que magoou voc? Vocse sentiu constrangida por ele? Ou talvez tenha pensado: Se ele podeser to violento por uma coisa to insignificante com um velho amigo econvidado, quanto mais seria comigo se eu fosse mulher dele. No, no isso. Mas teve algo a ver com a violncia dele, nofoi? Teve, em relao ao fato de as crianas serem beijadas. Elejamais gostou disso.E nesse momento, sob a presso de minha mo, emergiu a lembranade uma terceira cena, ainda mais antiga, que fora o trauma realmenteatuante e que dera cena com o contador-chefe sua eficciatraumtica. Ainda acontecera, alguns meses antes, que uma senhoraconhecida do patro fora visit-los e, ao sair, beijara as duas crianasna boca. O pai delas, que se achava presente, conseguira refrear-separa no dizer nada senhora, mas depois que ela havia partido, suafria explodira sobre a cabea da infeliz governanta. Disse que aresponsabilizaria se algum beijasse as crianas na boca, que era seudever no permitir tal coisa e que ela estaria incidindo numa falta paracom seu dever se o permitisse; se aquilo acontecesse de novo, eleconfiaria a educao das crianas a outras mos. Isso haviaacontecido numa ocasio em que Miss Lucy ainda supunha que ele aamava, e estava na expectativa de uma repetio de sua primeiraconversa amistosa. A cena esmagara suas esperanas. Ela disseraconsigo mesma: Se ele pode enfurecer-se comigo dessa maneira efazer tais ameaas por um assunto to banal, e em relao ao qual,alm disso, no tenho a mnima responsabilidade, devo ter cometido 111. um erro. Ele no pode jamais ter tido quaisquer sentimentos ternos pormim, seno eles o teriam ensinado a tratar-me com maiorconsiderao. Foi obviamente a lembrana dessa cena aflitiva que lheveio quando o contador-chefe tentou beijar as crianas e foirepreendido pelo pai destas ltimas.Depois dessa ltima anlise, quando, dois dias depois, Miss Lucytornou a me visitar, no pude deixar de lhe perguntar o que lheacontecera para deix-la to feliz. Parecia transfigurada. Estavasorridente e de cabea erguida. Pensei por um momento que, afinal decontas, eu estava errado sobre a situao e a governanta das crianastinha ficado noiva do Diretor. Mas ela desfez essa minha idia. Noaconteceu nada. Ocorre apenas que o senhor no me conhece. Osenhor s me viu doente e deprimida. Em geral, sou sempre alegre.Quando acordei ontem pela manh, no sentia mais aquele peso nacabea, e desde ento tenho-me sentido bem. E o que acha desuas perspectivas na casa? Tenho uma idia bem clara sobre oassunto. Sei que no tenho nenhuma possibilidade e no vou ficarinfeliz por isso. E ser que agora vai se dar bem com osempregados? Acho que minha prpria sensibilidade exagerada foia responsvel pela maior parte do que aconteceu. E voc aindaest apaixonada por seu patro? Sim, claro que estou, mas issono faz nenhuma diferena. Afinal, posso guardar comigo meusprprios pensamentos e sentimentos.Examinei-lhe ento o nariz e verifiquei que sua sensibilidade dor esua excitabilidade reflexa tinham sido quase inteiramente restauradas.Ela tambm conseguia distinguir os odores, embora com inseguranae apenas se fossem fortes. Cabe-me deixar em aberto, contudo, aquesto de saber at que ponto seu distrbio nasal terdesempenhado um papel na reduo de seu sentido do olfato.Esse tratamento durou ao todo nove semanas. Quatro meses depoisencontrei-me por acaso com a paciente numa de nossas estaes deveraneio. Estava animada e assegurou-me que sua recuperao foraduradoura.DISCUSSONo estou inclinado a subestimar a importncia do caso que acabo dedescrever, muito embora a paciente s estivesse sofrendo de umahisteria leve e benigna e houvesse apenas poucos sintomas em jogo.Pelo contrrio, parece-me um fato instrutivo que mesmo uma doenacomo essa, to improdutiva quando encarada como uma neurose,exigisse tantos determinantes psquicos. Na realidade, quando 112. considero esse caso clnico mais detidamente, fico tentado a v-locomo um modelo exemplar de um tipo particular de histeria, ou seja, aforma dessa molstia que pode ser contrada mesmo por uma pessoade boa hereditariedade, como resultado de experincias apropriadas.Deve-se compreender que no me refiro, com isso, a uma histeriaindependente de qualquer predisposio j existente. provvel quetal histeria no exista. Mas s reconhecemos uma predisposio dessanatureza numa pessoa depois que ela se torna de fato histrica, poisantes disso no h provas da sua existncia. A predisposioneuroptica, tal como genericamente compreendida, diferente. Jest marcada, antes da instalao da doena, pelo quantum dacontaminao hereditria do sujeito ou pela soma de suasanormalidades psquicas individuais. At onde vo minhasinformaes, no havia em Miss Lucy R. nenhum trao de qualquerdesses fatores. Sua histeria, portanto, pode ser descrita comoadquirida, e no pressups nada alm da posse do que ,provavelmente, uma tendncia muito difundida a tendncia paraadquirir a histeria. Ainda no temos quase nenhuma idia de quaispossam ser as caractersticas dessa tendncia. Nos casos dessaespcie, contudo, a nfase principal recai na natureza do trauma,embora, claro, considerada em conjunto com a reao do sujeito aomesmo. Para a aquisio da histeria, vem a ser um sine qua non odesenvolvimento de uma incompatibilidade entre o ego e alguma idiaa ele apresentada. Espero ter a possibilidade de indicar, em outrotexto, como diferentes perturbaes neurticas emergem dos diversosmtodos adotados pelo ego para escapar a essa incompatibilidade. Omtodo histrico de defesa para o qual, como vimos, necessria aposse de uma tendncia especfica reside na converso daexcitao em uma inervao somtica; e a vantagem disso que aidia incompatvel forada para fora do ego consciente. Em troca,essa conscincia guarda ento a reminiscncia fsica surgida por meioda converso (em nosso caso, as sensaes subjetivas de olfato dapaciente) e sofre por causa do afeto que se acha de forma mais oumenos clara ligado precisamente quela reminiscncia. A situaoassim provocada passa ento a no ser suscetvel de modificao,pois a incompatibilidade que teria exigido uma eliminao do afeto noexiste mais, graas ao recalque e converso. Assim, o mecanismoque produz a histeria representa, por um lado, um ato de covardiamoral e, por outro, uma medida defensiva que se acha disposio doego. Com bastante freqncia temos de admitir que rechaar asexcitaes crescentes provocando a histeria , nessas circunstncias,a coisa mais conveniente a fazer; com maior freqncia, naturalmente,temos que concluir que uma dose maior de coragem moral teria sido 113. vantajosa para a pessoa em causa.O momento traumtico real, portanto, aquele em que aincompatibilidade se impe sobre o ego e em que este ltimo deciderepudiar a idia incompatvel. Essa idia no aniquilada por talrepdio, mas apenas recalcada para o inconsciente. Quando esseprocesso ocorre pela primeira vez, passa a existir um ncleo e centrode cristalizao para a formao de um grupo psquico divorciado doego um grupo em torno do qual tudo o que implicaria uma aceitaoda idia incompatvel passa ento a se reunir. A diviso da conscincianesses casos de histeria adquirida , portanto, deliberada eintencional. Pelo menos, muitas vezes introduzida por um ato devolio, pois o resultado real um pouco diferente do que o indivduopretendia. O que ele desejava era eliminar uma idia, como se jamaistivesse surgido, mas tudo o que consegue fazer isol-lapsiquicamente.Na histria de nossa atual paciente, o momento traumtico foi o daexploso do patro contra ela porque as crianas foram beijadas pelasenhora. Por algum tempo, contudo, essa cena no teve nenhum efeitomanifesto. (Pode ser que a hipersensibilidade e o desnimo dapaciente tenham comeando a partir dela, mas no posso afirm-lo.)Seus sintomas histricos s comearam depois, em momentos quepodem ser descritos como auxiliares. O trao caracterstico domomento auxiliar , creio eu, que os dois grupos psquicos divididosconvergem temporariamente para ele, como fazem na conscinciaampliada que ocorre no sonambulismo. No caso de Miss Lucy R., oprimeiro dos momentos auxiliares, no qual ocorreu a converso, foi acena mesa, quando o contador-chefe tentou beijar as crianas. Aquia lembrana traumtica estava desempenhando um papel: a pacienteno se comportou como se se tivesse livrado de tudo o que serelacionava com sua dedicao ao patro. (Na histria de outroscasos, esses diferentes momentos coincidem; a converso ocorrecomo efeito imediato do trauma.)O segundo momento auxiliar repetiu o mecanismo do primeiro deforma quase exata. Uma impresso poderosa reagrupoutemporariamente a conscincia da paciente, e a converso mais umavez seguiu a trilha que se abrira na primeira ocasio. interessantenotar que o segundo sintoma a se desenvolver camuflou o primeiro, demodo que este s foi percebido com clareza quando o segundo foiretirado do caminho. Tambm me parece que vale a pena fazer umaobservao sobre o curso inverso que teve de ser seguido tambmpela anlise. Tive a mesma experincia num grande nmero de casos;os sintomas surgidos posteriormente camuflaram os primeiros, e achave de toda a situao estava apenas no ltimo sintoma a ser 114. alcanado pela anlise.O processo teraputico, neste caso, consistiu em compelir o grupopsquico que fora dividido a se reunir mais uma vez com a conscinciado ego. Estranhamente, o xito no acompanhou pari passu o volumede trabalho realizado. Foi s quando a ltima tarefa foi concluda quede repente ocorreu a recuperao. 115. CASO 4 - KATHARINA - (FREUD)Nas frias de vero do ano de 189.. fiz uma excurso ao Hohe Tauernpara que por algum tempo pudesse esquecer a medicina e, maisparticularmente, as neuroses. Quase havia conseguido isso quando,um belo dia, desviei-me da estrada principal para subir uma montanhaque ficava um pouco afastada e que era renomada por suas vistas esua cabana de hospedagem bem administrada. Alcancei o cimo apsuma subida estafante e, sentindo-me revigorado e descansado,sentei-me, mergulhando em profunda contemplao do encanto dopanorama distante. Estava to perdido em meus pensamentos que, aprincpio, no relacionei comigo estas palavras, quando alcanarammeus ouvidos: O senhor mdico? Mas a pergunta fora endereadaa mim, e pela moa de expresso meio amuada, de talvez dezoitoanos de idade, que me servira a refeio e qual a proprietria sedirigira pelo nome de Katharina. A julgar por seus trajes e seu porte,no podia ser uma empregada, mas era sem dvida filha ou parenta dahospedeira.Voltando a mim, respondi:Sim, sou mdico, mas como voc soube disso?O senhor escreveu seu nome no livro de visitantes. E pensei que, seo senhor pudesse dispor de alguns momentos A verdade, senhor, que meus nervos esto ruins. Fui ver um mdico em L por causadeles, e ele me receitou alguma coisa, mas ainda no estou boa.Assim, l estava eu novamente s voltas com as neuroses poisnada mais poderia haver de errado com aquela moa de constituioforte e slida e de aparncia tristonha. Fiquei interessado ao constatarque as neuroses podiam florescer assim, a uma altitude superior a2.000 metros; portanto, fiz-lhe outras perguntas. Relato a conversa quese seguiu entre ns tal como ficou gravada em minha memria, e noalterei o dialeto da paciente.Bem, e de que que voc sofre?Sinto muita falta de ar. Nem sempre. Mas s vezes ela me apanhade tal forma que acho que vou ficar sufocada.Isso no pareceu, primeira vista, um sintoma nervoso. Mas logo meocorreu que provavelmente era apenas uma descrio representandoumacrise de angstia: ela estava destacando a falta de ar do complexode sensaes que decorrem da angstia e atribuindo uma importnciaindevida a esse fator isolado.Sente-se aqui. Como so as coisas quando voc fica sem ar?Acontece de repente. Antes de tudo, parece que h alguma coisapressionando meus olhos. Minha cabea fica muito pesada, h umzumbido horrvel e fico to tonta que quase chego a cair. Ento alguma 116. coisa me esmaga o peito a tal ponto que quase no consigo respirar.E no nota nada na garganta?Minha garganta fica apertada, como se eu fosse sufocar.Acontece mais alguma coisa na cabea?Sim, umas marteladas, o bastante para faz-la explodir.E no se sente nem um pouco assustada quando isso acontece?Sempre acho que vou morrer. Em geral, sou corajosa e andosozinha por toda parte, desde o poro at a montanha inteira. Mas nodia em que isso acontece no ouso ir a parte alguma; fico o tempo todoachando que h algum atrs de mim que vai me agarrar de repente.Portanto, era de fato uma crise de angstia, e introduzida pelos sinaisde uma aura histrica ou, mais corretamente, era um ataquehistrico cujo contedo era a angstia. Mas no seria provvel quehouvesse tambm outro contedo?Quando voc tem uma dessas crises, pensa em alguma coisa? Esempre a mesma coisa? Ou v alguma coisa diante de voc?Sim. Sempre vejo um rosto medonho que me olha de uma maneiraterrvel, de modo que fico assustada.Talvez isso pudesse oferecer um meio rpido de chegarmos ao cerneda questo.Voc reconhece o rosto? Quero dizer, um rosto que realmente jviu alguma vez?No.Sabe de onde vm as suas crises?No.Quando as teve pela primeira vez?H dois anos, quando ainda morava na outra montanha com minhatia. (Ela dirigia uma cabana de hospedagem e ns nos mudamos parac h dezoito meses.) Mas elas continuam a acontecer.Deveria eu fazer uma tentativa de anlise? No podia aventurar-meatransplantar a hipnose para essas altitudes, mas talvez tivessesucesso com uma simples conversa. Teria que arriscar um bompalpite. Eu havia constatado com bastante freqncia que, nas moas,a angstia era conseqncia do horror de que as mentes virginais sotomadas ao se defrontarem pela primeira vez com o mundo dasexualidade.Ento disse-lhe:Se voc no sabe, vou dizer-lhe como eu penso que voc passou ater seus ataques. Nessa ocasio, h dois anos, voc deve ter visto ououvido algo que muito a constrangeu e que teria preferido muitssimono ver.Cus, isso mesmo! respondeu. Foi quando surpreendi meutio com a moa, com Franziska, minha prima. 117. Que histria essa sobre uma moa? No vai me contar?Suponho que se pode contar tudo a um mdico. Bem, naquelapoca, o senhor sabe, meu tio, o marido de minha tia que o senhor viuaqui, tinha a estalagem na kogel. Agora eles esto divorciados, e aculpa minha, pois foi atravs de mim que se veio a saber que eleestava andando com Franziska.E como voc descobriu isso?Foi assim. Um dia, h dois anos, uns cavalheiros tinham subido amontanha e pediram alguma coisa para comer. Minha tia no estavaem casa, e Franziska, que era quem sempre cozinhava, no foiencontrada em parte alguma. E meu tio tambm no foi encontrado.Procuramos por toda parte, e finamente Alois, o garotinho que era meuprimo, disse: Ora, Franziska deve estar no quarto de papai! E ambosrimos, mas no estvamos pensando em nada de mau. Fomos entoao quarto do meu tio, mas o encontramos trancado. Isso me pareceuestranho. Ento Alois disse: H uma janela no corredor de onde sepode olhar para dentro do quarto. Dirigimo-nos para o corredor, masAlois recusou-se a ir at a janela e disse que estava com medo. Ento,eu falei: Seu menino bobo! Eu vou. No tenho o menor medo. E notinhanada de mau na mente. Olhei para dentro. O quarto estava umpouco escuro, mas vi meu tio e Franziska; ele estava deitado em cimadela.E ento?Afastei-me da janela imediatamente, apoiei-me na parede e fiqueisem ar, justamente o que me acontece desde ento. Tudo ficou opaco,minhas plpebras se fecharam fora e havia marteladas e umzumbido em minha cabea.Voc contou isso a sua tia no mesmo dia?Oh, no, no disse nada.Ento por que ficou to assustada quando os viu juntos? Vocentendeu? Sabia o que estava acontecendo?Oh, no. No compreendi nada naquela ocasio. Tinha apenasdezesseis anos. No sei por que me assustei.Srta. Katharina, se pudesse lembrar-se agora do que lhe aconteceunaquela ocasio em que teve sua primeira crise, no que pensou sobreo fato isso a ajudaria.Sim, se pudesse. Mas fiquei to assustada que me esqueci de tudo.(Traduzido na terminologia de nossa Comunicao Preliminar |ver em[1]|, isso significa: O prprio afeto criou um estado hipnide cujosprodutos foram ento isolados da ligao associativa com aconscincia do ego.)Diga-me, senhorita, ser que a cabea que voc sempre v quandofica sem ar a de Franziska, tal como a viu naquele momento? 118. No, no, ela no era to horrvel. Alm disso, uma cabea dehomem.Ou talvez a de seu tio?No vi o rosto dele assim com tanta clareza. Estava escuro demaisno quarto. E por que estaria fazendo uma cara to medonhaexatamente naquela hora?Voc tem toda razo.(O caminho de repente pareceu bloqueado. Talvez algo pudesse surgirno restante de sua histria.)E o que aconteceu depois?Bem, os dois devem ter ouvido algum rudo, porque saram logo emseguida. Senti-me muito mal o tempo todo. Ficava sempre pensandonaquilo. Ento, dois dias depois, era domingo, havia muito o que fazer,e trabalhei o dia inteiro. E na manh de segunda-feira tornei a mesentir tonta e ca doente, fiquei acamada por trs dias seguidos.Ns |Breuer e eu| muitas vezes havamos comparado a sintomatologiada histeria com uma escrita pictogrfica que se torna inteligvel apsadescoberta de algumas inscries bilnges. Nesse alfabeto, estardoente significa repulsa. Ento eu disse:Se voc ficou doente trs dias depois, creio que isso significa quequando olhou para dentro do quarto sentiu repulsa.Sim, tenho certeza de que senti repulsa disse ela, pensativa ,mas repulsa de qu?No ter visto algum nu, talvez? Como estavam eles?Estava muito escuro para ver qualquer coisa; alm disso, ambosestavam vestidos. Oh, se pelo menos soubesse do que foi que sentinojo!Eu tambm no tinha nenhuma idia. Mas disse-lhe que continuasse eque me contasse qualquer coisa que lhe ocorresse, na confianteexpectativa de que ela viesse a pensar exatamente no que euprecisava para explicar o caso.Bem, ela passou a descrever como afinal havia contado suadescoberta tia, que a achou mudada e suspeitou que estivesseescondendo algum segredo. Seguiram-se algumas cenas muitodesagradveis entre o tio e a tia, no decorrer das quais as crianasvieram a ouvir muitas coisas que lhes abriram os olhos de vriasmaneiras e que teria sido melhor que no tivessem ouvido. Finalmente,a tia resolveu mudar-se com os filhos e a sobrinha e ficar com a atualestalagem, deixando o tio sozinho com Franziska, que entrementesficara grvida. Depois disso, contudo, para minha surpresa, Katharinaabandonou o fio da meada e comeou a me contar dois grupos dehistrias mais antigas, que retrocediam a dois ou trs anos antes domomento traumtico. O primeiro grupo relacionava-se com ocasies 119. em que o mesmo tio fizera investidas sexuais contra ela prpria,quando estava com apenas quatorze anos. Ela descreveu como, certafeita, fora com ele numa viagem at o vale, no inverno, e ali passara anoite na estalagem. Ele ficou no bar bebendo e jogando cartas, masela sentiu sono e foi cedo para a cama, no quarto que iam partilhar noandar de cima. No estava ainda inteiramente adormecida quando elesubiu; depois, tornou a adormecer e acordou de repente, sentindo ocorpo dele na cama. Deu um salto e admoestou-o: O que que osenhor est pretendendo, tio? Por que no fica na sua prpria cama?Ele tentou apazigu-la: Ora, sua bobinha, fique quieta. Voc no sabecomo bom. No gosto de suas coisas boas; o senhor nem aomenos deixa a gente dormir em paz. Ela ficou de p na porta, pronta ase refugiar no corredor do lado de fora, at que finalmente ele desistiue foi dormir. Ento ela voltou para sua prpria cama e dormiu at demanh. Pela maneira como relatou ter-se defendido, parece que elano reconheceu nitidamente a investida como sendo de ordem sexual.Quando lhe pergunteise sabia o que ele estava tentando fazer com ela,respondeu: No naquela ocasio. Disse ento que isso lhe ficaraclaro muito depois: resistira porque era desagradvel ser perturbadadurante o sono e porque no era bom.Fui obrigado a relatar isso minuciosamente por causa de sua grandeimportncia para a compreenso de tudo o que se seguiu. Ela passoua relatar-me ainda outras experincias um pouco posteriores: comomais uma vez teve de defender-se dele numa estalagem, quando eleestava inteiramente bbado, e histrias semelhantes. Em resposta auma pergunta para saber se, nessas ocasies, sentira algo semelhantea sua posterior falta de ar, ela respondeu com firmeza que em todas asocasies sentira a presso nos olhos e no peito, mas nada semelhante fora que havia caracterizado a cena da descoberta.Logo aps ter terminado esse conjunto de lembranas, ela comeou ame contar um segundo conjunto, que se relacionava com ocasies emque notara algo entre o tio e Franziska. Uma vez, toda a famliapassara a noite, com a roupa que trazia no corpo, num palheiro, e elafora subitamente despertada por um rudo; pensou ter reparado que otio, que estivera deitado entre ela e Franziska, se afastava, e queFranziska estava acabando de se deitar. De outra feita, passavam anoite numa estalagem na aldeia de N; ela e o tio estavam numquarto, e Franziska, num outro contguo. Ela acordou de repentedurante a noite e viu uma figura alta e branca na porta, prestes a girara maaneta: Deus do cu, o senhor, tio? O que est fazendo naporta? Fique quieta. Estava s procurando uma coisa. Mas asada pela outra porta. , foi um engano meu e assim pordiante. 120. Perguntei-lhe se ficara desconfiada nessa ocasio. No, no deinenhuma importncia quilo; apenas notei e no pensei mais noassunto.Quando lhe perguntei se tinha ficado assustada tambm nessasocasies, respondeu que achava que sim, mas no estava to certadisso.Ao fim desses dois conjuntos de lembranas, ela parou. Pareciaalgum que tivesse passado por uma transformao. O rosto amuadoe infeliz ficara animado, os olhos brilhavam, sentia-se leve e exultante.Entrementes, a compreenso de seu caso tornara-se clara para mim. Altima parte do que me contara, numa forma aparentemente semsentido, proporcionou uma admirvel explicao de seucomportamento na cena da descoberta. Naquela ocasio, elacarregava consigo dois conjuntos de experincias de que se recordavamas que no compreendia, e das quais no havia extrado nenhumainferncia. Quando vislumbrou o casal no ato sexual, estabeleceu deimediato uma ligao entre a nova impresso e aqueles dois conjuntosde lembranas, comeou a compreend-los e, ao mesmo tempo, arecha-los. Seguiu-seento um curto perodo de elaborao, deincubao, aps o qual os sintomas de converso se instalaram, comos vmitos funcionando como um substituto para a repulsa moral efsica. Isto solucionou o enigma. Ela no sentira repulsa pela viso dasduas pessoas, mas pela lembrana que aquela viso despertara. E,levando tudo em conta, esta s poderia ser a lembrana da investidacontra ela na noite em que sentira o corpo do tio.Assim, quando ela terminou sua confisso, eu lhe disse:Sei agora o que foi que voc pensou ao olhar para dentro do quarto:Agora ele est fazendo com ela o que queria fazer comigo naquelanoite e nas outras vezes. Foi disso que voc sentiu repulsa, porquelembrou-se da sensao de quando despertou durante a noite e sentiuo corpo dele. bem possvel respondeu que tenha sido isso o que mecausou repulsa e que tenha sido nisso que pensei.Diga-me s mais uma coisa. Voc agora uma moa crescida esabe toda espcie de coisasSim, agora eu sou.Diga-me apenas uma coisa. Qual foi a parte do corpo dele que vocsentiu naquela noite?Mas ela no me deu mais nenhuma resposta definida. Sorriu demaneira constrangida, como se tivesse sido apanhada, como algumque obrigado a admitir que se atingiu uma posio fundamental naqual no resta mais muita coisa a dizer. Pude imaginar qual fora asensao ttil que ela depois aprendera a interpretar. Sua expresso 121. facial parecia dizer que ela achava que eu tinha razo em minhaconjetura. Mas no pude ir mais alm e, de qualquer modo, fiquei-lhegrato por me haver tornado muito mais fcil conversar com ela do quecom as senhoras pudicas da minha clnica na cidade, que consideramvergonhoso tudo o que natural.Assim, o caso ficou esclarecido. Mas esperemos um momento! O quedizer da alucinao peridica da cabea que surgia durante suas crisese lhe infundia terror? De onde provinha? Perguntei-lhe ento sobre issoe, como se seu conhecimento tambm tivesse sido ampliado por nossaconversa, ela respondeu prontamente:Sim, agora eu sei. A cabea a do meu tio, agora a reconheo, masno daquela poca. Mais tarde quando todas as brigas tinhamirrompido, meu tio deu vazo a uma clera absurda contra mim. Viviadizendo que era tudo culpa minha: se eu no tivesse dado com alngua nos dentes, aquilo nunca teria redundado em divrcio. Ele viviaameaando fazer alguma coisa contramim; e quando me avistava adistncia, seu rosto se transfigurava de dio e ele partia para cima demim com a mo levantada. Eu sempre fugia dele e sempre ficavaapavorada com a idia de que um dia ele me pegasse desprevenida. Orosto que sempre vejo agora o dele, quando ficava furioso.Esses dados me fizeram recordar que seu primeiro sintoma histrico o vmito havia passado, a crise de angstia permanecera eadquirira um novo contedo. Por conseguinte, estvamos lidando comuma histeria que fora ab-reagida num grau considervel. E, de fato, elahavia informado a tia de sua descoberta pouco depois doacontecimento.Voc contou a sua tia as outras histrias sobre as investidas queele fez contra voc?Contei. No imediatamente, mas depois, quando j se falava emdivrcio. Minha tia disse: Vamos guardar isso de reserva. Se ele criarcaso no tribunal, contaremos isso tambm.Posso compreender muito bem que tenha sido precisamente esteltimo perodo quando ocorreram cenas cada vez mais agitadas nacasa e quando o estado da prpria paciente deixou de interessar a tia,que estava inteiramente absorta na disputa que tenha sido esseperodo de acmulo e reteno que lhe tenha deixado o legado dosmbolo mnmico |do rosto alucinado|.Espero que essa moa, cuja sensibilidade sexual fora afetada numaidade to precoce, tenha tirado algum benefcio de nossa conversa.Desde ento no voltei a v-la.DISCUSSO 122. Se algum afirmasse que o presente relato no tanto um casoanalisado de histeria, e sim um caso solucionado por conjeturas, eunada teria a dizer contra ele. certo que a paciente concordou queaquilo que introduzi em sua histria provavelmente era verdade, masela no estava em condies de reconhec-lo como algo que houvesseexperimentado. Creio que teria sido necessria a hipnose paraconseguir isso. Admitindo que minhas conjeturas tenham sido certas,tentarei agora inserir o caso no quadro esquemtico de uma histeriaadquirida, nos moldes sugeridos pelo Caso 3. Parece plausvel,portanto, comparar os dois conjuntos de experincias erticas commomentos traumticos, e a cena da descoberta do casal, com ummomento auxiliar. | ver em [1] e seg.| A semelhana est no fato deque, nas experincias anteriores, criou-se um elemento da conscinciaque foiexcludo da atividade de pensamento do ego e permaneceu, porassim dizer, armazenado, ao passo que, na ltima cena, uma novaimpresso ocasionou forosamente uma ligao associativa entre essegrupo separado e o ego. Por outro lado, existem diferenas que nopodem ser desprezadas. A causa do isolamento no foi, como no Caso3, um ato de vontade do ego, mas ignorncia por parte deste, queainda no era capaz de lidar com experincias sexuais. Nesse sentido,o caso de Katharina tpico. Em toda anlise de casos de histeriabaseados em traumas sexuais, verificamos que as impresses doperodo pr-sexual que no produziram nenhum efeito na crianaatingem um poder traumtico, numa data posterior, como lembranas,quando a moa ou a mulher casada adquire uma compreenso da vidasexual. Pode-se dizer que a diviso dos conjuntos psquicos umprocesso normal no desenvolvimento do adolescente, sendo fcil verque sua recepo posterior pelo ego proporciona oportunidadesfreqentes para perturbaes psquicas. Alm disso, gostaria, nesteponto, de externar a dvida de se uma diviso da conscincia devida ignorncia realmente diferente de uma que se deva rejeioconsciente, e se mesmo os adolescentes no possuem conhecimentosexual com muito mais freqncia do que se supe ou do que elesmesmos acreditam.Outra distino no mecanismo psquico deste caso reside no fato deque a cena da descoberta, que classificamos de auxiliar mereceigualmente ser denominada de traumtica. Ela atuou por seu prpriocontedo, e no simplesmente como alguma coisa que revivesseexperincias traumticas anteriores. Combinou as caractersticas deum momento auxiliar e de um momento traumtico. No parecehaver nenhum motivo, contudo, para que essa coincidncia nos leve aabandonar uma separao conceitual que em outros casos 123. corresponde tambm a uma separao no tempo. Outra peculiaridadedo caso de Katharina, que, alis, h muito j nos familiar, pode serobservada na circunstncia de que a converso, a produo dosfenmenos histricos, no ocorreu imediatamente aps o trauma, esim depois de um intervalo de incubao. Charcot gostava declassificar esse intervalo de perodo de elaborao |laboration|psquica.A angstia de que Katharina sofria em suas crises era histrica, isto ,era uma reproduo da angstia que surgira em conexo com cada umdos traumas sexuais. No comentarei aqui o fato que tenho encontradoregularmente num nmero muito grande de casos a saber, que amera suspeita de relaes sexuais desperta o afeto de angstia naspessoas virgens. | ver em [1].| 124. CASO 5 - SRTA. ELISABETH VON R. (FREUD)No outono de 1892, um mdico meu conhecido pediu-me queexaminasse uma jovem que vinha sofrendo h mais de dois anos dedores nas pernas e que tinha dificuldades em andar. Ao fazer essepedido, acrescentou que julgava tratar-se de um caso de histeria,embora no houvesse nenhum vestgio das indicaes habituais dessaneurose. Disse-me conhecer ligeiramente a famlia, e que, nos ltimosanos, ela tivera muitos infortnios e pouca felicidade. Primeiro, o pai dapaciente morrera, em seguida a me tivera de submeter-se a uma sriaoperao da vista e logo depois uma irm casada sucumbira a umaafeco cardaca de longa durao aps o puerprio. De todas essasdificuldades e todos os cuidados dispensados aos enfermos, a maiorparcela recara sobre nossa paciente.Minha primeira entrevista com essa jovem de vinte e quatro anos deidade no me ajudou a realizar grandes progressos na compreensodo caso. Ela parecia inteligente e mentalmente normal, e suportavaseus problemas, que interferiam em sua vida social e seus prazeres,com ar alegre a belle indiffrence dos histricos, como no pudedeixar de pensar. Andava com a parte superior do corpo inclinada paraa frente, mas sem fazer uso de qualquer apoio. Sua marcha no era denenhum tipo patolgico reconhecido e, alm disso, de modo algum eranotavelmente mau. Tudo o que se observava era que ela se queixavade grande dor ao andar e de se cansar rapidamente ao andar e ao ficarde p, e que depois de curto intervalo tinha de descansar, o quediminua as dores mas no as eliminava inteiramente. A dor era decarter indefinido; depreendi que era algo da natureza de uma fadigadolorosa. Uma rea bastante grande e mal definida da superfcieanterior da coxa direita era indicada como o foco das dores, a partir daqual elas se irradiavam com mais freqncia e onde atingiam suamaior intensidade. Nessa regio, a pele e os msculos eram tambmparticularmente sensveis presso e aos belisces (embora umapicada de agulha provocasse, quando muito, certa dose deindiferena). A hiperalgia da pele e dos msculos no se restringia aessa regio, mas podia ser observada mais ou menos em toda aextenso das duas pernas. Os msculos eram talvez ainda maissensveis dor do que a pele;mas no havia dvida de que as coxaseram as partes mais sensveis a essas duas espcies de dor. A foramotora das pernas no podia ser qualificada de pequena e os reflexoseram de intensidade mdia. No havia outros sintomas, de modo queno existia fundamento para se suspeitar da presena de qualquerafeco orgnica grave. O distrbio se desenvolvera gradativamentedurante os dois anos anteriores e variava bastante em intensidade. 125. No achei fcil chegar a um diagnstico, mas resolvi por duas razesconcordar com o que fora proposto por meu colega, isto , que setratava de um caso de histeria. Em primeiro lugar, fiquei impressionadocom a indefinio de todas as descries do carter das doresfornecidas pela paciente, que era, no obstante, uma pessoa muitointeligente. Um paciente que sofra de dores orgnicas, a menos quealm disso seja neurtico, as descrever de forma definida e calma.Dir, por exemplo, que so dores lancinantes, que ocorrem a certosintervalos, que se estendem deste lugar para aquele e que lheparecem ser provocadas por uma coisa ou outra. Por outro lado,quando um neurastnico descreve suas dores, d a impresso deestar empenhado numa difcil tarefa intelectual que ultrapassa emmuito suas foras. Suas feies se contraem e se deformam como seele estivesse sob a influncia de um afeto angustiante. A voz torna-semais aguda e ele luta por encontrar um meio de expresso. Rejeitaqualquer descrio de suas dores proposta pelo mdico, mesmo queela depois se revele inquestionavelmente adequada. Percebe-se queele da opinio de que a linguagem pobre demais para que eleencontre palavras para descrever suas sensaes e de que essassensaes so algo nico e at ento desconhecido do qual seriainteiramente impossvel dar uma descrio completa. Por esse motivo,ele jamais se cansa de acrescentar novos detalhes sem cessar e,quando obrigado a parar, com certeza fica com a convico de queno conseguiu se fazer entender pelo mdico. Tudo isso porque asdores atraram toda a ateno dele para elas. A Srta. von R.comportava-se de forma inteiramente oposta, e somos levados aconcluir que, j que ela ainda assim atribua importncia suficiente aseus sintomas, sua ateno devia estar em outra coisa, da qual asdores eram apenas um fenmeno acessrio provavelmente,portanto, em pensamentos e sentimentos que estavam vinculados aelas.Mas existe um segundo fator que ainda mais decisivamente favorvela essa opinio sobre as dores. Quando estimulamos uma regiosensvel dor em algum com uma doena orgnica ou numneurastnico, o rosto do paciente assume uma expresso de mal-estarou de dor fsica. Alm disso, ele se esquiva, retrai-se e resiste aoexame. No caso da Srta. von R., contudo, quando se pressionava oubeliscava a pele e os msculos hiperalgsicos de suas pernas, seurosto assumia uma expresso peculiar, que era antes de prazer do quede dor. Ela gritava mais e eu no podia deixar de pensar que era comose ela estivesse tendo uma voluptuosa sensao de ccega o rostoenrubescia, ela jogava a cabea para trs e fechava os olhos, e seucorpo se dobrava para trs. Nenhum desses movimentos era muito 126. exagerado, mas era distintamente observvel, e isso s podia serconciliado com o ponto de vista de que seu distrbio era histrico e deque o estmulo tocara uma zona histerognica.Sua expresso facial no se ajustava dor evidentemente provocadapela beliscadura dos msculos e da pele; provavelmente seharmonizava mais com o tema dos pensamentos que jaziam ocultospor trs da dor e que eram despertados nela pela estimulao daspartes do corpo associadas com esses pensamentos. Observeirepetidamente expresses de significado semelhante em casosincontestveis de histeria, quando se aplicava um estmulo s zonashiperalgsicas. Os outros gestos da paciente eram, claro, indciosmuito leves de um ataque histrico.Para comear, no havia explicao para a localizao inusitada desua zona histerognica. O fato de a hiperalgia afetar principalmente osmsculos tambm dava o que pensar. O distrbio mais habitualmenteresponsvel pela sensibilidade difusa e local presso nos msculos uma infiltrao reumtica desses msculos o reumatismo muscularcrnico comum. J mencionei | ver em. [1]| a tendncia desse distrbioa simular afeces nervosas. Essa possibilidade no entrava emcontradio com a consistncia dos msculos hiperalgsicos dapaciente. Havia numerosas fibras endurecidas na substncia musculare estas pareciam ser especialmente sensveis. Assim, era provvel queuma alterao muscular orgnica da espcie indicada estivessepresente e que a neurose se houvesse ligado a ela, fazendo-a parecerexageradamente importante.O tratamento prosseguiu na suposio de que o distrbio fosse dessaespcie mista. Recomendamos a continuao da massagem efaradizao sistemtica dos msculos sensveis, independentementeda dor resultante, e reservei para mim o tratamento das pernas comcorrentes eltricas de alta tenso, a fim de poder manter-me emcontato com a paciente. Sua pergunta quanto a se deveria forar-se aandar foi respondida com um incisivo sim.Dessa maneira, promovemos uma ligeira melhora. Em especial, elaparecia gostar muito dos choques dolorosos produzidos pelo aparelhode alta-tenso, e quanto mais fortes estes eram, mais pareciam afastarsuas prprias dores para um segundo plano. Entrementes, meu colegapreparava o terreno para o tratamento psquico, e quando, aps quatrosemanas de meu pretenso tratamento, propus a ela o outro mtodo elhe dei algumas explicaes sobre seu processamento e modo deao, obtive rpida compreenso e pouca resistncia.A tarefa em que ento me empenhei veio a ser, entretanto, uma dasmais rduas que j empreendi, e a dificuldade de fazer um relato dela comparvel, alm disso, s dificuldades que tive ento de superar. 127. Tambm por muito tempo fui incapaz de apreender a conexo entre osfatos de sua doena e seus sintomas reais, que, no obstante,deveriam ter sido causados e determinados por aquele conjunto deexperincias.Quando se inicia um tratamento catrtico dessa natureza, a primeirapergunta que se faz se a prpria paciente tem conscincia da origeme da causa precipitante de sua doena. Em caso afirmativo, no se faznecessria nenhuma tcnica especial para permitir-lhe reproduzir ahistria de sua doena. O interesse que o mdico demonstra por ela, acompreenso que lhe permite sentir e as esperanas de recuperaoque lhe d, tudo isso faz com que a paciente se decida a revelar seusegredo. Desde o incio me pareceu provvel que a Srta. Elisabethestivesse consciente da causa de sua doena, que o que guardava naconscincia fosse apenas um segredo, e no um corpo estranho.Contemplando-a, no se podia deixar de pensar nas palavras do poeta:Das Maeskchen da weissagt verborgnen SinnA princpio, portanto, pude dispensar a hipnose, porm com a ressalvade que poderia fazer uso dela posteriormente, se no curso de suaconfisso surgisse algum material cuja elucidao no estivesse aoalcance de sua memria. Ocorreu assim que nesta, que foi a primeiraanlise integral de uma histeria empreendida por mim, cheguei a umprocesso que mais tarde transformei num mtodo regular e empregueideliberadamente. Esse processo consistia em remover o materialpsquico patognico camada por camada e gostvamos de compar-lo tcnica de escavar uma cidade soterrada. Eu comeava por fazercom que a paciente me contasse o que sabia e anotavacuidadosamente os pontos em que alguma seqncia de pensamentospermanecia obscura ou em que algum elo da cadeia causal pareciaestar faltando. E depois penetrava em camadas mais profundas desuas lembranas nesses pontos, realizando uma investigao sobhipnose ou utilizando alguma tcnica semelhante. Todo o trabalhobaseava-se, naturalmente, na expectativa de que seria possvelidentificar um conjunto perfeitamente adequado de determinantes paraos fatos em questo. Examinarei agora os mtodos utilizados para ainvestigao profunda.A histria que a Srta. Elisabeth me relatou de sua doena foi cansativa,composta de muitas experincias penosas diferentes. Enquanto fazia orelato, ela no ficava sob hipnose, mas eu a fazia deitar-se e conservaros olhos fechados, embora no me opusesse a que os abrisseocasionalmente, mudasse de posio, se sentasse e assim por diante.Quando ela ficava mais profundamente emocionada do que decostume com uma parte da histria, parecia cair num estado mais ou 128. menos semelhante hipnose. Ficava ento imvel e mantinha os olhosbem fechados.Comearei por repetir o que surgiu como a camada mais superficial desuas lembranas. Sendo a mais jovem de trs filhas, ela eraternamente apegada aos pais e passara a juventude na propriedadedeles, na Hungria. A sade da me era freqentemente perturbada poruma afeco dos olhos, bem como por estados nervosos. Foi assimque ela se viu atrada para um contato muito ntimo com o pai, umhomem alegre e experiente conhecedor da vida que costumava dizerque aquela filha ocupava o lugar de um filho e de um amigo com quemele podia trocar idias. Embora a mente da moa encontrasse estmulointelectual nessa relao com o pai, ele no deixava de observar que aconstituio mental dela estava, por causa disso, afastando-se do idealque as pessoas gostam de ver concretizado numa moa. Em tombrincalho, ele a chamava de insolente e convencida e aaconselhava a no ser categrica demais em seus julgamentos,advertindo-a contra o hbito de dizer a verdade s pessoas sem mediras conseqncias e muitas vezes dizendo que ela teria dificuldades emachar um marido. Ela se sentia, de fato, muito descontente por sermulher. Tinha muitos planos ambiciosos. Queria estudar ou recebereducao musical e ficava indignada com a idia de ter de sacrificarsuas inclinaes e sua liberdade de opinio pelo casamento. Assim,nutria-se de seu orgulho pelo pai e do prestgio e posio social dafamlia, e guardava zelosamente tudo o que se relacionava com essasvantagens. O altrusmo, contudo, com que colocava em primeiro lugara me e as irms mais velhas, quando surgia a ocasio, reconciliavainteiramente seus pais com o lado mais spero do seu carter.Em vista da idade das moas, ficou resolvido que a famlia se mudariapara a capital, onde Elisabeth, durante um curto espao de tempo,pde desfrutar de uma vida mais completa e mais alegre no crculofamiliar. Mas sobreveio ento o golpe que destruiu a felicidade dafamlia. O pai ocultara, ou talvez tivesse ele prprio subestimado, umaafeco crnica do corao, e um dia foi levado inconsciente paracasa, com um edema pulmonar. Foi assistido durante dezoito meses, eElisabeth agiu no sentido de desempenhar o papel principal junto a seuleito de doente. Dormia no quarto dele, estava pronta a despertarquando ele a chamava noite, cuidava dele durante o dia eobrigava-se a parecer alegre, enquanto ele se conformava com seuestado irremedivel, mostrando uma resignao sem queixas. O incioda doena dela deve ter-se relacionado com esse perodo de desvelos,pois ela se recordava de que, durante os ltimos seis meses, ficaraacamada por um dia e meio por causa das dores que descrevemos.Ela asseverou, porm, que essas dores passaram rapidamente e no 129. lhe haviam causado nenhuma inquietao nem atrado sua ateno. E,de fato, s dois anos aps o falecimento do pai foi que ela se sentiudoente e ficou impossibilitada de andar por causa das dores.A lacuna causada na vida dessa famlia de quatro mulheres pela mortedo pai, seu isolamento social, a interrupo de tantas relaes queprometiam trazer-lhe interesse e diverso, a sade precria da me,que ento se tornou mais acentuada tudo isso lanou uma sombrasobre o estado de esprito da paciente; mas, ao mesmo tempo,despertou-lhe um vivo desejo de que sua famlia logo pudesseencontrar algo para substituir a felicidade perdida, levando-a aconcentrar toda a sua afeio e cuidado na me que ainda vivia.Quando o ano de luto havia passado, sua irm mais velha casou-secom um homem bem-dotado e dinmico. Ele ocupava posio deresponsabilidade e sua capacidade intelectual parecia prometer-lhe umgrande futuro. Mas para com os conhecidos mais ntimos ele exibiauma sensibilidade mrbida e uma insistncia egosta em suasexcentricidades. E foi o primeiro do crculo da famlia a ousardemonstrar falta de considerao pela velha senhora. Isso foi demaispara Elisabeth. Ela se sentiu convocada a empreender uma luta contrao cunhado sempre que ele lhe dava oportunidade para isso, enquantoas outras mulheres no levavam a srio as exploses temperamentaisdele. Foi um desapontamento penoso para ela ver assim interrompidaa reconstruo da antiga felicidade da famlia, e ela no conseguiaperdoar a irm casada pela complacncia feminina com que estasempre evitava tomar partido. Elisabeth reteve na memria inmerascenas ligadas a isso, envolvendo queixas parcialmente noverbalizadas contra seu primeiro cunhado. Mas sua principalrecriminao a ele continuava a prender-se ao fato de, em nome deuma possvel promoo, ele ter-se mudado com sua pequena famliapara uma remota cidade da ustria e assim ter ajudado a aumentar oisolamento da me. Nessa ocasio, Elisabeth sentiu de maneiraintensa seu desamparo, sua incapacidade de proporcionar me umsubstituto pela felicidade que perdera e a impossibilidade de levar acabo a inteno que tivera quando da morte do pai.O casamento da segunda irm pareceu prometer um futuro maisbrilhante para a famlia, pois o segundo cunhado, embora menosbem-dotado intelectualmente, era do agrado daquelas mulheres cultas,educado que fora, como acontecera com elas, para ter consideraopelos outros. Seu comportamento reconciliou Elisabeth com ainstituio do matrimnio e com a idia dos sacrifcios que esteimplicava. Alm disso, o segundo casal permaneceu morando perto dame e o filho que tiveram tornou-se o predileto de Elisabeth.Infelizmente, outro acontecimento veio lanar uma sombra sobre o ano 130. em que a criana nasceu. O tratamento do problema na vista da meexigiu que ela permanecesse num quarto escuro por vrias semanas,durante as quais Elisabeth ficou com ela. Uma operao foiconsiderada inevitvel. A agitao diante dessa perspectiva coincidiucom os preparativos para a mudana do primeiro cunhado. Finalmente,a me saiu-se bem da operao, que foi realizada por mo de mestre.As trs famlias se reuniram numa estao de veraneio e esperou-seque Elisabeth, que ficara exausta com as ansiedades dos ltimosmeses, se recuperasse inteiramente durante o que seria o primeiroperodo de libertao dos pesares e temores a ser desfrutado pelafamlia desde a morte do pai.Foi precisamente durante essas frias, contudo, que as dores e afraqueza locomotora de Elisabeth comearam. Ela estivera mais oumenos cnscia das dores por um curto perodo, mas elas sobrevieramcom violncia, pela primeira vez, depois de ela ter tomado um banhoquente na pequena estao de guas. Alguns dias antes ela sara paradar um longo passeio na verdade, uma caminhada que durou meiodia , o qual eles relacionaram com o aparecimento das dores, demodo que foi fcil adotar o ponto de vista de que Elisabeth primeiroficara cansada demais e em seguida se resfriara.A partir dessa poca Elisabeth foi a invlida da famlia. Foiaconselhada pelo mdico a dedicar o resto do mesmo vero a umperodo de tratamento hidroptico em Gastein |nos Alpes austracos|, eviajou para l com a me. Mas foi ento que surgiu uma novapreocupao. A segunda irm ficara grvida novamente e as notciasde seu estado eram extremamente desfavorveis, de modo que acusto pde decidir-se a ir para Gastein. Ela e a me mal tinhampassado quinze dias l quando foram chamadas de volta pelas notciasde que a irm se achava acamada e em estado gravssimo.Seguiu-se uma viagem angustiante, durante a qual Elisabeth foiatormentada no s por suas dores como tambm por expectativassombrias. Quando as duas chegaram estao, houve sinais que aslevaram a temer o pior; e ao entrarem no quarto da doente tiveram acerteza de que haviam chegado tarde demais para se despedirem deuma pessoa viva.Elisabeth sofreu no s com a perda dessa irm, a quem amavaternamente, mas quase na mesma medida com os pensamentosprovocados pela morte dela e pelas mudanas que esta acarretou. Airm sucumbira a uma doena cardaca que fora agravada pelagravidez. Surgiu ento a idia de que a doena de corao foraherdada do lado paterno da famlia. Recordou-se que a irm mortahavia sofrido, no incio da adolescncia, de coria, acompanhada deum distrbio cardaco brando. A famlia culpou a si prpria e aos 131. mdicos por terem permitido o casamento, e foi impossvel poupar oinfeliz do vivo da acusao de ter posto em perigo a sade daesposa, ao provocar duas gestaes em sucesso imediata. A partirdessa poca, os pensamentos de Elisabeth se ocuparamininterruptamente com a sombria reflexo de que quando, para variar,as raras condies para um casamento feliz tinham sido preenchidas,essa felicidade chegara a um fim terrvel. Alm disso, ela viu mais umavez o colapso de tudo o que desejara para a me. O cunhado vivoficou inconsolvel e afastou-se da famlia da esposa. Ao que parece, afamlia dele, que se afastara durante seu breve e feliz casamento,achou que aquele momento era favorvel para atra-lo de volta paraseu prprio crculo. No houve meio de preservar a unio que existiraanteriormente. No era vivel ele morar com a me dela, uma vez queElisabeth era solteira. Como ele tambm se recusasse a deixar acriana, que era o nico legado da esposa morta, sob a custdia dasduas mulheres, deu-lhes a oportunidade, pela primeira vez, de acus-lode crueldade. Por fim e este no foi o fato menos aflitivo chegouaos ouvidos de Elisabeth o boato de que surgira uma querela entreseus dois cunhados. Ela s pde tentar adivinhar-lhe a causa; mas, aoque parecia, o vivo formulara exigncias de ordem financeira que ooutro declarou injustificveis e que, na verdade, em vista do pesar dame na ocasio, ele pde caracterizar como chantagem da piorespcie.Essa era, portanto, a infeliz histria dessa moa orgulhosa com suansia de amor. Incompatibilizada com seu destino, amargurada pelofracasso de todos os seus pequenos planos para o restabelecimentodas antigas glrias da famlia, com todos aqueles a quem amavamortos, distantes ou estremecidos, e despreparada para refugiar-se noamor de algum homem desconhecido, ela viveu dezoito meses emrecluso quase completa, no tendo nada a ocup-la seno oscuidados com a me e com suas prprias dores.Se pusermos de lado os grandes infortnios e penetrarmos nossentimentos de uma moa, no poderemos deixar de sentir profundasolidariedade humana pela Srta. Elisabeth. Mas que dizer do interesse,puramente mdico, dessa histria de sofrimentos, de suas relaescom a dolorosa fraqueza locomotora da paciente e das possibilidadesde explicao e cura proporcionadas por nosso conhecimento dessestraumas psquicos?No que concerne ao mdico, a confisso da paciente foi, primeiravista, uma grande decepo. Era um relato de choques emocionaiscorriqueiros e nada havia que explicasse por que ela adoeceraprecisamente de histeria ou por que sua histeria assumira a formaespecfica de uma abasia dolorosa. O relato no esclarecia nem as 132. causas, nem a determinao especfica de sua histeria. Talvezpudssemos presumir que a paciente havia estabelecido umaassociao entre suas impresses mentais dolorosas e as dorescorporais que por acaso estava experimentando na mesma poca, eque agora, em sua vida de lembranas, estivesse usando suassensaes fsicas como smbolo das mentais. Mas restava explicarquais teriam sido seus motivos para fazer tal substituio e em quemomento ela ocorrera. Essas perguntas, alis, no eram do tipo que osmdicos tinham por hbito formular. Em geral, ns nos contentvamoscom a afirmao de que um paciente era constitucionalmente histricoe sujeito a desenvolver sintomas histricos sob a presso deexcitaes intensas de qualquer natureza.Aquela confisso parecia oferecer ainda menos ajuda para a cura desua doena do que para sua explicao. No era fcil verificar que tipode influncia benfica a Srta. Elisabeth poderia obter da recapitulaoda histria de seus sofrimentos de anos recentes com os quaistodos os membros da sua famlia estavam acostumados para umestranho que a ouvia com solidariedade apenas moderada. Nem haviaqualquer sinal de que a confisso produzisse um efeito curativo dessaespcie. Durante esse primeiro perodo de tratamento, ela nuncadeixou de repetir que ainda se sentia doente e que suas dorescontinuavam intensas como sempre; e, quando dizia isso olhando-mecom uma expresso maliciosa de satisfao por eu estar confuso, euno podia deixar de me lembrar da opinio do velho Sr. von R. sobresua filha predileta que ela era muitas vezes insolente econvencida. Mas eu era obrigado a admitir que ela estava certa.Se eu tivesse interrompido o tratamento psquico da paciente nesseestgio, o caso da Srta. Elisabeth von R. no teria lanado nenhumaluz sobre a teoria da histeria. Mas continuei minha anlise porqueesperava, convicto, que os nveis mais profundos de sua conscinciaproporcionariam uma compreenso tanto das causas como dosdeterminantes especficos dos sintomas histricos. Resolvi, portanto,formular uma pergunta direta paciente, num estado ampliado deconscincia, e indagar-lhe qual teria sido a impresso psquica qualse vinculara a primeira emergncia de dores nas pernas.Com essa finalidade em vista, propus-me pr a paciente em hipnoseprofunda. Infelizmente, porm, no pude deixar de observar que meuprocedimento no a colocara em nenhum outro estado a no sernaquele em que ela fizera seu relato. J me dei por satisfeito por elano ter protestado triunfalmente nessa ocasio: No estou dormindo,sabe; no posso ser hipnotizada. Nesse ponto, ocorreu-me a idia derecorrer ao expediente de aplicar-lhe a presso na cabea, cuja origem 133. descrevi na ntegra no caso clnico de Miss Lucy | ver em. [1] e segs.|.Realizei isso instruindo a paciente para que me informasse comfidelidade tudo o que aparecesse em sua imaginao ou de que selembrasse no momento da presso. Ela ficou calada por muito tempo eento, por insistncia minha, admitiu ter pensado numa noite em queum jovem a acompanhara at em casa depois de uma festa, daconversa que houvera entre eles e dos sentimentos com que voltarapara casa a fim de ficar cabeceira do pai enfermo.Essa primeira meno ao rapaz abriu uma nova corrente derepresentaes cujos contedos extra ento gradativamente.Tratava-se aqui de um segredo, pois ela no havia contado a ningum,exceto a um amigo comum, suas relaes com esse rapaz e asesperanas ligadas a elas. Ele era filho de uma famlia com a qual hmuito eles mantinham relaes amistosas e que morava perto daantiga propriedade de nossa paciente. O jovem, que era rfo, foradevotadamente afeioado ao pai dela e seguira os conselhos deste notocante a sua carreira. Estendera sua admirao pelo pai s damas dafamlia. Numerosas lembranas de leituras feitas em comum, de trocasde idias e de observaes feitas por ele que eram repetidas a ela poroutras pessoas apoiaram nela o gradual desenvolvimento da convicode que ele a amava e a compreendia e de que o casamento com eleno implicaria sacrifcios por parte dela, sacrifcios esses que ela tantotemia no casamento de maneira geral. Infelizmente, ele era pouco maisvelho do que ela e ainda estava longe de poder sustentar-se. Mas elaestava firmemente determinada a esperar por ele.Depois que o pai de Elisabeth adoeceu gravemente e ela ficou muitoocupada em cuidar dele, seus encontros com o namorado se tornaramcada vez mais raros. A noite da qual ela se recordara pela primeira vezrepresentou o que fora, na verdade, o clmax dos sentimentos dela,mas mesmo nessa ocasio no tinha havido nenhum claircissemententre eles. Naquela ocasio ela se deixara convencer, por insistnciada famlia e do prprio pai, a ir a uma festa em que era provvel que oencontrasse. Quisera voltar cedo para casa, mas fora pressionada aficar e cedera quando ele prometeu acompanh-la at a residnciadela. Elisabeth nunca experimentou sentimentos to afetuosos paracom ele como enquanto ele a acompanhou nessa noite. Mas ao chegartarde em casa, nesse estado de esprito abenoado, ela constatou queo pai sofrera uma piora e se recriminou amargamente por tersacrificado tanto tempo sua prpria diverso. Essa foi a ltima vezque se afastou do pai doente por uma noite inteira. Encontrou-sepoucas vezes com o namorado depois disso. Aps a morte do pai, ojovem pareceu afastar-se dela em sinal de respeito por seu pesar. O 134. curso de sua vida levou-o ento por outros rumos. Ela teve de seacostumar pouco a pouco com a idia de que o interesse dele por elafora substitudo por outros e de que ela o havia perdido. Mas essadecepo em seu primeiro amor ainda a feria sempre que ela pensavanele.Foi nessa relao, portanto, e na cena descrita acima, na qual elaatingiu seu auge, que pude procurar as causas de suas primeirasdores histricas. O contraste entre os sentimentos de alegria que elase permitira ter naquela ocasio e o agravamento do estado do paicom que deparara ao voltar para casa constituiu um conflito, umasituao de incompatibilidade. O resultado desse conflito foi que arepresentao ertica foi recalcada para longe da associao e o afetoligado a essa representao foi utilizado para intensificar ou reviveruma dor fsica que estivera presente simultaneamente ou pouco antes.Assim, tratava-se de um exemplo do mecanismo de converso comfinalidade de defesa, o qual descrevi com pormenores em outro texto.Vrios comentrios, claro, podem ser feitos a esta altura. Devoressaltar que no consegui estabelecer, com base em suasrecordaes, se a converso ocorreu no momento de sua volta casa.Assim, procurei por experincias semelhantes durante o tempo em queela cuidou do pai e trouxe tona grande nmero delas. Entre estas,uma importncia especial se prendeu, por causa de sua ocorrnciafreqente, a cenas em que, a chamado do pai, ela pulava da cama deps descalos num quarto frio. Eu me senti inclinado a atribuir algumaimportncia a esses fatores, visto que alm de se queixar de dor naspernas, ela tambm se queixava de torturantes sensaes de frio. Noobstante, mesmo aqui fui incapaz de obter qualquer cena passvel deser identificada como aquela em que ocorreu a converso. Por essarazo, eu me sentia inclinado a achar que havia uma lacuna naexplicao nesse ponto, at me lembrar que, de fato, as doreshistricas nas pernas no haviam surgido durante o perodo em queela estava cuidando do pai. Ela s se recordava de um nico acessode dor, que durara apenas um ou dois dias e no lhe chamara aateno | ver em. [1]|. Dirigi ento minhas indagaes para esseprimeiro aparecimento das dores. Consegui reavivar com segurana alembrana que a paciente tinha dele. Precisamente naquela ocasioum parente os visitara e ela no pudera receb-lo por estar de cama.Esse mesmo homem fora infeliz o bastante para visit-las novamentedois anos depois, para encontr-la de cama mais uma vez. Mas,apesar de repetidas tentativas, no conseguimos descobrir qualquercausa psquica para as primeiras dores. Julguei seguro presumir que,de fato, elas haviam surgido sem nenhuma causa psquica e eram umaafeco reumtica branda; e pude estabelecer que esse distrbio 135. orgnico, que foi o modelo copiado em sua histeria posterior, teria deser situado, de qualquer modo, antes da cena em que ela voltara dafesta acompanhada. A julgar pela natureza das coisas, no obstante, possvel que essas dores, sendo de origem orgnica, tivessempersistido por algum tempo em grau atenuado, sem serem muitopercebidas. A obscuridade devida ao fato de que a anlise apontavapara a ocorrncia de uma converso de excitao psquica em dorfsica, embora essa dor certamente no fosse percebida na ocasio emquesto ou relembrada em poca posterior esse um problema queespero poder solucionar mais tarde, com base em outrasconsideraes e em exemplos posteriores. | ver em [1] |A descoberta da razo da primeira converso abriu um segundoperodo profcuo do tratamento. A paciente surpreendeu-me logodepois, ao anunciar que agora sabia por que era que as dores semprese irradiavam daquela regio especfica da coxa direita e atingiam alisua maior intensidade: era nesse lugar que seu pai costumava apoiar aperna todas as manhs, enquanto ela renovava a atadura em tornodela, pois estava muito inchada. Isso deve ter acontecido uma centenade vezes, mas ela no havia notado a ligao at esse momento.Assim, ela me forneceu a explicao de que eu precisava quanto aosurgimento do que era uma zona histerognica atpica. Alm disso,suas pernas doloridas comearam a participar da conversa durantenossas sesses de anlise. | ver em [1].| O que tenho em mente oseguinte fato notvel: em geral, a paciente estava sem dor quandocomevamos a trabalhar. Se ento, por meio de uma pergunta oupela presso na sua cabea, eu despertava uma lembrana, surgiauma sensao de dor, e esta era comumente to aguda que a pacienteestremecia e punha a mo no ponto doloroso. A dor assim despertadapersistia enquanto a paciente estivesse sob a influncia da lembrana;alcanava seu clmax quando ela estava no ato de me contar a parteessencial e decisiva do que tinha a comunicar, e com a ltima palavradesse relato, desaparecia. Com o tempo, passei a utilizar essas dorescomo uma bssola para minha orientao: quando a moa parava defalar mas admitia ainda estar sentindo dor, eu sabia que ela no mehavia contado tudo e insistia para que continuasse sua histria, at quea dor se esgotasse pela fala. S ento eu despertava uma novalembrana.Durante esse perodo de ab-reao, o estado da paciente, tanto fsicoquanto mental, teve uma melhora to notvel que eu costumava dizer,meio de brincadeira, que estava retirando um pouco de seus motivosde dor de cada vez e que, quando os tivesse eliminado inteiramente,ela ficaria boa. Elisabeth logo chegou ao ponto de passar a maior partedo tempo sem dor; deixou-se convencer a caminhar bastante e a 136. abandonar seu isolamento anterior. No curso da anlise, ora euacompanhava as oscilaes espontneas do estado da paciente, oraseguia minha prpria estimativa da situao, quando achava no teresgotado inteiramente alguma parte da histria de sua doena.Durante esse trabalho, fiz algumas observaes interessantes, cujaslies vi confirmadas mais tarde, ao tratar de outros pacientes. Quantos oscilaes espontneas, em primeiro lugar, constatei que, naverdade, no ocorrera nenhuma que no tivesse sido provocada porassociao com algum evento contemporneo. Numa ocasio, elaouvira falar de uma doena de um de seus conhecidos, o que a fezlembrar-se de um detalhe da doena do pai; de outra feita, o filho dairm morta fora visit-las e sua semelhana com a me provocara nelasentimentos de pesar; e ainda noutra ocasio uma carta da irmdistante mostrou claramente a influncia do cunhado insensvel ecausou-lhe uma dor que a obrigou a relatar a histria de uma cenafamiliar que ainda no me contara. Visto que ela nunca trazia tonaduas vezes a mesma causa precipitante para uma dor, parecia-mejustificado supor que assim esgotaramos o estoque dessas causas.Desse modo, eu no hesitava em coloc-la em situaes projetadaspara despertar novas lembranas que ainda no tivessem alcanado asuperfcie. Por exemplo, mandei-a visitar o tmulo da irm eencorajei-a a ir a uma festa, em que poderia mais uma vez encontrar onamorado de sua juventude.A seguir, consegui algum discernimento sobre o modo originrio doque poderia ser chamado de histeria monossintomtica. Verifiqueique sua perna direita doa durante a hipnose quando a discussoversava sobre os cuidados que ela dispensara ao pai enfermo, ousobre suas relaes com o namorado da mocidade, ou sobre outrosacontecimentos que se enquadravam no primeiro perodo de suasexperincias patognicas; por outro lado, a dor surgia na outra perna, aesquerda, to logo eu provocava uma lembrana relacionada com airm morta ou com os dois cunhados em suma, com uma impressoproveniente da segunda metade da histria de sua doena. Tendoassim minha ateno despertada pela regularidade dessa relao,levei minha pesquisa adiante e fiquei com a impresso de que essadiferenciao ia ainda mais alm e que cada novo determinantepsquico de sensaes dolorosas ficara ligado a algum ponto novo daregio dolorosa das pernas. O ponto doloroso original de sua coxadireita se relacionara com os cuidados prestados ao pai; a regio dador estendera-se desse ponto para regies vizinhas, como resultadode novos traumas. O que tnhamos aqui, portanto, no era,rigorosamente falando, um sintoma fsico nico, ligado a umavariedade de complexos mnmicos na mente, mas sim um grande 137. nmero de sintomas semelhantes, que pareciam, numa visosuperficial, estar fundidos num nico sintoma. Mas, ao verificar que aateno da paciente se desviava desse tema, no prossegui com adelimitao das zonas de dor correspondentes aos diferentesdeterminantes psquicos.No deixei, contudo, de voltar minha ateno para o modo como todo ocomplexo sintomtico da abasia poderia ter-se estruturado nessaszonas dolorosas e, nesse sentido, fiz vrias perguntas paciente, taiscomo: Qual foi a origem de suas dores ao andar? E ao ficar de p? Eao deitar-se? A algumas dessas perguntas ela respondeuespontaneamente, a outras sob a presso de minha mo. Duas coisasresultaram da. Em primeiro lugar, ela dividiu em grupos para mimtodas as cenas a que estavam vinculadas impresses dolorosas,conforme as tivesse experimentado enquanto estava sentada ou de p,e assim por diante. Por exemplo, estava de p junto a uma portaquando o pai foi levado para casa logo aps o ataque cardaco | ver em[1]| e, com o susto, ficara paralisada como se tivesse razes no cho.Continuou acrescentando vrias outras lembranas a esse primeiroexemplo de susto quando se achava de p, at chegar cenaassustadora em que, mais uma vez, estava de p, como queenfeitiada, junto ao leito de morte da irm | ver em [1]|. Poder-se-iaesperar que toda essa cadeia de lembranas mostrasse haver umaconexo verdadeira entre suas dores e o ficar de p, e a rigor elapoderia ser aceita como prova de uma associao. Mas convmlembrar que seria preciso comprovar a presena de um outro fator emtodos esses eventos, um fator que lhe teria dirigido a atenoprecisamente para o fato de estar de p (ou, conforme o caso,andando, sentada, etc.) e, por conseguinte, levado converso. Aexplicao para o fato de sua ateno ter tomado esse rumo s podeser buscada na circunstncia de que andar, ficar de p e deitar sofunes e estados da parte do corpo que, no caso dela, abrangiam aszonas dolorosas: a saber, as pernas. Portanto, foi fcil compreendernesse caso a ligao entre a astasia-abasia e a primeira ocorrncia daconverso.Entre os episdios que, de acordo com esse catlogo, pareceram tertornado doloroso o andar, um recebeu destaque especial: um passeioque ela fizera na estao de guas em companhia de vrias outraspessoas | ver em [1]-[2]| e que teria sido longo demais. Os detalhesdesse episdio s emergiram de maneira hesitante e deixaram vriosenigmas no solucionados. Ela estivera num estado de nimoparticularmente dcil e se juntou, alegremente, a seu grupo de amigos.O dia estava bonito e no fazia muito calor. A me ficou em casa e airm mais velha j tinha ido embora. A irm mais moa sentiu-se mal, 138. mas no quis estragar o prazer dela; o cunhado primeiro disse queficaria com a esposa, mas depois resolveu juntar-se ao grupo porcausa de Elisabeth. Essa cena parecia estar estreitamente relacionadacom o primeiro aparecimento das dores, pois ela se lembrou de terficado muito cansada e de ter sentido uma dor violenta ao voltar dopasseio. Disse, contudo, no estar certa de j ter percebido as doresantes disso. Fiz-lhe ver que era improvvel que tivesse empreendidouma caminhada to longa se j tivesse sentido quaisquer dores fortes.Perguntei-lhe o que na caminhada poderia ter provocado a dor, e elame forneceu a resposta um tanto obscura de que o contraste entre suaprpria solido e a felicidade conjugal da irm enferma (felicidade estaque o comportamento do cunhado lhe lembrava constantemente) foradoloroso para ela.Outra cena, muito prxima da primeira no tempo, teve seu papel naligao das dores com o sentar. Ocorreu alguns dias depois, quando airm e o cunhado j haviam ido embora. Ela estava inquieta e ansiosa.Levantou-se cedo e subiu uma pequena colina, indo at um lugar ondemuitas vezes eles tinham estado juntos e que proporcionava uma lindavista. Sentou-se num banco de pedra e se abandonou a seuspensamentos, que mais uma vez diziam respeito a sua solido e aodestino de sua famlia, e dessa vez confessou abertamente o desejointenso de ser to feliz quanto a irm. Retornou dessa meditaomatinal com dores violentas e, naquela mesma noite, tomou o banhoaps o qual as dores surgiram em carter definitivo e permanente | verem [1]|.Constatou-se ainda, sem qualquer sombra de dvida, que suas doresao andar e ao ficar de p eram, de incio, aliviadas quando ela sedeitava. As dores s passaram a se relacionar com o ficar deitadaquando, aps ter notcia da doena da irm, ela viajou de volta deGastein [loc. cit.] e foi atormentada durante a noite tanto pelapreocupao com a irm quanto por dores lancinantes, tendo ficadoestendida e insone no vago de trem. E por muito tempo depois disso,deitar-se foi, na realidade, mais doloroso para ela do que andar ou ficarde p.Dessa forma, em primeiro lugar, a regio dolorosa se estendera com oacrscimo de reas adjacentes: cada novo tema que exercia um efeitopatognico catexizara uma nova regio das pernas; em segundo lugar,cada uma das cenas que lhe haviam causado uma forte impressodeixara um vestgio, provocando uma catexia duradoura econstantemente acumulada das vrias funes das pernas, umaligao dessas funes com suas sensaes dolorosas. Mas umterceiro mecanismo indubitavelmente estivera envolvido na formaode sua astasia-abasia. A paciente encerrou sua descrio de uma srie 139. de episdios com a queixa de que eles lhe haviam tornado doloroso ofato de ficar sozinha. Em outra srie de episdios, que abrangiamsuas tentativas frustradas de estabelecer uma nova vida para suafamlia, ela nunca se cansou de repetir que o doloroso nelas tinha sidoseu sentimento de desamparo, o sentimento de que no podia dar umnico passo frente. Em vista disso, fui forado a supor que entre asinfluncias que contriburam para a formao de sua abasia, tiverampapel essas suas reflexes; no pude deixar de pensar que a pacienteno fizera nada mais nada menos do que procurar uma expressosimblica para seus pensamentos dolorosos, e que a encontrara naintensificao de seus sofrimentos. O fato de que os sintomassomticos da histeria podem ser produzidos por uma simbolizaodessa natureza j foi afirmado em nossa Comunicao Preliminar |ver em [1]|. Na discusso do presente caso, apresentarei dois ou trsexemplos conclusivos disso. | ver em [1] e segs.| Esse mecanismopsquico de simbolizao no exerceu um papel importante na Srta.Elisabeth von R, no criou sua abasia. Mas tudo contribui para mostrarque a abasia que j estava presente recebeu assim um reforoconsidervel. Por conseguinte, essa abasia, na fase dedesenvolvimento em que a encontrei, devia ser igualada no s a umaparalisia funcional baseada em associaes psquicas, mas tambm auma paralisia baseada na simbolizao.Antes de prosseguir meu relato do caso, acrescentarei algumaspalavras sobre o comportamento da paciente durante essa segundafase do tratamento. No curso de toda a anlise usei a tcnica deprovocar o surgimento de imagens e idias atravs da presso sobre acabea da paciente, um mtodo, vale dizer, que seria impraticvel sema plena cooperao e a ateno voluntria da paciente. | ver em [1] esegs.| Por vezes, realmente, seu comportamento correspondeu sminhas melhores expectativas, e durante tais perodos foisurpreendente a prontido com que as diferentes cenas relacionadascom um dado tema surgiram numa ordem rigorosamente cronolgica.Era como se ela estivesse lendo um extenso livro ilustrado cujaspginas estivessem sendo viradas diante de seus olhos. Em outrasocasies, parecia haver impedimentos de cuja natureza eu nodesconfiava na poca. Quando lhe pressionava a cabea, elasustentava que nada lhe havia ocorrido. Eu repetia a presso e lhedizia que esperasse, mas ainda assim nada aparecia. Nas primeirasvezes em que surgiu, essa recalcitrncia permitiu-me interromper otrabalho: era um dia desfavorvel, tentaramos em outra ocasio. Duasobservaes, contudo, levaram-me a alterar minha atitude. Notei, emprimeiro lugar, que o mtodo s falhava quando eu encontravaElisabeth alegre e sem dor, e nunca quando ela se sentia mal. Em 140. segundo lugar, reparei que muitas vezes ela fazia essas afirmaes deno ter visto nada depois de deixar passar um longo intervalo durante oqual, no obstante, a expresso tensa e preocupada de seu rosto traao fato de haver um processo mental em curso. Resolvi, portanto,adotar a hiptese de que o mtodo nunca falhava: de que, em todas asocasies, sob a presso da minha mo, alguma idia ocorria aElisabeth ou alguma imagem surgia diante de seus olhos, mas ela nemsempre estava preparada para comunic-las a mim e tentava reprimirmais uma vez o que fora evocado. Consegui pensar em dois motivospara esse encobrimento. Ou ela estava criticando a idia, o que notinha nenhum direito de fazer, com o pretexto de que no erasuficientemente importante ou de que era uma resposta irrelevante pergunta que lhe fora formulada, ou estava hesitando em exibi-la porach-la muito desagradvel de contar. Passei a agir, portanto, como seestivesse inteiramente convencido da confiabilidade da minha tcnica.No aceitava mais sua declarao de que nada lhe havia ocorrido eassegurava a ela que algo devia ter acontecido. Talvez, dizia eu, elano tivesse prestado bastante ateno, e nesse caso eu teria prazerem repetir a presso. Ou talvez ela achasse que sua idia no era aidia certa. Isso, dizia-lhe eu, no era problema dela; sua obrigaoera a de ser inteiramente objetiva e dizer o que lhe viesse cabea,quer fosse apropriado, quer no. Por fim, eu declarava saber muitobem que algo lhe havia ocorrido e que ela o estava ocultando de mim,mas que jamais se livraria de suas dores enquanto escondessequalquer coisa. Ao insistir dessa maneira, consegui que, a partir dessapoca minha presso sobre sua cabea jamais falhasse. No pudedeixar de concluir que minha opinio estava certa e extra dessaanlise uma confiana literalmente irrestrita em minha tcnica. Muitasvezes acontecia de s depois de eu pressionar-lhe a cabea por trsvezes que ela me dava uma informao. Mas ela mesma observavadepois: Poderia ter-lhe dito isso da primeira vez. E por que nodisse? Pensei que no fosse o que era preciso, ou Pensei quepudesse evit-lo, mas ficava voltando todas as vezes. No curso dessedifcil trabalho, comecei a atribuir maior importncia resistnciaoferecida pela paciente na reproduo de suas lembranas e acompilar cuidadosamente as ocasies em que era particularmenteacentuada.Cheguei ento terceira fase do tratamento. A paciente sentia-semelhor. Fora mentalmente aliviada e era agora capaz de esforosbem-sucedidos. Mas suas dores, manifestamente, no tinham sidoeliminadas, repetiam-se de tempos em tempos e com toda a sua antigagravidade. Esse resultado teraputico incompleto correspondia a uma 141. anlise incompleta. Eu ainda no sabia exatamente em que momento epor qual mecanismo as dores se haviam originado. Durante areproduo da grande variedade de cenas da segunda fase e enquantoobservava a resistncia da paciente em falar-me delas, eu haviaformado uma suspeita especfica. No me aventurava ainda, contudo,a adot-la como base para minha ao subseqente. Mas umaocorrncia fortuita resolveu o assunto. Um dia, enquanto trabalhavacom a paciente, ouvi passos de um homem na sala contgua e uma vozagradvel que parecia estar formulando alguma pergunta. Minhapaciente levantou-se de imediato e pediu para interrompermos ostrabalhos por aquele dia: tinha ouvido o cunhado chegar e perguntarpor ela. At esse momento ela estivera livre de dor, mas, aps ainterrupo, sua expresso facial e seu andar traram o sbitosurgimento de dores agudas. Minha suspeita foi fortalecida por essefato e decidi-me a precipitar a explicao decisiva.Assim, perguntei-lhe pelas causas e circunstncias da primeira vez emque as dores haviam surgido. guisa de resposta, seus pensamentosse voltaram para a visita de vero estao de guas antes de suaviagem a Gastein, e inmeras cenas que no tinham sido tratadas demaneira muito completa surgiram de novo. Ela se lembrou de como sesentia na poca, de como estava esgotada aps a preocupao com aviso da me e os cuidados prestados a ela na poca da operao, ede como por fim perdera a esperana de que uma moa solitria comoela pudesse ter alguma felicidade na vida ou realizar alguma coisa. Atento ela se julgara forte o bastante para poder passar sem a ajuda deum homem, mas agora se via dominada pelo sentimento de suafraqueza como mulher e por um anseio de amor no qual, citando suasprprias palavras, sua natureza congelada comeava a derreter-se.Nesse estado de esprito, ela foi profundamente afetada pelocasamento feliz da segunda irm por ver com que tocante carinho ocunhado cuidava dela, como os dois se entendiam com um simplesolhar e como pareciam seguros um do outro. Sem duvida, eralastimvel que a segunda gravidez tivesse vindo to perto da primeira,e a irm sabia que esse era o motivo de sua doena, mas como asuportava de bom grado por ter sido ele o causador! Por ocasio dopasseio que estava to intimamente ligado s dores de Elisabeth, ocunhado a princpio no se mostrara disposto a participar e desejarapermanecer ao lado da esposa enferma. Ela, porm, o persuadira comum olhar a acompanh-los, por achar que isso daria prazer a Elisabeth.Elisabeth permaneceu na companhia dele durante todo o passeio.Falaram sobre todos os assuntos, at os mais ntimos. Ela sedescobriu em completo acordo com tudo o que ele dizia, e o desejo deter um marido como ele acentuou-se muito. Ento, alguns dias depois, 142. veio a cena da manh aps a partida da irm e do cunhado, quandoela foi ao local que tinha uma vista bonita e que fora o preferido nospasseios deles. Ali, sentou-se e sonhou mais uma vez em desfrutar deuma felicidade como a da irm e em encontrar um marido quesoubesse cultivar-lhe o corao, como seu cunhado cativara o dela.Sentiu dor ao levantar-se, mas esta passou mais uma vez. Foi somente tarde, depois de ter tomado o banho quente, que as doresirromperam, e ela nunca mais se livrou delas. Tentei descobrir quepensamentos lhe teriam ocupado a mente enquanto ela tomava banho,mas soube apenas que o banheiro a fizera recordar-se dos membrosda famlia que haviam partido, pois fora naquela casa que eles tinhamficado.Como era inevitvel, tudo isso j ficara claro para mim h muito tempo.Mas a paciente, mergulhada em suas lembranas acridoces, noparecia notar para onde se estava encaminhando e continuou areproduzir suas recordaes. Passou a falar de sua visita a Gastein, daansiedade com que aguardava cada carta e finalmente das msnotcias sobre a irm, da longa espera at o anoitecer, que foi oprimeiro momento em que puderam partir de Gastein, e ento daviagem, feita numa torturante incerteza, e da noite insone tudo issoacompanhado por um violento aumento das dores. Perguntei-lhe sedurante a viagem havia pensado na possibilidade deplorvel quedepois se concretizou. Respondeu-me que evitara cuidadosamentepensar nela, mas acreditava que desde o incio a me havia esperadoo pior. Suas lembranas passaram ento chegada a Viena, impresso que lhes causaram os parentes que as esperavam, curtaviagem de Viena at a estao de veraneio prxima onde morava airm, chegada noite, caminhada apressada pelo jardim at aporta da casa ajardinada, ao silncio que reinava em seu interior e escurido opressiva. Lembrou que o cunhado no estava l parareceb-las e que ficaram diante da cama, olhando para a irm morta.Naquele momento de terrvel certeza de que a irm amada estavamorta sem ter-lhes dito adeus, e sem que ela lhe tivesse aliviado osltimos dias com seus cuidados, naquele exato momento outropensamento atravessou a mente de Elisabeth, e agora se impunha demaneira irresistvel a ela mais uma vez, como um relmpago nastrevas: Agora ele est livre novamente e posso ser sua esposa.Tudo ficou claro ento. Os esforos do analista foram ricamenterecompensados. Os conceitos de rechao de uma representaoincompatvel, da gnese dos sintomas histricos atravs da conversode excitaes psquicas em algo fsico e da formao de um grupopsquico separado, atravs do ato de vontade que conduziu ao rechao todas essas coisas, naquele momento, apareceram diante de meus 143. olhos de forma concreta. Assim, e de nenhuma outra maneira, ascoisas haviam ocorrido nesse caso. Essa moa sentia pelo cunhadouma ternura cuja aceitao na conscincia deparara com a resistnciade todo o seu ser moral. Ela conseguiu poupar-se da dolorosaconvico de que amava o marido da irm induzindo dores fsicas emsi mesma. E foi nos momentos em que essa convico procurouimpor-se a ela (no passeio com o cunhado, durante o devaneio matinal,no banho e junto ao leito da irm) que suas dores surgiram, graas converso bem-sucedida. Na poca em que comecei o tratamentodela, o grupo de representaes relativas a seu amor j havia sidoseparado de seu conhecimento. De outra forma, penso eu, ela jamaisteria concordado em iniciar o tratamento. A resistncia que ela haviarepetidamente oferecido reproduo das cenas que atuaram deforma dramtica correspondera, na verdade, energia com que arepresentao incompatvel fora expulsa de suas associaes.O perodo que se seguiu, porm, foi rduo para o mdico. O resgatedessa representao recalcada teve um efeito devastador sobre apobre moa. Ela chorou alto quando lhe expus secamente a situaocom as palavras: Quer dizer que, durante muito tempo, voc esteveapaixonada por seu cunhado. Nesse momento, ela queixou-se dasdores mais terrveis e fez um ltimo e desesperado esforo pararejeitar a explicao: no era verdade, eu a havia induzido quilo, nopodia ser verdade, ela seria incapaz de tanta maldade, jamais poderiaperdoar-se por isso. Foi fcil provar-lhe que o que ela prpria medissera no admitia outra interpretao. Mas passou-se muito tempoantes que meus dois argumentos consoladores o de que no somosresponsveis por nossos sentimentos e o de que seu comportamento,o fato de ter adoecido naquelas circunstncias, era prova suficiente deseu carter moral passou-se muito tempo antes que essas minhasconsolaes a impressionassem um mnimo que fosse.Para minorar os sofrimentos da paciente, tive ento que percorrer maisde um caminho. Em primeiro lugar, eu queria dar-lhe uma oportunidadede se livrar da excitao que se vinha acumulando h tanto tempoatravs da ab-reao. Vasculhamos as primeiras impresses quesuas relaes com o cunhado lhe causaram, o incio dos sentimentospor ele que ela mantivera inconscientes. A deparamos com todos ospequenos sinais e impresses premonitrios a que uma paixoplenamente desenvolvida confere tanta importncia em retrospectiva.Na primeira visita que fizera famlia, ele a confundira com a moacom quem iria casar-se e a cumprimentara antes da irm mais velha,de aparncia um tanto insignificante. Certa noite, os dois conversavamcom tanta animao e pareciam dar-se to bem que a noiva osinterrompeu num tom parcialmente srio, com a seguinte observao: 144. A verdade que vocs dois se ajustariam de maneira esplndida. Deoutra vez, numa festa em que ningum sabia do noivado dele,falava-se do rapaz e uma senhora criticou-lhe um defeito fsico queindicava que ele tivera uma doena ssea na infncia. A prpria noivaouviu isso tranqilamente, mas Elisabeth inflamou-se e defendeu asimetria do fsico de seu futuro cunhado com um zelo que ela prpriano pde compreender. medida que fomos trabalhando essaslembranas, tornou-se claro para Elisabeth que seu sentimentoafetuoso pelo cunhado estivera latente por muito tempo, talvez mesmodesde que o conhecera e ficara escondido todo aquele tempo atrs damscara de uma mera afeio fraterna, que seu senso familiar muitodesenvolvido permitia-lhe aceitar como natural.Esse processo de ab-reao certamente lhe fez muito bem. Mas pudealivi-la ainda mais ao me interessar como amigo por sua situaoatual. Com essa finalidade em mente, providenciei uma entrevista coma Sra. von R. Verifiquei ser ela uma senhora compreensiva e sensvel,embora seu nimo vital tivesse sido abatido pelos recentes infortnios.Soube por ela que, num exame mais detido, a acusao de chantageminsensvel que o cunhado mais velho proferira contra o vivo, e quefora to penosa para Elisabeth, tivera de ser retirada. No restounenhuma mancha no carter do rapaz. Tudo fora um mal-entendidodevido aos valores diferentes que, como se pode ver facilmente, soatribudos ao dinheiro por um homem de negcios, para quem odinheiro constitui um instrumento de sua profisso, e por um servidorpblico. Nada alm disso restara do penoso episdio. Pedi me delaque, a partir daquele momento contasse a Elisabeth tudo o que elaprecisava saber, e que no futuro lhe desse a oportunidade dedescarregar sua mente, coisa a que eu j a teria habituado.Eu tambm estava, naturalmente, ansioso para saber que possibilidadehaveria de que o desejo da moa, do qual ela agora tinha conscincia,se concretizasse. Aqui, as perspectivas eram menos favorveis. A mecontou-me que h muito adivinhara os sentimentos de Elisabeth pelorapaz, embora no soubesse que esses sentimentos j existiamquando a irm era viva. Ningum que visse os dois juntos embora,na verdade, isso agora ocorresse raramente poderia duvidar dansia da moa em agrad-lo. Mas, disse, nem ela (a me) nem osconselheiros da famlia eram muito favorveis a um casamento. Asade do rapaz no era nada boa e recebera um novo golpe com amorte da esposa amada. Tambm no era nada certo que o estadomental dele j se houvesse recuperado o bastante para que ele fizesseum novo casamento. Talvez fosse por isso que ele se comportava comtanta reserva; talvez, tambm, estivesse incerto da acolhida quepoderia ter e desejasse evitar os comentrios que provavelmente 145. seriam feitos. Em vista dessas restries de ambos os lados, eraimprovvel que a soluo pela qual ansiava Elisabeth viesse a ocorrer.Disse moa o que ouvira da me dela e tive a satisfao de ajud-laao dar-lhe a explicao sobre a questo do dinheiro. Por outro lado,encorajei-a a enfrentar com calma a incerteza sobre o futuro, que eraimpossvel dissipar. Mas a essa altura, a aproximao do vero tornouurgente que encerrssemos a anlise. O estado da paciente estava denovo melhor e no se falara mais em suas dores desde quecomeramos a investigar-lhes as causas. Ambos tnhamos asensao de havermos chegado ao fim, embora eu dissesse a mimmesmo que a ab-reao do amor que ela havia refreado por tantotempo no se realizara completamente. Considerei-a curada edisse-lhe que a soluo de suas dificuldades se processaria por suaprpria conta, agora que o caminho fora aberto. Ela no questionouisso. Partiu de Viena com a me para encontrar-se com a irm maisvelha e a famlia desta, a fim de passarem juntas o vero.Tenho algumas palavras a acrescentar sobre o curso posterior do casoda Srta. Elisabeth von R. Algumas semanas depois de nos termosseparado, recebi uma carta desesperada de sua me. Na primeiratentativa que fizera, disse-me ela, de discutir os assuntos sentimentaisda filha com ela, a moa se rebelara violentamente e desde entopassara a sofrer de dores intensas mais uma vez. Ficara indignadacomigo por eu ter trado seu segredo. Mostrava-se inteiramenteinacessvel e o tratamento fora um fracasso completo. O que sedeveria fazer agora? perguntou. Elisabeth se recusava a ter maisqualquer outra coisa a ver comigo. No respondi a isso. Era evidenteque Elisabeth, depois de sair dos meus cuidados, faria mais umatentativa de rejeitar a interveno da me e refugiar-se mais uma vezno isolamento. Mas eu tinha uma espcie de convico de que tudoacabaria bem e de que o trabalho que eu tivera no fora em vo. Doismeses depois elas voltaram a Viena, e o colega que me apresentara ocaso deu-me notcias de que Elisabeth se sentia perfeitamente bem ese comportava como se no houvesse nada de errado com ela,embora ainda sofresse ocasionalmente de leves dores. Vrias vezesdesde ento ela me enviou mensagens semelhantes e, em cada umadelas, prometeu vir ver-me. Mas caracterstico da relao pessoalque se estabelece nos tratamentos dessa natureza que ela nunca otenha feito. Como me assegura meu colega, ela deve ser consideradacurada. A ligao do cunhado dela com a famlia permaneceuinalterada.Na primavera de 1894, eu soube que ela iria a um baile particular parao qual eu poderia obter um convite, e no deixei escapar aoportunidade de ver minha ex-paciente passar por mim rodopiando 146. numa dana animada. Depois dessa ocasio, por sua prpria vontade,casou-se com algum que no conheo.DISCUSSONem sempre fui psicoterapeuta. Como outros neuropatologistas, fuipreparado para empregar diagnsticos locais e eletroprognsticos, eainda me causa estranheza que os relatos de casos que escrevopaream contos e que, como se poderia dizer, falte-lhes a marca deseriedade da cincia. Tenho de consolar-me com a reflexo de que anatureza do assunto evidentemente a responsvel por isso, e noqualquer preferncia minha. A verdade que o diagnstico local e asreaes eltricas no levam a parte alguma no estudo da histeria, aopasso que uma descrio pormenorizada dos processos mentais,como as que estamos acostumados a encontrar nas obras dosescritores imaginativos, me permite, com o emprego de algumasfrmulas psicolgicas, obter pelo menos alguma espcie decompreenso sobre o curso dessa afeco. Os casos clnicos dessanatureza devem ser julgados como psiquitricos; entretanto, possuemuma vantagem sobre estes ltimos, a saber: uma ligao ntima entre ahistria dos sofrimentos do paciente e os sintomas de sua doena uma ligao pela qual ainda procuramos em vo nas biografias dasoutras psicoses.Ao relatar o caso da Srta. Elisabeth von R., esforcei-me por entrelaaras explicaes que pude fornecer sobre o caso com minha descriodo curso da recuperao da paciente. Talvez valha a pena reunir maisuma vez os pontos importantes. Descrevi o carter da paciente ascaractersticas que so encontradas com tanta freqncia nas pessoashistricas e que no h nenhuma desculpa para se considerar comoconseqncia da degenerescncia: seus talentos variados, suaambio, sua sensibilidade moral, sua excessiva exigncia de amor, aprincpio atendida pela famlia, e a independncia de sua natureza, queia alm do ideal feminino e encontrava expresso numa doseconsidervel de obstinao, combatividade e reserva. Nenhumamancha hereditria aprecivel, segundo me disse meu colega, pdeser encontrada em qualquer dos dois lados da famlia. verdade que ame sofrera por muitos anos de uma depresso neurtica que no forainvestigada, mas os irmos e as irms da me, assim como o pai e afamlia deste, podiam ser considerados pessoas equilibradas, semproblemas nervosos. No ocorrera nenhum caso grave deneuropsicose entre os parentes prximos.Tal era a natureza da paciente, que agora se via dominada por 147. emoes dolorosas, a comear pelo efeito depressivo de cuidar de seuquerido pai durante uma doena prolongada.H bons motivos para que o fato de cuidar de pessoas doentesdesempenhe um papel to significativo na pr-histria dos casos dehisteria. Muitos dos fatores em ao so bvios: a perturbao dasade fsica que decorre do sono interrompido, o desleixo para consigomesmo e o efeito da preocupao constante sobre as prprias funesvegetativas. Em minha opinio, porm, deve-se procurar odeterminante mais importante em outra parte. Qualquer pessoa cujamente seja ocupada pelas mil e uma tarefas envolvidas na prestaode cuidados a pessoas enfermas, tarefas essas que se seguem umass outras numa sucesso interminvel por um perodo de semanas emeses, adotar, por um lado, o hbito de suprimir todos os sinais desua prpria emoo, e por outro, logo desviar a ateno de suasprprias impresses, visto no ter nem tempo nem foras paraapreci-las devidamente. Assim, acumula uma massa de impressespassveis de carregar afeto, que mal chegam a ser suficientementepercebidas e que, de qualquer modo, no foram enfraquecidas pelaab-reao. Est criando material para uma histeria de reteno.Quando o doente se recupera, claro, todas essas impressesperdem seu significado. Mas quando ele morre e se instala ento operodo de luto, no qual as nicas coisas que parecem ter valor so asque se relacionam com a pessoa que morreu, aquelas impresses queainda no foram trabalhadas entram igualmente em cena, e aps umbreve intervalo de exausto, irrompe a histeria, cujas sementes foramlanadas durante o tempo de prestao de cuidados ao doente.Tambm deparamos ocasionalmente com esse mesmo fato de ostraumas acumulados durante a prestao de cuidados a um enfermoserem enfrentados mais tarde, sem que haja nenhuma impresso geralde doena, mas retendo-se ainda assim o mecanismo da histeria. ocaso, por exemplo, de uma senhora que conheo, extremamentebem-dotada, que sofre de leve nervosismo e cujo carter, como umtodo, apresenta traos de histeria, embora ela nunca tenha tido queprocurar assistncia mdica ou ficado impossibilitada de cumprir seusdeveres. Ela j cuidou at o fim de trs ou quatro pessoas a quemamava. A cada vez, chegava a um estado de completo esgotamento,mas no adoecia depois desses trgicos esforos. Pouco depois damorte de cada paciente seu, contudo, iniciava-se nela um trabalho dereproduo que mais uma vez lhe colocava diante dos olhos as cenasda doena e da morte. Todos os dias ela repassava cada umadaquelas impresses, chorava e se consolava a seu bel-prazer,poder-se-ia dizer. Esse processo de lidar com suas impresses 148. encaixava-se em suas tarefas cotidianas sem que as duas atividadesinterferissem uma na outra. A situao inteira lhe passava pela menteem seqncia cronolgica. No sei dizer se o trabalho derememorao correspondia dia a dia ao passado. Desconfio que issodependia do nmero de horas de lazer proporcionadas por seusafazeres domsticos correntes.Alm dessas exploses de choro com que ela compensava o atraso eque ocorriam logo aps o trmino fatal da doena, essa senhoracelebrava festivais anuais de lembranas no perodo de suas vriascatstrofes, e nessas ocasies sua ntida reproduo visual e suasexpresses de sentimento se atinham rigorosamente s datas exatas.Por exemplo, uma vez encontrei-a chorando a perguntei-lheamavelmente o que acontecera naquele dia. Ela repeliu minhapergunta, um pouco irritada: No foi nada, disse, foi s que oespecialista esteve aqui hoje novamente e nos deu a entender que nohavia {#V2_P186} mais nenhuma esperana. No tive tempo de chorarpor causa disso na hora. Referia-se ltima doena do marido, quefalecera trs anos antes. Muito me interessaria saber se as cenas queela relembrava nesses festivais anuais de recordaes eram sempreas mesmas, ou se a cada vez se apresentavam detalhes diferentespara fins de ab-reao, tal como suspeito em vista de minha teoria.Mas no posso saber com certeza. Essa senhora, que no tinhamenos fora de carter do que inteligncia, sentia-se envergonhada doefeito violento que essas reminiscncias tinham sobre ela.Devo frisar mais uma vez que essa mulher no est doente; suaab-reao retardada no era um processo histrico, por mais que seassemelhasse a tal processo. Podemos perguntar por que umasituao de velar por doentes acompanhada de histeria e outra, no.No pode ser uma questo de predisposio individual, pois esta seachava presente em alto grau na senhora de que falei.Mas devo agora voltar Srta. Elisabeth von R. Enquanto cuidava dopai, como vimos, ela desenvolveu pela primeira vez um sintomahistrico uma dor numa regio especfica da coxa direita. Por meioda anlise, foi possvel encontrar uma elucidao adequada para omecanismo do sintoma. Ele aconteceu no momento em que o crculode idias que abrangia seus deveres para com o pai enfermo entrouem conflito com o contedo do desejo ertico que ela estava sentindona poca. Sob a presso de intensas autocensuras, ela se decidiu emfavor do primeiro e, ao faz-lo, provocou a dor histrica.De acordo com a viso sugerida pela teoria conversiva da histeria oque aconteceu pode ser descrito da seguinte maneira. Ela recalcouuma idia ertica fora da conscincia e transformou a carga de seuafeto em sensaes fsicas de dor. No ficou claro se esse primeiro 149. conflito se apresentou a ela numa nica ocasio ou em vrias; asegunda alternativa a mais provvel. Um conflito exatamentesemelhante embora de maior significao tica e ainda maisclaramente estabelecido pela anlise desenvolveu-se de novoalguns anos depois e levou a uma intensificao e uma extenso dasmesmas dores para alm dos limites originais. Mais uma vez, foi umcrculo de representaes de natureza ertica que entrou em conflitocom todas as suas representaes morais, pois suas inclinaescentralizaram-se no cunhado e, tanto durante a vida da irm comodepois de sua morte, a representao de ser atrada precisamente poresse homem lhe era totalmente inaceitvel. A anlise proporcionouinformaes pormenorizadas sobre esse conflito, que foi o pontocentral da histria da doena. Os germes do sentimento da pacientepelo cunhado podiam ter estado presentes por muito tempo; seudesenvolvimento foi favorecido pela exausto fsica devida ampliaodos cuidados com os doentes e pela exausto moral devida sdecepes que se estendiam por muitos anos. A frieza de suanatureza comeou a ceder e ela admitiu para si mesma suanecessidade do amor de um homem. Durante as vrias semanas quepassou na companhia dele na estao de guas, seus sentimentoserticos, bem como suas dores, alcanaram seu clmax.A anlise, alm disso, deu provas de que durante o mesmo perodo apaciente se encontrava num estado psquico especial. A ligao desseestado com seus sentimentos erticos e suas dores parece possibilitara compreenso do que aconteceu segundo a teoria da converso.Parece-me seguro afirmar que, na poca, a paciente s seconscientizou claramente de seus sentimentos pelo cunhado, por maispoderosos que fossem, numas poucas ocasies, e mesmo assimapenas momentaneamente. Se tivesse sido de outra forma, elatambm se teria conscientizado, inevitavelmente, da contradio entreesses sentimentos e suas representaes morais, e teriaexperimentado tormentos mentais como os que a observei ter depoisde nossa anlise. Ela no se lembrava de nenhum sofrimento dessetipo; havia-os evitado. Sucedeu que seus prprios sentimentos noficaram claros para ela. Naquela poca, assim como durante a anlise,seu amor pelo cunhado estava presente em sua conscincia, como umcorpo estranho, sem entrar em relao com o restante de sua vidarepresentativa. Com relao a esses sentimentos, ela estava nasituao peculiar de saber e, ao mesmo tempo, de no saber situao, vale dizer, em que um grupo psquico isolado. Mas isto, enada mais, o que queremos dizer quando afirmamos que essessentimentos no estavam claros para ela. No queremos dizer que aconscincia deles fosse de qualidade inferior ou de menor grau, mas 150. sim que eles foram isolados de qualquer livre conexo associativa depensamento com o resto do contedo representativo de sua mente.Mas como poderia ocorrer que um grupo representativo com tantafora emocional fosse mantido to isolado? Afinal de contas, em geralo papel desempenhado nas associaes por uma idia aumenta,proporcionalmente quantidade de afetos que h nela.Poderemos responder a essa pergunta se levarmos em conta doisfatos que podemos usar como estabelecidos com certeza. (1)Simultaneamente formao desse grupo psquico isolado, a pacientedesenvolveu suas dores histricas. (2) A paciente ofereceu forteresistncia tentativa de se promover uma associao entre o grupopsquico isolado e o resto do contedo de sua conscincia; e quando,apesar disso, a ligao se realizou, ela sentiu uma grande dorpsquica. Nossa viso da histeria relaciona esses dois fatos com adiviso de sua conscincia, afirmando que o segundo deles indica omotivo para a diviso da conscincia, ao passo que o primeiro indicaseu mecanismo. O motivo foi o de defesa a recusa, por parte detodo o ego da paciente, a chegar a um acordo com esse gruporepresentativo. O mecanismo foi o de converso, isto , em lugar dasdores mentais que ela evitou, surgiram as dores psquicas. Dessemodo, efetuou-se uma transformao que teve a vantagem de livrar apaciente de uma condio mental intolervel, embora, verdade, custa de uma anormalidade psquica a diviso da conscincia quese efetuou e de uma doena fsica suas dores, sobre as quais sedesenvolveu uma astasia-abasia.Devo confessar que no posso oferecer nenhuma indicao de comose processa uma converso dessa natureza. Evidentemente, ela nose efetua da mesma maneira que uma ao intencional e voluntria. um processo que ocorre sob a presso da motivao de defesa emalgum cuja organizao ou modificao temporria dela temuma tendncia nesse sentido.Essa teoria exige um exame mais detido. Podemos perguntar: o que que se transforma aqui em dor fsica? Uma resposta cautelosa seria:algo que talvez se tivesse transformado e que deveria ter-setransformado em dor mental. Se nos aventurarmos um pouco mais etentarmos representar o mecanismo representativo numa espcie dequadro algbrico, poderemos atribuir uma certa carga de afeto aocomplexo representativo dos sentimentos erticos que permaneceraminconscientes e dizer que essa quantidade (a carga afetiva) o que foiconvertido. Resultaria diretamente dessa descrio que o amorinconsciente teria perdido tanto de sua intensidade atravs de umaconverso desse tipo que se teria reduzido a apenas umarepresentao fraca. Essa reduo da fora seria, ento, a nica coisa 151. que tornou possvel a existncia desses sentimentos inconscientescomo um grupo psquico isolado. O presente caso, contudo, no sepresta bem a dar um quadro ntido de um assunto to delicado, poisnele provavelmente s houve converso parcial; em outros, pode-sedemonstrar com probabilidade que a converso completa tambmocorre, e que nela a representao incompatvel de fato recalcada,como somente uma representao de intensidade muito fraca podeser. Os pacientes em questo declaram, depois que a ligaoassociativa com a representao incompatvel se estabelece, que seuspensamentos no se voltavam para ela desde o aparecimento dossintomas histricos.Afirmei anteriormente | ver em [1]| que em algumas ocasies, emboraapenas por um momento, a paciente reconheceu conscientemente seuamor pelo cunhado. Como exemplo disso, podemos recordar omomento em que ela se encontrava de p junto cama da irm e umpensamento lhe cruzou a mente: Agora ele est livre e voc pode sersua esposa | ver em [1]|. Cabe-me agora considerar o significadodesses momentos em sua relao com nossa viso de toda a neurose.Parece-me que o prprio conceito de histeria de defesa implica quepelo menos um desses momentos deve ter ocorrido. A conscinciasimplesmente no sabe por antecipao quando uma representaoincompatvel vai aflorar. A representao incompatvel, que juntamentecom as que lhe esto associadas depois excluda e forma um grupopsquico separado, deve originalmente ter estado em comunicaocom a corrente principal de pensamento. De outra forma, o conflito quelevou a sua excluso no poderia ter ocorrido. So esses momentos,portanto, que devem ser classificados de traumticos; nessesmomentos que ocorre a converso, cujos resultados so a diviso daconscincia e o sintoma histrico. No caso da Srta. Elisabeth von R.,tudo indica que ocorreram vrios desses momentos as cenas dopasseio, o devaneio matinal, o banho e a presena cabeceira dairm. at possvel que novos momentos da mesma espcie tenhamacontecido durante o tratamento. O que possibilita a existncia devrios desses momentos traumticos que as experinciassemelhantes que originalmente introduziu a representaoincompatvel acrescentam uma nova excitao ao grupo psquicoseparado e, desse modo, suspendem temporariamente o xito daconverso. O ego obrigado a prestar ateno a essa irrupo sbitada representao e a restaurar o antigo estado de coisas atravs deuma nova converso. A Srta. Elisabeth, que passava muito tempo nacompanhia do cunhado, deve ter ficado particularmente sujeita ocorrncia de novos traumas. Do ponto de vista da minha exposioatual, eu teria preferido um caso em que a histria traumtica se 152. situasse inteiramente no passado.Cabe-me agora tocar num ponto que conforme descrevi | ver em [1]-[2]|levanta um obstculo compreenso desse caso. Baseando-se naanlise, presumi que uma primeira converso havia ocorrido quando apaciente estava cuidando do pai, na poca em que seus deveres deenfermeira entraram em conflito com seus desejos erticos, e que oque aconteceu ento foi o prottipo dos eventos posteriores, naestao de guas nos Alpes, que levaram irrupo da doena. Masparecia, pelo relato da paciente, que enquanto cuidava do pai edurante o tempo que se seguiu o que descrevi como o primeiroperodo ela no teve nenhuma dor e nenhuma fraquezalocomotora. verdade que certa vez, durante a doena do pai, elaesteve acamada por alguns dias com dores nas pernas, maspermaneceu uma dvida quanto a determinar se esse ataque deveriaser atribudo histeria. No se pde achar na anlise nenhuma ligaocausal entre essas primeiras dores e qualquer impresso psquica. possvel, e na realidade provvel, que o que ela sentia na pocafossem dores musculares reumticas comuns. Alm disso, mesmo queestivssemos inclinados a supor que esse primeiro acesso de dores foio efeito de uma converso histrica devida ao repdio de seuspensamentos erticos na poca, permanece o fato de que as doresdesapareceram depois de apenas alguns dias, de modo que a pacientese comportara, na vida real, de maneira diferente do que pareceuindicar na anlise. Durante a reproduo do que denominei de primeiroperodo, todas as histrias da paciente sobre a doena e morte do pai,sobre suas impresses acerca do relacionamento com o primeirocunhado, e assim por diante, foram acompanhadas de dores, ao passoque, na poca em que efetivamente vivenciou essas impresses, elano sentira dor alguma. No seria esta uma contradio destinada areduzir bastante nossa crena no valor explicativo de uma anlisecomo esta?Creio que posso solucionar essa contradio presumindo que as dores os produtos da converso no ocorreram enquanto a pacienteestava experimentando as impresses do primeiro perodo, mas sposteriormente, isto , no segundo perodo, enquanto reproduzia essasimpresses em seus pensamentos. Em outras palavras, a conversono se deu ligada a suas impresses enquanto novas, mas sim emconexo com suas lembranas das mesmas. Acredito mesmo queesse curso dos acontecimentos no nada incomum na histeria e que,na verdade, desempenha um papel regular na gnese dos sintomashistricos. Mas como uma afirmao desse tipo no evidente em simesma, tentarei torn-la mais plausvel apresentando mais algunsexemplos. 153. Certa vez aconteceu que um novo sintoma histrico se desenvolveunuma paciente em pleno curso de um tratamento analtico dessaespcie, de modo que pude empreender a tarefa de me livrar dele umdia aps seu aparecimento. Interpolarei aqui as principaiscaractersticas do caso. Foi um caso bem simples, porm nodestitudo de interesse.A Srta. Rosalia H., de vinte e trs anos de idade, vinha h alguns anosestudando para tornar-se cantora. Tinha boa voz, mas se queixava deque, em certas partes de seu registro, perdia o controle sobre ela.Tinha uma sensao de sufocamento e de constrio na garganta, demodo que sua voz soava velada. Por esse motivo seu professor aindano pudera consentir que ela se apresentasse em pblico comocantora. Embora essa imperfeio lhe afetasse apenas o registromdio, no podia ser atribuda a um defeito no prprio rgo. s vezesa perturbao desaparecia por completo e seu professor expressavagrande satisfao; em outras ocasies, bastava ela estar um poucoagitada, algumas vezes sem nenhuma causa aparente, para que asensao de constrio reaparecesse e a produo da voz fosseprejudicada. No foi difcil reconhecer uma converso histrica nessasensao extremamente perturbadora. No tomei nenhumaprovidncia para descobrir se havia de fato uma contratura dosmsculos das cordas vocais. Durante a anlise hipntica que realizeicom a moa vim a saber dos seguintes fatos sobre sua histria e,conseqentemente, sobre a causa de seu problema. Ela perdera ospais cedo e fora levada para morar com uma tia que tinha muitos filhos.Em conseqncia disso, envolveu-se numa vida familiar muito infeliz. Omarido da tia, que era uma pessoa visivelmente patolgica, maltratavade maneira brutal a esposa e os filhos. Feria os sentimentos deles,sobretudo pela forma como demonstrava uma evidente prefernciasexual pelas criadas e amas da casa; e quanto mais os filhos foramcrescendo, mais ofensivo isso se tornou. Aps a morte da tia, Rosaliatornou-se a protetora da multido de crianas que agora eram rfs eoprimidas pelo pai. Ela levava seus deveres a srio e superou todos osconflitos a que sua posio a conduziu, embora isso requeressegrande esforo para reprimir o dio e o desprezo que sentia pelo tio.Foi nessa poca que a sensao de constrio na garganta comeou.Todas as vezes que tinha de refrear uma resposta, ou se obrigava aficar calada em face de alguma acusao ultrajante, sentia a gargantaarranhar e apertar e perdia a voz todas as sensaes localizadas nalaringe ou na faringe que agora interferiam com o canto. No era deadmirar que ela buscasse uma oportunidade para se tornarindependente e escapar das agitaes e das experincias aflitivas queocorriam diariamente na casa do tio. Um professor de canto muito 154. competente ajudou-a de modo desinteressado e lhe assegurou quesua voz justificava que escolhesse o canto como profisso. Elacomeou ento a tomar lies com ele em segredo. Mas muitas vezessaa s pressas para a aula de canto enquanto ainda tinha a constriona garganta, que costumava persistir aps cenas violentas em casa.Como conseqncia, estabeleceu-se com firmeza uma ligao entre ocanto e sua paraestesia histrica uma ligao para a qual o caminhofoi preparado pelas sensaes orgnicas provocadas pelo canto. Oaparelho sobre o qual ela deveria ter pleno controle quando cantavarevelou-se catexizado com resduos de inervao que sobraram dasnumerosas cenas de emoo reprimida. Depois dessa poca, elaabandonou a casa do tio e se mudou para outra cidade, para ficarlonge da famlia. Mas isso no eliminou sua dificuldade.Essa moa bonita e excepcionalmente inteligente no exibia quaisqueroutros sintomas histricos.Fiz o melhor que pude para livr-la dessa histeria de retenofazendo-a narrar todas as suas experincias perturbadoras e aab-reagi-las a posteriori. Fiz com que destratasse o tio, lhe passassesermes, lhe dissesse a verdade nua e crua e assim por diante, e essetratamento lhe fez bem. Infelizmente, contudo, ela vivia em Viena emcondies muito desfavorveis. No tinha sorte com os parentes. Foraalojada por outro tio, que a tratava de maneira amistosa, masexatamente por esse motivo a tia tomara averso a ela. Essa mulhersuspeitava que o marido tinha um interesse mais profundo pelasobrinha e, assim resolveu tornar-lhe a estada em Viena todesagradvel quanto possvel. A prpria tia, em sua mocidade, foraobrigada a desistir de uma carreira artstica e invejava a sobrinha porpoder cultivar seu talento, embora no caso da moa no tivesse sidoseu desejo, mas sua necessidade de independncia, que lhedeterminara a deciso. Rosalie sentia-se to constrangida na casa queno se aventurava, por exemplo, a cantar ou tocar piano enquanto a tiapudesse ouvi-la, e evitava cuidadosamente cantar ou tocar para o tio(que, alis, era um senhor idoso, irmo de sua me) quando haviaalguma possibilidade de a tia entrar. Enquanto eu tentava eliminar osvestgios de antigas agitaes, surgiram outras a partir dessasrelaes com seu anfitrio e sua anfitrioa, que por fim interferiram noxito do meu tratamento e o levaram a um fim prematuro.Um dia a paciente chegou para a sesso com um novo sintoma, queno chegava a ter vinte e quatro horas. Queixava-se de umadesagradvel sensao de alfinetadas nas pontas dos dedos, as quais,segundo disse, vinha sentindo com intervalos de poucas horas desde odia anterior e que a obrigavam a fazer um movimento peculiar de 155. contoro dos dedos. No cheguei a observar um acesso, casocontrrio sem dvida teria podido adivinhar, pela natureza dosmovimentos, o que os havia ocasionado. Mas imediatamente tenteiseguir a trilha da explicao do sintoma (era, na verdade, um ataquehistrico menor) pela anlise hipntica. Visto que a coisa s comearaa existir h to pouco tempo, eu tinha esperana de poder explicarrapidamente o sintoma e elimin-lo. Para minha surpresa, a pacientedesfiou um grande nmero de cenas, sem hesitao e em ordemcronolgica, a comear por sua primeira infncia. Pareciam ter emcomum o fato de lhe ter sido causado algum dano do qual ela nopudera defender-se e que teria feito seus dedos estremecerem. Eramcenas, por exemplo, como a de ter que estender a mo na escola paraque o professor lhe batesse com uma rgua. Mas tinham sido ocasiesmuito comuns e eu estava preparado para negar que pudessemdesempenhar um papel na etiologia de um sintoma histrico. Mas foidiferente com uma cena de sua infncia que ela descreveu. O tio mau,que sofria de reumatismo, pedira-lhe que massageasse suas costas eela no ousara recusar. Na ocasio, ele estava deitado na cama e, derepente, jogou longe os lenis, deu um salto e tentou agarr-la ederrub-la na cama. A massagem, claro, estava terminada, e nomomento seguinte ela havia fugido e se trancado em seu quarto. Ficouclaro que ela relutava em se lembrar disso e no estava disposta adizer se vira algo quando ele se descobriu subitamente. As sensaesnos dedos poderiam ser explicadas, nesse caso, pelo impulsoreprimido de puni-lo, ou simplesmente por t-lo massageado naocasio. Foi somente depois de relatar essa cena que ela chegou dodia anterior, depois da qual a sensao e os tremores nos dedoshaviam-se instalado como um smbolo mnmico recorrente. O tio comquem ela morava agora pedira-lhe que tocasse alguma coisa. Ela sesentara ao piano e se acompanhara numa cano, pensando que a tiahouvesse sado, mas, de repente, esta apareceu na porta. Rosalie deuum salto, fechou violentamente a tampa do piano e jogou longe apartitura. Podemos adivinhar qual foi a lembrana que lhe surgiu mente e qual a seqncia de pensamentos que ela estava rechaandonaquele momento: um sentimento intenso de ressentimento pelasuspeita injusta a que ficou sujeita e que a teria levado a abandonar acasa, ao passo que, na verdade, se via obrigada a permanecer emViena por causa do tratamento e no havia nenhum outro lugar ondepudesse alojar-se. O movimento dos dedos que a vi fazer enquantonarrava essa cena foi o de afastar algo retorcendo os dedos, damaneira como em sentido literal ou figurado, pomos algo de lado jogamos fora um pedao de papel ou rejeitamos uma sugesto.Ela foi muito firme em sua insistncia de que no havia notado esse 156. sintoma antes de que ele no fora ocasionado pelas cenasinicialmente descritas por ela. Assim, s nos restou supor que oacontecimento da vspera havia, em primeiro lugar, despertado alembrana de acontecimentos anteriores de temtica semelhante, eque a partir da se formara um smbolo mnmico que se aplicava atodo o grupo de lembranas. A energia para a converso fora suprida,de um lado, por um afeto renovado e, de outro, pelo afeto relembrado.Ao considerarmos a questo mais detidamente, devemos reconhecerque um processo dessa natureza mais a regra do que a exceo nagnese dos sintomas histricos. Quase invariavelmente, ao investigaros determinantes desses estados, o que tenho encontrado no umanica causa traumtica, mas um grupo de causas semelhantes. (Issofoi bem exemplificado no caso da Sra. Emmy Caso 2). Em algunsdesses exemplos, foi possvel comprovar que o sintoma em causa japarecera por um breve perodo aps o primeiro trauma e depoispassara, at ser novamente provocado e estabilizado por um traumasubseqente. No existe, contudo, em princpio, nenhuma diferenaentre o fato de o sintoma surgir dessa forma temporria aps suaprimeira causa provocadora e o fato de estar latente desde o comeo.Com efeito, na grande maioria dos exemplos, verificamos que umprimeiro trauma no deixa nenhum sintoma, ao passo que um traumaposterior da mesma espcie produz um sintoma, s que este ltimono pode ter surgido sem a cooperao da causa provocadoraanterior, nem pode ter esclarecido sem se levarem em conta todas ascausas provocadoras.Enunciado em termos da teoria da converso, esse fato indiscutvel dasoma dos traumas e da latncia preliminar dos sintomas nos ensinaque a converso pode resultar tanto de sintomas novos quanto dosque so relembrados. Essa hiptese explica inteiramente a aparentecontradio que observamos entre os fatos da doena da Srta.Elisabeth von R. e sua anlise. No resta dvida de que a existnciapersistente na conscincia de idias cujo afeto no foi trabalhado podeser tolerada em alto grau por indivduos saudveis. A opinio queacabo de apresentar nada mais faz do que aproximar o comportamentodas pessoas histricas do das pessoas sadias. O que nos interessaaqui claramente um fator quantitativo a questo de qual o graumximo de tenso afetiva dessa natureza que o organismo podetolerar. Mesmo uma pessoa histrica capaz de reter certa quantidadede afeto com o qual no se lidou; quando, em virtude da ocorrncia decausas provocadoras semelhantes, essa quantidade aumentada pelasoma at um ponto alm da tolerncia do indivduo, d-se o mpeto 157. para a converso. Assim, quando dizemos que a formao dossintomas histricos pode processar-se com base tanto em afetosrelembrados quanto em afetos novos, no estamos fazendo nenhumaafirmao desconhecida, e sim declarando algo que quase aceitocomo um postulado.Acabo de examinar os motivos e o mecanismo desse caso de histeria;resta-me considerar com que preciso o sintoma histrico foideterminado. Por que foi que o sofrimento mental da paciente passou aser representado por dores nas pernas e no em qualquer outra parte?As circunstncias indicam que essa dor somtica no foi criada pelaneurose, mas apenas utilizada, aumentada e mantida por ela. Possoacrescentar imediatamente que encontrei um estado de coisassemelhantes em quase todos os casos de dores histricas dos quaispude obter alguma compreenso. | ver em [1].| Sempre estiverapresente, no incio, uma dor autntica, de base orgnica. Parece queas dores humanas mais comuns e mais difundidas so as escolhidascom mais freqncia para desempenhar um papel na histeria: emparticular, as dores periosteais e nevrlgicas que acompanham asdoenas dentrias, as dores de cabea provenientes de muitas fontesdiferentes e, no com menos freqncia, as dores muscularesreumticas que tantas vezes deixam de ser reconhecidas | ver em [1]|.Da mesma forma, atribuo uma base orgnica ao primeiro acesso dedor da Srta. Elisabeth von R., que ocorreu muito antes, quando elaainda cuidava do pai. No obtive nenhum resultado quando tenteidescobrir uma causa psquica para ela e estou inclinado, devoconfessar, a atribuir um poder de diagnstico diferencial a meu mtodode evocar lembranas ocultas, contanto que ele seja utilizado comcuidado. Essa dor, que fora reumtica em sua origem, tornou-se entoum smbolo mnmico das excitaes psquicas penosas da paciente, eisso aconteceu, at onde posso ver, por mais de uma razo. Aprimeira, e sem dvida a mais importante delas, foi que a dor seachava presente na conscincia |de Elisabeth| mais ou menos namesma poca que as excitaes. Em segundo lugar, estava ligada, oupoderia estar ligada, por muitos caminhos com as idias em sua mentena poca. De fato, a dor pode realmente ter sido uma conseqncia,embora apenas remota, do perodo em que ela cuidara dos doentes da falta de exerccio e da alimentao reduzida que seus deveres deenfermeira acarretavam. Mas a moa no tinha nenhum conhecimentontido disso. Maior importncia provavelmente h de ser atribuda aofato de que ela deve ter sentido a dor naquela ocasio em momentossignificativos, por exemplo, quando pulava da cama no frio do invernoem resposta aos chamados do pai | ver em [1]|. Mas o que deve tertido influncia positivamente decisiva sobre o rumo tomado pela 158. converso foi outra linha de conexo associativa | ver em [1]|: o fato deque, durante vrios dias seguidos, uma de suas pernas doloridasentrou em contato com a perna intumescida do pai enquanto asataduras eram trocadas. A regio da perna direita que foi marcada poresse contato ficou sendo, a partir da, o foco de suas dores e o pontode onde elas se irradiavam. Formou uma zona histerognica artificialcuja origem, no presente caso, pde ser claramente observada.Se algum ficar surpreso com essa conexo associativa entre a dorfsica e o afeto psquico, em razo de ela ser de carter to mltiplo eartificial, devo responder que esse sentimento to pouco justificadoquanto a surpresa diante do fato de serem os ricos aqueles que tmmais dinheiro. Na verdade, quando no existem essas conexes tonumerosas, o sintoma histrico no se forma, pois a converso noencontra nenhuma trilha aberta para ela. E posso afirmar que, quanto asua determinao, o exemplo da Srta. Elisabeth von R. situou-se entreos mais simples. J tive que desenredar fios dos mais emaranhados,especialmente no caso da Sra. Caecilie M.No relato do caso clnico | ver em [1] e segs.| j discuti a maneira pelaqual a astasia-abasia da paciente se desenvolveu sobre essas dores,depois de uma trilha especfica ter sido aberta para a converso.Naquele trecho, contudo tambm externei a opinio de que a pacientecriara ou aumentara seu distrbio funcional por meio da simbolizao,que encontrara na astasia-abasia uma expresso somtica para suafalta de uma posio independente e sua incapacidade de fazerqualquer alterao em suas circunstncias de vida, e que expressescomo no ser capaz de dar um nico passo frente e no ter nadaem que se apoiar serviram de ponte para esse novo ato de converso| ver em [1]|.Tentarei sustentar esse ponto de vista por meio de outros exemplos. Aconverso com base na simultaneidade, quando h tambm umaligao associativa, parece ser a que menos exige uma predisposiohistrica; a converso por simbolizao, por outro lado, parece exigir apresena de um grau mais elevado de modificaes histricas. Issopde ser observado no caso da Srta. Elisabeth, mas apenas no ltimoestgio de sua histeria. Os melhores exemplos de simbolizao que viocorreram na Sra. Caecilie M., cujo caso eu poderia descrever de omais grave e instrutivo que j tive. J expliquei | ver em [1]| que umrelato pormenorizado de sua doena infelizmente impossvel.A Sra. Caecilie sofria, entre outras coisas, de uma nevralgia facialextremamente violenta, que surgia subitamente duas ou trs vezes porano, durava de cinco a dez dias, resistia a qualquer espcie detratamento e cessava abruptamente. Limitava-se segunda e terceiraramificaes do trigmeo, e visto que uma excreo anormal de uratos 159. estava sem dvida alguma presente e que um reumatismo agudo nomuito bem definido desempenhava certo papel na histria da paciente,o diagnstico de nevralgia gotosa era bastante plausvel. Essediagnstico foi confirmado pelos diferentes mdicos chamados a cadaacesso. Prescrevia-se o tratamento comum para esses casos: escovaeltrica, gua alcalina e purgantes; mas a cada vez a nevralgia semantinha inalterada at que resolvia dar lugar a outro sintoma. Numapoca anterior de sua vida a nevralgia tinha quinze anos de idade, os dentes da paciente tinham sido responsabilizados peloproblema. Foram condenados extrao e, um belo dia, sob narcose,a sentena foi executada em sete dos criminosos. Essa tarefa no foito fcil; os dentes estavam presos com tanta firmeza que as razes damaioria deles tiveram que ser deixadas no lugar. Essa operao cruelno teve nenhum resultado, nem temporrio nem permanente. Naquelapoca, a nevralgia campeou por meses a fio. Mesmo durante meutratamento, a cada acesso de nevralgia o dentista era chamado. Emtodas essas ocasies, ele diagnosticou a presena de razes doentes ecomeou a trabalhar nelas; mas, em geral, logo foi interrompido, pois anevralgia cessava de repente, ao mesmo tempo, cessava anecessidade dos servios do dentista. No intervalo entre as crises, osdentes da paciente no doam. Certo dia, quando um acesso estavaoutra vez campeando furiosamente, a paciente fez com que eu lheaplicasse tratamento hipntico. Proibi-lhe energicamente que sentissedores e, a partir desse momento, elas pararam. Comecei ento a terdvidas quanto autenticidade da nevralgia.Cerca de um ano aps esse tratamento hipntico bem-sucedido, adoena da Sra. Caecilie assumiu uma forma nova e surpreendente. Elasubitamente apresentou novos estados patolgicos, diferentes dos quehaviam caracterizado os ltimos anos. Mas, aps pensar um pouco, apaciente declarou que tivera todos eles em vrias ocasies durantesua longa doena, que datava de trinta anos antes. Surgiu ento umaabundncia realmente surpreendente de ataques histricos a que apaciente pde atribuir um lugar preciso no passado. Logo foi possvelacompanhar tambm as cadeias de pensamento muitas vezescomplexas que determinaram a ordem de ocorrncia desses ataques.Elas pareciam uma srie de quadros com textos explanatrios. Pitresdeve ter pensado em algo semelhante ao apresentar sua descrio doque denominou de dlire ecmnsique. Era notvel observar amaneira como um ataque histrico desse tipo, pertencente ao passado,era reproduzido. Primeiro surgia, enquanto a paciente gozava damelhor sade, um estado de nimo patolgico com um coloridoespecfico, que ela sistematicamente interpretava mal e atribua aalgum acontecimento corriqueiro das ltimas horas. A seguir, 160. acompanhados por uma crescente turvao da conscincia,sobrevinham os sintomas histricos: alucinaes, dores, espasmos elongos discursos declamatrios. Por fim, estes sintomas eram seguidospela emergncia, sob forma alucinatria, de uma experincia passadaque tornava possvel explicar seu estado de esprito inicial e o quedeterminara os sintomas de seu atual ataque. Com essa ltima partedo ataque ela recuperava a lucidez mental. Seus problemasdesapareciam como que num passe de mgica e ela voltava asentir-se bem at o ataque seguinte, meio dia depois. Em geral, euera chamado no clmax do ataque, induzia um estado de hipnose,evocava a reproduo da experincia traumtica e apressava o final doataque por meios artificiais. Como assisti a vrias centenas dessesciclos com a paciente, obtive as informaes mais instrutivas sobre amaneira pela qual os sintomas histricos so determinados. Narealidade, foi o estudo desse caso notvel, juntamente com Breuer,que levou diretamente publicao de nossa ComunicaoPreliminar |de 1893, que serve de introduo ao presente volume|.Nessa fase do trabalho chegamos finalmente reproduo de suanevralgia facial, que eu prprio tratara nas ocasies em que surgiu emataques atuais. Estava curioso em descobrir se tambm a nevralgiamostraria ter uma causa psquica. Quando comecei a evocar a cenatraumtica, a paciente viu-se de volta a um perodo de grandeirritabilidade mental para com o marido. Descreveu uma conversa quetivera com ele e uma observao dele que ela sentira como um speroinsulto. De repente, levou a mo face, soltou um grande grito de dore exclamou: Foi como uma bofetada no rosto. Com isso, cessaramtanto a dor como o ataque.No h dvida de que o que acontecera fora uma simbolizao. Ela sesentira como se tivesse realmente recebido uma bofetada. Todosperguntaro imediatamente como foi que a sensao de uma bofetadano rosto veio a assumir os contornos externos de uma nevralgia dotrigmeo, por que se restringiu s segundas e terceiras ramificaes epor que piorava quando a paciente abria a boca e mastigava embora, diga-se de passagem, no quando ela falava.No dia seguinte, a nevralgia estava de volta. Mas dessa vez foidissipada pela narrao de outra cena, cujo contedo fora, mais umavez, um suposto insulto. As coisas continuaram assim por nove dias.Parecia que, durante anos, os insultos, principalmente os externadosverbalmente, haviam, atravs da simbolizao, provocado novosataques de sua nevralgia facial.Mas por fim repercorreu o caminho de volta a seu primeiro acesso denevralgia, mais de quinze anos antes. Ali no tinha havidosimbolizao, mas uma converso atravs da simultaneidade. Ela vira 161. um quadro doloroso, acompanhado de sentimentos de autocensura, eisso a forara a rechaar outro grupo de pensamentos. Assim,tratava-se de um caso de conflito e defesa. A gerao da nevralgianaquele momento s podia ser explicada pela suposio de que elaestava sofrendo, na poca, de leves dores de dentes ou de dores norosto, e isso no era improvvel, visto que ela estava ento nosprimeiros meses de sua primeira gravidez.Assim, a explicao foi que essa nevralgia passara a ser indicativa deuma excitao psquica especfica pelo mtodo usual da converso,mas que, posteriormente, pde ser acionada atravs de reverberaesassociativas provenientes de sua vida mental ou da conversosimblica a rigor, o mesmo comportamento que encontramos naSrta. Elisabeth von R.Darei um segundo exemplo que demonstra a ao da simbolizao emoutras condies. Num determinado perodo, a Sra. Caecilie foiacometida de uma violenta dor no calcanhar direito uma dorlancinante a cada passo que dava, que tornou impossvel andar. Aanlise levou-nos, com relao a isso, a uma poca em que a pacienteestivera num sanatrio no exterior. Ela passara uma semana de camae ia ser levada ao refeitrio comum pela primeira vez pelo mdicoresidente. A dor sobreveio no momento em que ela lhe tomou o braopara sair da sala com ele; desapareceu durante a reproduo da cena,quando a paciente me disse que, no ocasio, ficara com medo de noacertar o passo com aqueles estranhos.A princpio, isso parece ser um exemplo surpreendente e mesmocmico da gnese dos sintomas histricos atravs da simbolizao pormeio de uma expresso verbal. Um exame mais detido da situao, noentanto, favorece outra opinio do caso. A paciente vinha sofrendo, napoca, de dores generalizadas nos ps, e fora por causa delas queficara presa ao leito por tanto tempo. Tudo o que se poderia alegar emfavor da simbolizao era que o medo que dominou a paciente ao daros primeiros passos escolheu, dentre todas as dores que a afligiam napoca, a dor especfica que era simbolicamente apropriada, a dor nocalcanhar direito, e a transformara numa dor psquica, imprimindo-lheuma persistncia especial.Nesses exemplos, o mecanismo da simbolizao parece ser relegadoa uma importncia secundria, como sem dvida a regra geral. Masdisponho de exemplos que parecem provar a gnese dos sintomashistricos apenas atravs da simbolizao. O exemplo que se segue um dos melhores e se relaciona, mais uma vez, com a Sra. Caecilie.Quando contava quinze anos, ela estava deitada na cama sob o olharvigilante da av rigorosa. A moa subitamente deu um grito; sentirauma dor penetrante na testa, entre os olhos, que durou semanas. No 162. decorrer da anlise dessa dor, que foi descrita aps quase trinta anos,ela me disse que a av lhe dirigira um olhar to penetrante que foradireto at o crebro. (Ela sentira medo de que a velha a estivesseolhando com desconfiana.) Ao contar-me isso, irrompeu numa sonoragargalhada e a dor mais uma vez desapareceu. Neste caso, no possodiscernir outra coisa seno o mecanismo da simbolizao, que tem seulugar, em certo sentido, a meio caminho entre a auto-sugesto e aconverso.Minha observao da Sra. Caecilie M. proporcionou-me a oportunidadede fazer uma coletnea sistemtica de tais simbolizaes. Todo umgrupo de sensaes fsicas que normalmente se considera que sodeterminadas por causas orgnicas era, no caso dela, de origempsquica, ou pelo menos possua um significado psquico. Uma srieespecfica de suas experincias foi acompanhada por uma sensaode punhalada na regio cardaca (significando apunhalou-me nocorao). A dor, que ocorre na histeria, em que se cravam pregos nacabea tinha sem dvida de ser explicada, no caso dela, como uma dorrelacionada com o pensamento. (Uma coisa me entrou na cabea.)As dores dessa espcie eram sempre dissipadas to logo osproblemas em jogo eram esclarecidos. Junto com a sensao de umaaura histrica na garganta, quando essa sensao surgia aps uminsulto, havia a idia de que terei de engolir isto. A pacienteapresentava uma quantidade enorme de sensaes e idias quecorriam paralelamente umas s outras. Ora a sensao evocava aidia que a explicava, ora a idia criava a sensao por meio desimbolizao, e no raro tinha-se que deixar em aberto a questo dequal dos dois elementos fora o primrio.No constatei nenhum uso to extenso da simbolizao em qualqueroutro paciente. verdade que a Sra. Caecilie M.era uma mulher detalentos bastante incomuns, principalmente artsticos, e cujo sensomuito desenvolvido da forma era revelado em alguns poemas degrande perfeio. Sou de opinio, contudo, que quando um histricocria uma expresso somtica para uma idia emocionalmente colorida,atravs da simbolizao, isso depende menos do que se poderiaimaginar de fatores pessoais ou voluntrios. Ao tomar uma expressoverbal ao p da letra e sentir uma punhalada no corao ou umabofetada no rosto aps um comentrio depreciativo vivido como umfato real, o histrico no est tomando liberdades com as palavras,mas simplesmente revivendo mais uma vez as sensaes a que aexpresso verbal deve sua justificativa. Como poderamos referir-nos aalgum que foi menosprezado dizendo que foi apunhalado nocorao, a menos que o menosprezo tivesse de fato sido 163. acompanhado por uma sensao precordial que poderia seradequadamente descrita por essa expresso e a menos que fosseidentificvel por essa sensao? O que poderia ser mais provvel doque a idia de que a figura de linguagem engolir alguma coisa, queempregamos ao falar de um insulto ao qual no foi apresentadanenhuma rplica, originou-se na verdade das sensaes inervatriasque surgem na faringe quando deixamos de falar e nos impedimos dereagir ao insulto? Todas essas sensaes e inervaes pertencem aocampo da Expresso das Emoes, que, como nos ensinou Darwin|1872|, consiste em aes que originalmente possuam um significadoe serviam a uma finalidade. Em sua maior parte, estas podem ter-seenfraquecido tanto que sua expresso em palavras nos parece serapenas um quadro figurativo delas, ao passo que, com todaprobabilidade, essa descrio um dia foi tomada em seu sentido literal;e a histeria tem razo em restaurar o significado original das palavrasao retratar suas inervaes inusitadamente fortes. Com efeito, talvezseja errado dizer que a histeria cria essas sensaes atravs dasimbolizao. possvel que ela no tome em absoluto o uso dalngua como seu modelo, mas que tanto a histeria quanto o uso dalngua extraiam seu material de uma fonte comum. [1] 164. III - CONSIDERAES TERICAS(BREUER)Na Comunicao Preliminar que introduz este trabalho formulamos asconcluses a que fomos levados por nossas observaes, e penso queposso mant-las em essncia. Mas a Comunicao Preliminar tocurta e concisa que, em sua maior parte, s nos foi possvel ventilarnossos conceitos. Portanto, agora que os casos clnicos apresentaramprovas que confirmam nossas concluses, talvez seja permissvelenunci-las mais amplamente. Por certo aqui no uma questo, evidente, de lidar com todo o campo da histeria. Mas talvez possamosdar um tratamento mais detido e mais claro (com acrscimo dealgumas ressalvas, sem dvida) dos pontos para os quais foramreunidas provas insuficientes ou que no receberam bastante destaquena Comunicao Preliminar.No que se segue, far-se- pouca meno ao crebro e nenhumaabsolutamente s molculas. Os processos psquicos sero abordadosna linguagem da psicologia; e, a rigor, no poderia ser de outra forma.Se em vez de idia escolhssemos falar em excitao do crtex, asegunda expresso s teria algum sentido para ns na medida em quereconhecssemos um velho amigo sob esse disfarce e tacitamenterestaurssemos a idia. Pois, enquanto as idias so objetospermanentes de nossa experincia e nos so familiares em todas assuas gradaes de significado, as excitaes corticais pelo contrrio,tm mais a natureza de um postulado: so objetos que temos aesperana de identificar no futuro. A substituio de um termo pelooutro no pareceria ser mais do que um disfarce desnecessrio. Porconseguinte, talvez me seja perdoado recorrer quase exclusivamente atermos psicolgicos. 165. H outro aspecto para o qual devo pedir de antemo a indulgncia doleitor. Quando uma cincia vem fazendo rpidos avanos, certospensamentos inicialmente expressos por indivduos isolados logo setransformam em domnio pblico. Dessa forma, ningum que tenteformular hoje seus conceitos sobre a histeria e sua base psquica podeevitar repetir um grande nmero de idias de outrem que se acham emtransio do domnio pessoal para o pblico. difcil ter sempre acerteza de quem os expressou pela primeira vez, e h sempre o perigode se considerar como produto prprio o que j foi dito por terceiros.Espero, portanto, que me desculpem se forem encontradas poucascitaes neste trabalho e se no for feita qualquer distino rigorosaentre o que de minha prpria lavra e o que tem origens alhures.Reivindicamos originalidade para uma parte muito pequena do queser encontrado nas pginas que se seguem. 166. (1) SERO IDEOGNICOS TODOS OS FENMENOS HISTRICOS?Em nossa Comunicao Preliminar examinamos o mecanismopsquico dos fenmenos histricos, e no da histeria, pois noquisemos defender o conceito de que esse mecanismo psquico, ou ateoria psquica dos sintomas histricos em geral, tm validadeilimitada. No somos de opinio de que todos os fenmenos da histeriaocorram da maneira descrita por ns naquele artigo, nem acreditamosque todos sejam ideognicos, isto , determinados por idias. Nesseaspecto divergimos de Moebius, que em 1888 props definir comohistricos todos os fenmenos patolgicos determinados por idias.Essa afirmao foi posteriormente elucidada no sentido de que apenasparte dos fenmenos patolgicos corresponde, em seu contedo, sidias que os provocam a saber, os fenmenos que so produzidospor alo-sugesto ou auto-sugesto, como, por exemplo, quando a idiade no poder mover o brao provoca uma paralisia do mesmo,enquanto outra parte dos fenmenos, embora causados por idias, nocorresponde a elas em seu contedo como, por exemplo, quandoem uma de nossas pacientes uma paralisia do brao foi provocadapela viso de objetos semelhantes a cobras |ver em [1]-[2]|.Ao dar essa definio, Moebius no est meramente propondo umamodificao na nomenclatura e sugerindo que, no futuro, sdeveremos descrever como histricos os fenmenos patolgicos queforem ideognicos (determinados por idias); o que ele est supondo que todos os sintomas histricos so ideognicos. Visto que as idiasso com muita freqncia a causa dos fenmenos histricos, creio quesempre o so. Ele denomina isso de inferncia por analogia. Prefirodenomin-lo de generalizao, cuja justificativa deve primeiro sersubmetida prova.Antes de qualquer discusso do assunto, devemos obviamente decidiro que entendemos por histeria. Considero que a histeria um quadroclnico empiricamente descoberto e baseado na observao, damesma maneira que a tuberculose pulmonar. Esses quadros clnicosempiricamente obtidos ganham mais preciso, profundidade e clarezacom o progresso de nossosconhecimentos, mas no devem nempodem ser desmontados por eles. A pesquisa etiolgica revela que osvrios processos constitutivos da tsica pulmonar tm diversas causas:o tubrculo devido ao bacillus Kochii, enquanto a degenerao dotecido, a formao de cavernas e a febre sptica se devem a outrosmicrbios. Apesar disso, a tuberculose permanece como uma unidadeclnica e seria um erro desintegr-la, atribuindo-lhe apenas asmodificaes especificamente tuberculosas do tecido, provocadas 167. pelo bacilo de Koch, e desvinculando dela as outras modificaes. Damesma forma, a histeria deve continuar a ser uma unidade clnica,mesmo se ficar demonstrado que suas manifestaes sodeterminadas por vrias causas e que algumas delas so acarretadaspor um mecanismo psquico e outras, no.Estou convencido de que isto o que de fato ocorre; apenas parte dosfenmenos da histeria ideognica, e a definio formulada porMoebius rompe a unidade clnica da histeria, e, a rigor, tambm aunidade de um mesmo sintoma num mesmo paciente.Estaramos fazendo uma inferncia inteiramente anloga infernciapor analogia de Moebius, se afirmssemos que, como as idias epercepes com muita freqncia provocam erees, devemospresumir que s elas que o fazem e que os estmulos perifricos sporiam esse processo vasomotor em ao por vias indiretas atravs dapsique. Sabemos que essa inferncia seria falsa e, no entanto, ela estbaseada em pelo menos tantos fatos quanto os que fundamentam aassero de Moebius sobre a histeria. De conformidade com nossaexperincia de um grande nmero de processos fisiolgicos, tais comoa secreo de saliva ou de lgrimas, as modificaes no trabalho docorao, etc., possvel e plausvel presumir que o mesmssimoprocesso pode ser igualmente acionado por idias e por estmulosperifricos e outros estmulos no-psquicos. O contrrio teria de serprovado e estamos muito longe disso. Com efeito parece certo quemuitos fenmenos descritos como histricos no so provocadosapenas por idias.Consideremos um exemplo cotidiano. Uma mulher pode, sempre quesurge um afeto, apresentar no pescoo, nos seios e no rosto umeritema, que aparece primeiro em manchas e depois se tornaconfluente. Isso determinado por idias e, portanto, de acordo comMoebius, uma manifestao histrica. Mas esse mesmo eritemasurge, embora numa rea menos extensa, quando a pele fica irritadaou tocada, etc. Isso no seria histrico. Assim, um fenmeno que indubitavelmente uma unidade completa seria histrico numa ocasio eno-histrico em outra. claro que se pode indagar se esse fenmeno o eretismo vasomotor deveria ser considerado comoespecificamente histrico ou se no seria mais apropriado encar-locomosimplesmente nervoso. Do ponto de vista de Moebius, porm, oesfacelamento da unidade seria uma conseqncia necessria, dequalquer maneira, e s o eritema determinado pelo afeto deveria serdenominado histrico.Isso se aplica exatamente do mesmo modo s dores histricas, queso de to grande importncia prtica. Sem dvida, elas muitas vezesso determinadas diretamente por idias. So alucinaes de dor. Se 168. as examinarmos bem mais de perto, veremos que, ao que parece, ofato de uma idia ser muito ntida no suficiente para produzi-las,mas que deve haver uma condio anormal especial nos aparelhosrelativos conduo e percepo da dor, do mesmo modo que nocaso do eritema emocional deve estar presente uma excitabilidadeanormal dos vasomotores. A expresso alucinaes de dor semdvida proporciona a mais rica descrio da natureza dessasnevralgias, mas tambm nos obriga a transpor para elas os conceitosque formamos sobre as alucinaes em geral. No caberia aqui umexame pormenorizado desses conceitos. Endosso a opinio de que asrepresentaes, imagens mnmicas puras e simples, sem qualquerexcitao do aparelho perceptivo, jamais, nem mesmo no pice de suanitidez e intensidade, atingem o carter de existncia objetiva, que amarca das alucinaes.Isso se aplica s alucinaes sensoriais e mais ainda s alucinaesde dor, pois no parece possvel que uma pessoa sadia seja capaz dedotar a lembrana de uma dor fsica sequer com o mesmo grau denitidez ou sequercom uma aproximao distante da sensao real quepode, afinal de contas, ser alcanada pelas imagens mnmicas pticase acsticas. Mesmo no estado alucinatrio normal das pessoas sadias,que ocorre durante o sono, nunca h, creio eu, sonhos de dor, amenos que uma sensao real de dor esteja presente. Essa excitaoretrogressiva, que emana do rgo da memria e atua sobre oaparelho perceptivo por meio das reprodues, , portanto, no cursonormal das coisas, ainda mais difcil no caso da dor do que no dassensaes visuais ou auditivas. Uma vez que as alucinaes de dorsurgem com tanta facilidade na histeria, devemos pressupor umaexcitabilidade anormal do aparelho relacionado com as sensaes dedor.Essa excitabilidade surge no apenas sob o estmulo das idias, mastambm sob estmulos perifricos, da mesma forma que o eretismodos vasomotores que examinamos acima. uma observao cotidiana constatar que, nas pessoas com nervosnormais, as dores perifricas so provocadas por processospatolgicos no dolorosos em si mesmos, localizados em outrosrgos. Assim, surgem as dores de cabea decorrentes de alteraesrelativamente insignificantes no nariz ou nas cavidades vizinhas, enevralgias dos nervos intercostais e braquiais provenientes depatologias do corao, etc. Quando a excitabilidade anormal, quefomos obrigados a postular como uma condio necessria para asalucinaes de dor, acha-se presente num paciente, essaexcitabilidade tambm fica disposio, por assim dizer, dasirradiaes que acabo de mencionar. As irradiaes que ocorrem 169. tambm em pessoas no-neurticas so mais intensificadas eformam-se irradiaes de um tipo que, na verdade, s encontramos empacientes neurticos, mas que se baseiam no mesmo mecanismo queas outras. Dessa forma, a nevralgia ovariana depende, creio eu, dascondies do aparelho genital. Sua causalidade psquica teria que serprovada, e no se chega a essa comprovao pela demonstrao deque essa particular espcie de dor, como qualquer outra, pode serproduzida sob hipnose como uma alucinao, ou de que suas causaspodem ser psquicas. Tal como o eritema ou qualquer das secreesnormais, a nevralgia surge tanto de causas psquicas como de causaspuramente somticas. Ser que devemos descrever apenas a primeiraespcie como histrica os casos que sabemos terem uma origempsquica? Se assim for, os casos comumenteobservados de nevralgiaovariana teriam de ser excludos da sndrome histrica, e isso malseria uma soluo.Quando um ligeiro traumatismo numa articulao gradativamenteseguido de uma artralgia grave, o processo sem dvida envolve umelemento psquico, isto , uma concentrao da ateno na partetraumatizada, o que intensifica a excitabilidade dos filetes nervosos emquesto. Poder-se-ia dificilmente expressar isso, no entanto, afirmandoque a hiperalgesia foi causada por representaes.O mesmo se aplica diminuio patolgica da sensao. No est demodo algum provado e improvvel que a analgesia geral ou aanalgesia de partes individuais do corpo, desacompanhada deanestesia, seja provocada por representaes. E mesmo que asdescobertas de Binet e Janet fossem confirmadas por completo, nosentido de que a hemianestesia determinada por uma condiopsquica peculiar, por uma diviso da psique, o fenmeno seriapsicognico, mas no ideognico, e portanto, de acordo com Moebius,no deve ser denominado histrico.Se existe, portanto, um grande nmero de fenmenos histricoscaractersticos que no podemos supor que sejam ideognicos,pareceria acertado limitar a aplicao da tese de Moebius. Nodefiniremos como histricos os fenmenos patolgicos que socausados por representaes, mas apenas asseveraremos que umgrande nmero de fenmenos histricos, provavelmente mais do quesuspeitamos hoje em dia, so ideognicos. Mas a alterao patolgicafundamental que se acha presente em cada caso e que permite srepresentaes, bem como aos estmulos no-psicolgicos,produzirem efeitos patolgicos, reside numa excitabilidade anormal dosistema nervoso. At que ponto essa excitabilidade de origempsquica uma outra questo. 170. Contudo, mesmo que apenas alguns dos fenmenos da histeria sejamideognicos, na verdade so eles que podem ser consideradosespecificamente histricos, e a investigao deles, a descoberta desua origem psquica, que constitui o avano recente mais importantena teoria desse distrbio. Surge ento uma outra pergunta: como sedo esses fenmenos? Qual seu mecanismo psquico?Essa pergunta exige uma resposta bem diferente no caso de cada umdos dois grupos em que Moebius divide os sintomas ideognicos | verem [1]|. Os fenmenos patolgicos que correspondem em seucontedo representao instigadora so relativamentecompreensveis e claros. Quando a representao de uma voz ouvidano a faz apenas ecoar fracamente no ouvido interior, como acontecenas pessoas sadias, mas a leva a ser percebida de maneiraalucinatria como uma sensao acstica objetiva real, isso pode serequiparado a fenmenos familiares da vida normal aos sonhos e bem inteligvel com base na hiptese de excitabilidade anormal.Sabemos que a cada movimento voluntrio a idia do resultado a seralcanado que d incio contrao muscular pertinente, e no muitodifcil ver que a idia de que essa contrao impossvel impedir omovimento (como acontece na paralisia por sugesto).A situao outra com os fenmenos que no tm nenhuma conexolgica com a representao determinante. (Tambm aqui, a vidanormal oferece paralelos como, por exemplo, o enrubescer devergonha.) Como surgem eles? Por que uma representao numhomem doente evoca um movimento ou uma alucinao especficainteiramente irracional que de modo algum corresponde a ela?Em nossa Comunicao Preliminar sentimo-nos em condies dedizer algo sobre essa relao causal com base em nossasobservaes. Em nossa exposio do assunto, entretanto,introduzimos e empregamos, sem o justificar, o conceito de excitaesque fluem ou tm de ser ab-reagidas. Esse conceito, que defundamental importncia para nosso tema e para a teoria das neurosesem geral, parece exigir e merecer um exame mais detalhado. Antes depassar a efetu-lo, devo pedir desculpas por levar o leitor de volta aosproblemas bsicos do sistema nervoso. Um sentimento de opressoest fadado a acompanhar qualquer descida desse tipo at as Mes[isto , explorao das profundezas|.Mas qualquer tentativa de chegar s razes de um fenmeno levainevitavelmente, dessa forma, a problemas bsicos dos quais no sepode escapar. Espero, portanto, que a obscuridade do exame que sesegue possa ser encarada com indulgncia. 171. (2) AS EXCITAES TNICAS INTRACEREBRAIS OS AFETOS(A)Conhecemos duas condies extremas do sistema nervoso central: umestado lcido de viglia e um sono desprovido de sonhos. Umatransio entre elas proporcionada por uma srie de condies comtodos os graus de decrescente lucidez. O que nos interessa aqui no a questo da finalidade do sono e sua base fsica (seus determinantesqumicos ou vasomotores), mas a questo da distino essencial entreas duas condies.No podemos dar nenhuma informao direta sobre o sono maisprofundo e sem sonhos, pela mesma razo de que todas asobservaes e experincias so excludas pelo estado de totalinconscincia. Mas no que tange condio fronteiria do sonoacompanhado de sonhos podem-se fazer as asseres que seseguem. Em primeiro lugar, quando, estando nessa condio,tencionamos fazer movimentos voluntrios de andar, falar, etc. isso no faz com que as contraes correspondentes dos msculossejam voluntariamente iniciadas, como na vida de viglia. Em segundolugar, os estmulos sensoriais talvez sejam percebidos (pois muitasvezes foram sua entrada nos sonhos), mas no so apercebidos, isto, no se tornam percepes conscientes. Alm disso, asrepresentaes que emergem no ativam, como na vida de viglia,todas as representaes vinculadas a ela e que se encontrampresentes na conscincia potencial; um grande nmero destas ltimaspermanece no excitado. (Por exemplo, descobrimo-nos falando comuma pessoa morta sem nos lembrarmos de que est morta.)Outrossim, representaes incompatveis podem estar presentes aomesmo tempo sem se inibirem mutuamente, como fazem na vida deviglia. Dessa forma, a associao imperfeita e incompleta. Podemospresumir com segurana que, no sono mais profundo, essa ruptura dasvinculaes entre os elementos psquicos levada ainda mais alm ese torna total.Por outro lado, quando estamos inteiramente acordados, todo ato devontade inicia o movimento correspondente; as impresses sensoriaistransformam-se em percepes conscientes e as representaes seassociam com todo contedo presente na conscincia potencial. Nesseestado o crebro funciona como uma unidade, com conexes internascompletas.Talvez estejamos apenas descrevendo esses fatos com outraspalavras, se dissermos que, no sono, as vias de conexo e conduodo crebro no so percorrveis pelas excitaes dos elementospsquicos (clulas corticais?), ao passo que na vida de viglia o so 172. inteiramente.A existncia desses dois estados diferentes das vias de conduo, aoque parece, s pode tornar-se inteligvel se supormos que, na vida deviglia, essas vias se encontram num estado de excitao tnica (o queExner |1894, 93| chama de tetania intercelular) e que essa excitaointracerebral tnica o que determina sua capacidade condutora,sendo que sua diminuio e desaparecimento que estabelecem oestado de sono.No devemos pensar na via cerebral de conduo como semelhante aum fio telefnico que s eletricamente excitado no momento em quetem de funcionar (isto , no contexto presente, quando tem quetransmitir um sinal). Devemos assemelh-lo ao tipo de fio telefnico emque h sempre um fluxo constante de corrente galvnica e que deixade ser excitvel quando tal corrente cessa. Ou melhor, imaginemos umsistema eltrico amplamente ramificado para transmisso de luz efora; o que se espera desse sistema que o simples estabelecimentode um contato seja capaz de pr qualquer lmpada ou mquina emfuncionamento. Para possibilitar isso, de modo que tudo esteja prontopara funcionar, deve haver certa tenso presente em toda a rede delinhas de conduo, devendo o gerador despender uma dadaquantidade de energia para esse fim. Da mesma forma, h certaquantidade de excitao presente nas vias condutoras do crebroquando este se encontra em repouso, mas desperto e preparado paratrabalhar.Esse conceito apoiado pelo fato de que estar meramente desperto,sem realizar qualquer trabalho, d lugar fadiga e produz anecessidade de dormir. O estado de viglia em si provoca um consumode energia.Imaginemos um homem num estado de intensa expectativa, que noest, contudo, dirigida para qualquer campo sensorial especfico.Temos ento diante de ns um crebro em repouso mas preparadopara a ao. Podemos com razo supor que em tal crebro todas asvias de conduo se encontram no mximo de sua capacidadecondutora que se acham num estado de excitao tnica. significativo que na linguagem comum nos refiramos a esse estadocomo sendo de tenso. A experincia nos ensina o quanto de desgasteesse estado representa e como pode ser fatigante, mesmo quenenhum trabalho motor ou psquico seja nele realizado.Esse um estado excepcional que, precisamente por causa do grandeconsumo de energia em jogo, no pode ser tolerado por muito tempo.Mas mesmo o estado normal de estar bem desperto exige uma 173. quantidade de excitao intracerebral que varia entre limites separadosde forma no muito ampla. Cada grau decrescente de viglia, at asonolncia e o verdadeiro sono, faz-se acompanhar por grauscorrespondentes menores de excitao.Quando o crebro est realmente trabalhando, exige-se sem dvidaum consumo maior de energia do que quando est apenas preparadopara executar trabalho. (Da mesma forma, o sistema eltrico descritoanteriormente guisa de analogia deve fazer com que maiorquantidade de energia eltrica flua para as linhas condutoras quandoum grande nmero de lmpadas ou motores est ligado ao circuito.)Quando o funcionamento normal, no se libera maior quantidade deenergia do que a empregada de imediato na atividade. O crebro,contudo, comporta-se como um daqueles sistemas eltricos decapacidade restrita que so incapazes de produzir ao mesmo tempouma quantidade superior de luz e de trabalho mecnico. Quando umdeles est transmitindo fora, dispe-se apenas de uma pequenaquantidade de energia para a iluminao, e vice-versa. Assim,constatamos que, se estivermos fazendo grandes esforosmusculares, seremos incapazes de nos empenharmos num raciocniocontnuo, ou que, se concentrarmos nossa ateno num nico camposensorial, a eficincia dos outros rgos cerebrais ficar reduzida em outras palavras, verificamos que o crebro trabalha com umaquantidade de energia varivel, mas limitada.A distribuio no-uniforme de energia sem dvida determinada peloque Exner |1894, 165| denomina de facilitao pela ateno porum aumento da capacidade condutora das vias em uso e umdecrscimo da capacidade das outras, e assim, num crebro emfuncionamento, a excitao tnica intracerebral tambm distribudade maneira no uniforme.Despertamos uma pessoa que est adormecida ou seja, elevamosde repente a quantidade de sua excitao intracerebral tnica fazendo que um vvido estmulo sensorial exera influncia sobre ela.Se as alteraes na circulao sangunea cerebral so aqui elosessenciais na corrente causal, e se os vasos sanguneos sodiretamente dilatados pelo estmulo, ou se a dilatao conseqnciada excitao dos elementos cerebrais tudo isso incerto. O certo que o estado de excitao, penetrando por uma das portas dossentidos, espalha-se pelo crebro a partir desse ponto, torna-se difusoe leva todas as vias de conduo a um estado de facilitao maiselevado.Ainda no est nada esclarecido, natural, como ocorre o despertarespontneo se sempre a mesma parte do crebro que entra num 174. estado de excitao de viglia, e se a excitao ento se difunde apartir dali, ou se ora um, ora outro grupo de elementos atua como oagente que desperta. No obstante, o despertar espontneo que, comosabemos, pode ocorrer na total quietude e escurido sem qualquerestmulo externo, prova que o desenvolvimento da energia se baseiano processo vital dos prprios elementos cerebrais. Um msculo podepermanecer no estimulado e quiescente por mais que tenha ficadoem estado de repouso e mesmo que tenha acumulado um mximo defora elstica. O mesmo no se aplica aos elementos cerebrais. Semdvida, temos razo ao supor que durante o sono os elementoscerebrais recuperam sua condio anterior e acumulam energiapotencial. Quando isso acontece at certo ponto quando, por assimdizer, certo nvel atingido o excedente descarregado nas vias deconduo, facilita-as e estabelece a excitao intracerebral do estadode viglia.Podemos encontrar um exemplo instrutivo da mesma coisa na vida deviglia. Quando o crebro em viglia ficou quiescente por um tempoconsidervel, sem transformar a fora elstica em energia ativa atravsde seu funcionamento, surgem uma necessidade e um impulso para aatividade. Aquiescncia motora prolongada gera necessidade demovimento (compare-se o correr sem objetivo, de um lado para outro,de um animal enjaulado), e quando essa necessidade no pode seratendida instaura-se uma sensao aflitiva. A falta de estmulossensoriais, a escurido e o silncio total tornam-se uma tortura; orepouso mental e a falta de percepes, idias e atividade associativaproduzem o tormento de tdio. Essas sensaes de desprazercorrespondem a uma excitao, a um aumento da excitaointracerebral normal.Assim, os elementos cerebrais, depois de serem restaurados porcompleto, liberam certa quantidade de energia mesmo quando estoem repouso; e quando essa energia no empregada funcionalmente,ela aumenta a excitao intracerebral normal. O resultado umasensao de desprazer. Tais sensaes so sempre geradas quandouma das necessidades do organismo deixa de encontrar satisfao.Visto que essas sensaes desaparecem quando a quantidadeexcedente de energia que foi liberada empregada funcionalmente,podemos concluir que a eliminao dessa excitao excedente umanecessidade do organismo. E aqui deparamos pela primeira vez com ofato de que existe no organismo uma tendncia a manter constante aexcitao intracerebral. (Freud.)Tal excedente de excitao uma sobrecarga e um incmodo, e oimpulso de consumi-lo surge como conseqncia disso. Quando nopode ser utilizado na atividade sensorial ou ideacional, o excedente se 175. descarrega numa ao motora sem finalidade, no andar de um ladopara outro e assim por diante o que encontraremos mais frentecomo o mtodo mais comum de descarregar as tenses excessivas.Estamos familiarizados com as grandes variaes individuais que seencontram a esse respeito: as grandes diferenas entre as pessoasvivazes e as inertes e letrgicas, entre as que no conseguem ficarparadas e as que tm o dom inato de se espreguiarem nos sofs, eentre os espritos mentalmente geis e os embotados, que conseguemtolerar a inao intelectual por um perodo ilimitado de tempo. Essasdiferenas, que constituem o temperamento natural de um homem,por certo se baseiam em profundasdiferenas em seu sistema nervoso no grau em que os elementos cerebrais funcionalmente quiescentesliberam energia.J nos referimos tendncia, por parte do organismo, a manterconstante a excitao cerebral tnica. Uma tendncia dessa natureza,porm, s se torna inteligvel quando conseguimos ver a quenecessidade atende. Podemos compreender a tendncia nos animaisde sangue quente de manter uma temperatura mdia constante porquenossa experincia nos ensinou que essa temperatura a ideal para ofuncionamento de seus rgos. E fazemos uma suposio similarquanto constncia do teor de gua no sangue, e assim por diante.Creio podermos tambm presumir que existe um ponto timo para onvel da excitao tnica intracerebral. Nesse nvel de excitao tnicao crebro acessvel a todos os estmulos externos, os reflexos sofacilitados, embora apenas na medida da atividade reflexa normal, e oacervo de representaes passvel de ser despertado e aberto associao, na relao mtua entre representaes individuais quecorresponde a um estado mental de lucidez. nesse estado que oorganismo se acha mais bem preparado para funcionar.A situao j fica alterada pela elevao uniforme | ver em [1]| daexcitao tnica que constitui a expectativa. Isso torna o organismohiperestsico aos estmulos sensoriais, que rapidamente se tornamaflitivos, e aumenta tambm sua excitabilidade reflexa acima do que til (inclinao ao susto). Sem dvida esse estado til para algumassituaes e finalidades, mas quando aparece espontaneamente e nopor quaisquer dessas razes, no melhora nossa eficincia, mas aprejudica. Na vida cotidiana, chamamos a isso estar nervoso. Nagrande maioria das formas de aumento da excitao, contudo, asuperexcitao no uniforme, o que sempre prejudicial eficincia.Chamamos a isso excitamento. Que o organismo tenda a manter oponto timo de excitao e a retornar a esse ponto timo depois dehav-lo ultrapassado no de se surpreender, mas est inteiramentede acordo com outros mecanismos reguladores do organismo. 176. Permitir-me-ei mais uma vez recorrer comparao com um sistemade iluminao eltrica. A tenso na rede de linhas de conduo possuitambm o seu ponto timo. Se este for ultrapassado, seufuncionamento pode ser prejudicado com facilidade; por exemplo, osfilamentos da luz eltrica podem ser prontamente queimados. Falareimais adiante sobre o dano causado ao prprio sistema se o isolamentofalhar ou se ocorrer um curto-circuito.(B)Nossa fala, resultado da experincia de muitas geraes, distinguecom admirvel sutileza as formas e graus de elevao da excitaoque ainda so teis atividade mental |isto , apesar de se elevaremacima do ponto timo (ver penltimo pargrafo)|, por elevarem aenergia livre de todas as funes cerebrais de maneira uniforme, dasformas e graus que prejudicam essa atividade, por aumentaremparcialmente e inibirem parcialmente essas funes psquicas de umamaneira que no uniforme. s primeiras se d o nome de incitaoe s ltimas, de excitamento. Uma conversa interessante ou umaxcara de ch ou caf tm um efeito incitante |estimulante|; umaaltercao ou uma dose considervel de lcool tm um efeitoexcitante. Enquanto a incitao desperta apenas a nsia de empregarfuncionalmente o excesso de excitao, o excitamento procuradescarregar-se de formas mais ou menos violentas, que so quase oudecididamente patolgicas. O excitamento constitui a base psicofsicados efeitos, que sero examinados mais adiante. Mas devo emprimeiro lugar abordar sucintamente algumas causas fisiolgicas eendgenas dos aumentos de excitao.Entre essas, em primeiro lugar, esto as principais necessidades epulses fisiolgicas do organismo: a necessidade de oxignio, o anseiointenso de alimentos e a sede. Visto que o excitamento que elesdisparam est vinculado a certas sensaes e idias intencionais, esseno um exemplo to puro do aumento de excitao como oexaminado anteriormente | ver em [1]-[2]|, que surgia apenas daaquiescncia dos elementos cerebrais. O primeiro sempre possui seucolorido especial. Mas inconfundvel na agitao angustiante queacompanha a dispnia e na inquietao de um homem faminto.O aumento da excitao que provm dessas fontes determinado pelaalterao qumica dos prprios elementos cerebrais, que estocarentes de oxignio, de fora elstica ou de gua. Tal excitao fluipor vias motoras pr-formadas que levam satisfao da necessidadeque a estimulou: a dispnia leva respirao forada, e a fome e asede, busca e obteno de alimento e gua. O princpio daconstncia da excitao quase no entra em ao no que tange a essa 177. espcie de excitamento, pois os interesses que so atendidos peloaumento da excitao nesses casos so de muito maiorimportnciapara o organismo do que o restabelecimento das condies normais defuncionamento no crebro. verdade que vemos os animais de umjardim zoolgico correndo excitadamente de um lado para outro antesda hora da alimentao, mas isso sem dvida pode ser consideradocomo um resduo da atividade motora pr-formada de procuraralimento, que agora se tornou intil pelo fato de estarem eles emcativeiro, e no como um meio de livrar o sistema nervoso doexcitamento.Se a estrutura qumica do sistema nervoso tiver sido permanentementealterada pela introduo sistemtica de substncias estranhas, ento afalta dessas substncias provocar estados de excitamento, tal como afalta de substncias nutritivas normais nas pessoas sadias. Vemos issono excitamento que se verifica na abstinncia de narcticos.Uma transio entre esses aumentos endgenos da excitao e osafetos psquicos no sentido mais estrito proporcionada pela excitaosexual e pelo afeto sexual. A sexualidade na puberdade surge, naprimeira dessas formas, como uma elevao vaga, indeterminada edespropositada da excitao. medida que o desenvolvimento seprocessa, tal elevao endgena da excitao, determinada pelofuncionamento das glndulas sexuais, torna-se firmemente vinculada(no curso normal das coisas) percepo ou idia do outro sexo e,a rigor, idia de um indivduo em particular, quando ocorre o notvelfenmeno do apaixonar-se. Essa idia absorve toda a quantidade deexcitao liberada pela pulso sexual. Torna-se uma idia afetiva; emoutras palavras, quando est ativamente presente na conscincia, elaestimula o acrscimo de excitao que de fato se originou de outrafonte, a saber, as glndulas sexuais.A pulso sexual sem dvida a fonte mais poderosa de acmulossistemticos de excitao (e, por conseguinte, de neuroses). Essesaumentos distribuem-se de maneira muito desigual pelo sistemanervoso. Quando alcanam um grau considervel de intensidade, oencadeamento de idias fica perturbado e o valor relativo das idias sealtera; e no orgasmo o pensamento quase inteiramente extinto.Tambm a percepo a interpretao psquica das impressessensoriais prejudicada. Um animal normalmente tmido ecauteloso torna-se cego e surdo ao perigo. Por outro lado, pelo menosnos machos, h umaintensificao do instinto agressivo. Os animaispacficos ficam perigosos, at a sua excitao ser descarregada nasatividades motoras do ato sexual.(C) 178. Tal perturbao do equilbrio dinmico do sistema nervoso umadistribuio no uniforme do aumento da excitao o que compea faceta psquica dos afetos.No se far aqui nenhuma tentativa de formular uma psicologia ou umafilosofia dos afetos. Examinarei apenas um nico ponto, que deimportncia para a patologia, e alm disso apenas para os afetosideognicos os que so provocados por percepes erepresentaes. (Lange, 1885 |[1] e segs.|), ressaltou com razo queos afetos podem ser causados por substncias txicas, ou, como apsiquiatria nos ensina, acima de tudo pelas alteraes patolgicas,quase da mesma forma que podem ser causadas pelasrepresentaes.Pode-se considerar evidente por si mesmo que todas as perturbaesdo equilbrio mental que denominamos de afetos agudos acompanhamum aumento da excitao. (No caso dos afetos crnicos, tais como opesar e a preocupao, isto , a angstia prolongada, o quadro secomplica por um estado de grave fadiga, que, embora mantenha adistribuio no uniforme da excitao, reduz sua intensidade.) Masesse aumento da excitao no pode ser empregado na atividadepsquica. Todos os afetos intensos restringem a associao o fluxode representaes. As pessoas ficam insensatas com a raiva ou como pavor. Somente o grupo de representaes que provocou o afetopersiste na conscincia e o faz com extrema intensidade. Assim, aatividade associativa no consegue aplacar o excitamento.Os afetos que so ativos ou estnicos, entretanto, de fato aplacama excitao aumentada atravs da descarga motora. Os gritos e ossaltos de alegria, o maior tnus muscular da clera, as palavrasraivosas e as aes retaliatrias tudo isso permite que a excitaose escoe em movimentos. O sofrimento mental a descarrega narespirao difcil e em atividades secretoras: em soluos e lgrimas. uma constatao cotidiana que tais reaes reduzem e aliviam oexcitamento. Como j tivemos ocasio de observar | ver em [1]|, alinguagem comum expressa isso em frases como debulhar-se emlgrimas, desabar as mgoas, etc. Aquilo que se est expelindonada mais do que o aumento da excitao cerebral.Apenas algumas dessas reaes, como os atos e as palavras raivosas,servem a uma finalidade no sentido de promoverem algumamodificao no estado real de coisas. O resto no serve a qualquerfinalidade, ou melhor, seunico objetivo aplainar o aumento daexcitao e estabelecer o equilbrio psquico. Na medida em que oconseguem, servem tendncia a manter constante a excitao|intra-|cerebral | ver em [1]|.Os afetos astnicos do medo e da angstia no promovem essa 179. descarga reativa. O pavor paralisa por completo a capacidade demovimento, bem como a de associao, e o mesmo faz a angstia,quando a nica reao til de fugir excluda pela causa do afetode angstia ou pelas circunstncias. A excitao do pavor sdesaparece atravs de um nivelamento gradual.A raiva dispe de reaes adequadas que correspondem a sua causa.Quando estas no so viveis ou esto inibidas, so trocadas porsubstitutos. At as palavras raivosas so substitutos dessa espcie.Mas outros atos, mesmo inteiramente destitudos de sentido, podemaparecer como substitutos. Quando Bismarck teve de reprimir seussentimentos enraivecidos na presena do Rei, desabafou depoisespatifando um valioso vaso no cho. Essa substituio deliberada deuma ao motora por outra corresponde exatamente substituio dosreflexos naturais da dor por outras contraes musculares. Quando seextrai um dente; o reflexo pr-formado o de empurrar o dentista esoltar um grito; se, em vez disso, contramos os msculos dos braos efazemos presso nos braos da cadeira, estamos deslocando oquantum de excitao que foi gerado pela dor de um grupo demsculos para outro. |ver em [1].| No caso de uma violenta dor dedente espontnea, quando no h nenhum reflexo pr-formado afora ogemido, a excitao se escoa num despropositado andar de um ladopara outro. Da mesma forma, transpomos a excitao da raiva dareao adequada para outra e nos sentimos aliviados, contanto que elaseja consumida por qualquer inervao motora vigorosa.Quando, porm, o afeto no consegue encontrar nenhuma descargade excitao de qualquer natureza dentro desses moldes, a situao a mesma, tanto com a raiva quanto com o pavor e a angstia. Aexcitao intracerebral poderosamente aumentada, mas no empregada nem em atividade associativa, nem motora. Nas pessoasnormais a perturbao eliminada de modo gradativo. Mas emalgumas, aparecem reaes anormais. Forma-se uma expressoanormal dos afetos, como afirma Oppenheim |1890|. 180. (3) CONVERSO HISTRICADificilmente ho de suspeitar que identifico a excitao nervosa com aeletricidade por eu recorrer mais uma vez comparao com umsistema eltrico. Quando a tenso em tal sistema torna-seexcessivamente alta, h um risco de que ocorra uma interrupo nospontos fracos do isolamento. Os fenmenos eltricos aparecem entoem pontos anormais, ou, quando dois fios esto muito prximos um dooutro, d-se um curto-circuito. Visto que uma alterao permanenteproduz-se nesses pontos, a perturbao assim provocada poderepetir-se constantemente se a tenso for aumentada de modosuficiente. Passou a haver uma facilitao anormal. perfeitamente possvel afirmar que as condies que se aplicam aosistema nervoso so, at certo ponto, semelhantes. Ele forma em todaa sua extenso um todo interligado, mas em muitos de seus pontosinterpem-se grandes resistncias, embora no insuperveis, queimpedem a distribuio geral uniforme da excitao. Assim, naspessoas normais em estado de viglia, a excitao no rgo derepresentao no passa para os rgos da percepo: essas pessoasno tm alucinaes. |ver em [1].| A bem da segurana e da eficinciado organismo, os plexos nervosos dos complexos de rgos que sode importncia vital os aparelhos circulatrio e digestivo soseparados por fortes resistncias dos rgos de representao. Suaindependncia est assegurada e eles no so diretamente afetadospelas representaes. Mas as resistncias que impedem a passagemda excitao intracerebral para os aparelhos circulatrio e digestivovariam de intensidade de um indivduo para outro. Todos os graus deexcitabilidade afetiva situam-se, por um lado, entre o ideal (queraramente se encontra hoje em dia) de um homem absolutamente livrede problemas dos nervos um homem cuja ao cardacapermanece constante em todas as situaes e s afetada pelotrabalho especfico que tem de realizar, um homem que tem bomapetite e boa digesto, qualquer que seja o perigo em que se ache entre um homem desse tipo e, por outro lado, um homem nervoso,que tem palpitaes e diarria menor provocao.Como quer que seja, h resistncias nas pessoas normais contra apassagem da excitao cerebral para os rgos vegetativos. Essasresistncias correspondem ao isolamento nas linhas condutoraseltricas. Nos pontos onde esto anormalmente fracas, elas soinvadidas quando a tenso da excitao cerebral se eleva, e esta aexcitao afetiva passa para os rgos perifricos. Segue-se a issouma expresso do afeto anormal. 181. Dos dois fatores que mencionamos como responsveis por esseresultado, um j foi examinado por ns com pormenores. Esse primeirofator um alto grau de excitao intracerebral que deixou de seraplacada, fosse por atividades ideacionais, fosse pela descargamotora, ou que grande demais para ser enfrentado dessa maneira.O segundo fator uma fraqueza anormal das resistncias em algumasvias especficas de conduo. Isso pode ser determinado pelaconstituio inicial do indivduo (predisposio inata), ou pode serdeterminado por estados de excitao de longa durao, queafrouxam, por assim dizer, toda a estrutura do sistema nervoso doindivduo e reduzem toda a sua resistncia (predisposio puberal); oupode ser determinado por influncias debilitantes, como doena esubnutrio (predisposio devida aos estados de esgotamento). Aresistncia de certas vias especficas de conduo pode estar reduzidapor uma doena prvia do rgo em causa, que facilitou as vias queascendem e descendem do crebro. Um corao doente maissuscetvel influncia de um afeto do que um corao sadio. Tenhouma espcie de caixa de ressonncia no abdome, disse-me umamulher que sofria de parametrite; quando acontece alguma coisa, elarecomea minha antiga dor. (Disposio atravs de doena local.)As aes motoras em que a excitao dos afetos costuma serdescarregada so ordenadas e coordenadas, muito embora comfreqncia sejam inteis. Mas uma excitao excessivamente fortepode contornar ou irromper atravs dos centros coordenadores e seescoar em movimentos primitivos. Nos bebs, alm do ato respiratriode gritar, os afetos s produzem e encontram expresso emcontraes musculares descoordenadas desse tipo primitivo emarquear o corpo e espernear. medida que o desenvolvimento seprocessa, a musculatura passa cada vez mais para o controle dacoordenao e da vontade. Mas o opisttono, que representa omximo de esforo motor da musculatura somtica total, bem como osmovimentos clnicos do espernear e do debater-se, persistem pelavida afora como a forma de reao excitao mxima do crebro excitao puramente fsica dos ataques epilpticos e descarga dosafetos mximos sob a forma de convulses mais ou menosepileptides (por exemplo, a parte puramente motora dos ataqueshistricos). verdade que essas reaes afetivas anormais so caractersticas dahisteria. Mas tambm ocorrem independentemente dessa doena. Oque indicam um grau mais ou menos elevado de distrbio nervoso, eno de histeria. Tais fenmenos no podem ser descritos como 182. histricos, quando aparecem como conseqncias de um afeto que,embora de grande intensidade, possui uma base objetiva, mas squando surgem com aparente espontaneidade, como manifestaesde uma molstia. Estas ltimas, como demonstraram muitasobservaes, inclusive as nossas, baseiam-se emlembranas querevivem o afeto original ou melhor, que o reviveriam se essasreaes de fato no ocorressem em seu lugar.Pode-se admitir como certo que um fluxo de representaes elembranas corre pela conscincia de qualquer pessoa razoavelmenteinteligente enquanto sua mente est em repouso. Essasrepresentaes so to pouco ntidas que no deixam nenhum traona memria e impossvel dizer, posteriormente, como foi que asassociaes ocorreram. Quando, porm, surge uma representao queoriginalmente esteve vinculada a um afeto intenso, esse afeto revivido com maior ou menor intensidade. A representao assimcolorida pelo afeto emerge na conscincia clara e nitidamente. Aintensidade de afeto que pode ser liberada por uma lembrana muitovarivel, conforme o grau em que tenha ficado exposta ao desgastepor diferentes influncias e sobretudo o grau em que o afeto originaltenha sido ab-reagido. Ressaltamos em nossa ComunicaoPreliminar | ver em [1]| em que extenso varivel o afeto de raivadiante de um insulto, por exemplo, evocado por uma lembrana,conforme o insulto tenha sido revidado ou suportado em silncio. Se oreflexo psquico tiver sido plenamente realizado na ocasio original, alembrana dele liberar uma quantidade muito menor de excitao. Emcaso negativo, a lembrana ficar perpetuamente forando nos lbiosdo indivduo as palavras abusivas que foram originalmente reprimidase que teriam sido o reflexo psquico do estmulo original.Nos casos em que o afeto original foi descarregado no atravs de umreflexo normal, mas por um reflexo anormal, este ltimo tambmliberado pela lembrana. A excitao decorrente da idia afetiva convertida (Freud) num fenmeno somtico.Caso esse reflexo anormal se torne inteiramente facilitado pelarepetio freqente, poder, ao que parece, exaurir a fora operativadas representaes liberadoras de forma to total que o prprio afetono surgir, ou surgir com intensidade mnima. Em tal caso, aconverso histrica completa. Alm disso, a representao, queagora no produz mais quaisquer conseqncias psquicas, pode serdesprezada pelo indivduo, ou pode ser prontamente esquecidaquando emergir, como qualquer outra representao desacompanhadade afeto.Talvez seja mais fcil aceitar a possibilidade de uma excitao cerebralque deveria ter dado origem a uma representao ser substituda por 183. uma excitao de alguma via perifrica, se recordarmos o cursoinverso dos acontecimentos que se verifica quando um reflexopr-formado deixa de ocorrer. Escolherei um exemplo extremamentetrivial o reflexo do espirro. Quando um estmulo da membranamucosa do nariz deixa, por qualquer motivo, de liberar esse reflexopr-formado, surge uma sensao de excitao e de tenso, comotodos sabemos. A excitao, que ficou impossibilitada de se escoarpelas vias motoras, agora, inibindo todas as outras atividades,dissemina-se pelo crebro. Esse exemplo cotidiano nos fornece omodelo do que acontece quando um reflexo psquico, mesmo o maiscomplicado, deixa de ocorrer. O excitamento que examinamosanteriormente | ver em [1]| como caracterstica da pulso de vingana, em essncia, o mesmo. E podemos seguir esse processo mesmoat as regies mais elevadas da realizao humana. Goethe nosentia haver elaborado uma experincia at t-la descarregado numaatividade artstica criadora. Esse era, no seu caso, o reflexopr-formado concernente aos afetos, e enquanto no fosse levado acabo, persistia no poeta o aumento aflitivo de excitao.A excitao intracerebral e o processo excitatrio nas vias perifricasso de magnitudes recprocas: a primeira aumenta se e enquantonenhum reflexo liberado; diminui e desaparece depois detransformada em excitao nervosa perifrica. Assim, parececompreensvel que nenhum afeto observvel seja gerado quando arepresentao que deveria t-lo feito emergir libera imediatamente umreflexo anormal, no qual a excitao se escoa to logo gerada. Aconverso histrica ento completa. A excitao intracerebraloriginal pertinente ao afeto transformada em processo excitatrio nasvias perifricas. O que era originalmente uma representao afetivadeixa agora de provocar o afeto, suscitando apenas o reflexo anormal.Acabamos de dar um passo alm da expresso anormal dos afetos.Os fenmenos histricos (reflexos anormais) no parecem serideognicos mesmo para os pacientes inteligentes que so bonsobservadores, porque a representao que lhes deu origem no maiscolorida pelo afeto, nem destacada de outras representaes elembranas. Surgem como fenmenos puramente somticos,aparentemente sem razes psquicas.O que que determina a descarga de afeto de tal forma que umespecfico reflexo anormal produzido em vez de algum outro? Nossasobservaes respondem a essa pergunta, em muitos casos, revelandoque novamente aqui a descarga segue o princpio da menorresistncia e ocorre ao longo das vias cujas resistncias j foramenfraquecidas por circunstncias coincidentes. Isso abrange o caso 184. que j mencionamos | ver em [1]| de um reflexo particular ser facilitadopela doena somtica j existente. Se, por exemplo, algum sofre comfreqncia de dores cardacas, estas tambm sero provocadas pelosafetos. Alternadamente, um reflexo pode ser facilitado pelo fato de ainervao muscular em causa ter sido deliberadamente pretendida nomomento em que o afeto ocorreu originalmente.Assim, Anna O. (em nosso primeiro caso clnico) | ver em [1]| tentou,em seu medo, estender o brao direito, que ficara dormente por causada presso contra o espadar da cadeira, a fim de afastar a cobra; e apartir dessa poca a tetania no brao direito passou a ser provocadapela viso de qualquer objeto semelhante a cobras. Ou ainda | ver em[1]|, em sua emoo, ela forou a vista para ler os ponteiros do relgio,e a partir de ento um estrabismo convergente se transformou numdos reflexos daquele afeto. E assim por diante.Isso se deve ao da simultaneidade que de fato rege as nossasassociaes normais. Toda percepo sensorial traz de volta conscincia qualquer outra percepo sensorial que tenhaoriginalmente ocorrido ao mesmo tempo. (Cf. o exemplo do livro-textocom a imagem visual de um carneiro e o som do seu balido, etc.) Se oafeto original se fez acompanhar de uma ntida impresso sensorial,esta ltima evocada mais uma vez quando o afeto se repete; e j que uma questo de descarga de uma excitao excessivamente grande,a impresso sensorial emerge no como uma lembrana, mas comouma alucinao. Quase todos os nossos casos clnicos proporcionamexemplos disso. tambm o que aconteceu no caso de uma mulherque experimentou um afeto aflitivo numa poca em que estavasofrendo de violenta dor de dente por causa de uma periostite, e que apartir da passou a sofrer nevralgia infra-orbital sempre que o afeto serenovava ou sequer era relembrado | ver em [1]-[2]|.O que temos aqui a facilitao de reflexos anormais de acordo comas leis gerais da associao. Mas algumas vezes (embora, deva-seadmitir, s em graus mais elevados de histeria) h verdadeirasseqncias de representaes associadas entre o afeto e seu reflexo.Temos a a determinao atravs do simbolismo. O que une o afeto aoseu reflexo , muitas vezes, algum trocadilho ridculo ou associaespelo som, mas isso s acontece em estados semelhantes ao sonho,quando os poderes crticos se acham reduzidos, e est fora do grupode fenmenos com que estamos lidando aqui.Num grande nmero de casos o caminho seguido pela seqncia dadeterminao permanece ininteligvel para ns, pois com freqnciatemos uma compreenso muito incompleta do estado mental dopaciente e um conhecimento imperfeito das representaes que eramativas por ocasio da origem do fenmeno histrico. Mas podemos 185. presumir que o processo no inteiramente dessemelhante do quepodemos observar com clareza em casos mais favorveis.As experincias que liberaram o afeto original, cuja excitao foi entoconvertida num fenmeno somtico, so por ns descritas comotraumas psquicos, e a manifestao patolgica que surge desta forma,como sintomas histricos de origem traumtica. (A expresso histeriatraumtica j foi aplicada a fenmenos que, por serem conseqnciade danos fsicos traumas no sentido mais estrito do termo fazemparte da classe das neuroses traumticas.)A gnese dos fenmenos que so determinados por traumas encontraanalogia na converso histrica da excitao psquica, que se originano de estmulos externos nem da inibio dos reflexos psquicosnormais, e sim da inibio do curso de associao. O exemplo emodelo mais simples disso proporcionado pela excitao que surgequando no conseguimos recordar um nome ou no podemossolucionar um enigma, e assim por diante. Quando algum nos diz onome ou nos d a resposta do enigma, a cadeia deassociaestermina e a excitao desaparece, exatamente como faz no final deuma cadeia de reflexos. A intensidade da excitao causada pelobloqueio de uma linha de associaes est na razo direta dointeresse que temos nelas isto , do grau em que elas acionamnossa vontade. Visto, porm, que a procura de uma soluo doproblema, ou o que quer que seja, sempre envolve grande volume detrabalho, embora possa no ter nenhuma serventia, mesmo umapoderosa excitao encontra utilizao e no pressiona a descarga, econseqentemente, jamais se torna patognica.Essa excitao, entretanto, se torna de fato patognica quando o cursode associaes inibido graas s representaes irreconciliveis deigual importncia quando, por exemplo, novas representaesentram em conflito com complexos representativos enraizados. Taisso os tormentos da dvida religiosa a que muitas pessoas sucumbeme muitas outras sucumbiram no passado. Mesmo nesses casos,contudo, a excitao e o sofrimento psquico acompanhante (asensao de desprazer) s atingem um grau considervel quandoentra em jogo algum interesse volitivo do sujeito quando, porexemplo, algum cheio de dvidas se sente ameaado em suafelicidade ou salvao. Tal fator est sempre presente, no entanto,quando o conflito se d entre complexos firmemente enraizados derepresentaes morais em que o indivduo foi educado e a lembranade aes ou simples pensamentos irreconciliveis com essasrepresentaes; quando, em outras palavras, se sentem as dores daconscincia. O interesse volitivo em gostar da prpria personalidade eestar satisfeito com ela entra em ao nesse ponto e eleva ao mais 186. alto grau a excitao atribuda inibio das associaes. umaconstatao cotidiana que um conflito entre representaesirreconciliveis possui um efeito patognico. O que se acha emquesto na maioria das vezes so representaes e processos ligados vida sexual: a masturbao num adolescente com susceptibilidadesmorais; ou, numa mulher casada de moral rigorosa, a conscientizaode sentir-se atrada por um homem que no o prprio marido. Comefeito, o primeiro aparecimento das sensaes e representaessexuais, por si s, muitas vezes suficiente para acarretar um intensoestado de excitao, por causa de seu conflito com a representaoprofundamente enraizada da pureza moral.Um estado de excitao dessa natureza costuma ser seguido porconseqncias psquicas, tais como a depresso patolgica e osestados de angstia (Freud |1895b|). s vezes, porm, algumascircunstncias coincidentes acarretam um fenmeno somtico anormalem que a excitao descarregada. Assim, pode haver vmitosquando o sentimento de impureza produz uma sensao fsica denusea; ou uma tussis nervosa, como em Anna O. (Caso Clnico n 1 |ver em [1]|), quando a angstia moral provoca um espasmo da glote, eassim por diante.H uma reao normal apropriada excitao provocada porrepresentaes muito ntidas e irreconciliveis a saber,comunic-las pela fala. Um quadro divertidamente exagerado da nsiade fazer isso fornecido na histria do barbeiro de Midas, que revelouem voz alta seu segredo aos canios. Encontramos o mesmo anseiocomo um dos fatores bsicos de uma grande instituio histrica oconfessionrio catlico romano. Dizer as coisas um alvio;descarrega a tenso, mesmo quando a pessoa a quem elas so ditasno um padre e mesmo quando no se procura qualquer absolvio.Quando se nega essa sada excitao, ela s vezes se converte numfenmeno somtico, tal como acontece com a excitao pertinente aosafetos traumticos. Todo o grupo de fenmenos histricos que assimse origina pode ser descrito, com Freud, como fenmenos histricos dereteno.O relato que fizemos at aqui do mecanismo pelo qual se originam osfenmenos histricos est sujeito crtica de ser esquemtico emdemasia e de simplificar os fatos. Para que uma pessoa saudvel queno seja inicialmente neuropata possa desenvolver um sintomahistrico autntico, com sua aparente independncia da mente e comexistncia somtica prpria, deve haver sempre grande nmero decircunstncias convergentes.O caso seguinte servir de exemplo da natureza complicada doprocesso. Um menino de doze anos de idade, que antes sofrera de 187. pavor nocturnus e cujo pai era altamente neurtico, voltou certo dia daescola para casa sentindo-se mal. Queixava-se de dificuldade deengolir e de dor de cabea. O mdico da famlia presumiu que a causafosse uma inflamao na garganta. Mas o estado no melhorou,mesmo aps vrios dias. O menino recusava os alimentos e vomitavaquando estes lhe eram forados. Movia-se de um lado para o outroapaticamente, sem energia ou prazer; queria ficar deitado o tempo todoe estava fisicamente muito abatido. Quando o examinei cinco semanasdepois, ele me deu a impresso de ser uma criana acanhada eintrovertida e me convenci de que seu estado tinha uma base psquica.Ao ser inquirido detidamente, apresentou uma explicao trivial umareprimenda severa passada pelo pai que claramente no fora acausa real de sua doena. Nada se pde saber tampouco em suaescola. Prometi que extrairia a informao mais tarde, sob hipnose.Mas isso foi desnecessrio. Reagindo a fortes apelos de sua meinteligente e enrgica, o menino debulhou-se em lgrimas e contou aseguinte histria. Quando voltava da escola para casa, ele fora a ummictrio e um homem lhe mostrara o pnis e pedira-lhe que ele opusesse na boca. O garoto fugira apavorado e nada mais lhe tinhaacontecido. Mas a partir daquele instante, adoeceu. To logo fez suaconfisso, recuperou-se inteiramente. Para produzir a anorexia, adificuldade de engolir e os vmitos, vrios fatores se fizeramnecessrios: a natureza neurtica inata do menino, seu intenso pavor,a irrupo da sexualidade em sua forma mais crua no seutemperamento infantil e, como fator especificamente determinante, aidia de repulsa. A doena deveu sua persistncia ao silncio domenino, que impediu a excitao de encontrar sua sada normal.Em todos os outros casos, como nesse, preciso haver umaconvergncia de vrios fatores para que um sintoma histrico possaser gerado em qualquer um que at ento tenha sido normal. Taissintomas so invariavelmente sobredeterminados, para usar aexpresso de Freud.Pode-se presumir que uma sobredeterminao dessa naturezatambm se ache presente quando o mesmo afeto evocado por umasrie de causas desencadeantes. O paciente e aqueles que o cercamatribuem o sintoma histrico apenas ltima causa, embora essacausa, em geral, s tenha gerado algo que j fora quase realizado poroutros traumas.Uma moa de dezessete anos teve seu primeiro ataque histrico(seguido de vrios outros) quando um gato pulou sobre seu ombro noescuro. O ataque parecia ser apenas o resultado do susto. Umainvestigao mais detida revelou, contudo, que a moa, que era bonita 188. e no muito vigiada, recentemente experimentara vrias investidasmais ou menos brutais e ficara sexualmente excitada com elas. (Temosaqui o fator da predisposio.) Alguns dias antes, um jovem a atacarana mesma escada escura e ela fugira dele com dificuldade. Esse fora overdadeiro trauma psquico, que o gato nada mais fez do que tornarmanifesto. Mas teme-se que em muitos outros casos dessa natureza ogato seja considerado a causa efficiens.Para que a repetio de um afeto promova uma converso dessamaneira, nem sempre necessrio que haja grande nmero de causasexternas desencadeantes; a renovao do afeto na memria tambmmuitas vezes suficiente, se a lembrana for repetida com rapidez efreqncia, logo aps o trauma e antes que seu afeto fiqueenfraquecido. Isso o bastante caso o afeto tenha sido muito intenso.Tal o caso da histeria traumtica, no sentido mais estrito do termo.Durante os dias que se seguem a um acidente ferrovirio, por exemplo,o sujeito volta a vivenciar suas experincias assustadoras, tantodormindo como acordado, e sempre com o afeto renovado de pavor,at que afinal, depois desse perodo de elaborao |laboration|psquica (para usar a expresso de Charcot | ver em [1]| ou deincubao, ocorre a converso num fenmeno somtico (embora hajaoutro fator em causa, que teremos de examinar mais tarde).Em geral, porm, uma representao afetiva prontamente submetidaa um desgaste, isto , a todas as influncias mencionadas em nossaComunicao Preliminar (ver em. [1]), que a privam pouco a pouco desua carga de afeto. Sua revivescncia causa uma quantia sempredecrescente de excitao, e a lembrana perde assim a capacidade decontribuir para a produo de um fenmeno somtico. A facilitao doreflexo anormal desaparece e o status quo ante ento restabelecido.As influncias do desgaste, entretanto, so todas efeitos daassociao, do pensamento e de correes por referncias a outrasrepresentaes. Esse processo de correo torna-se impossvelquando a representao afetiva retira-se do contato associativo.Quando isso acontece, a representao retm toda a sua cargaafetiva. Visto que a cada renovao toda a soma de excitao do afetooriginal volta a ser liberada, a facilitao do reflexo anormal que seiniciou na poca finalmente estabelecida; ou ento, se a facilitao jestava completa, ela mantida e estabilizada. O fenmeno daconverso histrica assim se estabelece permanentemente.Nossas observaes mostram duas maneiras pelas quais asrepresentaes afetivas podem ser excludas da associao.A primeira a defesa, a supresso deliberada de representaesaflitivas que parecem ameaar a felicidade ou a auto-estima doindivduo. Em seu |primeiro| artigo sobre As Neuropsicoses de Defesa 189. (1894a) e em seus casos clnicos no presente volume, Freud examinouesse processo, que indubitavelmente possui altssima significaopatolgica. No podemos, verdade, compreender como umarepresentao pode ser deliberadamente recalcada da conscincia.Mas estamos perfeitamente familiarizados com o processo positivocorrespondente, o de concentrar a ateno numa representao, esomos da mesma maneira incapazes de dizer como efetuamos isso.Assim, as representaes de que a conscincia se desvia, que no soobjeto de pensamento, so tambm retiradas do processo de desgastee retm sua carga afetiva sem diminuio.Verificamos ainda que existe outra espcie de representao quepermanece isenta do desgaste pelo pensamento. Isso pode acontecer,no porque no se queira lembrar a representao, mas porque no seconsegue lembr-la: porque ela emergiu originalmente e foi dotada deafeto em estados com relao aos quais existe uma amnsia naconscincia de viglia isto , na hipnose ou estados semelhantes aela. Estes ltimos parecem ser da mais alta importncia para a teoriada histeria e, por conseguinte, merecem um exame um pouco maiscomplexo. 190. (4) ESTADOS HIPNIDESQuando, em nossa Comunicao Preliminar | ver em [1]|,apresentamos a tese de que a base e condio sine qua non dahisteria a existncia de estados hipnides, estvamos desprezando ofato de que Moebius j dissera exatamente a mesma coisa em 1890.A condio necessria para a atuao (patognica) das idias , porum lado, uma predisposio inata isto , uma disposio histrica e, por outro, um peculiar estado mental. Podemos apenas formar umaidia imprecisa desse estado mental. Deve assemelhar-se a um estadode hipnose; deve corresponder a alguma espcie de vazio daconscincia em que uma idia emergente no depara com qualquerresistncia por parte de outra no qual, por assim dizer, o campo estlivre para a primeira idia que vier. Sabemos que esse tipo de estadopode ser acarretado no somente pelo hipnotismo, como tambm pelochoque emocional (susto, clera, etc.) e por fatores que esgotam asforas (privao do sono, fome, etc.) |Moebius, 1894, 17|.O problema para cuja soluo Moebius fazia aqui uma abordagempreliminar o da gerao de manifestaes somticas pelas idias.Ele recorda nesse ponto a facilidade com que isso pode ocorrer sobhipnose e considera anloga atuao dos afetos. Nosso conceitosobre a atuao dos afetos, um tanto diferente, foi plenamenteexplicado atrs | ver em [1] e segs.|. No preciso, portanto, penetrarainda mais na dificuldade existente na suposio de Moebius de que,na raiva, h um vazio da conscincia (o que reconhecidamente existeno pavor e na angstia prolongada), ou na dificuldade mais geral detraar uma analogia entre o estado de excitao num afeto e o estadoquiescente na hipnose. Recorreremos mais adiante | ver em [1]|,contudo, a essas observaes de Moebius, que em minha opiniocontm uma verdade importante.A nosso ver, a importncia desses estados que se assemelham hipnose os estados hipnides reside alm disso eprincipalmente na amnsia que os acompanha e em seu poder deprovocarem a diviso da mente, que logo examinaremos e que defundamental significao para a grande histeria. Ainda atribumosessa importncia aos estados hipnides. Mas devo acrescentar umaressalva substancial nossa tese. A converso a produoideognica de fenmenos somticos tambm pode ocorrerindependentemente dos estados hipnides. Freud encontrou naamnsia deliberada de defesa uma segunda fonte, independente dosestados hipnides, para a formao de complexos representativos queso excludos do contato associativo. Mas ao aceitar essa ressalva, 191. ainda sou de opinio que os estados hipnides so a causa e acondio necessria de muitas, na realidade da maioria, das histeriasgrandes e complexas.Antes de mais nada, claro, devem-se enumerar entre os estadoshipnides as auto-hipnoses verdadeiras, que s se distinguem dashipnoses artificiais pelo fato de se originarem de modo espontneo.Encontramo-las em grande nmero de histerias plenamentedesenvolvidas, ocorrendo com variada freqncia e durao, e muitasvezes alternando-se rapidamente com estados de viglia normais (cf.Casos Clnicos 1 e 2). Em virtude da natureza quase onrica de seucontedo, muitas vezes merecem o nome de delirium histericum. Oque acontece durante os estados auto-hipnticos est sujeito amnsia mais ou menos total na vida de viglia (ao passo que completamente recordado na hipnose artificial). Os produtos psquicosdesses estados e as associaes que se formaram neles soimpedidos pela amnsia de qualquer correo durante o pensamentode viglia; e como na auto-hipnose a crtica e o controle provocados poroutras idias se reduzem, e em geral desaparecem quase porcompleto, os mais loucos delrios podem emergir dela intactos porlongos perodos. Assim, quase s nesses estados que surge umarelao simblica (um tanto irracional e complicada) entre a causaprecipitante e o fenmeno patolgico | ver em [1]-[2]|, que, na verdade,muitas vezes se baseia nas mais absurdas semelhanas fonticas eassociaes verbais. A ausncia de crtica nos estados auto-hipnticosexplica por que deles surgem auto-sugestes com tanta freqncia como, por exemplo, quando uma paralisia fica como seqela aps umataque histrico. Mas e isso talvez apenas se deva ao acaso quase nunca deparamos, em nossas anlises, com um exemplo de umfenmeno histrico que se tenha originado assim. Sempre a vimosacontecer, no menos na auto-hipnose do que fora dela, comoresultado do mesmo processo a saber, a converso de umaexcitao afetiva.Seja como for, essa converso histrica verifica-se mais facilmentena auto-hipnose do que no estado de viglia, do mesmo modo que asrepresentaes sugeridas se realizam fisicamente, como alucinaes emovimentos, com muito mais facilidade na hipnose artificial. Noobstante, o processo de converso da excitao em essnciaidntico ao descrito acima. Uma vez que tenha ocorrido, o fenmenosomtico se repete se o afeto e a auto-hipnose ocorreremsimultaneamente. E nesse caso, como se o estado hipntico fosseevocado pelo prprio afeto. Por conseguinte, desde que haja umaalternncia ntida entre a hipnose e a vida de viglia plena, o sintomahistrico permanece restrito ao estado hipntico e nele fortalecido 192. pela repetio; alm disso, arepresentao que lhe deu lugar ficaisenta de correo pelos pensamentos de viglia e pela sua crtica,precisamente porque nunca emerge na vida lcida de viglia.Assim, com Anna O. (Caso Clnico 1), a contratura do brao direito,que se associava em sua auto-hipnose com o afeto de angstia e coma representao da cobra, permaneceu durante quatro meses restritaaos momentos durante os quais ela se encontrava num estadohipntico (ou, se considerarmos esse termo inapropriado para asabsences de durao muito curta, um estado hipnide), embora serepetisse com freqncia. A mesma coisa aconteceu com outrasconverses que se verificaram em seu estado hipnide; e dessa forma,o grande complexo de fenmenos histricos organizou-se num estadode completa latncia e veio a revelar-se quando seu estado hipnidese tornou permanente. | ver em [1] |Os fenmenos assim surgidos s emergem na conscincia lcidaquando a diviso da mente, que examinarei depois, j foi concluda, equando a alternncia entre os estados de viglia e hipnose foisubstituda por uma coexistncia entre os complexos representativosnormais e os hipnides.Ser que existem estados hipnides dessa natureza antes de opaciente adoecer? Como aparecem eles? Muito pouco posso dizer arespeito disso, pois afora o caso de Anna O., no dispomos dequalquer observao que possa lanar luz sobre esse ponto. Parececerto que, no caso dela, a auto-hipnose teve seu terreno preparado pordevaneios habituais e foi plenamente estabelecida por um afeto deangstia prolongado, o qual, por si s, teria sido a base de um estadohipnide. No nos parece improvvel que este processo seja vlido deum modo bastante geral.Uma grande variedade de estados conduz ausncia da mente, masapenas alguns deles predispem auto-hipnose ou logo passam paraela. Sem dvida, um investigador profundamente absorto numproblema fica anestesiado at certo ponto, no formando qualquerpercepo consciente de grandes grupos de suas sensaes; e omesmo se aplica a qualquer um que esteja usando ativamente suaimaginao criadora (cf. o teatro particular de Anna O. | ver em [1]|).Mas em tais estados, um intenso trabalho mental executado e aexcitao liberada pelo sistema nervoso consumida nesse trabalho.Nos estados de distrao e devaneio, por outro lado, a excitaointracerebral cai abaixo de seu nvel lcido de viglia. Esses estadosbordejam a sonolncia e se convertem em sono. Se, durante tal estadode absoro e enquanto o fluxo de representaes inibido, um grupode representaes de tonalidade afetiva estiver em ao, criar um altonvel de excitao intracerebral que no ser consumida pelo trabalho 193. mental e ficar disposio do funcionamento anormal, como aconverso.Assim, nem a ausncia da mente durante o trabalho intenso, nem osestados crepusculares destitudos de emoo so patognicos; poroutro lado, os devaneios carregados de emoo e os estados de fadigadecorrentes de afetos prolongados so patognicos. As ruminaes deum homem cheio de preocupaes, a angstia de uma pessoa queesteja velando cabeceira de um doente que lhe caro e osdevaneios dos amantes so estados desta segunda natureza. Aconcentrao no grupo afetivo de representaes comea por produziruma ausncia da mente. O fluxo de representaes torna-segradualmente mais lento e, por fim, quase pra; mas a representaoafetiva e seu afeto permanecem ativas e, por conseguinte, tambm agrande quantidade de excitao que no est sendo consumidafuncionalmente. A semelhana entre essa situao e os determinantesda hipnose parece inconfundvel. O indivduo que vai ser hipnotizadono precisa realmente adormecer, isto , sua excitao intracerebralno precisa mergulhar ao nvel do sono; mas seu fluxo derepresentaes deve ser inibido. Quando isso acontece, toda a massade excitao fica disposio da representao sugerida. dessa maneira que a auto-hipnose patognica parece surgir emalgumas pessoas atravs da introduo de afeto num devaneiohabitual. Essa talvez seja uma das razes por que, na anamnese dahisteria, deparamos to freqentemente com os dois grandes fatorespatognicos de estar apaixonado e cuidar de doentes. No primeiro, ospensamentos saudosos do indivduo sobre a pessoa amada ausentecriam nele um estado de esprito arrebatado, fazem com que seuambiente real se esmaea e ento levam seu pensamento a um estadode paralisao carregado de afeto; j no cuidar de doentes, a quietudepela qual o indivduo se v rodeado, sua concentrao num objeto, suaateno fixada na respirao do paciente tudo isso garanteprecisamente as condies exigidas por muitas tcnicas hipnticas eenche o estado crepuscular assim produzido com o afeto de angstia. possvel que esses estados difiram apenas quantitativamente dasauto-hipnoses verdadeiras e que se transformem nelas.Uma vez que isso tenha acontecido, o estado semelhante hipnose serepete muitas vezes ao surgirem as mesmas circunstncias, e oindivduo, em vez dos dois estados normais da mente, possui trs: oestado de viglia, o de sono e o hipnide. Verificamos que a mesmacoisa acontece quando a hipnose artificial profunda com freqnciaprovocada.No sei dizer se os estados hipnticos espontneos podem tambmser gerados sem que haja a interveno de um afeto dessa maneira, 194. comoresultado de uma predisposio inata, mas considero-o muitoprovvel. Quando vemos a diferena de suscetibilidade hipnoseartificial tanto entre pessoas sadias como entre doentes, e vemos quofacilmente provocada em algumas delas, parece razovel supor queem tais pessoas ela tambm possa aparecer de modo espontneo. Etalvez seja necessria uma predisposio para isso para que umdevaneio possa transformar-se numa auto-hipnose. Estou, portanto,longe de atribuir a todos os pacientes histricos o mecanismo geradorque nos foi ensinado por Anna O.Refiro-me antes a estados hipnides do que hipnose em si porque muito difcil estabelecer uma demarcao clara desses estados, quedesempenham um papel to importante na gnese da histeria. Nosabemos se os devaneios, descritos acima como estgios preliminaresda auto-hipnose, no podem eles prprios ser capazes de produzir omesmo efeito patolgico que a auto-hipnose, e se os mesmos tambmno podem aplicar-se a um afeto prolongado de angstia. Por certoque isso se aplica ao medo. Visto que o medo inibe o fluxo derepresentaes ao mesmo tempo em que uma representao afetiva(de perigo) est muito ativa, ele oferece um paralelo completo a umdevaneio carregado de afeto; e uma vez que a lembrana darepresentao afetiva que sempre se renova, continua a estabeleceresse estado mental, passa a existir um medo hipnide em que aconverso promovida ou estabilizada. Temos a o estgio deincubao da histeria traumtica no sentido estrito da expresso.Uma vez que h possibilidade de agrupar com a auto-hipnose estadosmentais to diferentes, embora compatveis entre si nos aspectos maisimportantes, parece desejvel adotar a expresso hipnide, que dnfase a essa semelhana interna. Ela resume o conceito,apresentado por Moebius no trecho citado anteriormente | ver em[1]-[2]|. Acima de tudo, porm, essa expresso aponta para a prpriaauto-hipnose, cuja importncia na gnese dos fenmenos histricosrepousa no fato de que ela torna a converso mais fcil e protege (pelaamnsia) as representaes convertidas de se desgastarem proteo esta que acaba por levar a um aumento da diviso psquica.Quando um sintoma somtico causado por uma representao repetidamente desencadeado por ela, poderamos esperar que ospacientes inteligentes e capazes de auto-observao ficassemconscientes da vinculao; eles saberiam por experincia que amanifestao somtica aparecia ao mesmo tempo que a lembrana deum fato especfico. O nexo causal subjacente, na verdade, desconhecido deles; mas todos ns sempre sabemos qual arepresentao que nos faz chorar, rir ou enrubescer, ainda que 195. notenhamos a mais leve compreenso do mecanismo nervoso dessesfenmenos ideognicos. Algumas vezes os pacientes realmenteobservam a conexo e esto cnscios dela. Por exemplo, uma mulherpode dizer que seu ataque histrico branco (tremores e palpitao,talvez) provm de alguma grande perturbao emocional e se repetequando, e somente quando, algum fato faz com que ela se lembredisso. Mas este no o caso com muitos ou, na verdade, com amaioria dos sintomas histricos. Mesmo os pacientes inteligentes noesto cnscios de que seus sintomas surgem como resultado de umarepresentao e os consideram manifestaes fsicas independentes.Se fosse de outra forma, a teoria psquica da histeria j teria alcanadouma idade respeitvel.Seria plausvel acreditar que, embora os sintomas em questo fossemoriginalmente ideognicos, a repetio deles os tornou, para usar otermo de Romberg |1840, 192|, gravados no corpo, e agora no maisse baseariam num processo psquico, e sim em modificaes nosistema nervoso ocorridas nesse meio tempo: ter-se-iam tornadosintomas independentes e genuinamente somticos.Esse conceito no , em si mesmo, nem insustentvel nem improvvel.Mas creio que a nova luz que nossas observaes lanaram sobre ateoria da histeria reside precisamente em ter ela demonstrado queessa viso insuficiente para sustentar os fatos, pelo menos emmuitos casos. Vimos que sintomas histricos dos mais variados tipos,que datavam de muitos anos, desapareciam imediata epermanentemente quando conseguamos evocar com clareza alembrana do fato que os havia provocado e despertar seu afetoconcomitante, e quando a paciente havia descrito tal evento com osmaiores detalhes possveis e traduzira o afeto em palavras | ver em[1]|. Os casos clnicos relatados nessas pginas fornecem algumasprovas em apoio de tais asser-es. Podemos inverter a mximacessante causa cessat effectus |cessando a causa cessa o efeito| econcluir dessas observaes que o processo determinante (isto , arecordao dele) continua a atuar durante anos no indiretamente,atravs de uma cadeia de elos causais intermedirios, mas como umacausa diretamente liberadora do mesmo modo que um sofrimentopsquico que recordado na conscincia de viglia ainda provoca umasecreo lacrimal muito depois do acontecimento. Os histricos sofremprincipalmente de reminiscncias |p. [1]|. Mas se esse for o caso sea lembrana do trauma psquico tiver que ser considerada to atuantequanto um agente contemporneo, como um corpo estranho muitodepois da sua entrada forada, e se, no obstante, o paciente no tivernenhuma conscincia de tais lembranas ou do surgimento delas ento deveremos admitir que as representaes inconscientes existem 196. e so atuantes.Alm disso, quando chegamos a analisar os fenmenos histricos, noencontramos apenas essas representaes inconscientes emisolamento. Devemos reconhecer o fato de que na realidade, como foidemonstrado pelo valioso trabalho executado por pesquisadoresfranceses, grandes complexos de representaes e processospsquicos complicados e de importantes conseqncias permaneceminteiramente inconscientes num grande nmero de pacientes, ecoexistem com a vida mental consciente: devemos reconhecer que halgo que se pode chamar de diviso da atividade psquica, e que isso de valor fundamental para nossa compreenso das histeriascomplicadas.Talvez me seja permitido explorar bem mais amplamente essa regiodifcil e obscura. A necessidade de estabelecer o significado daterminologia aqui empregada talvez justifique, at certo ponto, adiscusso terica que se segue. 197. (5) REPRESENTAES INCONSCIENTES E REPRESENTAESINADMISSVEIS CONSCINCIA DIVISO DA MENTEChamamos representaes conscientes quelas de que temosconhecimento. Existe nos seres humanos o fato estranho daconscincia de si mesmo. Somos capazes de encarar e observar,como se fossem objetos, representaes que surgem em ns e sesucedem umas s outras. Isso nem sempre acontece, uma vez queso raras as oportunidades de auto-observao. Mas a capacidadepara isso est presente em cada um, pois todos podem dizer: penseinisto ou naquilo. Descrevemos como conscientes as representaesque observamos como ativas em ns, ou que assim observaramos seprestssemos ateno a elas. Em qualquer momento especfico dotempo h pouqussimas delas; e se alm dessas houver tambmoutras representaes presentes, teremos de cham-las derepresentaes inconscientes.No mais parece necessrio argumentar em favor da existncia derepresentaes correntes que so inconscientes ou subconscientes.Elas se acham entre os fatos mais comuns na vida cotidiana. Caso meesquea de fazer uma de minhas visitas mdicas, terei sentimentos deviva inquietao. Sei por experincia o que significa essa sensao deque me esqueci de algo.Vasculho minhas lembranas em vo; noconsigo descobrir a causa at que, subitamente, talvez algumas horasdepois, ela entra em minha conscincia. Mas estive inquieto o tempotodo. Por conseguinte, a representao da visita esteve todo o tempoatuante, isto , presente, mas no em minha conscincia. Ou ento umhomem atarefado se aborrece com alguma coisa em certa manh. Ficainteiramente absorto em seu trabalho no escritrio; enquanto oexecuta, seus pensamentos conscientes esto inteiramente ocupadose ele no pensa em seu aborrecimento. Mas suas decises soinfluenciadas por ele e bem possvel que o sujeito diga no onde deoutra forma diria sim. Portanto, apesar de tudo, essa lembrana atuante, ou seja, est presente. Grande parte do que descrevemoscomo estado de nimo provm de fontes dessa natureza, derepresentaes que existem e esto atuantes abaixo do limiar daconscincia. De fato, toda a conduta da nossa vida constantementeinfluenciada por representaes subconscientes. Podemos ver na vidacotidiana como, quando h degenerescncia mental, como porexemplo nos estgios iniciais da paralisia geral, as inibies quenormalmente restringem certas aes se tornam mais fracas edesaparecem. Mas o paciente que agora faz piadas indecentes napresena de mulheres no era, em seus dias de sade, impedido defaz-lo por lembranas e reflexes consciente; evitava-o instintiva e 198. automaticamente isto , era refreado por representaes que eramevocadas pelo impulso de comportar-se dessa forma, mas quepermaneciam abaixo do limiar da conscincia, embora, no obstante,inibissem o impulso. Toda a atividade intuitiva dirigida porrepresentaes que em grande medida so inconscientes, pois apenasas representaes mais claras e mais intensas so percebidas pelaconscincia de si mesmo, enquanto a grande massa derepresentaes correntes, porm mais fracas, permanece inconsciente.As objees que so levantadas contra a existncia e a atuao dasrepresentaes inconscientes parecem, na maior parte, ser um jogode palavras. Sem dvida, representao uma palavra que pertence terminologia do pensamento consciente, e representaoinconsciente portanto uma expresso autocontraditria. Mas oprocesso fsico subjacente a uma representao o mesmo nocontedo e na forma (embora no em quantidade), quer arepresentao se eleve acima do limiar da conscincia, querpermanea abaixo dele. Bastaria construir uma expresso comosubstrato representativo para evitar a contradio e rebater a objeo.Assim, no parece haver nenhuma dificuldade terica em reconhecertambm as representaes inconscientes como causas dos fenmenospatolgicos. Mas se entrarmos no assunto mais detidamente,encontraremos outras dificuldades. Em geral, quando a intensidade deuma representao inconsciente aumenta, ela penetra na conscinciaipso facto. S quando sua intensidade leve que ela permaneceinconsciente. O que parece difcil de compreender como umarepresentao pode ser suficientemente intensa para provocar um atomotor ativo, por exemplo, e ao mesmo tempo no ser intensa obastante para tornar-se consciente.J mencionei |ver em. [1] | um conceito que talvez no deva serdescartado de imediato. De acordo com ele, a clareza de nossasrepresentaes, e conseqentemente sua capacidade de seremobservadas por nossa autoconscincia isto , de serem conscientes determinada, entre outras coisas, pelas sensaes de prazer oudesprazer que desperta, por sua carga de afeto. Quando umarepresentao produz imediatamente ntidas conseqnciassomticas, isso implica que a excitao engendrada por ela escoou-sepelas vias implicadas nessas conseqncias, em vez de difundir-se nocrebro, e precisamente porque essa representao temconseqncias fsicas, porque suas somas de estmulos psquicos soconvertidas em estmulos somticos, ela perde a clareza que de outraforma a teria destacado na corrente de representaes. Em vez disso,perde-se entre as demais.Suponhamos, por exemplo, que algum tenha experimentado um afeto 199. violento durante uma refeio e no o tenha ab-reagido. Ao tentarcomer, mais tarde, ele dominado por engasgos e vmitos e estes lheparecem sintomas puramente somticos. Seus vmitos histricoscontinuam por tempo considervel. Desaparecem depois que o afeto revivido, descrito e tornado alvo de reao por parte do paciente sobhipnose. No h dvida de que cada tentativa de comer evocava alembrana em causa. Essa lembrana deu origem aos vmitos, masno surgiu claramente na conscincia, pois estava ento destituda doafeto, enquanto os vmitos absorviam a ateno inteiramente. concebvel que a razo que acaba de ser dada explique por quealgumas idias que liberam fenmenos histricos no sejamreconhecidas como suas causas. Mas essa razo o fato de asrepresentaes que perderam seu afeto, por terem sido convertidas,passarem despercebidas no tem possibilidade de explicar por que,em outros casos, complexos representativos que so tudo, menosdesprovidos de afeto, no entram naconscincia. Numerosos exemplosdisso so encontrados em nossos casos clnicos.Em tais pacientes verificamos que a norma era a perturbaoemocional apreenso, irritabilidade raivosa, tristeza preceder oaparecimento do sintoma somtico ou segui-lo imediatamente, eaumentar at ser dissipada atravs de sua expresso em palavras, ouat que o afeto e a manifestao somtica tornassem a desaparecergradativamente. Quando ocorria o primeiro caso, a qualidade do afetosempre se tornava perfeitamente compreensvel, embora suaintensidade no pudesse deixar de parecer, aos olhos de uma pessoanormal (e do prprio paciente, depois de ter sido esclarecida),totalmente desproporcional. Essas eram, portanto, representaesintensas o bastante no apenas para causar fortes fenmenossomticos, como tambm para evocar o afeto apropriado e influenciaro curso da associao, dando destaque a representaes afins masque, apesar de tudo isso, permaneciam elas prprias fora daconscincia. Para traz-las conscincia, a hipnose se fazianecessria (como nos Casos Clnicos 1 e 2), ou (como nos Casos 4 e5) era preciso empreender uma busca trabalhosa com a ajudaesforada do mdico.Representaes tais como essas, que, embora presentes, soinconscientes, no por causa de seu grau relativamente pequeno denitidez, mas apesar de sua grande intensidade, podem ser descritascomo representaes que so inadmissveis conscincia.A existncia desse tipo de representaes inadmissveis conscincia patolgica. Nas pessoas normais, todas as representaes quepodem tornar-se presentes tambm penetram na conscincia, desdeque sejam suficientemente intensas. Em nossos pacientes 200. encontramos um grande complexo de representaes admissveis conscincia coexistindo com um complexo menor de representaesque no o so. Neles, portanto, o campo da atividade psquicarepresentativa no coincide com a conscincia potencial. Esta ltima mais restrita que a primeira. A atividade psquica representativa dessaspessoas divide-se numa parte consciente e noutra inconsciente, e suasrepresentaes se dividem em algumas que so admissveis ealgumas que soinadmissveis conscincia. No podemos, portanto,falar numa diviso da conscincia, embora possamos mencionar umadiviso da mente.Inversamente, essas representaes subconscientes no podem serinfluenciadas ou corrigidas pelo pensamento consciente. Com muitafreqncia elas se referem a experincias que, entrementes, perderamseu significado o pavor de fatos que no ocorreram, o susto que setransformou em riso ou alegria aps um salvamento. Taisdesenvolvimentos subseqentes privam a memria de todo o seu afetono que tange conscincia, mas deixam inteiramente intacta arepresentao subconsciente que provoca fenmenos somticos.Talvez me seja permitido citar outro exemplo. Uma jovem mulhercasada ficou, por algum tempo, muito preocupada com o futuro de suairm mais moa. Como resultado disso, sua menstruao,normalmente regular, passou a durar duas semanas. Ela ficou com ohipogstrico esquerdo sensvel e por duas vezes se descobriu deitadano cho, rgida, voltando a si de um desmaio. Seguiu-se umanevralgia ovariana do lado esquerdo, com sinais de peritonite aguda. Aausncia de febre e uma contratura da perna esquerda (e das costas)indicaram que a molstia era uma pseudo-peritonite; e quando algunsanos depois a paciente faleceu, e se procedeu autpsia, tudo o quese encontrou foi uma degenerao microcstica de ambos os ovrios,sem quaisquer vestgios de uma antiga peritonite. Os sintomas agudosforam desaparecendo aos poucos e deixaram atrs de si uma nevralgiaovariana, uma contratura dos msculos das costas, de modo que seutronco ficara rijo como uma tbua, e uma contratura da pernaesquerda. Esta ltima foi eliminada sob hipnose por sugesto direta. Acontratura das costas no foi afetada por isso. Entrementes, asdificuldades da irm mais moa tinham sido inteiramente dissipadas etodos os seus temores baseados nelas desapareceram. Mas osfenmenos histricos, que s poderiam ter-se originado delas,permaneceram inalterados. Era tentador presumir que aquilo com quenos defrontvamos eram modificaes da inervao, que teriamassumido um status independente e no mais estariam vinculadas representao que as havia causado. Mas depois de a paciente tersido obrigada a narrar, sob hipnose, toda a histria at a poca em que 201. adoecera de peritonite o que fez muito a contragosto ela logosentou-se aprumada na cama, sem ajuda, e as contraturas das costasdesapareceram para sempre. (A nevralgia ovariana, que sem dvidaera de origem muito antiga, permaneceu inalterada.) Assim, vemos quesua representao patognica angustiada continuara a agir ativamentepor meses a fio e fora totalmente inacessvel a qualquer correo pelosacontecimentos reais.Se formos obrigados a reconhecer a existncia de complexosrepresentativos que jamais penetram na conscincia e no soinfluenciados pelo pensamento consciente, teremos admitido que,mesmo em casos to simples de histeria como o que acabo dedescrever, h uma diviso da mente em duas partes relativamenteindependentes. No afirmo que tudo o que denominamos de histricoapresente tal diviso como sua base e condio necessria; mas defato assevero que a diviso da atividade psquica que to marcantenos casos famosos sob a forma de double conscience encontra-sepresente, em grau rudimentar, em toda grande histeria, e que adisposio e tendncia a essa dissociao constitui o fenmeno bsicodessa neurose.Mas antes de examinarmos este assunto, devo acrescentar umcomentrio quanto s representaes inconscientes que produzemefeitos somticos. Muitos fenmenos histricos duram continuamentepor muito tempo, como a contratura no caso antes descrito. Ser quedevemos e podemos supor que, por todo esse tempo, a representaocausativa est perpetuamente em ao e se acha presente naatualidade? Penso que sim. verdade que nas pessoas sadias vemosa atividade psquica processar-se concomitantemente a uma rpidamudana de idias. Mas encontramos portadores de melancolia graveimersos, por longos perodos, numa mesma representao aflitiva, queest perpetuamente ativa e presente. Na verdade, podemos muito bemacreditar que mesmo quando uma pessoa sadia tem uma grandepreocupao em sua mente, esta se faz presente o tempo todo, umavez que tal preocupao domina a expresso facial mesmo quando aconscincia est repleta de outros pensamentos. Mas a parcela daatividade psquica que isolada nas pessoas histricas, e na qualcostumamos pensar como estando repleta de representaesinconscientes, encerra, em geral, uma dose to pequena destas e to inacessvel ao intercmbio com as impresses externas que fcilacreditar que uma representao nica possa estar permanentementeativa na mente.Se nos parece, como ocorre com Binet e Janet, que o que se acha nocentro da histeria uma expulso de parte da atividade psquica, 202. temos o dever de ser to claros quanto possvel sobre este assunto. fcil demais cairmos num hbito de pensamento que pressupunha quetodo substantivo tem por detrs uma substncia um hbito quepouco a pouco passa a considerar a conscincia como representandouma coisa real; e quando nosacostumamos a fazer uso das relaesespaciais metaforicamente como no termo subconsciente,verificamos, medida que o tempo passa, que na verdade formamosuma representao que perdeu sua natureza metafrica e quepodemos com facilidade manipular como se fosse real. Nossamitologia torna-se ento completa.Todo o nosso pensamento tende a se fazer acompanhar e ajudar porrepresentaes espaciais, e nos expressamos atravs de metforasespaciais. Assim, quando falamos de representaes que seencontram na regio da conscincia lcida e de representaesinconscientes que jamais penetram na plena luz da conscincia de simesmo, quase inevitavelmente formamos quadros de uma rvore como tronco luz do dia e as razes na escurido, ou de um edifcio comseus escuros pores subterrneos. Se, contudo, tivermos sempre emmente que todas essas relaes espaciais so metafricas, e no nosdeixarmos iludir pela suposio de que essas relaes se achamliteralmente presentes no crebro, poderemos, no obstante, falarnuma conscincia e num subconsciente. Mas s nessa condio.Estaremos livres do perigo de nos deixarmos enganar por nossasprprias figuras de linguagem se sempre nos lembrarmos de que,afinal de contas, no mesmo crebro, e muito provavelmente nomesmo crtex cerebral, que as representaes conscientes einconscientes tm sua origem. Como isso possvel no sabemosdizer. Por outro lado, sabemos to pouco sobre a atividade psquica docrtex cerebral que mais uma complicao enigmtica quase nochega a aumentar nossa ignorncia sem limites. Devemos aceitarcomo um fato que, nos pacientes histricos, parte de sua atividadepsquica inacessvel percepo pela autoconscincia do indivduodesperto e que a mente deles assim dividida.Um exemplo universalmente conhecido de uma diviso de atividadepsquica como essa pode ser visto nos ataques histricos, em algumasde suas formas e fases. No incio deles, o pensamento conscientemuitas vezes se extingue, mas depois gradualmente desperta. Muitospacientes inteligentes admitem que seu eu consciente estava bemlcido durante o ataque e contemplava com curiosidade e surpresatodas as coisas loucas que eles faziam e diziam. Esses pacientes tm,alm disso, a crena (errnea) de que, com um pouco de boa vontade,poderiam ter inibido o ataque, e mostram-se inclinados a culpar-se porisso. No precisavam ter-se comportado assim. (Suas autocensuras 203. por se sentirem culpados de simulao tambm se baseiam, emgrande medida, nesse sentimento.) Mas quando sobrevm outroataque, o eu consciente to incapaz de control-lo como nosanteriores. Temos aqui uma situao na qual o pensamento e arepresentao do eu consciente edesperto encontram-se lado a ladocom representaes que normalmente residem nas trevas doinconsciente, mas que agora adquiriram controle sobre o aparelhomuscular e sobre a fala e, na realidade, at mesmo sobre grande parteda prpria atividade representativa: a diviso da mente manifesta.Talvez se possa observar que as descobertas de Binet e Janetmerecem ser descritas como uma diviso no s da atividade psquica,mas da conscincia. Como sabemos, esses observadoresconseguiram entrar em contato com o subconsciente de seuspacientes, com a parcela da atividade psquica da qual o eu conscientee desperto nada sabe, e puderam, em alguns de seus casos,demonstrar a presena de todas as funes psquicas, inclusive aautoconscincia, nessa parte da mente, uma vez que ela tem acesso lembrana de fatos psquicos anteriores. Essa metade da mente ,portanto, bastante completa e consciente em si mesma. Em nossoscasos, a parte dividida da mente lanada nas trevas, como os Titsaprisionados na cratera do Etna, que podem abalar a terra, maisjamais emergirem luz do dia. Nos casos de Janet, a diviso dodomnio da mente foi total. No obstante, existe ainda umadesigualdade de status. Mas tambm esta desaparece quando as duasmetades da conscincia se alternam, como fazem nos clebres casosde double conscience, e quando no diferem em sua capacidadefuncional.Mas voltemos s representaes que indicamos em nossos pacientescomo as causas de seus fenmenos histricos. Est longe de serpossvel para ns descrever todas elas com sendo inconscientes einadmissveis conscincia. Elas formam uma escala quaseininterrupta, passando por todas as gradaes da indefinio eobscuridade, entre as representaes perfeitamente conscientes queliberam um reflexo inusitado e aquelas que jamais entram naconscincia na vida de viglia, a no ser na hipnose. Apesar disso,consideramos estabelecido que uma diviso da atividade psquicaocorre nos graus mais graves da histeria e que s ela parece tornarpossvel uma teoria psquica da doena.Que, ento, pode ser asseverado ou suspeitado com probabilidadesobre as causas e a origem desse fenmeno?Janet, a quem a teoria da histeria tanto deve e com quem estamos emconcordncia na maioria dos aspectos, externou uma opinio sobreesse ponto que no podemos aceitar. 204. O conceito de Janet o seguinte. Considera ele que a diviso deumapersonalidade repousa numa insuficincia psicolgica inata(insuffisance psychologique). Toda atividade mental normalpressupe certa capacidade de sntese, a capacidade de unir vriasrepresentaes num complexo. A combinao das vrias percepessensoriais num quadro do ambiente j uma atividade sinttica dessanatureza. Verifica-se que essa funo mental est muito abaixo donormal nos pacientes histricos. Quando a ateno de uma pessoanormal dirigida to plenamente quanto possvel para algum ponto,por exemplo, para uma percepo por um nico sentido, verdade queela perde temporariamente a capacidade de aperceber impressesprovenientes dos outros sentidos ou seja, de absorv-las em seupensamento consciente. Mas nos indivduos histricos isso acontecesem qualquer concentrao especial da ateno. Logo que percebemqualquer coisa, eles se tornam inacessveis a outras percepessensoriais. De fato, sequer esto em condies de receber emconjunto diversas impresses decorrentes de um nico sentido.Podem, por exemplo, aperceber-se apenas de sensaes tteis em umlado do corpo; as que so oriundas do outro lado alcanam o centro eso utilizadas para a coordenao do movimento, mas no soapercebidas. Uma pessoa assim hemianestsica. Nas pessoasnormais, uma representao atrai para a conscincia um grandenmero de outras, por associao; estas podem relacionar-se com aprimeira, por exemplo, de maneira confirmatria ou inibitria, e apenasas representaes mais ntidas tm tamanho poder que suasassociaes permanecem abaixo do limiar da conscincia. Naspessoas histricas isso sempre acontece. Cada representaoapodera-se de toda a sua limitada atividade mental, e isso explica suaafetividade excessiva. Essa caracterstica da mente delas descritapor Janet como a restrio do campo da conscincia, nos pacienteshistricos, por analogia com a restrio do campo da viso. Em suamaior parte, as impresses sensoriais que no so apercebidas e asrepresentaes que so despertadas, mas no entram na conscincia,cessam sem produzir outras conseqncias. Contudo, elas s vezesse acumulam e formam complexos camadas mentais retiradas daconscincia; formam uma subconscincia.A histeria, que se baseia essencialmente nessa diviso da mente, umamaladie par faiblesse |doena causada pela fraqueza|, e eis porque se desenvolve mais depressa quando uma mente fraca pornatureza submetida a influncias que a enfraquecem ainda mais, ouse defronta com exigncias fortes em relao s quais sua debilidadese destaca ainda mais.As opinies de Janet, resumidas dessa forma, do de antemo sua 205. resposta importante questo sobre a predisposio para a histeria sobre a natureza do typus hystericus (tomando a expresso no sentidopelo qual nos referimos a um typus phthisicus, pelo quecompreendemos o trax estreito e longo, o corao pequeno, etc.).Janet considera que a predisposio histeria uma forma particularde debilidade mental congnita. Em resposta, gostaramos de formularem breves linhas nosso conceito, como se segue. No uma questode a diviso da conscincia ocorrer porque os pacientes tm a mentefraca; eles parecem ter a mente fraca porque sua atividade mental estdividida e apenas parte de sua capacidade se acha disposio doseu pensamento consciente. No podemos considerar a fraquezamental como o typus hystericus, como a essncia da predisposio histeria.Um exemplo esclarece o que se pretende dizer com a primeira dessasduas frases. Pudemos observar muitas vezes a seguinte evoluo dosacontecimentos com uma de nossas pacientes (Sra. Caecilie M.).Quando ela se sentia relativamente bem, surgia um sintoma histrico uma alucinao torturante e obsessiva, uma nevralgia ou coisasemelhante que, durante algum tempo, aumentava de intensidade.Simultaneamente, a capacidade mental da paciente decrescia deforma contnua e, aps alguns dias, qualquer observador no-iniciadoseria levado a dizer que a mente dela era fraca. Em seguida, ela eraaliviada da representao inconsciente (a lembrana de um traumapsquico, muitas vezes pertencente ao passado remoto), quer pelomdico, sob hipnose, quer pelo fato de ela descrever de sbito oevento, num estado de agitao e com o acompanhamento de ativaemoo. Depois que isso acontecia, ela no s ficava tranqila, alegree livre do sintoma torturante, como era sempre espantoso observar aamplitude e a lucidez de seu intelecto, bem como a agudeza de suacompreenso e julgamento. O xadrez, que ela jogava muito bem, erauma de suas ocupaes favoritas, e ela gostava de jogar duas partidasde cada vez, o que se poderia dificilmente considerar indicativo de faltade sntese mental. Era impossvel fugir impresso de que, duranteuma evoluo de acontecimentos como o que acabamos de descrever,a representao inconsciente atraa para si prpria uma parcelasempre crescente da atividade psquica da paciente e que, quantomais isso acontecia, menor se tornava o papel desempenhado pelopensamento consciente, at ficar reduzido imbecilidade total; masque, para empregarmos a expressovienense notavelmente adequada,quando ela estava beisammen |literalmente, reunida, significandoeu seu juzo perfeito|, possua poderes mentais bem marcantes.Como um estado comparvel nas pessoas normais poderamosmencionar no a concentrao da ateno, mas a preocupao. 206. Quando algum est preocupado com alguma ntida representao,como um aborrecimento, sua capacidade mental fica similarmentereduzida.Todo observador basicamente influenciado por seus objetos deobservao, e estamos inclinados a crer que os conceitos de Janetformaram-se principalmente na evoluo de um estudo detalhado dospacientes histricos oligofrnicos que costumam ser encontrados noshospitais e instituies, por no terem conseguido levar sua prpriavida em virtude de sua doena e da fraqueza mental por elaprovocada. Nossas prprias observaes, levadas a efeito empacientes histricos instrudos, foraram-nos a adotar uma visoessencialmente diferente de suas mentes. Em nossa opinio, entre oshistricos podem-se encontrar pessoas da mais lcida inteligncia, damaior fora de vontade, do melhor carter e da mais elevadacapacidade crtica | ver em [1]|. Nenhuma parcela de uma dotaomental slida e autntica excluda pela histeria, embora asrealizaes efetivas com freqncia se tornem impossveis por causada doena. Afinal, a padroeira da histeria, Santa Teresa, era umamulher de gnio com grande capacidade prtica.Mas por outro lado, nenhum grau de sandice, incompetncia efraqueza de vontade constitui proteo contra a histeria. Mesmo quedesprezemos o que meramente um resultado da doena, devemosreconhecer o tipo de histrico oligofrnico como um tipo comum.Mesmo assim, entretanto, o que encontramos a no a estupidezembotada e fleumtica, mas um grau excessivo de mobilidade mentalque leva ineficincia. Examinarei posteriormente a questo dapredisposio inata. Aqui, proponho apenas demonstrar que a opiniode Janet de que a fraqueza mental est de algum modo na raiz dahisteria e de que a diviso da mente insustentvel.Em total oposio aos conceitos de Janet, creio que, num grandenmero de casos, o que est subjacente dissociao um excessode eficincia, a coexistncia habitual de duas seqncias derepresentaes heterogneas. Tem-se ressaltado com freqncia que,muitas vezes, no estamos apenas mecanicamente ativos enquantonosso pensamento consciente se acha ocupado com cadeias derepresentaes que nada tm em comum com nossa atividade, masque somos tambm capazes do que , sem dvida, umfuncionamentopsquico, enquanto nossos pensamentos esto ocupados em outrolugar como, por exemplo, quando lemos em voz alta corretamente ecom entonao adequada, mas depois no temos a menor idia doque estivemos lendo.H sem dvida inmeras atividades, desde as mecnicas, comotricotar ou tocar escalas, at algumas que exigem no mnimo um 207. pequeno grau de funcionamento mental, que so todas realizadas pormuitas pessoas com apenas parte da mente concentrada nelas. Issose aplica especialmente s pessoas dotadas de disposio muito ativa,para as quais uma ocupao montona, simples e desinteressanteconstitui uma tortura, e que na realidade comeam deliberadamente ase divertir pensando em algo diferente (cf. o teatro particular de AnnaO. | ver em [1]|. Outra situao semelhante, ocorre quando um grupointeressante de representaes, oriundo por exemplo de livros oupeas, impe-se ateno do sujeito e se intromete em seuspensamentos. Essa intromisso ainda mais vigorosa quando o grupoestranho de representaes tem uma intensa tonalidade afetiva (porexemplo, a aflio ou a saudade da pessoa amada). Temos ento oestado de preocupao a que aludi acima, o qual, no obstante, noimpede muitas pessoas de executarem aes bastante complicadas.As situaes sociais muitas vezes exigem uma duplicao dessaespcie, mesmo quando os pensamentos em jogo so de naturezadominadora como, por exemplo, quando uma mulher que lutandocom uma extrema preocupao ou uma excitao inflamadadesempenha seus deveres sociais e as funes de afvel anfitri.Todos ns conseguimos apenas realizaes desse tipo no decurso denosso trabalho, e a auto-observao parece sempre demonstrar que ogrupo de representaes afetivas no meramente despertado dequando em vez pela associao, mas est presente todo o tempo namente e penetra na conscincia, a menos que esta esteja tomada poralguma impresso externa ou ato de vontade.Mesmo nas pessoas que tm o costume de no permitirem que suamente seja perpassada por devaneios paralelos a sua atividadehabitual, certas situaes do margem, durante considerveis perodosde tempo, a essa existncia simultnea de impresses e reaesmutveis da vida externa, por um lado, e de um grupo derepresentaes coloridas de afeto, por outro. Post equitem sedet atracura |atrs do cavaleiro senta-se a negra preocupao|. Entre essassituaes, as mais marcantes so a de cuidar de algum que nos caro e a de estar apaixonado. A experincia mostra que o cuidar dedoentese os afetos sexuais tambm desempenham o papel principalna maioria dos casos de pacientes histricos analisados maisdetidamente.Suspeito que a duplicao do funcionamento psquico, quer sejahabitual, quer provocada por situaes emocionais da vida, atue comouma predisposio aprecivel para uma diviso patolgica autntica damente. Essa duplicao passa para o segundo estado quando ocontedo dos dois grupos de representaes coexistentes deixa de serda mesma espcie, quando um deles encerra representaes que so 208. inadmissveis conscincia ou seja, que foram repelidas ousurgiram de estados hipnides. Quando isto ocorre, impossvel paraas duas correntes temporariamente divididas voltarem a se reunir,como acontece com freqncia nas pessoas sadias, e uma regio daatividade psquica inconsciente dividida de forma permanente. Essaciso histrica da mente est para o duplo eu assim como o estadohipnide est para um devaneio normal. Neste segundo contraste, oque determina a qualidade patolgica a amnsia, e no primeiro, oque a determina a inadmissibilidade das representaes conscincia.Nosso primeiro caso clnico, o de Anna O., a que sou obrigado a estarsempre recorrendo, proporciona uma compreenso ntida do queacontece. Essa moa tinha o hbito, enquanto gozava de perfeitasade, de permitir que seqncias de representaes imaginativas lhepassassem pela mente durante suas ocupaes corriqueiras.Enquanto se encontrava numa situao que favorecia a auto-hipnose,o afeto de angstia penetrou em seu devaneio e criou um estadohipnide em relao ao qual ela teve amnsia. Isso se repetiu emdiversas ocasies e seu contedo representativo foi-se tornando cadavez mais rico, mas continuou a se alternar com estados depensamento de viglia inteiramente normais. Aps quatro meses, oestado hipnide assumiu pleno controle da paciente. Os ataquesisolados esbarraram uns nos outros e assim surgiu um tat de mal,uma histeria aguda do tipo mais grave. Este durou vrios meses sobdiversas formas (o perodo de sonambulismo); foi ento interrompido fora | ver em [1]| e, a partir da, voltou a se alternar com ocomportamento psquico normal. Mesmo durante seu comportamentonormal, porm, havia uma persistncia de fenmenos somticos epsquicos (contraturas, hemianestesia e alteraes da fala) a respeitodos quais, neste caso, sabemos com certeza que se baseavam emrepresentaes pertinentes ao estado hipnide. Isso prova que,mesmo durante seu comportamento normal, o complexo representativopertencente ao estado hipnide, a subconscincia, estava atuante, eque a diviso em sua mente persistia.No disponho de um segundo exemplo a oferecer de um cursoevolutivo semelhante. Penso, contudo, que o caso lana alguma luztambm sobre odesenvolvimento das neuroses traumticas. Duranteos primeiros dias aps o fato traumtico, o estado de pavor hipniderepete-se a cada vez que o fato relembrado. Enquanto esse estadose repete com freqncia cada vez maior, sua intensidade vaidiminuindo tanto que ele no mais se alterna com o pensamento deviglia, mas apenas coexiste com ele. Torna-se ento contnuo, e ossintomas somticos, que antes s se faziam presentes durante o 209. ataque de pavor, adquirem existncia permanente. Todavia, possoapenas suspeitar de que seja isso o que acontece, j que nuncaanalisei um caso dessa natureza.As observaes e as anlises de Freud revelam que a diviso damente tambm pode ser causada pela defesa, pelo desvio deliberadoda conscincia das representaes aflitivas: mas s em algumaspessoas, s quais, portanto, devemos atribuir uma idiossincrasiamental. Nas pessoas normais, tais representaes ou so suprimidascom xito, e nesse caso desaparecem por completo, ou no o so, enesse caso continuam a surgir na conscincia. No sei dizer qual anatureza dessa idiossincrasia. Arrisco-me apenas a sugerir que oauxlio do estado hipnide necessrio para que a defesa resulte nomeramente na transformao de representaes convertidas isoladasem representaes inconscientes, mas numa autntica diviso damente. A auto-hipnose, por assim dizer, ter criado o espao ou regioda atividade psquica inconsciente para o qual so dirigidas asrepresentaes rechaadas. Seja como for, porm, a realidade dasignificncia patognica da defesa um fato que devemosreconhecer.No penso, entretanto, que a gnese da diviso da mente sequer sejaabarcada pelos processos incompletamente compreendidos que vimosdiscutindo. Assim, em suas fases iniciais, as histerias de grau severocostumam exibir por algum tempo uma sndrome que pode ser descritacomo de histeria aguda. (Na anamnese dos casos masculinos dehisteria em geral nos defrontamos com uma representao dessaforma de doena como encefalite; nos casos femininos, a nevralgiaovariana leva a um diagnstico de peritonite.) Nesse estgio agudoda histeria, os traos psicticos so muito distintos, tais como estadosde excitao manacos e colricos, fenmenos histricos que setransformam rapidamente, alucinaes e assim por diante. Em taisestados, a diviso da mente talvez ocorra de maneira diferente da quetentamos descrever acima. Talvez todo esse estgio deva serencarado como um longo estado hipnide cujos resduos fornecem oncleo do complexo representativo inconsciente, enquanto opensamento de viglia amnsico quanto a ele. Visto que na maioriadas vezes ignoramos as causas que levam a uma histeria aguda dessanatureza (no me arrisco a considerar o curso dos acontecimentosobservados em Anna O. como tendo aplicao geral), parece haveroutra espcie de diviso psquica que, em contraste com asexaminadas acima, poderia ser denominada de irracional. E semdvida ainda existem outras formas desse processo, que ainda seacham ocultas de nossa jovem cincia psicolgica, pois certo quedemos apenas os primeiros passos nesse setor do conhecimento e 210. nossos conceitos atuais sero substancialmente alterados por outrasobservaes.Perguntemo-nos agora qual o resultado que o conhecimento da divisoda mente alcanado nos ltimos anos trouxe para a compreenso dahisteria. Parece ter sido grande em quantidade e importncia.Tais descobertas possibilitaram, em primeiro lugar, que o que pareceserem sintomas puramente somticos fosse relacionado comrepresentaes, as quais, contudo, no podem ser descobertas naconscincia dos pacientes. ( desnecessrio abordar isso novamente.)Em segundo lugar, ensinaram-nos a compreender os ataqueshistricos, pelo menos em parte, como sendo produtos de umcomplexo representativo inconsciente. (Cf. Charcot.) Mas, alm disso,explicaram tambm algumas das caractersticas psquicas da histeria,e este ponto talvez merea um exame mais pormenorizado. verdade que as representaes inconscientes jamais, ou sraramente e com dificuldade, penetram no pensamento de viglia; maselas o influenciam. Fazem-no, em primeiro lugar, atravs de suasconseqncias quando, por exemplo, um paciente atormentadopor uma alucinao que totalmente ininteligvel e absurda, mas cujosignificado e motivao tornam-se claros sob hipnose. Alm disso,influenciam a associao, tornando certas representaes mais ntidasdo que teriam sido caso no fossem assim reforadas a partir doinconsciente. Dessa maneira, alguns grupos especficos derepresentaes impem-se constantemente ao paciente com certograu de compulso e ele obrigado a pensar neles. (O caso semelhante aos dos pacientes semi-anestsicos de Janet. Quando suamo anestsica repetidamente tocada, eles no sentem nada, masquando lhes mandam indicar um nmero qualquer a seu gosto, elessempre escolhem o que corresponde ao nmero de vezes que foramtocados.) Por outro lado, as representaes inconscientes regem otnus emocional do paciente, seu estado de esprito. Quando, no cursodo desenrolar de suas lembranas, Anna O. abordava umfato que emsua origem estivera ligado a um afeto ntido o sentimentocorrespondente surgia com vrios dias de antecedncia e antes que alembrana aparecesse claramente, mesmo em sua conscinciahipntica.Isso torna inteligveis os estados de nimo dos pacientes suasalteraes inexplicveis e desarrazoadas de humor, que parecem aopensamento de viglia ocorrer sem motivo. Com efeito, aimpressionabilidade dos pacientes histricos determinada, emgrande parte, simplesmente por sua excitabilidade inata; mas os afetosntidos em que eles so lanados por causas relativamente triviaisficam mais inteligveis ao considerarmos que a parte dividida da 211. mente reage como uma caixa de ressonncia nota de um diapaso.Qualquer acontecimento que provoque lembranas inconscientes liberatoda a fora afetiva dessas representaes que no sofreramdesgaste, e o afeto evocado fica ento inteiramente desproporcional aqualquer um que surgisse apenas na mente consciente.Referi-me antes (ver em [1]) a uma paciente cujo funcionamentopsquico estava sempre na razo inversa da nitidez de suasrepresentaes inconscientes. A diminuio de seu pensamentoconsciente baseava-se, em parte, mas apenas em parte, numa espciepeculiar de abstrao. Aps cada uma de suas absencesmomentneas e estas sempre ocorriam ela no sabia em quehavia pensado no curso dela. Oscilava entre suas conditions primes esecondes, entre os complexos representativos conscientes einconscientes. Mas no era apenas por isso que seu funcionamentopsquico se via reduzido, nem por causa do afeto que a dominava apartir do inconsciente. Enquanto se encontrava nesse estado, seupensamento de viglia ficava sem energia, seu julgamento era infantil eela parecia, como j tive ocasio de dizer, positivamente imbecil. Creioque isso se devia ao fato de que o pensamento de viglia dispe demenos energia quando uma grande quantidade de excitao psquica apropriada pelo inconsciente.Quando este estado de coisas no apenas temporrio, quando aparte dividida da mente est num constante estado de excitao, comoocorria com os pacientes hemianestsicos de Janet nos quais, almdisso, todas as sensaes em nada menos da metade do corpo seram percebidas pela mente inconsciente quando este o caso,resta to pouco funcionamento cerebral para o pensamento de vigliaque a debilidade mental que Janet descreve e considera inata ficaplenamente explicada. So pouqussimas as pessoas de quem sepode dizer, como do Bertrand de Born, de Uhland, que nunca precisamde mais da metade de sua mente.1 Tal reduo da energia psquicarealmente transforma a maioria das pessoas em dbeis mentais.Essa debilidade mental, causada por uma diviso da psique,tambmparece ser a base de uma notvel caracterstica de algunspacientes histricos sua sugestionabilidade. (Digo alguns por sercerto que entre os pacientes histricos tambm se encontram pessoasdo julgamento mais sensato e mais crtico.)Por sugestionabilidade entendemos, em primeiro lugar, apenas umaincapacidade de criticar as representaes e complexos derepresentaes (julgamentos) que emergem na prpria conscincia dosujeito, ou so nela introduzidos de fora atravs da palavra falada ouda leitura. Qualquer crtica dessas representaes recm-chegadas naconscincia baseia-se no fato de elas despertarem outras 212. representaes por associao, e entre estas algumas que soirreconciliveis com as novas. A resistncia a estas ltimas fica assimna dependncia do acervo de representaes antagnicas naconscincia potencial, e a intensidade da resistncia corresponde proporo entre a nitidez das novas representaes e a dasdespertadas na memria. Mesmo nos intelectos normais essaproporo muito variada. O que descrevemos como umtemperamento intelectual depende dela em larga medida. Um homemsangneo sempre se delicia com novas pessoas e coisas, e issosem dvida ocorre porque a intensidade de suas imagens mnmicas menor em comparao com a das novas impresses num homem maistranqilo e fleumtico. Nos estados patolgicos a preponderncia denovas representaes e a falta de resistncia a elas aumentam emproporo escassez das imagens mnmicas despertadas isto ,proporcionalmente pobreza e debilidade de seus poderesassociativos. Isso j o que acontece no sono e nos sonhos, nahipnose e sempre que h uma reduo da energia mental, desde queesta no reduza tambm a nitidez das novas representaes.A parte inconsciente expelida pela mente na histeria sobretudosugestionvel, em virtude da pobreza e incompletude de seu contedorepresentativo. Mas em alguns pacientes histricos tambm asugestionabilidade da mente consciente parece basear-se nisso. Elesso excitveis por causa de sua predisposio inata; neles, asrepresentaes novas so muito ntidas. Em contraste com isso, suaatividade intelectual propriamente dita, sua funo associativa, reduzida, porque apenas parte de sua energia psquica se acha disposio de seu pensamento de viglia, em virtude da ciso de uminconsciente. Como resultado disso, seu poder de resistncia tanto sauto-sugestes como s alo-sugestes se v reduzido e por vezesabolido. A sugestionabilidade de sua vontade tambm parece dever-seapenas a isso. Por outro lado, a sugestionabilidade alucinatria, quetransforma prontamentequalquer representao de uma perceposensorial numa percepo real, exige, como todas as alucinaes, umgrau anormal de excitabilidade do rgo perceptivo e no pode seratribuda apenas a uma diviso da mente. 213. (6) PREDISPOSIO INATA DESENVOLVIMENTO DA HISTERIAEm quase todas as etapas destas consideraes fui obrigado areconhecer que a maioria dos fenmenos que nos vimos esforandopor compreender pode basear-se, entre outras coisas, numaidiossincrasia inata. Isso desafia qualquer explicao que procure iralm de uma simples enunciao dos fatos. Mas a capacidade deadquirir a histeria tambm se acha indubitavelmente ligada a umaidiossincrasia da pessoa em questo, e a tentativa de defini-la commaior exatido talvez no seja inteiramente infrutfera.Expliquei acima por que no posso aceitar a opinio de Janet de que apredisposio para a histeria se baseia numa fraqueza psquica inata.O clnico que, na qualidade de mdico da famlia, observa os membrosde famlias histricas em todas as idades, por certo ficar inclinado aachar que essa predisposio reside antes num excesso do que numafalta. Os adolescentes que depois se tornaro histricos so, em suamaioria, bem vivazes, dotados e repletos de interesses intelectuaisantes de adoecerem. Muitas vezes, sua fora de vontade notvel.Incluem-se entre eles moas que levantam da cama noite, emsegredo, para fazer algum estudo que seus pais lhes probem temendoque se esforcem demais. A capacidade de formar opinies slidas porcerto no maior neles do que nas outras pessoas; mas raroencontrar neles simples inrcia intelectual e estupidez. A produtividadeexuberante de suas mentes levou um de meus amigos a afirmar que oshistricos so a flor da humanidade to estreis, sem dvida, masto belos quanto as flores.Sua vivacidade e inquietude, sua nsia de sensaes e atividademental, sua intolerncia monotonia e ao tdio podem ser assimformuladas: eles se situam entre aquelas pessoas cujo sistemanervoso, enquanto em repouso, libera um excesso de excitao queexige ser utilizado (ver em [1]). Durante o desenvolvimento napuberdade e em conseqncia dele, esse excesso original complementado pelo poderoso aumento da excitao que decorre dodespertar da sexualidade, das glndulas sexuais. A partir da h umaquantidade excedente de energia nervosa livre disponvel para aproduo de fenmenos patolgicos.Mas, para que esses fenmenos surjam sob a forma de sintomashistricos, evidentemente precisa haver tambm uma outraidiossincrasia especficano indivduo em questo, pois, afinal, a grandemaioria das pessoas ativas e excitveis no se torna histrica. Umpouco mais atrs | ver em [1]|, s pude definir essa idiossincrasia comuma expresso vaga e no esclarecedora: excitabilidade anormal dosistema nervoso. Mas talvez seja possvel ir mais alm e dizer que 214. essa anormalidade reside no fato de que em tais pessoas a excitaodo rgo central pode fluir para os aparelhos nervosos sensoriais quenormalmente s so acessveis aos estmulos perifricos, bem comopara os aparelhos nervosos dos rgos vegetativos, que so isoladosdo sistema nervoso central por poderosas resistncias. possvel queessa idia de haver um excedente de excitao constantementepresente, com acesso aos aparelhos sensorial, vasomotor e visceral, jexplique certos fenmenos patolgicos.Nas pessoas desse tipo, to logo sua ateno se concentraforosamente em alguma parte do corpo, aquilo a que Exner |1894,165 e segs.| chama de facilitao pela ateno na via sensorial deconduo em questo excede a quantidade normal. A excitao livre eflutuante , por assim dizer, desviada para essa via, produzindo-seuma hiperalgesia local. Como resultado, qualquer dor, como quer queseja causada, alcana intensidade mxima, e qualquer mal-estar horrvel e insuportvel. Alm disso, enquanto nas pessoas normaisuma quantidade de excitao, depois de catexizar uma via sensitiva,sempre a abandona, isto no ocorre nestes casos. Aquela quantidade,ademais, no s permanece ali como constantemente aumentadapelo influxo de novas excitaes. Um leve dano a uma articulao levaassim artralgia, e as sensaes dolorosas devidas aointumescimento ovariano conduzem nevralgia ovariana crnica; evisto que os aparelhos nervosos da circulao so mais acessveis influncia cerebral do que nas pessoas normais, deparamos compalpitaes nervosas do corao, tendncia a desmaios, propenso aoenrubescimento e empalidecimento excessivos, e assim por diante.Todavia, no apenas quando s influncias centrais que osaparelhos nervosos perifricos so mais facilmente excitveis. Elestambm reagem de maneira excessiva e imprpria a estmulosfuncionais adequados. Surgem palpitaes tanto a partir de esforosmoderados quanto da excitao emocional, e os nervos vasomotoresfazem com que as artrias se contraiam (dedos mortos)independentemente de qualquer influncia psquica. E, da mesmaforma que um ligeiro dano deixa uma artralgia atrs de si, um curtoacesso de bronquite seguido de asma nervosa, e a indigesto, defreqentes dores cardacas. Por conseguinte, devemos admitir que aacessibilidade a somas de excitao de origem central nada mais doque um caso especial de uma excitabilidade anormal genrica, muitoembora ela seja a mais importante do ponto de vista de nosso tpicoatual.Parece-me, portanto, que a antiga teoria reflexa desses sintomas,que talvez fossem mais bem definidos simplesmente como nervosos, 215. mas que fazem parte do quadro clnico emprico da histeria, no deveser inteiramente rejeitada. Os vmitos, que naturalmente acompanhama dilatao do tero na gravidez, podem muito bem, quando existe umaexcitabilidade anormal, ser desencadeados de maneira reflexa porestmulos uterinos banais, ou talvez at mesmo pelas alteraesperidicas do tamanho dos ovrios. Estamos familiarizados com tantosefeitos remotos decorrentes de alteraes orgnicas, tantos casosestranhos de dor transferida, que no podemos rejeitar apossibilidade de que um imenso grupo de sintomas nervosos por vezesdeterminados psiquicamente possam, em outros casos, ser efeitosdistantes da ao reflexa. De fato, arrisco-me a formular a heresiabastante conservadora de que at mesmo a debilidade motora numaperna pode, algumas vezes, ser determinada por uma afeco genital,no psiquicamente, mas por ao reflexa direta. Penso que faremosbem em no insistir demais na exclusividade de nossas novasdescobertas ou procurar aplic-las a todos os casos.Outras formas de excitabilidade sensorial anormal ainda escapaminteiramente nossa compreenso: a analgesia geral, por exemplo, asreas anestsicas, a restrio real do campo da viso, e assim pordiante. possvel, e talvez provvel, que outras observaes venhamcomprovar a origem psquica de um ou outro desses estigmas e assimexpliquem o sintoma; s que isso ainda no aconteceu (pois no mearrisco a generalizar os resultados apresentados por nosso primeirorelato de caso), e no acho justificvel presumir que essa seja aorigem deles enquanto ela no tiver sido satisfatoriamente investigada.Por outro lado, a idiossincrasia do sistema nervoso e da mente quevimos examinando parece explicar uma ou duas propriedades muitofamiliares de diversos pacientes histricos. O excedente de excitaoliberado pelo sistema nervoso dessas pessoas quando em estado derepouso determina sua incapacidade de tolerarem uma vida montonae o tdio a nsia de sensaes que os impele, aps incio de suadoena, a interromper a monotonia de sua vida sem validade por todasorte de incidentes, dos quais os mais destacados so, a julgar pelanatureza das coisas, fenmenos patolgicos. Muitas vezes, essaspessoas so ajudadas nisso pela auto-sugesto. So impelidas a cadavez mais penetrar nesse caminho por sua necessidade de ficaremdoentes um trao notvel que to patognomnico para a histeriaquanto o medo de adoecer para a hipocondria. Conheo uma mulherhistrica que infligiaa si mesma danos freqentemente muito graves,apenas para seu prprio consumo e sem que aqueles que a cercavam,ou seu mdico, tomassem conhecimento disso. Que mais no fosse,ela costumava fazer toda sorte de brincadeiras enquanto estavasozinha em seu quarto, simplesmente para provar a si mesma que no 216. era normal. E o fazia, por ter, de fato, uma ntida sensao de noestar bem e de no poder desempenhar seus deveres de maneirasatisfatria, tentando justificar-se a seus prprios olhos atravs deaes como essas. Outra paciente, uma mulher muito doente quesofria de uma conscienciosidade patolgica e era cheia de dvidas arespeito de si mesma, vivenciava todos os fenmenos histricos comoalgo culposo, pois, segundo dizia, no precisava t-los se realmenteno os quisesse ter. Quando uma paresia em suas pernas foierroneamente diagnosticada como uma doena da espinha, elavivenciou isso como um imenso alvio e, quando lhe disseram que eraapenas nervosa e que passaria, isso foi o bastante para acarretargraves dores de conscincia. A necessidade de adoecer decorre dodesejo da paciente de convencer a si mesma e s outras pessoas darealidade de sua doena. Quando essa necessidade se associa ainda aflio causada pela monotonia de um quarto de enfermo, ainclinao a produzir cada vez mais sintomas novos desenvolve-se aomximo.Quando, no entanto, isso se transforma em fingimento e verdadeirasimulao (e penso que agora pecamos tanto por excesso ao negar asimulao quanto pecvamos ao aceit-la), isso se baseia, no napredisposio histrica, mas, como disse Moebius toapropriadamente, em ser ela complicada por outras formas dedegenerescncia por uma inferioridade moral inata. Da mesmaforma, o histrico rancoroso surge quando algum que inatamenteexcitvel, mas deficiente de emoo, cai tambm vtima doembrutecimento egosta do carter que to facilmente produzido pelam sade crnica. Alis, o histrico rancoroso mal chega a ser maiscomum do que o paciente rancoroso nos estgios mais avanados databes.O excedente da excitao tambm d margem a fenmenospatolgicos na esfera motora. As crianas com essa caractersticadesenvolvem com muita facilidade movimentos semelhantes a tiques.Estes podem comear, num primeiro caso, por alguma sensao nosolhos ou no rosto, ou por alguma pea desconfortvel do vesturio,mas se tornam permanentes a menos que sejam prontamentecontidos. As vias reflexas so muito fceis e rapidamente marcadas afundo.Tambm no se pode afastar a possibilidade de haver ataquesconvulsivos puramente motores, independentes de qualquer fatorpsquico, e nos quais tudo o que acontece que a massa de excitaoacumulada por soma descarregada, do mesmo modo que a massa deestmulos causada por modificaes anatmicas descarregada numataque epilptico. Nesse caso, teramos a convulso histrica 217. no-ideognica. to freqente vermos adolescentes anteriormente sadios, emboraexcitveis, adoecerem de histeria durante a puberdade, que devemosperguntar a ns mesmos se esse processo no poderia criar umapredisposio para a histeria quando ela no est inatamentepresente. E de qualquer modo, devemos atribuir a ela mais do que umasimples elevao da quantidade de excitao. O amadurecimentosexual incide sobre todo o sistema nervoso, aumentando aexcitabilidade e reduzindo as resistncias por toda parte. Isso nos ensinado pela observao de adolescentes que no so histricos, etemos assim justificativas para crer que o amadurecimento sexualtambm estabelece a predisposio histrica, na medida em queconsiste precisamente nessa caracterstica do sistema nervoso. Aoafirmarmos isso, j estamos reconhecendo a sexualidade como um dosprincipais componentes da histeria. Veremos que o papel quedesempenha nela ainda muito maior e que contribui das maisdiversas maneiras para a constituio da doena.Se os estigmas brotam diretamente desse campo de cultura inato dahisteria e no so de origem ideognica, tambm impossvel dar ideognese uma posio to central na histeria quanto s vezes se dhoje em dia. O que poderia ser mais autenticamente histrico do queos estigmas? Eles so os achados patognomnicos que estabelecem odiagnstico, e no entanto, precisamente, eles no parecem serideognicos. Mas se a base da histeria uma idiossincrasia de todo osistema nervoso, o complexo de sintomas ideognicos psiquicamentedeterminados ergue-se sobre ela tal como um prdio sobre seusalicerces. E um prdio de vrios andares. Do mesmo modo que s possvel compreender a estrutura de tal prdio se distinguirmos osplanos dos diferentes pisos, necessrio, penso eu, para entendermosa histeria, prestar ateno s vrias espcies de complicao nacausao dos sintomas. Se as desprezarmos e tentarmos levar adianteuma explicao da histeria empregando um nexo causal nico, sempreencontraremos um resduo muito grande de fenmenos quepermanecem inexplicados. como se tentssemos inserir osdiferentes cmodos de uma casa de muitos pavimentos na planta deum nico andar.Tal como os estigmas, diversos outros sintomas nervosos certasdores e fenmenos vasomotores, e talvez os ataques convulsivospuramente motores so, como vimos, no causados por idias, masresultados diretos da anormalidade fundamental do sistema nervoso.Os mais prximos deles so os fenmenos ideognicos que consistem 218. simplesmente em converses da excitao afetiva (ver em [1]). Surgemcomo conseqncias de afetos em pessoas com uma predisposiohistrica e, a princpio, so apenas uma expresso anormal dasemoes (Oppenheim |1890|). Esta se transforma, pela repetio,num sintoma histrico autntico e, na aparncia, puramente somtico,enquanto a idia que deu lugar a ele se torna imperceptvel (ver em [1])ou rechaada e, portanto, repelida da conscincia. As maisnumerosas e importantes das representaes que so rechaadas econvertidas possuem um contexto sexual. Elas se acham na base degrande parte dos casos de histeria da puberdade. As moas que seaproximam da maturidade e principalmente delas que se trata comportam-se de maneiras muito diferentes em relao srepresentaes e sentimentos sexuais que se avolumam nelas. Certasmoas defrontam-se com eles com total desembarao, havendo entreelas algumas que ignoram e fecham os olhos a todo o assunto. Outrasaceitam-nos como os meninos, sendo esta sem dvida a norma entreas moas das classes camponesa e trabalhadora. Outras ainda, comuma curiosidade mais ou menos obstinada, correm atrs de qualquercoisa sexual que possam encontrar em conversas ou livros. E,finalmente, h naturezas de organizao requintada que, embora sejagrande sua excitabilidade sexual, possuem uma pureza moraligualmente grande e sentem que qualquer coisa sexual algoincompatvel com seus padres ticos, algo de conspurcante edegradante. Elas recalcam a sexualidade afastando-a da conscincia,e as representaes afetivas de contedo sexual que provocaram osfenmenos somticos so rechaadas e assim se tornaminconscientes.A tendncia a rechaar o que sexual ainda mais intensificada pelofato de que, nas moas solteiras, a excitao sensual tem uma mesclade angstia, de medo do que est por vir, do que desconhecido eapenas suspeitado, ao passo que, nos rapazes normais e saudveis,ela uma pulso agressiva sem mesclas. A moa sente em Eros oterrvel poder que rege e decide seu destino, e se assusta com isso.Tanto maior, portanto, sua inclinao para desviar os olhos e recalcarpara fora da conscincia a coisa que a assusta.O casamento acarreta novos traumas sexuais. surpreendente que anoite de npcias no tenha efeitos patognicos com maior freqncia,visto que, infelizmente, o que ela implica , muitas vezes, no umaseduo ertica, mas uma violao. A rigor, porm, no raroencontrar em jovens casadas histerias que podem ser relacionadas aisso e que desaparecem quando, no correr do tempo, o prazer sexualemerge e apaga o trauma. Os traumas sexuais tambm ocorrem no 219. curso ulterior de muitos casamentos. Os relatos de caso de cujapublicao fomos obrigados a nos abster incluem um grande nmerodeles exigncias caprichosas feitas pelo marido, prticasantinaturais, etc. No penso estar exagerando ao afirmar que a grandemaioria das neuroses graves nas mulheres tem sua origem no leitoconjugal.Certos fatores sexuais nocivos, que consistem essencialmente emsatisfao insuficiente (coitus interruptus, ejaculatio praecox, etc.)resultam, de acordo com a descoberta de Freud (1895b), no nahisteria, mas numa neurose de angstia. Sou da opinio, entretanto, deque mesmo nesses casos a excitao do afeto sexual muitas vezes seconverte em fenmenos histricos somticos. evidente por si s, e suficientemente comprovado por nossasobservaes, que os afetos no sexuais do susto, da angstia e daraiva levam ao desenvolvimento de fenmenos histricos. Mas talvezvalha a pena insistir repetidamente em que o fator sexual de longe omais importante e o que mais produz resultados patolgicos. Asobservaes pouco sofisticadas de nossos antecessores, cujo resduo preservado no termo histeria |originado da palavra gregadesignativa de tero|, aproximaram-se mais da verdade do que aconcepo mais recente, que situa a sexualidade quase em ltimolugar, a fim de poupar os pacientes de recriminaes morais. Asnecessidades sexuais dos pacientes histricos so, sem dvida, tovariveis em grau de indivduo para indivduo quanto nas pessoassadias, e no so mais fortes do que nelas; mas os primeiros adoecempor causa delas e, na maioria das vezes, precisamente pela luta quetravam contra elas, em virtude de sua defesa contra a sexualidade.Juntamente com a histeria sexual, devemos recordar nesta altura ahisteria devida ao susto a histeria traumtica propriamente dita ,que constitui uma das formas de histeria mais conhecidas ereconhecidas.No que se pode denominar de camada idntica dos fenmenos queresultam da converso da excitao afetiva, encontram-se aqueles quedevem sua origem sugesto (na maioria das vezes, auto-sugesto)em indivduos inatamente sugestionveis. O grau elevado desugestionabilidade isto , a preponderncia irrestrita dasrepresentaes que foram despertadas recentemente no seencontra entre os traos essenciais da histeria. Contudo, pode estarpresente como uma complicao em pessoas com predisposiohistrica, nas quais essa mesma idiossincrasia do sistema nervosopossibilita a realizao somtica de representaes supervalentes.Alm disso, na maioria dos casos, so apenas representaes afetivas 220. que se realizam em fenmenos somticos por sugesto e,conseqentemente, o processo pode muitas vezes ser consideradouma converso do afeto concomitante de medo ou de angstia.Esses processos a converso do afeto e a sugesto permanecem idnticos mesmo nas formas complicadas de histeria quedevemos agora considerar. Eles simplesmente encontram condiesmais favorveis em tais casos: sempre atravs de um desses doisprocessos que surgem os fenmenos histricos psiquicamentedeterminados.O terceiro componente da predisposio histrica, que aparece emalguns casos alm dos que j foram analisados, o estado hipnide, atendncia auto-hipnose (ver em [1]). Esse estado favorece e facilitaem grau mximo tanto a converso como a sugesto, e dessa formaerige, por assim dizer, no topo das pequenas histerias, o pavimentomais alto da grande histeria. A tendncia auto-hipnose um estadoque, no comeo, apenas temporrio e se alterna com o estadonormal. Podemos atribuir-lhe o mesmo aumento de influncia mentalsobre o corpo que observamos na hipnose artificial. Essa influncia muito mais intensa e profunda aqui, na medida em que atua sobre umsistema nervoso que mesmo fora da hipnose anormalmenteexcitvel. No sabemos dizer at que ponto e em que casos atendncia auto-hipnose constitui uma propriedade inata doorganismo.Externei antes (ver em [1]-[2]) a opinio de que ela sedesenvolve a partir de devaneios carregados de afeto. Mas no hnenhuma dvida de que a predisposio inata tambm desempenhaum papel nisso. Se esse ponto de vista for correto, mais uma vez ficarclaro aqui o quanto enorme a influncia atribuvel sexualidade nodesenvolvimento da histeria, pois, salvo pelo cuidar de doentes,nenhum fator psquico to bem destinado a produzir devaneioscarregados de afeto quanto os anseios de uma pessoa apaixonada. Eacima de tudo isso, o prprio orgasmo sexual, com sua riqueza deafeto e sua restrio da conscincia, intimamente afim dos estadoshipnides.O elemento hipnide manifesta-se mais claramente nos ataqueshistricos e nos estados que podem ser classificados de histeria agudae que, segundo parece, desempenham um papel to relevante nodesenvolvimento da histeria (ver em [1]). Estes so, obviamente,estados psicticos que persis-tem por muito tempo, muitas vezesdurante vrios meses, e que com freqncia necessrio classificar deconfuso alucinatria. Mesmo quando a perturbao no vai to longeassim, surge nela uma grande variedade de fenmenos histricos,alguns dos quais, na realidade, persistem depois de ela terminar. O 221. contedo psquico desses estados consiste, em parte, precisamentenas representaes que foram rechaadas na vida de viglia erecalcadas, sendo eliminadas da conscincia. (Cf. os delrioshistricos dos santos e das freiras, das mulheres que guardam acastidade e das crianas bem-educadas | ver em [1]|.)Visto que esses estados so, com muita freqncia, nada menos doque psicoses, apesar de derivados imediata e exclusivamente dahisteria, no posso concordar com a opinio de Moebius de que, comexceo dos delrios ligados aos ataques, impossvel falar numainsanidade histrica real (1895, 18). Em muitos casos, esses estadosconstituem uma insanidade dessa natureza; e psicoses como estastambm se repetem no curso ulterior de uma histeria. verdade que,em essncia, elas nada mais so do que a fase psictica de umataque, mas, considerando-se que duram meses, seria difcildenomin-las de ataques.Como surge uma dessas histerias agudas? No caso mais conhecido(Caso 1), surgiu de uma acumulao de ataques hipnides; em outrocaso (quando j estava presente uma histeria complicada), surgiuassociada a uma suspenso da morfina. O processo, em sua maiorparte, inteiramente obscuro e aguarda elucidao a partir deobservaes adicionais.Assim sendo, podemos aplicar s histerias aqui analisadas opronunciamento de Moebius (ibid., 16): A modificao essencial queocorre na histeria que o estado mental do paciente histrico torna-setemporria ou permanentemente semelhante ao de um indivduohipnotizado.No estado normal, a persistncia dos sintomas que surgem durante oestado hipnide corresponde inteiramente a nossas experincias coma sugesto ps-hipntica. Mas isso j implica que complexos derepresentaes inadmissveis conscincia coexistem com asseqncias de representaes que seguem um curso consciente, queocorreu uma diviso da mente (ver em [1]). Parece certo que isso podeacontecer at mesmo sem um estado hipnide, a partir da profuso depensamentos que foram rechaados e recalcados da conscincia, masno suprimidos. De um modo ou de outro, passa a existir uma regioda vida mental ora precria de representaes e rudimentar, oramais ou menos em igualdade de condies com o pensamento deviglia cujo conhecimento devemos, acima de tudo, a Binet e Janet.A diviso da mente a consumao da histeria. Mostrei anteriormente(na Seo 5) de que modo ele explica as principais caractersticasdesse distrbio. Uma parte da mente do paciente fica em estadohipnide permanentemente, mas com um grau varivel de nitidez em 222. suas representaes, estando sempre preparada, todas as vezes queh um lapso no pensamento de viglia, para assumir o controle dapessoa inteira (por exemplo, num ataque ou num delrio). Isso ocorreto logo um afeto poderoso interrompe o curso normal dasrepresentaes, nos estados crepusculares e nos estados deexausto. A partir desse estado hipnide persistente, representaesno motivadas e estranhas associao normal foram sua entrada naconscincia, introduzem-se alucinaes no sistema perceptivo einervam-se atos motores independentemente da vontade consciente.Essa mente hipnide suscetvel, no mais alto grau, converso deafetos e sugesto, e assim aparecem com facilidade novosfenmenos histricos, que, sem a diviso da mente, s surgiriam comgrande dificuldade e sob a presso de afetos repetidos. A parteexpelida da mente o demnio pelo qual a observao ingnua dossupersticiosos dos tempos primitivos acreditava que esses pacientesse achavam possudos. verdade que um esprito estranho conscincia de viglia do paciente exerce domnio sobre ele, porm oesprito no de fato um estranho, mas parte dele mesmo.A tentativa aqui empreendida de fazer uma interpretao sinttica dahisteria partindo do que dela sabemos hoje est sujeita recriminaode ecletismo, se que tal recriminao justificvel. Houveinmerasformulaes da histeria, desde a antiga teoria reflexa at adissociao da personalidade, que tiveram de encontrar um lugarnela. Mas dificilmente poderia ser de outra forma, j que numerososobservadores excelentes e espritos agudos se interessaram pelahisteria. improvvel que qualquer de suas formulaes estivessedestituda de uma parcela de verdade. Uma futura exposio doverdadeiro estado de coisas por certo as abranger a todas esimplesmente combinar todas as vises unilaterais do assunto numarealidade coletiva. O ecletismo, portanto, no me parece nada de quese deva envergonhar.Mas quo longe ainda estamos hoje da possibilidade de qualquercompreenso completa da histeria! Com que traos incertos seuscontornos foram esboados nestas pginas, com que hipteses toscasas imensas lacunas foram escondidas, e no preenchidas! Apenasuma considerao at certo ponto consoladora: a de que essa falhase prende, e deve prender-se, a todas as exposies fisiolgicas deprocessos psquicos complexos. Devemos sempre dizer delas o queTeseu, no Sonho de uma Noite de Vero, diz da tragdia: As melhoresdentre estas no passam de sombras. E mesmo a mais fraca no serdestituda de valor se, honesta e modestamente, tentar apegar-se aoscontornos das sombras que os objetos reais desconhecidos lanam 223. sobre a parede, pois assim, apesar de tudo, sempre se justificar aesperana de que possa haver algum grau de correspondncia esemelhana entre os processos reais e a idia que fazemos deles. 224. IV - A PSICOTERAPIA DA HISTERIA(FREUD)Em nossa Comunicao Preliminar relatamos como, no curso denossa pesquisa sobre a etiologia dos sintomas histricos,deparamo-nos tambm com um mtodo teraputico que nos pareceude importncia prtica. Pois verificamos, a princpio para nossagrande surpresa, que cada sintoma histrico individual desaparecia, deforma imediata e permanente, quando conseguamos trazer luz comclareza a lembrana do fato que o havia provocado e despertar o afetoque o acompanhava, e quando o paciente havia descrito esseacontecimento com o maior nmero de detalhes possvel e traduzido oafeto em palavras. (ver em [1].)Esforamo-nos ainda por explicar o modo como funciona nossomtodo psicoteraputico: Ele pe termo fora atuante darepresentao que no fora ab-reagida no primeiro momento, aopermitir que seu fato estrangulado encontre uma sada atravs da fala;e submete essa representao correo associativa ao introduzi-lana conscincia normal (sob hipnose leve), ou elimin-la por sugestodo mdico, como se faz no sonambulismo acompanhado de amnsia.(ver em [1].)Tentarei agora fazer um relato coerente de at onde este mtodo nosleva, dos aspectos em que ele consegue mais do que outros mtodos,da tcnica pela qual funciona e das dificuldades com que se defronta.Grande parte da substncia disso j se acha no relato dos casos queconstam da parte anterior deste livro, e no conseguirei evitarrepetir-me no relato que se segue.(1)De minha parte, tambm posso afirmar que ainda me mantenho fiel aoque est contido na Comunicao Preliminar. No obstante, devoconfessar que, durante os anos decorridos desde ento nos quaisestive incessantemente voltado para os problemas ali abordados ,novos pontos de vista se impuseram a minha mente. Estes levaram aoque , ao menos em parte, um agrupamento e uma interpretaodiferentes do material fatual por mimconhecido naquela poca. Seriainjusto tentar atribuir uma responsabilidade grande demais por essatransformao a meu estimado amigo Dr. Josef Breuer. Por estemotivo, as consideraes que se seguem so formuladasprincipalmente em meu prprio nome.Quando tentei aplicar a um nmero relativamente grande de pacienteso mtodo de Breuer, de tratamento de sintomas histricos pelainvestigao e ab-reao destes sob hipnose, defrontei-me com duas 225. dificuldades e, ao lidar com elas, fui levado a fazer uma alterao tantona minha tcnica quanto na minha viso dos fatos. (1) Verifiquei quenem todas as pessoas que exibiam sintomas histricos indiscutveis eque, muito provavelmente, eram regidas pelo mesmo mecanismopsquico podiam ser hipnotizadas. (2) Vi-me forado a tomar umaposio quanto questo do que, afinal, caracteriza essencialmente ahisteria e do que a distingue de outras neuroses.Deixarei para depois meu relato de como superei a primeira dessasduas dificuldades e o que dela aprendi e comearei por descrever aatitude que adotei em minha prtica diria em relao ao segundoproblema. muito difcil obter uma viso clara de um caso de neuroseantes de t-lo submetido a uma anlise minuciosa uma anlise que,na verdade, s pode ser efetuada pelo uso do mtodo de Breuer; masa deciso sobre o diagnstico e a forma de terapia a ser adotada temde ser tomada antes de se chegar a qualquer conhecimento assimminucioso do caso. O nico caminho aberto a mim, portanto, eraselecionar para tratamento catrtico os casos que pudessem serprovisoriamente diagnosticados como histeria, que exibissem um oumais dos estigmas ou sintomas caractersticos da histeria. Ocorreuento algumas vezes que, apesar do diagnstico de histeria, osresultados teraputicos se revelaram muito escassos e nem mesmo aanlise trazia luz nada de significativo. Em outras ocasies ainda,tentei aplicar o mtodo de tratamento de Breuer a casos de neuroseque ningum poderia confundir com histeria, e assim verifiquei que elespodiam ser influenciados e, na verdade, esclarecidos. Tive essaexperincia, por exemplo, com as idias obsessivas idiasobsessivas autnticas, do tipo de Westphal em casos sem um nicotrao que lembrasse a histeria. Conseqentemente, o mecanismopsquico revelado pela Comunicao Preliminar no poderia serpatogmnico da histeria, nem tampouco consegui decidir-me, apenaspara preservar aquele mecanismo como critrio, a englobar todasessas neuroses na histeria. Acabei encontrando uma sada para todasessas dvidas atravs do plano de tratartodas as outras neuroses emquesto da mesma forma que a histeria. Determinei-me a investigarsua etiologia e a natureza de seu mecanismo psquico em cada caso ea deixar na dependncia do resultado dessa investigao a decisoquanto a se o diagnstico de histeria se justificava.Assim, partindo do mtodo de Breuer, vi-me envolvido emconsideraes sobre a etiologia e o mecanismo das neuroses emgeral. Tive sorte o bastante para chegar a alguns resultados teis numprazo relativamente curto. Em primeiro lugar, fui obrigado a reconhecerque, na medida em que se possa falar em causas determinantes que 226. levam aquisio de neuroses, sua etiologia deve ser buscada emfatores sexuais. Seguiu-se a descoberta de que diferentes fatoressexuais, no sentido mais geral, produzem diferentes quadros dedistrbios neurticos. Tornou-se ento possvel, na medida em queessa relao era confirmada, correr o risco de utilizar a etiologia com oobjetivo de caracterizar as neuroses e de fazer uma distino ntidaentre os quadros clnicos das vrias neuroses. Quando ascaractersticas etiolgicas coincidiam sistematicamente com asclnicas, isso era naturalmente justificvel.Dessa maneira, verifiquei que a neurastenia apresentava um quadroclnico montono no qual, como demonstram minhas anlises, nenhumpapel era desempenhado por um mecanismo psquico. Havia umantida distino entre a neurastenia e a neurose obsessiva, a neurosedas idias obsessivas propriamente ditas. Nesta ltima pudereconhecer um complexo mecanismo psquico, uma etiologiasemelhante da histeria e uma ampla possibilidade de reduzi-la pelapsicoterapia. Por outro lado, pareceu-me absolutamente necessriodestacar da neurastenia um complexo de sintomas neurticos quedependem de uma etiologia inteiramente diferente e, na verdade, nofundo, contrria. Os sintomas que formam esse complexo esto unidospor uma caracterstica que j foi reconhecida por Hecker (1893), poisso sintomas ou equivalentes e rudimentos de manifestaes deangstia; e por essa razo dei a tal complexo, a ser destacado daneurastenia, o nome deneurose de angstia. Sustentei (Freud, 1895b)que ele decorre de um acmulo de tenso fsica, que , em si mesma,tambm de origem sexual. Essa neurose tambm no possui nenhummecanismo psquico, mas invariavelmente influencia a vida mental, demodo que a expectativa ansiosa, as fobias, e hiperestesia s dores,etc. encontram-se entre suas manifestaes regulares. Essa neurosede angstia, no sentido que dou expresso, sem dvida coincide emparte com as neuroses que, sob o nome de hipocondria, encontralugar em muitas descries ao lado da histeria e da neurastenia. Masno posso considerar correta a delimitao da hipocondria em nenhumdos trabalhos em questo, e a aplicabilidade de seu nome me pareceser prejudicada pela ligao fixa do termo com o sintoma de medo dedoena.Depois de ter fixado assim os quadros simples de neurastenia, neurosede angstia e idias obsessivas, passei a considerar os casos deneurose comumente includos no diagnstico de histeria. Refleti queno era certo rotular de histrica uma neurose, em sua totalidade, sporque alguns sintomas histricos ocupavam um lugar de destaque emseu complexo de sintomas. Era-me fcil compreender essa prtica,visto que, afinal de contas, a histeria a mais antiga, a mais conhecida 227. e a mais marcante das neuroses em considerao; mas isso era umabuso, pois lanava por conta da histeria muitos traos de perverso edegenerescncia. Sempre que um sintoma histrico, como umaanestesia ou um ataque caracterstico, era observado num casocomplicado de degenerao psquica, todo esse estado era descritocomo de histeria, de modo que no surpreende que as piores e maiscontraditrias coisas fossem reunidas sob esse rtulo. Mas, assimcomo era certo que esse diagnstico estava errado, era igualmentecerto que tambm deveramos separar as vrias neuroses; e j queestvamos familiarizados com a neurastenia, a neurose de angstia,etc., em sua forma pura, no havia mais necessidade de desprez-lasno quadro conjunto.O ponto de vista que se segue, portanto, parecia ser o mais provvel.As neuroses que comumente ocorrem devem ser classificadas, em suamaior parte, de mistas. A neurastenia e as neuroses de angstia sofacilmente encontradas tambm em formas puras, especialmente empessoas jovens. As formas puras de histeria e neurose obsessiva soraras; em geral, essas duasneuroses combinam-se com a neurose deangstia. A razo por que as neuroses mistas ocorrem com tantafreqncia que seus fatores etiolgicos se acham muitas vezesentremeados, s vezes apenas por acaso, outras vezes comoresultado de relaes causais entre os processos de que derivam osfatores etiolgicos das neuroses. No h nenhuma dificuldade emdescobrir isso e demonstr-lo com detalhes. Quanto histeria, porm,sucede que esse distrbio dificilmente poderia ser segregado, para finsde estudo, do eixo de ligao das neuroses sexuais; que, em geral, elerepresenta apenas um lado isolado, apenas um aspecto de um casocomplicado de neuroses; e que somente em casos marginais que elepode ser encontrado e tratado isoladamente. Talvez possamos dizerem algumas ocasies: a potiori fit denominatio |isto , recebeu seunome pela sua caracterstica mais importante|.Examinarei agora os casos clnicos aqui relatados a fim de verificar seeles depem em favor da minha opinio de que a histeria no umaentidade clnica independente.A paciente de Breuer, Anna O., parece contradizer minha opinio e serum exemplo de distrbio histrico puro. Esse caso, porm, que foi totil para nosso conhecimento da histeria, no foi de modo algumconsiderado por seu observador do ponto de vista de uma neurosesexual, sendo agora inteiramente intil para esse propsito. Quandocomecei a analisar a segunda paciente, a Sra. Emmy von N., aexpectativa de que a base da histeria fosse uma neurose sexual estavamuito longe de minha mente. Eu acabara de sair da escola de Charcote encarava a ligao da histeria com o tema da sexualidade como uma 228. espcie de insulto exatamente como fazem as prprias pacientes.Quando examino minhas notas sobre esse caso hoje em dia,parece-me no haver nenhuma dvida de que ele deve ser visto comoum caso grave de neurose de angstia acompanhada de expectativaansiosa e fobias uma neurose de angstia que se originara daabstinncia sexual e se combinara com a histeria. O caso 3, de MissLucy R., talvez possa ser definido de maneira mais conveniente comoum caso marginal de histeria pura. Foi uma histeria breve que seguiuum curso episdico e tinha uma inconfundvel etiologia sexual do tipoque corresponderia a uma neurose de angstia. A paciente era umamoa plenamente madura, que precisava ser amada e cujos afetostinham sido despertados, muito apressadamente, por ummal-entendido. A neurose de angstia, contudo, no se tornou visvelou me escapou. O caso 4, de Katharina, nada mais era do que ummodelo do que classifiquei de angstia virginal. Era uma combinaode neurose de angstia e histeria. A primeira criava os sintomas,enquanto a segunda os repetia e se valia deles para atuar. A propsito,era um caso tpico de um grande nmero de neuroses de pessoasjovens que so classificadas de histeria. O caso 5, da Srta. Elisabethvon R., tambm no foi investigado como neurose sexual. Pudeapenas expressar, sem confirm-la, a suspeita de que umaneurastenia espinhal talvez tivesse constitudo sua base | ver em [1]|.Devo acrescentar, todavia, que nesse meio tempo as histerias puras setornaram ainda mais raras em minha experincia. Se pude reunir essesquatro casos como de histeria e se, ao relat-los, pude desprezar ospontos de vista que eram de importncia quanto s neuroses sexuais,a razo foi que essas histrias remontam a um tempo algo distante eque, naquela poca, eu ainda no submetia tais casos a umainvestigao deliberada e minuciosa de sua base sexual neurtica. Ese, em vez desses quatro, no relatei doze casos cuja anliseproporciona uma confirmao do mecanismo psquico dos fenmenoshistricos proposto por ns, essa relutncia foi exigida pelo prprio fatode que a anlise revelou esses casos como sendo, simultaneamente,neuroses sexuais, embora por certo nenhum diagnosticador lhesrecusasse o nome de histeria. Mas a elucidao dessas neurosessexuais ultrapassaria os limites da presente publicao conjunta.Eu no gostaria que se pensasse, erroneamente, que no desejoadmitir que a histeria uma afeco neurtica independente, que aconsidero meramente uma manifestao psquica da neurose deangstia e que lhe atribuo apenas os sintomas ideognicos,transferindo os sintomas somticos (por exemplo, pontoshisterognicos e anestesias) para a neurose de angstia. Nada disso.Em minha opinio, possvel lidar com a histeria, liberada de qualquer 229. mistura, como algo independente, e faz-lo em todos os aspectos,salvo na teraputica, pois nesta estamos voltados para uma finalidadeprtica livrarmo-nos do estado patolgico como um todo. E se emgeral a histeria aparece como componente de uma neurose mista,essa situao se assemelha quela em que h uma infeco mista eem que a preservao da vida cria um problema que no coincide como de combater a ao de um agente patognico especfico. muito importante para mim distinguir o papel desempenhado pelahisteria, no quadro das neuroses mistas, do papel desempenhado pelaneurastenia, pela neurose de angstia e assim por diante, pois, umavez feita essa distino, poderei expressar de maneira concisa o valorteraputico do mtodo catrtico. E isso porque me inclino a arriscar aafirmao de que esse mtodo , em termos tericos, perfeitamentecapaz de eliminar qualquer sintoma histrico, ao passo que, como serfcil compreender, ele inteiramente impotente contra os fenmenosda neurastenia e s raramente e por vias indiretas, capaz deinfluenciar os efeitos psquicos da neurose de angstia. Sua eficciateraputica em qualquer caso especfico depender, por conseguintede os componentes histricos do quadro clnico assumirem ou nouma posio de importncia prtica em comparao com os outroscomponentes neurticos.Existe ainda outro obstculo eficcia do mtodo catrtico, que jindicamos na Comunicao Preliminar | ver em [1]|. Ele no consegueafetar as causas subjacentes da histeria: assim, no consegue impedirque novos sintomas tomem o lugar daqueles que foram eliminados.Grosso modo, portanto, cabe-me reivindicar um lugar de destaque paranosso mtodo teraputico quando empregado dentro do contexto deuma terapia das neuroses, mas eu gostaria de advertir contra aapreciao de seu valor ou sua aplicao fora desse contexto.Entretanto, uma vez que no posso, nestas pginas, oferecer umaterapia das neuroses do tipo de que os clnicos precisam, o queacabo de dizer equivale a adiar minha viso do assunto para umapossvel publicao ulterior. Penso, no entanto, poder acrescentar asseguintes observaes guisa de ampliao e elucidao.(1) No sustento ter de fato eliminado todos os sintomas histricos queme dispus a influenciar pelo mtodo catrtico. Mas sou da opinio deque os obstculos residiram nas circunstncias pessoais das pacientese no se deveram a qualquer questo de teoria. Sinto-me justificado adesconsiderar esses casos malsucedidos ao formar um juzo sobre oassunto, da mesma forma que um cirurgio despreza os casos demorte ocorridos sob anestesia, devido a hemorragia ps-operatria,sepsia acidental, etc., ao tomar uma deciso sobre uma nova tcnica.Quando vier a abordar as dificuldades e os defeitos do processo, mais 230. adiante, voltarei a uma considerao das falhas oriundas dessa fonte. |ver em [1].|(2) O mtodo catrtico no deve ser considerado sem valor pelo fatode ser sintomtico, e no causal, pois a rigor a terapia causal , via deregra, uma terapia profiltica; ela faz com que cessem quaisquerefeitos adicionais do agente nocivo, mas no elimina,necessariamente, os resultados que esse agente j causou. Em geral,uma segunda fase de tratamento necessria para realizar estasegunda tarefa, e nos casos de histeria o mtodo catrtico de valorinestimvel para esse fim.(3) Depois que um perodo de produo histrica, um paroxismohistrico agudo, superado e tudo o que resta so sintomas histricossob a forma de fenmenos residuais, o mtodo catrtico suficientepara todas as indicaes e promove xitos completos e permanentes.Tal quadroteraputico favorvel no raro encontrado precisamentena esfera da vida sexual, graas s amplas oscilaes da intensidadedas necessidades sexuais e s complicaes das condiesnecessrias para provocar um trauma sexual. Aqui o mtodo catrticofaz tudo o que se pode esperar dele, pois um mdico no podeatribuir-se a tarefa de alterar uma constituio como a histrica. Devecontentar-se em eliminar os problemas a que tal constituio estinclinada e que podem decorrer dela em conjunto com ascircunstncias externas. Deve sentir-se satisfeito se o pacienterecuperar sua capacidade de trabalho. Alm disso, no precisa ficardesanimado quanto ao futuro, ao considerar a possibilidade de umarecada. Ele est ciente do aspecto principal da etiologia das neuroses que sua gnese , em geral, sobredeterminada, que vrios fatoresprecisam reunir-se para produzir esse resultado; e poder teresperana de que essa convergncia no se repita de uma s vez,mesmo que alguns fatores etiolgicos individuais permaneamatuantes.Talvez se possa objetar que, em casos de histeria como esse, em quea doena j completou seu curso, os sintomas residuais, de qualquermodo, desaparecem espontaneamente. Pode-se replicar, porm, queuma cura espontnea desse tipo muitas vezes no rpida nemcompleta o bastante, e que pode ser ajudada num grau extraordinriopor nossa interveno teraputica. Podemos deixar em aberto, porenquanto, a questo de se por meio da terapia catrtica curamosapenas o que passvel de cura espontnea ou, algumas vezes,tambm o que no se teria dissipado espontaneamente.(4) Quando nos defrontamos com uma histeria aguda, um caso queesteja atravessando o perodo da produo mais ativa de sintomashistricos, no qual o ego seja constantemente subjugado pelos 231. produtos da doena (isto , durante uma psicose histrica), at mesmoo mtodo catrtico far poucas alteraes no aparecimento e naevoluo do distrbio. Nessas circunstncias, vemo-nos, no que dizrespeito neurose, na mesma posio de um mdico que se defrontacom uma doena infecciosa aguda. Os fatores etiolgicos realizaramsuficientemente seu trabalho numa poca que j passou e que estfora do alcance de qualquer influncia; e agora, passado o perodo deincubao, eles se tornaram manifestos. A doena no pode serinterrompida de sbito. Temos de esperar que siga seu curso e,enquanto isso, tornar a situao do paciente to favorvel quantopossvel. Quando, durante um perodo agudo como esse, eliminamosos produtos da doena, os sintomashistricos recm-gerados,devemos tambm estar preparados para descobrir que aqueles queforam eliminados sero prontamente substitudos por outros. No serpoupado ao mdico o sentimento deprimente de estar s voltas comuma tarefa de Ssifo. O imenso dispndio de trabalho e a insatisfaoda famlia do paciente, para quem a extenso inevitvel de umaneurose aguda no tende a ser to familiar quanto o caso anlogo deuma molstia infecciosa aguda em geral, estas e outras dificuldadesprovavelmente tornaro impossvel, de qualquer modo, uma aplicaosistemtica do mtodo catrtico. No obstante, continua sendo umassunto para sria reflexo a questo de se ou no verdade que,mesmo numa histeria aguda, a elucidao regular dos produtos dadoena exerce uma influncia curativa, ao apoiar o ego normal dopaciente, que se acha ocupado no trabalho de defesa, e ao impedi-lode ser subjugado e cair numa psicose, e talvez at num estadopermanente de confuso.O que o mtodo catrtico capaz de realizar, mesmo na histeriaaguda, e como pode at mesmo restringir a nova produo desintomas patolgicos, de uma forma que tem importncia prtica, revelado de maneira bem clara pelo caso clnico de Anna O., em queBreuer aprendeu originalmente a empregar tal processopsicoteraputico.(5) Quando se trata de histerias que seguem um curso crnico,acompanhadas de uma produo moderada, mas constante, desintomas histricos, encontramos a mais forte razo para lamentarnossa falta de uma terapia que tenha eficcia causal, mas temostambm os maiores motivos para apreciar o valor do processo catrticocomo terapia sintomtica. Em tais casos temos que lidar com o danoproduzido por uma etiologia que persiste de maneira crnica. Tudodepende de reforar a capacidade de resistir do sistema nervoso dopaciente, e devemos lembrar que a existncia de um sintoma histricosignifica uma diminuio da resistncia do sistema nervoso e 232. representa um fator que predispe histeria. Como se pode ver pelomecanismo da histeria monossintomtica, a maneira mais fcil de seformar um novo sintoma histrico em relao e em analogia comoutro que j esteja presente. O ponto no qual um sintoma j irrompeuuma vez (ver em [1]) constitui um ponto fraco onde ele irrompernovamente da vez seguinte. Um grupo psquico que j tenha sidoexpelido uma vez desempenha o papel de cristal provocador a partirdo qual se inicia, com a maior facilidade, uma cristalizao que deoutra forma no teria ocorrido | ver em [1]|. Eliminar os sintomas jpresentes e desfazer as alteraes psquicas subjacentes a eles devolver aos pacientes toda a sua capacidade de resistncia, de modoque possam suportar com xito os efeitos do agente prejudicial. Muitose pode fazer por esses pacientesatravs de uma supervisoprolongada e de uma limpeza de chamin ocasional (ver em [1]).(6) Resta-me citar a aparente contradio entre admitir que nem todosos sintomas histricos so psicognicos e afirmar que todos elespodem ser eliminados por um processo psicoteraputico. A soluoest no fato de que alguns desses sintomas no-psicognicos (osestigmas, por exemplo), so, verdade, sinais de doena, mas nopodem ser classificados de molstias e conseqentemente no temimportncia prtica que eles persistam aps o tratamentobem-sucedido da doena. Quanto a outros sintomas desses, pareceque, de alguma forma indireta, eles so eliminados juntamente com ossintomas psicognicos, do mesmo modo que, afinal, de alguma formaindireta dependem de uma causao psquica.Devo agora considerar as dificuldades e desvantagens de nossoprocesso teraputico, na medida em que elas no se tornem bviaspara todos a partir dos casos clnicos relatados antes ou dasobservaes sobre a tcnica do mtodo que se seguem mais adiante.Irei sobretudo enumerar e indicar essas dificuldades, e no entrar empormenores sobre elas.O processo laborioso e exige muito tempo do mdico. Pressupegrande interesse pelos acontecimentos psicolgicos, mas tambm uminteresse pessoal pelos pacientes. No consigo me imaginar sondandoo mecanismo psquico de uma histeria de algum que me causasse aimpresso de ser vulgar e repelente e que, num conhecimento maisntimo, no fosse capaz de despertar solidariedade humana, ao passoque consigo manter o tratamento de um paciente tabtico oureumtico, independentemente de uma aprovao pessoal desse tipo.As exigncias feitas ao paciente no so menores. O processo no de modo algum aplicvel abaixo de certo nvel de inteligncia, sendoextremamente dificultado por qualquer vestgio de debilidade mental. A 233. concordncia e a ateno integrais dos pacientes so necessrias,mas, acima de tudo, preciso contar com sua confiana, visto que aanlise invariavelmente leva revelao dos eventos psquicos maisntimos e secretos. Grande nmero dos pacientes que se adequariama essa forma de tratamento abandonam o mdico to logo comeam asuspeitar da direo para a qual a investigao est conduzindo. Paratais pacientes, o mdico continua a ser um estranho. Com outros, queresolvem colocar-se em suas mos e depositar sua confiana nele um passo que em outras situaes dessa natureza s dadovoluntariamente, e nunca a pedido do mdico , com esses pacientes,repito, quase inevitvel que sua relao pessoal com ele assumaindevidamente, pelo menos por algum tempo, o primeiro plano.Naverdade, parece que tal influncia por parte do mdico uma condiosine qua non para a soluo do problema. No penso que faaqualquer diferena essencial, nesse sentido, se a hipnose poder serutilizada ou se ter que ser contornada e substituda por outra coisa.Mas a razo exige que ressaltemos o fato de que esses obstculos,embora inseparveis de nosso mtodo, no podem ser atribudosunicamente a ele. Pelo contrrio, est bastante claro que eles sebaseiam nas condies predeterminantes das neuroses a seremcuradas e que tm de estar ligados a qualquer atividade mdica queenvolva uma intensa preocupao com o paciente e conduza a umamodificao psquica nele. No pude atribuir nenhum efeito deletrioou qualquer perigo ao emprego da hipnose, embora a tenha usadoabundantemente em alguns de meus casos. Nas situaes em quecausei algum dano, as razes foram outras e mais profundas. Aoexaminar meus esforos teraputicos desses ltimos anos, desde queas comunicaes feitas por meu estimado mestre e amigo JosefBreuer me mostraram a utilidade do mtodo catrtico, creio que,apesar de tudo, fiz muito mais, e com maior freqncia, o bem do queo mal, e consegui algumas coisas que nenhum outro processoteraputico poderia ter alcanado. De modo geral, como disse aComunicao Preliminar, ele trouxe considerveis vantagensteraputicas | ver em [1]|.H uma outra vantagem no uso desse processo que devo ressaltar.No conheo melhor forma de comear a compreender um caso gravede neurose complicada, com maior ou menor mistura de histeria, doque submetendo-o a uma anlise pelo mtodo de Breuer. A primeiracoisa que acontece o desaparecimento de qualquer coisa que exibaum mecanismo histrico. Entrementes, aprendi, no curso das anlises,a interpretar os fenmenos residuais e a traar-lhes a etiologia, e assimassegurei uma base firme para decidir qual das armas do arsenalteraputico contra as neuroses indicada no caso em questo. Ao 234. refletir sobre a diferena que costumo encontrar entre meu julgamentosobre um caso de neurose antes e depois de uma anlise, sinto-mequase inclinado a considerar a anlise essencial compreenso deuma doena neurtica. Alm disso, adotei o hbito de combinar apsicoterapia catrtica com uma cura de repouso, que pode, senecessrio, estender-se a um tratamento completo de dieta alimentarnos moldes de Weir Mitchell. Isso me d a vantagem de poder, por umlado, evitar a introduo muito perturbadora de novas impressespsquicas durante a psicoterapia, e, por outro, eliminar o tdio de umacura de repouso, na qual os pacientes no raro caemno hbito deentregar-se a devaneios prejudiciais. Poder-se-ia esperar que otrabalho psquico, freqentemente muito intenso, imposto aospacientes durante um tratamento catrtico, bem como as excitaesresultantes da reproduo de experincias traumticas, fossem deencontro s intenes do mtodo da cura de repouso de Weir Mitchelle prejudicassem os xitos que estamos acostumados a v-lo trazer.Mas o oposto que de fato se verifica. Uma combinao dos mtodosde Breuer e de Weir Mitchell produz todas as melhoras fsicas queesperamos deste ltimo, alm de ter uma influncia psquica de grandeamplitude, que jamais resulta de uma cura de repouso sempsicoterapia.(2)Voltarei agora a minha observao anterior | ver em [1]| de que, emminhas tentativas de aplicar mais amplamente o mtodo de Breuer,deparei com a dificuldade de que muitos pacientes no eramhipnotizveis, embora seu diagnstico fosse de histeria e parecesseprovvel que o mecanismo psquico por ns descrito atuasse neles. Euprecisava da hipnose para ampliar-lhes a memria, a fim de descobriras lembranas patognicas que no estavam presentes em seu estadocomum de conscincia. Assim, eu era obrigado a desistir da idia detratar tais pacientes, ou a me esforar por promover essa ampliao dealguma outra forma.Eu era to incapaz quanto qualquer outra pessoa de explicar por queuma pessoa pode ser hipnotizada e outra no, e assim no podiaadotar um mtodo causal para enfrentar essa dificuldade. Notei,contudo, que em alguns pacientes o obstculo era ainda maisarraigado: eles recusavam at mesmo qualquer tentativa de hipnose.Ocorreu-me ento, um dia, a idia de que os dois casos poderiam seridnticos e de que ambos poderiam significar uma indisposio: que aspessoas no hipnotizveis eram as que faziam uma objeo psquica hipnose, quer sua objeo se expressasse como m vontade ou no. 235. No est claro para mim se posso manter este ponto de vista.O problema, porm, estava em como contornar a hipnose e, aindaassim, obter as lembranas patognicas. Consegui fazer isso damaneira que relato a seguir.Quando, em nossa primeira entrevista, eu perguntava a meuspacientes se se recordavam do que tinha originariamente ocasionado osintoma em questo, em alguns casos eles diziam no saber nada aesse respeito,enquanto, em outros, traziam baila algo quedescreviam como uma lembrana obscura e no conseguiamprosseguir. Quando, seguindo o exemplo de Bernheim ao provocar emseus pacientes impresses provenientes do estado sonamblico quetinham aparentemente sido esquecidas (ver em [1] e seg.), eu metornava insistente quando lhes assegurava que eles efetivamentesabiam, que aquilo lhes viria mente ento, nos primeiros casos,algo de fato lhes ocorria, e nos outros a lembrana avanava mais umpouco. Depois disso, eu ficava ainda mais insistente: dizia aospacientes que se deitassem e fechassem deliberadamente os olhos afim de se concentrarem o que tinha pelo menos algumasemelhana com a hipnose. Verifiquei ento que, sem nenhumahipnose, surgiam novas lembranas que recuavam ainda mais nopassado e que provavelmente se relacionavam com nosso tema.Experincias como essas fizeram-me pensar que seria de fato possveltrazer luz, por mera insistncia, os grupos patognicos derepresentaes que, afinal de contas, por certo estavam presentes. Evisto que essa insistncia exigia esforos de minha parte, e assimsugeria a idia de que eu tinha de superar uma resistncia, a situaoconduziu-me de imediato teoria de que, por meio de meu trabalhopsquico, eu tinha de superar uma fora psquica nos pacientes que seopunha a que as representaes patognicas se tornassemconscientes (fossem lembradas). Uma nova compreenso pareceuabrir-se ante meus olhos quando me ocorreu que esta sem dvidadeveria ser a mesma fora psquica que desempenhara um papel nagerao do sintoma histrico e que, na poca, impedira que arepresentao patognica se tornasse consciente. Que espcie defora poder-se-ia supor que estivesse em ao ali, e que motivopoderia t-la posto em ao? Pude formar com facilidade uma opiniosobre isso, pois j dispunha de algumas anlises concludas em queviera a conhecer exemplos de representaes que eram patognicas eque tinham sido esquecidas e expulsas da conscincia. A partir dessesexemplos, reconheci uma caracterstica universal de taisrepresentaes: eram todas de natureza aflitiva, capazes de despertarafetos de vergonha, de autocensura e de dor psquica, alm dosentimento de estar sendo prejudicado; eram todas de uma espcie 236. que a pessoa preferiria no ter experimentado, que preferiria esquecer.De tudo isso emergiu, como que de forma automtica, a idia dedefesa. Com efeito, em geral os psiclogos tm admitido que aaceitao de uma nova representao (aceitao no sentido de crer oude reconhecer como real) depende da natureza e tendncia dasrepresentaes j reunidas no ego, e inventaram nomes tcnicosespeciais para esse processo de censura a que a nova representaodeve submeter-se. Oego do paciente teria sido abordado por umarepresentao que se mostrara incompatvel, o que provocara, porparte do ego, uma fora de repulso cuja finalidade seria defender-seda representao incompatvel. Essa defesa seria de fatobem-sucedida. A representao em questo fora forada para fora daconscincia e da memria. Seu trao psquico foi aparentementeperdido de vista. No obstante, esse trao deveria estar ali. Quando eume esforava por dirigir a ateno do paciente para ele, apercebia-me,sob a forma de resistncia, da mesma fora que se mostrara sob aforma de repulso quando o sintoma fora gerado. Ora, se eu pudessefazer com que parecesse provvel que a representao se tornarapatognica precisamente em conseqncia de sua expulso e de seurecalcamento, a cadeia pareceria completa. Em vrias discussessobre nossos casos clnicos e num breve artigo sobre AsNeuropsicoses de Defesa (1894a), tentei esboar as hiptesespsicolgicas com cuja ajuda essa ligao causal o fato daconverso pode ser demonstrada.Assim, uma fora psquica, uma averso por parte do ego, teriaoriginariamente impelido a representao patognica para fora daassociao e agora se oporia a seu retorno memria. O no saberdo paciente histrico seria, de fato, um no querer saber um noquerer que poderia, em maior ou menor medida, ser consciente. Atarefa do terapeuta, portanto, est em superar, atravs de seu trabalhopsquico, essa resistncia associao. Ele o faz, em primeiro lugar,insistindo, usando a compulso psquica para dirigir a ateno dospacientes para os traos representativos que est buscando. Seusesforos, contudo, no se esgotam a, mas, como demonstrarei,assumem outras formas no decorrer da anlise e recorrem a outrasforas psquicas para assistir-lhes.Devo repisar um pouco mais a questo da insistncia. As simplesafirmaes do tipo claro que voc sabe, diga-me assim mesmo ouvoc logo se lembrar no nos levam muito longe. Mesmo compacientes num estado de concentrao, o fio da meada se quebraaps algumas frases. No se deve esquecer, entretanto, que se tratasempre aqui de uma comparao quantitativa, de uma luta entre forasmotivacionais de diferentes graus de vigor ou intensidade. A insistncia 237. por parte de um mdico estranho, no familiarizado com o que estacontecendo, no poderosa o bastante para lidar com a resistncia associao nos casos graves de histeria. Devemos pensar em meiosmais vigorosos.Nessas circunstncias, valho-me em primeiro lugar de um pequenoartifcio tcnico. Informo ao paciente que, um momento depois, fareipresso sobre sua testa, e lhe asseguro que, enquanto a pressodurar, ele ver diante de si uma recordao sob a forma de um quadro,ou a ter em seus pensamentos sob a forma de uma idia que lheocorra; e lhe peo encarecidamente que me comunique esse quadroou idia, quaisquer que sejam. No deve guard-los para si se acasoachar que no o que se quer, ou no so a coisa certa, nem porser-lhe desagradvel demais cont-lo. No deve haver nenhumacrtica, nenhuma reticncia, quer por motivos emocionais, quer porqueos julgue sem importncia. S assim podemos encontrar aquilo queestamos procurando, mas assim o encontraremos infalivelmente.Depois de dizer isso, pressiono por alguns segundos a testa dopaciente deitado diante de mim; em seguida, relaxo a presso epergunto calmamente, como se no houvesse nenhuma hiptese dedecepo: que voc viu?, ou que lhe ocorreu?Esse mtodo muito me ensinou e tambm nunca deixou de alcanarsua finalidade. Hoje, no posso mais passar sem ele. Naturalmente,estou ciente de que a presso na testa poderia ser substituda porqualquer outro sinal, ou por algum outro exerccio de influncia fsicasobre o paciente, mas, j que o paciente est deitado diante de mim,pressionar sua testa ou tomar-lhe a cabea entre minhas mos pareceser o modo mais conveniente de empregar a sugesto para afinalidade que tenho em vista. Ser-me-ia possvel dizer, para explicar aeficcia desse artifcio, que ele corresponde a uma hipnosemomentaneamente intensificada, mas o mecanismo da hipnose me to enigmtico que eu preferiria no utiliz-lo como explicao. Sou,antes, de opinio que a vantagem do processo reside no fato de que,por meio dele, desvio a ateno do paciente de sua busca e reflexoconscientes de tudo, em suma, em que ele possa empregar suavontade do mesmo modo que isso feito quando se olha fixamentepara uma bola de cristal, e assim por diante. A concluso que tiro dofato de que o que estou procurando sempre aparece sob a presso deminha mo a seguinte: a representao patognica aparentementeesquecida est sempre mo e pode ser alcanada por associaesfacilmente acessveis. uma simples questo de retirar algumobstculo do caminho. Este obstculo parece, mais uma vez, ser avontade do sujeito, e diferentes pessoas podem aprender, comdiferentes graus de facilidade, a se liberar de seu pensamento 238. intencional e a adotar uma atitude de observao inteiramente objetivados processos psquicos que nelas se verificam.O que emerge sob a presso de minha mo nem sempre umalembrana esquecida; apenas nos casos mais raros que aslembranas patognicas reais acham-se to facilmente mo nasuperfcie. muito mais freqente o surgimento de uma representaoque um elo intermedirio na cadeia de associaes entre arepresentao da qual partimos e a representao patognica queprocuramos; ou pode ser uma representao que constitui o ponto departida de uma nova srie de pensamentos e lembranas, ao fim daqual a representao patognica ser encontrada. verdade que,quando isso acontece, minha presso no revela a representaopatognica que, de qualquer modo, seria incompreensvel,arrancada de seu contexto e sem que se fosse levado at ela masaponta o caminho para ela e indica o sentido em que se devem fazermaiores pesquisas. A representao provocada em primeiro lugar pelapresso nesses casos pode ser uma lembrana familiar que nunca foirecalcada. Quando em nosso caminho para a representaopatognica o fio se interrompe mais uma vez, necessria apenasuma repetio do processo, da presso, para nos dar novasorientaes e um novo ponto de partida.Ainda em outras ocasies a presso da mo provoca uma lembranaque em si mesma familiar ao paciente, mas cujo surgimento osurpreende por ele ter-se esquecido de sua relao com arepresentao de que partimos. Essa relao ento confirmada nodesenvolvimento subseqente da anlise. Todas essas conseqnciasda presso do-nos uma impresso ilusria de haver uma intelignciasuperior fora da conscincia do paciente, que mantm um grandevolume de material psquico organizado para fins especficos e fixouuma ordem planejada para seu retorno conscincia. Suspeito, porm,de que essa segunda inteligncia inconsciente nada mais seja do queuma aparncia.Em toda anlise mais ou menos complicada, o trabalho efetuado pelouso repetido, na verdade contnuo, desse mtodo de presso sobre atesta. Algumas vezes, partindo de onde a retrospectiva de viglia dopaciente se interrompe, esse procedimento aponta o outro caminho aseguir atravs das lembranas das quais o paciente permaneceuconsciente; por vezes, chama a ateno para ligaes que foramesquecidas; noutras, evoca e organizalembranas que foram retiradasdas associaes por muitos anos, mas que ainda podem serreconhecidas como lembranas; e s vezes, por fim, como auge desua realizao em termos do pensamento reprodutivo, ele faz com queemerjam pensamentos que o paciente jamais reconhece como seus, 239. dos quais nunca se recorda, embora admita que o contexto os exigeinexoravelmente e se convena de que so precisamente essas idiasque levam concluso da anlise e eliminao de seus sintomas.Tentarei enumerar alguns exemplos dos excelentes resultados obtidoscom esse procedimento tcnico.Tratei de uma moa que sofria de intolervel tussis nervosa que searrastava por seis anos. Sua tosse obviamente se alimentava dequalquer catarro comum, mas, no obstante, devia ter fortesmotivaes psquicas. Todos os outros tipos de terapia h muito sehaviam mostrado impotentes contra ela. Portanto, tentei eliminar osintoma por meio da anlise psquica. Tudo o que a jovem sabia eraque sua tosse nervosa comeara quando, na idade de quatorze anos,ela estava morando com uma tia. Ela sustentava no saber dequaisquer agitaes mentais naquela poca, e no acreditava quehouvesse nenhum motivo para sua queixa. Sob a presso de minhamo, ela se lembrou, em primeiro lugar, de um grande cachorro. Emseguida, reconheceu o quadro em sua memria: era um co de sua tiaque ficara afeioado paciente, acompanhava-a por toda parte, eassim por diante. E ento lhe ocorreu, sem maior instigao, que esseco havia morrido, que as crianas o enterraram com solenidade e quea tosse havia comeado na volta do enterro. Perguntei-lhe por que,mas tive mais uma vez que recorrer ajuda da presso. Veio-lhe entoo seguinte pensamento: Agora estou inteiramente s no mundo.Ningum aqui me ama. Esse animal era meu nico amigo, e agora euo perdi. Prosseguiu com sua histria: A tosse desapareceu quandodeixei a casa de minha tia, mas voltou dezoito meses depois. Porqu? No sei. Usei novamente a presso. Ela se lembrou da notciada morte do tio, quando a tosse comeara de novo, e tambm selembrou de ter tido uma cadeia de pensamentos semelhante. O tioparece ter sido o nico membro da famlia que mostrara qualquerafeio por ela, que a havia amado. Ali estava, portanto, arepresentao patognica. Ningum a amava, preferiam qualquer outroa ela, ela no merecia ser amada, e assim por diante. Mas haviaalguma coisa vinculada representao de amor que ela mostravaforte resistncia em me contar. A anlise foi interrompida antes queisso fosse esclarecido.H algum tempo pediram-me que aliviasse uma senhora idosa de seusataques de angstia, embora, a julgar por seus traos de carter, eladificilmente se prestasse a um tratamento dessa espcie. Desde amenopausa ela ficara excessivamente devota, e em cada visitacostumava receber-me armada de um pequeno crucifixo de marfimoculto em sua mo, como se eu fosse o Demnio. Seus ataques de 240. angstia, que eram de natureza histrica, remontavam aos primeirosanos da juventude e, de acordo com a paciente, haviam-se originadodo uso de um preparado de iodo destinado a reduzir um discretocrescimento de sua tireide. Naturalmente, rejeitei essa origem e tenteiencontrar outra que se harmonizasse melhor com meus pontos devista sobre a etiologia das neuroses. Pedi-lhe primeiro que me dessealguma impresso de sua juventude que tivesse uma relao causalcom seus ataques de angstia e, sob a presso de minha mo, surgiua lembrana de ela ter lido o que chamado de livro edificante, noqual se fazia uma meno, em tom suficientemente respeitoso, aosprocessos sexuais. O trecho em questo causara na moa umaimpresso inteiramente oposta inteno do autor: ela irrompera emlgrimas e arremessara o livro para longe. Isso foi antes de seuprimeiro ataque de angstia. Uma segunda presso sobre a testa dapaciente evocou outra reminiscncia a lembrana de um tutor deseus irmos que havia manifestado grande admirao por ela, e porquem ela prpria nutrira sentimentos um tanto calorosos. Essalembrana culminou com a reconstituio de uma noite na casa deseus pais, quando todos se haviam sentado em torno da mesa com orapaz e se haviam divertido imensamente numa animada conversa. Namadrugada seguinte a essa noite, ela foi despertada por seu primeiroataque de angstia, que, pode-se afirmar com segurana, teve mais aver com o repdio de um impulso sensual do que com quaisquer dosesconcomitantes de iodo. Que perspectiva teria eu tido, com qualqueroutro mtodo, de revelar tal ligao, contra suas prprias opinies easseres, nessa paciente recalcitrante que tinha tantos preconceitoscontra mim e contra qualquer forma de terapia comum?Outro exemplo diz respeito a uma mulher jovem e bem-casada. Aindanos primeiros anos de sua adolescncia, ela costumava por algumtempo ser encontrada todas as manhs num estado de estupor, comos membros rgidos, a boca aberta e a lngua para fora; e agora, maisuma vez, estava sofrendo, ao despertar, de acessos que eramsemelhantes, embora no to graves. Como a hipnose profunda serevelou inobtenvel, comecei a investigar enquanto ela estava numestado de concentrao. primeira presso, assegurei-lhe que elaveria algo que estava diretamente relacionado com as causas de seuestado na infncia. Ela era tranqila e cooperativa. Viu mais uma vez acasa em que passara os primeiros anos de sua juventude, seu prprioquarto, a posio de sua cama, a av, que morava com eles naquelapoca, e uma de suasgovernantas, de quem gostava muito. Algumaspequenas cenas, todas sem importncia, ocorridas nesses aposentose em meio a essas pessoas, sucederam-se umas s outras;terminaram com a partida da governanta, que fora embora para se 241. casar. No pude depreender absolutamente nada dessasreminiscncias; no consegui estabelecer nenhuma relao entre elase a etiologia dos ataques. Vrias circunstncias mostravam, contudo,que elas pertenciam ao mesmo perodo em que os ataques haviamsurgido. Mas antes que eu pudesse prosseguir na anlise, tiveoportunidade de conversar com um colega que, anos antes, fora omdico da famlia dos pais de minha paciente. Ele me deu a seguinteinformao: na poca em que tratara da menina por causa de seusprimeiros ataques, ela se aproximava da maturidade e j era muitodesenvolvida fisicamente, e ele ficara surpreso com a excessivaafetuosidade que havia na relao entre ela e a governanta que estavana casa na ocasio. Ficara desconfiado e induziu a av a mantervigilncia sobre aquele relacionamento. Aps um curto perodo, asenhora pde inform-lo de que a governanta tinha o hbito de visitar amenina na cama noite e que, aps essas noites, a criana erainvariavelmente encontrada na manh seguinte presa de um ataque.Depois disso, no hesitaram em providenciar o discreto afastamentodessa corruptora de jovens. As crianas e at mesmo a me foramlevadas a crer que a governanta partira a fim de se casar. Minhaterapia, que teve sucesso imediato, consistiu em transmitir jovemsenhora as informaes que eu recebera.s vezes, as revelaes que se obtm atravs do mtodo da pressoaparecem de forma muito marcante e em circunstncias que tornamainda mais tentadora a suposio de haver uma intelignciainconsciente. Assim, lembro-me de uma senhora que sofrera durantemuitos anos de obsesses e fobias e que me indicou a infncia comognese de sua molstia, mas que era tambm totalmente incapaz dedizer a que se poderia atribuir a culpa por esta ltima. Ela era franca einteligente e opunha apenas uma resistncia consciente notavelmentepequena. (Posso observar entre parnteses que o mecanismo psquicodas obsesses tem uma afinidade interna muito grande com ossintomas histricos, e que a tcnica de anlise a mesma paraambos.) Quando perguntei a essa senhora se vira alguma coisa ourecordara algo sob a presso de minha mo, ela respondeu: Nem umacoisa nem outra, mas de repente uma palavra me ocorreu. Uma nicapalavra? Sim, mas parece tola demais. De qualquer maneira,diga-a. Porteiro. Nada mais? No. Pressionei uma segunda vez ede novo uma palavra isolada lhe atravessou a mente: Camisola. Viento que essa era uma nova espcie de mtodo de resposta e,pressionando repetidas vezes, trouxe tona o queparecia ser umasrie de palavras sem sentido: Porteiro camisola cama carroa. O que significa tudo isso?, perguntei. Ela refletiu ummomento e a seguinte idia lhe ocorreu: Deve ser a histria que acaba 242. de me vir mente. Quando eu tinha dez anos, e minha irm maisvelha, doze, certa noite ela enlouqueceu e teve que ser amarrada elevada para a cidade numa carroa. Lembro perfeitamente que foi oporteiro que a dominou e depois tambm foi com ela ao hospcio.Seguimos esse mtodo de investigao e nosso orculo produziu outrasrie de palavras que, embora no fssemos capazes de interpretartodas, tornaram possvel continuar essa histria e passar para outra.Alm disso, o significado dessa reminiscncia ficou logo claro. Adoena da irm causara nela essa impresso to profunda porque asduas partilhavam um segredo; dormiam no mesmo quarto e, uma noite,ambas sofreram as investidas sexuais de certo homem. A menodesse trauma sexual na infncia da paciente revelou no apenas aorigem de suas primeiras obsesses como tambm o trauma que emseguida produziu os efeitos patognicos.A peculiaridade desse caso estava apenas na emergncia depalavras-chave isoladas, que tivemos de elaborar em frases, pois aaparente incoerncia e impropriedade que caracterizavam as palavrasenunciadas dessa forma oracular aplicam-se tanto s representaesquanto s cenas completas que so normalmente produzidas sobminha presso. Quando estas so acompanhadas, nunca se deixa deconstatar que as reminiscncias aparentemente desconexas se achamligadas de modo estreito no pensamento e conduzem de formabastante direta ao fator patognico que estamos buscando. Por essarazo, apraz-me recordar um caso de anlise no qual minha confiananos produtos da presso foi, de incio, submetida a um rigoroso teste,mas depois brilhantemente justificada.Uma jovem mulher casada, muito inteligente e aparentemente feliz,consultara-me sobre uma dor persistente no abdome, que resistia aotratamento. Vi que a dor estava situada na parede abdominal e deviarelacionar-se com induraes musculares palpveis, e prescrevi umtratamento local. Alguns meses depois, tornei a examinar a paciente, eela me disse: A dor que eu sentia desapareceu aps o tratamento queo senhor recomendou, e permaneceu assim por muito tempo. Masagora ela voltou sob uma forma nervosa. Sei que nervosa porqueno mais como eu costumava senti-la, ao fazer certos movimentos,mas s em certas ocasies por exemplo, quando acordo de manhe quando fico agitada de certas maneiras. O diagnstico dessa jovemsenhora estava certo. Tratava-se agora de descobrir a causa da dor, eela no conseguiu ajudar-me nisso enquanto se achava numestado deconscincia no influenciado. Quando lhe perguntei, em concentraoe sob a presso de minha mo, se algo lhe ocorria ou se via algumacoisa, ela me disse estar vendo e comeou a descrever suas imagensvisuais. Viu algo como um sol cheio de raios, que naturalmente tomei 243. como um fosfeno produzido pela presso nos olhos. Eu esperava quealgo mais til se seguisse. Mas ela prosseguiu: Estrelas de umacuriosa luz azul-plido, como o luar e assim por diante, que julgueino serem mais do que cintilaes, clares e pontos brilhantes diantedos seus olhos. J estava preparado para considerar a experinciacomo um fracasso e imaginava como poderia fazer uma retiradadiscreta do caso, quando minha ateno foi atrada por um dosfenmenos que ela descreveu. Viu uma grande cruz negra, inclinada,que tinha em volta de seus contornos o mesmo brilho luminoso comque todos os seus outros quadros haviam brilhado, e em cuja vigatransversal bruxuleava uma pequena chama. Era claro que no podiamais tratar-se de um fosfeno. Passei ento a escutar com ateno.Inmeros quadros apareceram banhados na mesma luz, sinaiscuriosos que se pareciam muito com o snscrito; figuras comotringulos, entre elas um grande tringulo; de novo a cruz Dessavez, suspeitei de um significado alegrico e perguntei o que poderiaser a cruz. Provavelmente significa sofrimento, respondeu. Objeteique por cruz em geral se quer dizer responsabilidade moral. Queestaria oculto por trs do sofrimento? Ela no soube dizer e prosseguiucom suas vises: um sol com raios dourados. E a isso tambm pdeinterpretar: Deus, a fora primeva. Surgiu ento um lagartogigantesco que a contemplava de maneira inquisidora, mas noalarmante. A seguir, um grande nmero de cobras. Depois, mais umavez, um sol, mas de raios suaves e prateados, e sua frente, entre elae essa fonte de luz, uma grade que escondia dela o centro do sol. Euj sabia h algum tempo que estava lidando com alegorias e deimediato perguntei qual o sentido dessa ltima imagem. Ela respondeusem hesitar: O sol a perfeio, o ideal, e a grade representa minhasfraquezas e falhas, que se interpem entre mim e o ideal. A senhoraest ento se recriminando? Est insatisfeita consigo mesma? Naverdade, estou. Desde quando? Desde que passei a ser membro daSociedade Teosfica e tenho lido suas publicaes. Sempre me tiveem baixa conta. O que lhe causou a mais forte impressorecentemente? Uma traduo do snscrito que agora mesmo estsaindo em fascculos. Um momento depois eu era introduzido emsuas lutas mentais e suas auto-recriminaes e ouvia o relato de umepisdio insignificante que dera margem autocensura umaocasio na qual o que antes fora uma dor orgnica surgiu pela primeiravez como conseqncia da converso de uma excitao. Os quadrosque eu a princpiotomara por fosfenos eram smbolos de seqnciasde representaes influenciadas pelas cincias ocultas e, na verdade,talvez fossem emblemas provenientes das pginas de frontispcio delivros de ocultismo. 244. At aqui, tenho sido to entusiasmado em meus louvores aosresultados da presso como mtodo auxiliar, e durante todo o tempotenho negligenciado de tal maneira o aspecto da defesa ou resistnciaque, sem dvida, deve ter dado a impresso de que esse pequenoartifcio nos deixou em condies de dominar os obstculos psquicosa um tratamento catrtico. Mas acreditar nisso seria cometer um graveerro. xitos dessa espcie, pelo que sei, no devem ser procurados notratamento. Aqui, com em tudo o mais, uma grande mudana exige umgrande volume de trabalho. A tcnica da presso nada mais do queum truque para apanhar temporariamente desprevenido um egoansioso por defender-se. Em todos os casos mais ou menos graves oego torna a relembrar seus objetivos e oferece resistncia.Preciso mencionar as diferentes formas em que surge essa resistncia.Uma delas que, em geral, a tcnica da presso falha na primeira ousegunda ocasio. O paciente ento declara, com grandedesapontamento: Esperava que alguma coisa me ocorresse, mas tudoem que pensei foi no grau de tenso com que estava esperando porisso. No surgiu nada. O fato de o paciente pr-se assim em guardaainda no chega a constituir um obstculo. Podemos dizer emresposta: precisamente porque voc estava curioso demais: daprxima vez dar resultado. E de fato d. notvel a freqncia comque os pacientes, mesmo os mais dceis e inteligentes, conseguemesquecer-se por completo de seu compromisso, embora tenhamconcordado com ele de antemo. Uns prometem dizer o que quer quelhes ocorra sob a presso de minha mo, independentemente de lhesparecer pertinente ou no e de lhes ser ou no agradvel diz-lo isto , prometem diz-lo sem selecionar e sem serem influenciadospela crtica ou pelo afeto. Mas no cumprem essa promessa;evidentemente, faz-lo est alm de suas foras. O trabalho torna aser paralisado, e eles continuam a dizer que dessa vez nada lhesocorreu. No devemos crer no que dizem; devemos sempre presumir,e dizer-lhes tambm, que eles retiveram algo porque o julgaram semimportncia ou o acharam aflitivo. Devemos insistir nisso, devemosrepetir a presso e representar o papel de infalveis, at que afinal noscontem alguma coisa. O paciente ento acrescenta: Eu poderia ter-lhedito isso desde a primeira vez. Por que no disse? No conseguiacreditar que pudesse ser isso. Foi s quando continuou voltandotodas as vezes que resolvi diz-lo. Ou ento: Esperava que no fosselogo isso. Eu poderia muito bem passar sem diz-lo.Foi s quando issose recusou a ser repelido que vi que no devia desprez-lo. Assim, aposteriori, o paciente trai os motivos de uma resistncia que, de incio,se recusava a admitir. evidente que ele incapaz de fazer outra 245. coisa seno opor resistncia.Essa resistncia muitas vezes se oculta por trs de notveisdesculpas. Minha cabea hoje est distrada; o relgio (ou o piano dasala ao lado) est me perturbando. Aprendi a responder a taisobservaes: De modo algum. Neste momento voc esbarrou emalguma coisa que preferiria no dizer. Isso no lhe far nenhum bem.Continue a pensar nela. Quanto mais longa a pausa entre a pressode minha mo e o momento em que o paciente comea a falar, maisdesconfiado fico e mais se deve temer que o paciente estejareorganizando o que lhe surgiu e o esteja mutilando em suareproduo. Uma informao importantssima muitas vezesanunciada como sendo um acessrio redundante, como um prncipede pera disfarado de mendigo. Agora me ocorreu uma coisa, masno tem nada a ver com o assunto. S estou lhe dizendo porque osenhor quer saber de tudo. Palavras como essas em geral introduzema soluo h muito procurada. Sempre aguo os ouvidos quando ououm paciente falar de forma to depreciativa de algo que lhe ocorreu,pois sinal de que a defesa foi bem-sucedida se as representaespatognicas parecem ter to pouca importncia ao reemergiram. Dissopodemos inferir em que consistiu o processo de defesa: consistiu emtransformar uma representao forte numa representao fraca, emroub-la de seu afeto.Portanto, uma lembrana patognica reconhecvel, entre outrascoisas, pelo fato de o paciente a descrever como sem importncia e,no obstante, s enunci-la sob resistncia. Tambm existem casosem que o paciente tenta reneg-la mesmo aps seu retorno. Agorame ocorreu uma coisa, mas bvio que foi o senhor que a ps emminha cabea. Ou ento: Sei o que o senhor espera que euresponda. claro que acredita que pensei nisto ou naquilo. Ummtodo particularmente hbil de recusa est em dizer: Agora meocorreu uma coisa, verdade, mas como se eu a tivesse provocadode propsito. No parece de modo algum ser um pensamentoreproduzido. Em todos esses casos, permaneo inabalavelmentefirme. Evito entrar em qualquer uma dessas distines, mas explico aopaciente que elas so apenas formas de sua resistncia e pretextospor ela levantados contra a reproduo dessa lembrana em particular,que devemos reconhecer apesar de tudo isso.Quando as lembranas retornam sob a forma de imagens, nossa tarefacostuma ser mais fcil do que quando voltam como pensamentos. Ospacientes histricos, que em geral so do tipo visual, no oferecemtantas dificuldades ao analista quanto aqueles que tm obsesses.Uma vez surgida uma imagem na memria do paciente, podemos 246. ouvi-lo dizer que ela vai se tornando fragmentada e obscura medidaque ele continua a descrev-la. O paciente est, por assim dizer,livrando-se dela ao transform-la em palavras. Passamos a examinar aprpria imagem lembrada para descobrir a direo em que nossotrabalho deve prosseguir. Olhe para a imagem mais uma vez. Eladesapareceu? A maior parte, sim, mas ainda vejo um detalhe. Entoesse resduo ainda deve significar alguma coisa. Ou voc ver algumacoisa nova alm dele, ou algo lhe ocorrer em ligao com ele.Realizado esse trabalho, o campo de viso do paciente volta a ficarlimpo e podemos evocar outro quadro. Em outras ocasies, porm,uma dessas imagens permanece obstinadamente diante da visointerior do paciente, apesar de ele a ter descrito; para mim, isso umindcio de que ele ainda tem algo importante a me dizer sobre o temada imagem. To logo isso feito, a imagem desaparece, como umfantasma que fosse exorcizado.Naturalmente, de grande importncia para o progresso da anliseque o analista sempre mostre ter razo diante do paciente, casocontrrio ficar sempre na dependncia do que este resolver contar.Assim, reconfortante saber que a tcnica da presso na verdadenunca falha, afora um nico caso, que terei de examinar depois | verem [1] e segs.|, mas do qual posso dizer desde logo que corresponde aum motivo particular para a resistncia. Pode acontecer, claro, quese faa uso do mtodo em circunstncias em que ele nada tenha arevelar. Por exemplo, podemos procurar a etiologia adicional de umsintoma quando j o temos por completo diante de ns, ou podemosinvestigar a genealogia psquica de um sintoma, como uma dor, que defato seja somtico. Nesses casos, o paciente tambm afirmar quenada lhe ocorreu, e dessa vez ter razo. Podemos evitar cometerinjustias contra o paciente se nos habituarmos, como norma geraldurante toda a anlise, a observar-lhe a expresso facial quando eleestiver deitado em silncio diante de ns. Assim poderemos aprender adistinguir sem dificuldade o sereno estado de nimo que acompanha averdadeira ausncia de lembranas, da tenso e dos sinais de emoocom que ele tenta recusar a lembrana emergente, em obedincia defesa. Alm disso, experincias como essa tambm possibilitam ouso da tcnica da presso para fins de diagnstico diferencial.Assim, mesmo com a assistncia da tcnica da presso, de maneiraalguma o trabalho fcil. A vantagem que obtemos descobrir, pelosresultados desse mtodo, a direo em que temos de conduzir nossasindagaes e as coisas em que temos de insistir junto ao paciente. Emalguns casos isso basta. O ponto principal que devo adivinhar osegredo e diz-lo diretamente ao paciente, sendo ele, em geral,obrigado a no mais rejeit-lo.Em outros casos, mais alguma coisa 247. necessria. A persistente resistncia do paciente indicada pelo fatode que as ligaes se interrompem, as solues no aparecem e asimagens so recordadas de forma indistinta e incompleta. Voltando aolhar de um perodo posterior para um perodo anterior da anlise,muitas vezes ficamos atnitos diante da maneira mutilada com quesurgiram todas as idias e cenas que extramos do paciente pelomtodo da presso. Precisamente os elementos essenciais do quadroestavam faltando a relao do quadro com o prprio paciente oucom os principais contedos de seus pensamentos e eis por que elepermanecia ininteligvel.Darei um ou dois exemplos da forma pela qual uma censura dessaespcie atua quando surgem pela primeira vez as lembranaspatognicas. Por exemplo, o paciente v a parte superior de um corpode mulher com o vestido mal fechado por descuido, parece. Smuito depois que ele coloca uma cabea nesse tronco e assim revelauma determinada pessoa e sua relao com ela. Ou ele evoca de suainfncia uma reminiscncia sobre dois meninos. A aparncia deles lhe inteiramente obscura, mas ele diz que so culpados de algummalfeito. S muitos meses depois, aps a anlise ter feito grandesprogressos, que ele rev essa reminiscncia e se reconhece numadas crianas, e seu irmo na outra.De que meios dispomos para superar essa resistncia contnua?Poucos, mas abrangem quase todos pelos quais um homem podecomumente exercer uma influncia psquica sobre outro. Em primeirolugar, devemos refletir que a resistncia psquica, em especial umaque esteja em vigor h muito tempo, s pode ser dissipada comlentido, passo a passo, e devemos esperar com pacincia. Emsegundo lugar, podemos contar com o interesse intelectual que opaciente comea a sentir aps trabalhar por um curto espao detempo. Explicando-lhe as coisas, dando-lhe informaes sobre omundo maravilhoso dos processos psquicos que ns mesmos scomeamos a discernir atravs dessas anlises, ns o transformamosnum colaborador, induzimo-lo a encarar a si mesmo com o interesseobjetivo de um pesquisador e assim afastamos sua resistncia, querepousa, de fato, numa base afetiva. Mas por ltimo e essa continuaa ser a alavanca mais poderosa devemos nos esforar, depois dedescobrirmos os motivos de sua defesa, por despoj-los de seu valorou mesmo substitu-los por outros mais poderosos. aqui, sem dvida,que deixa de ser possvel enunciar a atividade psicoteraputica emfrmulas. Trabalha-se com o melhor da prpria capacidade, comoelucidador (ali onde a ignorncia deu origem ao medo), comoprofessor, como representante de um viso mais livre ou superior domundo, como um padre confessor que ministra a absolvio, por assim 248. dizer, pela permanncia desua compreenso e de seu respeito depoisde feita a confisso. Tenta-se dar ao paciente assistncia humana, ato ponto em que isso permitido pela capacidade da prpriapersonalidade de cada um e pela dose de compreenso que se possasentir por cada caso especfico. uma precondio essencial para talatividade psquica que tenhamos mais ou menos adivinhando anatureza do caso e os motivos da defesa que nele atuam, e felizmentea tcnica da insistncia e da presso nos leva at esse ponto. Quantomais tenhamos solucionado tais enigmas, mais fcil achamos decifrarum novo enigma e mais cedo podemos iniciar o trabalho psquicoverdadeiramente curativo. Pois bom reconhecer uma coisa comclareza: o paciente s se livra do sintoma histrico ao reproduzir asimpresses patognicas que o causaram e ao verbaliz-las com umaexpresso de afeto; e assim a tarefa teraputica consiste unicamenteem induzi-lo a agir dessa maneira; uma vez realizada essa tarefa, nadaresta ao mdico para corrigir ou eliminar. O que quer que se faanecessrio para esse fim em termos de contra-sugestes j ter sidodespendido durante a luta contra a resistncia. A situao pode sercomparada ao destrancamento de uma porta trancada, depois de suaabertura girando a maaneta, no oferece nenhuma outra dificuldade.Alm das motivaes intelectuais que mobilizamos para superar aresistncia, h um fator afetivo, a influncia pessoal do mdico, queraramente podemos dispensar, e em diversos casos s este ltimofator est em condies de eliminar a resistncia. A situao aqui no diferente da que se pode encontrar em qualquer setor da medicina,no havendo processo teraputico sobre o qual possamos dizer quedispensa por completo a cooperao desse fator pessoal.(3)Em vista do que disse na seo precedente sobre as dificuldades deminha tcnica, que expus extensamente (reuni-as, alis, a partir doscasos mais graves; as coisas muitas vezes se passam de maneiramuito mais conveniente) em vista de tudo isso, portanto, semdvida, todos ho de sentir-se inclinados a perguntar se no seria maisvantajoso, em vez de enfrentar todas essas complicaes, fazer usomais enrgico da hipnose ou restringir o emprego do mtodo catrticoa pacientes que possam ser colocados em hipnose profunda. Quanto segunda proposta, eu teria de responder que, nesse caso, o nmerode pacientes apropriados, at onde vai minha habilidade, seria pordemais reduzido; e quanto ao primeiro conselho,desconfio de que aimposio forada da hipnose no nos pouparia de muita resistncia.Minhas experincias nesse aspecto, curiosamente, no tm sidonumerosas, e no posso, portanto, ir alm de uma suspeita. Mas nas 249. situaes em que apliquei um tratamento catrtico sob hipnose, emvez de concentrao, no achei que isso diminusse o trabalho que eutinha a executar. No faz muito tempo, conclu um tratamento dessaespcie, e em seu decorrer fiz com que uma paralisia histrica daspernas desaparecesse. A paciente passava para um estado muitodiferente, psiquicamente, do de viglia, e que no aspecto fsico secaracterizava pelo fato de que lhe era impossvel abrir os olhos oulevantar-se at que eu lhe dissesse em voz alta: Agora, acorde! Noobstante, jamais me defrontei com maior resistncia do que nessecaso. Eu no atribua nenhuma importncia a esses sinais fsicos e, aoaproximar-se o final do tratamento, que durou dez meses, eles haviamdeixado de ser dignos de nota. Mas, apesar disso, o estado dapaciente enquanto trabalhvamos no perdeu nenhuma de suascaractersticas psquicas a capacidade que possua de lembrar-sede material inconsciente e sua relao toda especial com a figura domdico. Por outro lado, dei um exemplo, no relato do caso da Sra.Emmy von N., de um tratamento catrtico no mais profundosonambulismo, no qual a resistncia mal chegou a desempenharqualquer papel. Mas tambm verdade que nada ouvi dessa senhoracujo relato pudesse ter exigido qualquer superao especial deobjees, nada que ela no me pudesse ter dito mesmo em estado deviglia, supondo-se que nos conhecssemos h algum tempo e que elame tivesse razoavelmente em boa conta. Nunca cheguei sverdadeiras causas de sua doena, que sem dvida foram idnticas scausas de sua recada aps meu tratamento (pois essa foi minhaprimeira tentativa com esse mtodo); e na nica ocasio em que meaconteceu pedir-lhe uma reminiscncia que envolvesse um elementoertico | ver em [1]|, achei-a to relutante e indigna de confiana noque me dizia quanto o foram, mais tarde, quaisquer de meus pacientesno sonamblicos. J me referi, no relato do caso dessa senhora, resistncia que ela opunha, mesmo durante o sonambulismo, a outrassolicitaes e sugestes minhas. Tornei-me inteiramente ctico quantoao valor da hipnose na facilitao dos tratamentos catrticos, visto tervivenciado situaes em que, durante o sonambulismo profundo,houve absoluta recalcitrncia teraputica, ao passo que em outrosaspectos o paciente era perfeitamente obediente. Relatei casos, demodo resumido, em [1] e poderia acrescentar outros. Posso tambmadmitir que essa experincia correspondeu bastante bem ao requisitoem que insisto, no sentido de que deve haver uma relao quantitativaentre causa e efeito tambm no campo psquico |assim como no fsico|.No que afirmei at agora, a idia de resistncia se imps no primeiroplano. Demonstrei como, no curso de nosso trabalho teraputico, 250. fomos levados viso de que a histeria se origina por meio dorecalcamento de uma idia incompatvel, de uma motivao de defesa.Segundo esse ponto de vista, a idia recalcada persistiria como umtrao mnmico fraco (de pouca intensidade), enquanto o afeto delaarrancado seria utilizado para uma inervao somtica. (Em outraspalavras, a excitao convertida.) Ao que parece, portanto, precisamente por meio de seu recalcamento que a idia se transformana causa de sintomas mrbidos ou seja, torna-se patognica.Pode-se dar a designao de histeria de defesa histeria que exibaesse mecanismo psquico.Ora, tanto eu como Breuer temo-nos referido muitas vezes a duasoutras espcies de histeria, para as quais introduzimos as expresseshisteria hipnide e histeria de reteno. Foi a histeria hipnide aprimeira de todas a entrar em nosso campo de estudo. Eu no poderia,de fato, encontrar melhor exemplo dessa histeria do que no primeirocaso de Breuer, que encabea a exposio de nossos casos clnicos.Breuer props para esses casos de histeria hipnide um mecanismopsquico substancialmente diferente do de defesa por converso.Segundo a viso de Breuer, o que acontece na histeria hipnide queuma idia se torna patognica por ter sido recebida durante um estadopsquico especial e permanecido desde o incio fora do ego. Portanto,no foi necessria nenhuma fora psquica para mant-la fora do ego,e nenhuma resistncia precisa ser despertada quando a induzimos noego com a ajuda da atividade mental durante o sonambulismo. E ocaso de Anna O. de fato no mostra nenhum sinal de uma resistnciadessa natureza.Considero de tal importncia essa distino que, com base nela,alio-me de bom grado a essa hiptese da existncia de uma histeriahipnide. Estranhamente, em minha prpria experincia, nunca depareicom uma histeria hipnide autntica. Todas as que aceitei paratratamento transformaram-se em histerias de defesa. A rigor, no que eu jamais tenha tido de lidar com sintomas que comprovadamenteemergiram durante estados dissociados de conscincia, sendoobrigados, por esse motivo, a ficar excludos do ego. Isso tambmaconteceu algumas vezes em meus casos, mas pude demonstrar,mais tarde, que o chamado estado hipnide devia sua separao aofato de nele haver entrado em vigor um grupo psquico que antes foradividido pela defesa. Em suma, -me impossvel reprimir a suspeita deque em algum ponto as razes da histeria hipnide e da histeria dedefesa se renem, e que seu fator primrio a defesa. Mas nadaposso dizer a esse respeito.Meu julgamento , no momento, igualmente incerto quanto histeriade reteno, na qual se supe que o trabalho teraputico tambm se 251. processe sem resistncia. Tive um caso que encarei como uma tpicahisteria de reteno e exultei com a perspectiva de um xito fcil ecerto. Mas esse xito no ocorreu, embora o trabalho fosseefetivamente fcil. Suspeito, portanto, embora mais uma vez com todasas ressalvas prprias da ignorncia, de que tambm na base dahisteria de reteno tambm haja um elemento de defesa que tenhaforado todo o processo na direo da histeria. de se esperar quenovas observaes logo venham decidir se estou correndo o risco deincidir em parcialidade e erro ao favorecer assim a extenso doconceito de defesa para toda a histeria.Tratei at agora das dificuldades e da tcnica do mtodo catrtico egostaria de acrescentar algumas indicaes quanto forma assumidapela anlise quando essa tcnica adotada. Para mim, isto umassunto altamente interessante, mas no posso esperar que desperteinteresse semelhante em outros, que ainda no efetuaram uma anlisedessa espcie. Estarei, verdade, referindo-me mais uma vez tcnica, mas desta vez falarei das dificuldades inerentes pelas quaisno podemos responsabilizar os pacientes e que, em parte, devem seras mesmas tanto numa histeria hipnide ou de reteno quanto nashisterias de defesa que tenho diante dos olhos como modelo. Abordoesta ltima parte de minha exposio na expectativa de que ascaractersticas psquicas a serem nela reveladas possam um diaadquirir certo valor como matria-prima para a dinmica darepresentao.A primeira e mais poderosa impresso causada numa dessas anlises com certeza a de que o material psquico patognico aparentementeesquecido, que no se acha disposio do ego e no desempenhanenhum papel na associao e na memria, no obstante est dealgum modo mo, e em ordem correta e adequada. Trata-se apenasde remover as resistncias que barram o caminho para o material. Emoutros sentidos esse material conhecido, da mesma forma comosomos capazes de conhecer qualquer coisa; as ligaes corretas entreas representaes separadas e entre elas e as no-patognicas, queso lembradas com freqncia, existem, foram completadas emalguma poca e esto armazenadas na memria. O material psquicopatognico parece constituir o patrimnio de uma inteligncia nonecessariamente inferior de um ego normal. A aparncia de umasegunda personalidade muitas vezes apresentada da maneira maisenganosa.Se essa impresso justificada, ou se, ao pensar nela, estamosatribuindo ao perodo da doena um arranjo do material psquico quena verdade foi feito aps a recuperao essas so perguntas que eu 252. preferiria no discutir ainda, e no nestas pginas. De qualquer modo,as observaes feitas durante tais anlises sero descritas de modomais claro e convincente se as considerarmos a partir da posio quenos possvel assumir aps a recuperao, com a finalidade deexaminar o caso como um todo.Em geral, de fato, a situao no to simples como a representamosnos casos especficos por exemplo, quando existe apenas umsintoma surgido de um trauma principal. No costumamos encontrarum sintoma histrico nico, mas muitos deles, em parte independentesuns dos outros e em parte ligados. No devemos esperar encontraruma lembrana traumtica nica e uma idia patognica nica comoseu ncleo; devemos estar preparados para sucesses de traumasparciais e concatenaes de cadeias patognicas de idias. A histeriatraumtica monossintomtica , por assim dizer, um organismoelementar, uma criatura unicelular, em comparao com a estruturacomplexa de tais neuroses relativamente graves com que costumamosdeparar.O material psquico nesses casos de histeria apresenta-se como umaestrutura em vrias dimenses, estratificada de pelo menos trsmaneiras diferentes. (Espero logo poder justificar essa forma pictricade expresso.) Para comear, h um ncleo que consiste emlembranas de eventos ou seqncias de idias em que o fatortraumtico culminou, ou onde a idia patognica encontrou suamanifestao mais pura. Em torno desse ncleo encontramos o que muitas vezes uma quantidade incrivelmente grande de outro materialmnmico que tem de ser elaborado na anlise e que est, comodissemos, arranjado numa ordem trplice.Em primeiro lugar, h uma inconfundvel ordem cronolgica linearquevigora em cada tema isolado. Como exemplo disso, apenas citareio arranjo do material na anlise de Anna O. por Breuer. Tomemos otema do ensurdecimento, do no ouvir. Este se diferenciou de acordocom sete conjuntos de determinantes, e em cada um desses setetpicos foram coletadas em seqncia cronolgica dez a mais de cemlembranas individuais (ver em [1]-[2]). Foi como se estivssemosexaminando um arquivo que fosse mantido em perfeita ordem. Aanlise de minha paciente Emmy von N. continha arquivossemelhantes de lembranas, embora no fossem enumerados edescritos de forma to completa. Esses arquivos so um trao bastantegeral de cada anlise, e seu contedo sempre emerge numa ordemcronolgica to infalivelmente fidedigna quanto a sucesso dos dias dasemana ou dos meses numa pessoa mentalmente normal. Elesdificultam o trabalho da anlise pela peculiaridade de que, aoreproduzirem as lembranas, invertem a ordem em que estas se 253. originaram. A experincia mais recente e mais nova do arquivoaparece em primeiro lugar, como uma capa externa, e por ltimo vem aexperincia com a qual a seqncia de fatos realmente comeou.Descrevi esses agrupamentos de lembranas semelhantes, emcolees dispostas em seqncias lineares (como um arquivo dedocumentos, um mao de papis, etc.) como constituindo temas.Esses temas exibem um segundo tipo de arranjo. Cada um deles est no sei express-lo de outra forma concentricamenteestratificado em torno do ncleo patognico. No difcil dizer o queproduz essa estratificao, qual a magnitude decrescente ou crescenteque a base desse arranjo. O contedo de cada camadacaracteriza-se por um grau igual de resistncia, e esse grau aumentana proporo em que as camadas se acham mais perto do ncleo.Assim, h zonas dentro das quais existe um grau idntico demodificao da conscincia, e os diferentes temas estendem-seatravs dessas zonas. As camadas mais perifricas contm aslembranas (ou arquivos), as quais, pertencendo a temas diferentes,so recordados com facilidade e sempre estiveram claramenteconscientes. Quanto mais nos aprofundamos, mais difcil se torna oreconhecimento das lembranas emergentes, at que, perto do ncleo,esbarramos em lembranas que o paciente renega at mesmo aoreproduzi-las. essa peculiaridade da estratificao concntrica do material psquicopatognico que, como veremos, confere ao decorrer dessas anlisesseus traos caractersticos. preciso mencionar ainda uma terceiraespcie de arranjo a mais importante, porm aquela sobre a qual menos fcil fazer qualquer afirmao genrica. O que tenho em mente um arranjo de acordo com o contedo do pensamento, a ligao feitapor um fio lgico que chega at o ncleo e tende a seguir um caminhoirregular e sinuoso, diferente emcada caso. Esse arranjo possui umcarter dinmico, em contraste com o carter morfolgico das duasestratificaes mencionadas acima. Enquanto estas seriamrepresentadas num diagrama espacial por uma linha contnua, curvaou reta, o curso da cadeia lgica teria de ser indicado por uma linhainterrompida, que passaria pelos caminhos mais indiretos, indo e vindoda superfcie at as camadas mais profundas, e contudo, de modogeral, avanaria da periferia para o ncleo central, tocando em cadaponto de parada intermedirio uma linha semelhante linha emziguezague na soluo de um problema do lance do cavalo, queatravessa os quadrados do diagrama no tabuleiro de xadrez.Devo demorar-me um pouco mais neste ltimo smile para enfatizar umponto em que ele no faz justia s caractersticas do objeto dacomparao. A cadeia lgica corresponde no apenas a uma linha 254. retorcida, em ziguezague, mas antes a um sistema de linhas emramificao e, mais particulamente, a um sistema convergente. Elecontm pontos nodais em que dois ou mais fios se juntam e, a partirda, continuam como um s; e em geral diversos fios que se estendemde forma independente, ou no, ligados em vrios pontos por viaslaterais, desembocam no ncleo. Em outras palavras, notvel afreqncia com que um sintoma determinado de vrios modos, sobredeterminado.Minha tentativa de demonstrar a organizao do material psquicopatognico ficar completa quando eu tiver introduzido mais umacomplexidade. Pois possvel que haja mais de um nico ncleo nomaterial patognico quando, por exemplo, temos de analisar umasegunda irrupo da histeria que possui uma etiologia prpria, mas,apesar disso, est ligada a uma primeira irrupo de histeria agudasuperada anos antes. fcil imaginar, quando esse o caso, quantosacrscimos deve haver nas camadas e linhas de pensamento paraestabelecer uma ligao entre os dois ncleos patognicos.Farei agora um ou dois comentrios adicionais sobre o quadro daorganizao do material patognico a que acabamos de chegar.Dissemos que esse material se comporta como um corpo estranho, eque tambm o tratamento atua como a remoo de um corpo estranhodo tecido vivo. Estamos agora em condies de ver onde essacomparao fracassa. Um corpo estranho no entra em qualquerrelao com as camadas de tecido que o circundam, embora asmodifique e exija delas uma inflamao reativa. Nosso grupo psquicopatognico, por outro lado, no admite ser radicalmente extirpado doego. Suas camadas externas passam em todas as direes parapartes do ego normal; e, na realidade, pertencem tanto a este quanto aorganizao patognica. Na anlise, a fronteira entre os dois fixadade maneira puramente convencional, ora num ponto, ora em outro,sendo que em alguns lugares no pode em absoluto ser estabelecida.As camadas internas da organizao patognica so cada vez maisestranhas ao ego, porm mais uma vez sem que haja nenhumafronteira visvel em que se inicie o material patognico. De fato, oorganizao patognica no se comporta como um corpo estranho,porm muito mais como um infiltrado. Nesse smile, a resistncia deveser considerada como aquilo que se infiltra. E o tratamento tambmno consiste em extirpar algo a psicoterapia at agora no capazde fazer isso mas em fazer com que a resistncia se dissolva eassim permitir que a circulao prossiga para uma regio que atento esteve isolada.(Estou usando aqui diversos smiles, dos quais todos apresentamapenas uma semelhana muito limitada com meu assunto e, alm 255. disso, so incompatveis entre si. Estou ciente disso e no corro operigo de superestimar seu valor. Mas meu propsito ao utiliz-los lanar luz de diferentes direes sobre um tpico altamente complexo,que nunca foi representado at hoje. Arriscar-me-ei, portanto, naspginas seguintes, a introduzir outros smiles da mesma maneira,embora saiba que isso no est livre de objees.)Se fosse possvel, depois de um caso ter sido completamenteelucidado, mostrar o material patognico a outra pessoa naquilo queagora sabemos ser organizao complexa e multidimensional de talcaso, com razo nos seria perguntado como foi que um camelo comoesse passou pelo buraco da agulha. Pois h certa justificativa emfalarmos num desfiladeiro da conscincia. O termo ganha sentido evida para um mdico que conclua uma anlise como essa. Apenasuma nica lembrana de cada vez consegue entrar na conscincia doego. O paciente que esteja ocupado em elaborar tal lembrana nada vdaquilo que a est empurrando e se esquece do que j conseguiuentrar. Quando h dificuldades em dominar essa lembrana patognicaisolada como, por exemplo, quando o paciente no relaxa suaresistncia contra ela, quando tenha recalc-la ou mutil-la ento odesfiladeiro fica, por assim dizer, bloqueado. O trabalho fica paralisado,nada mais consegue aparecer, e a lembrana isolada que est noprocesso de atravessar permanece diante do paciente at que ele atenha absorvido na amplitude de seu ego. Toda a massaespecialmente ampliada de material psicognico assim impelidaatravs de uma fenda estreita e chega conscincia, por assim dizer,retalhada em pedaos ou tiras. Cabe ao psicoterapeuta voltar a reunirestes ltimos naorganizao que ele presuma ter existido. Qualquerum que sinta atrao por novas analogias poder pensar, a essaaltura, num quebra-cabeas chins.Se tivermos que iniciar uma anlise assim, em que tenhamos razespara esperar uma organizao do material patognico como essa,seremos ajudados pelo que nos ensinou a experincia, ou seja, que inteiramente intil tentar penetrar direto no ncleo da organizaopatognica. Ainda que ns mesmos pudssemos adivinh-lo, opaciente no saberia o que fazer com a explicao a ele oferecida eno seria psicologicamente modificado por ela.No h nada a fazer seno manter-se, a princpio, na periferia daestrutura psquica. Comeamos por fazer com que o paciente nos digaaquilo que sabe e lembra, enquanto, ao mesmo tempo, j vamosdirecionando sua ateno e superando suas resistncias mais levespelo uso da tcnica da presso. Sempre que tivermos aberto um novocaminho pressionando-lhe a testa, podemos esperar que ele avancemais um pouco sem nova resistncia. 256. Depois de trabalharmos assim por algum tempo, em geral, o pacientecomea a cooperar conosco. Muitas reminiscncias passam ento alhe ocorrer sem que tenhamos de fazer-lhe perguntas ou fixar-lhetarefas. O que fizemos foi abrir caminho para uma camada internadentro da qual o paciente agora dispe espontaneamente de ummaterial ligado a um grau idntico de resistncia. O melhor permitir-lhe, por algum tempo, reproduzir esse material sem serinfluenciado. verdade que ele prprio no est em condies dedesvendar ligaes importantes, mas se pode deixar que elucide omaterial que est dentro da mesma camada. As coisas que ele traz tona dessa maneira parecem muitas vezes desconexas, mas fornecemum material que ganhar sentido quando mais tarde se descobrir umaligao.Nesse ponto, em geral temos de nos prevenir contra duas coisas. Seinterferirmos com o paciente em sua reproduo das idias que neleesto jorrando, poderemos enterrar coisas que depois tero de serliberadas com grande dificuldade. Por outro lado, no devemossuperestimar a inteligncia inconsciente do paciente e deixar a cargodela a direo de todo o trabalho. Se eu quisesse fornecer um quadrodiagramtico de nosso modo de operao, diria talvez que nsmesmos empreendemos a abertura das camadas internas, avanandoradialmente, enquanto o paciente cuida da extenso perifrica dotrabalho.Os progressos so conseguidos, como sabemos, pela superao daresistncia, na forma j assinalada. Mas antes disso temos, em geral,outra tarefa a executar. Precisamos apoderar-nos de um pedao do fiolgico, pois apenas atravs de sua orientao que podemos teresperana de penetrar nointerior. No podemos esperar que ascomunicaes livres feitas pelo paciente, o material proveniente dascamadas mais superficiais, facilitem ao analista reconhecer em quepontos o caminho conduz s profundezas ou onde ele ir encontrar ospontos de partida das ligaes de idias que est procurando. Pelocontrrio. precisamente isso que ocultado com cuidado; o relatofeito pelo paciente soa como se fosse completo e auto-suficiente. Deincio, como se estivssemos diante de um muro que obstrui toda aperspectiva e nos impede de ter qualquer idia de haver ou no algoatrs dele e, em caso afirmativo, o qu.Mas se examinarmos com viso crtica o relato que o paciente nos fezsem muito esforo ou resistncia, nele descobriremos infalivelmentelacunas e imperfeies. Em determinado ponto, a seqncia de idiasser visivelmente interrompida e remendada da melhor forma possvelpelo paciente, com um recurso de linguagem ou uma explicaoinadequada; noutro ponto depararemos com uma motivao que teria 257. de ser descrita como dbil numa pessoa normal. O paciente noreconhece essas deficincias quando sua ateno chamada paraelas. Mas o mdico ter razo em procurar atrs dos pontos fracosuma abordagem para o material das camadas mais profundas e emesperar descobrir precisamente ali os fios de ligao que estbuscando por meio da tcnica da presso. Por conseguinte, dizemosao paciente: Voc est enganado; o que voc est formulando nopode ter nada a ver com o assunto atual. Devemos esperar encontrara alguma outra coisa, e isso lhe ocorrer sob a presso de minhamo.Pois podemos fazer a um paciente histrico as mesmas exigncias deligao lgica e motivao suficiente na cadeia de idias, mesmo quese estenda at o inconsciente, que faramos a um individuo normal.No est dentro das possibilidades de uma neurose relaxar essasrelaes. Se nos pacientes neurticos, e particularmente noshistricos, as cadeias de idias produzem uma impresso diferente, seneles a relativa intensidade das diferentes idias se afigura inexplicvelapenas por determinantes psicolgicos,j descobrimos a razo disso epodemos atribu-la existncia de motivos inconscientes ocultos.Podemos assim suspeitar da presena de tais motivos secretossempre que esse tipo de interrupo numa cadeia de idias se tornaevidente, ou quando a fora atribuda pelo paciente a seus motivos vaimuito alm do normal.Ao executarmos esse trabalho, claro, devemos manter-nos isentosdo preconceito terico de estarmos lidando com os crebros anormaisde dgnrs e dsquilibrs, que esto livres, graas a umestigma, para lanar por terra as leis psicolgicas comuns que regem aligao das idias, e nos quais uma nica idia fortuita pode tornar-seexageradamente intensa sem nenhum motivo, enquanto outra podepermanecer indestrutvel sem nenhuma razo psicolgica. Aexperincia demonstra que o contrrio se aplica histeria. Uma vezque descubramos os motivos ocultos, que muitas vezes permaneceraminconscientes, e os levemos em conta, nada de enigmtico ou contrrios normas persiste nas ligaes de pensamento histricos, no maisdo que nas normais.Dessa forma, portanto, detectando lacunas na primeira descrio dopaciente, lacunas muitas vezes encobertas por falsas ligaes |vermais adiante, ver em [1]-[2]|, apoderamo-nos de um pedao do fiolgico na periferia e, a partir desse ponto, desobstrumos mais umcaminho pela tcnica da presso.Ao faz-lo, muito raro conseguirmos abrir caminho diretamente parao interior atravs de um nico fio. Em geral, ele se rompe a meiocaminho: a presso falha e no produz nenhum resultado, ou ento 258. produz um resultado que no pode ser esclarecido ou levado adiante,apesar de todos os esforos. Logo aprendemos, quando isso acontece,a evitar os erros em que poderamos incorrer. A expresso facial dopaciente dever determinar se chegamos mesmo ao fim, ou se se tratade uma situao que no exige nenhuma elucidao psquica, ou se oque levou o trabalho a uma paralisao uma resistncia excessiva.Neste ltimo caso, se no pudermos superar de imediato a resistncia,poderemos presumir que seguimos o fio at uma camada que, porenquanto, ainda impenetrvel. Abandonamo-lo e tomamos outro fio,que talvez possamos seguir at a mesma distncia. Quando tivermosatingido essa camada percorrendo todos os fios e tivermos descobertoos emaranhados em virtude dos quais os fios separados no puderamser isoladamente seguidos at mais longe, poderemos pensar ematacar de novo a resistncia diante de ns. fcil imaginar at que ponto um trabalho dessa natureza podetornar-se complexo. Foramos nossa entrada nas camadas internas,superando resistncias todo o tempo; travamos conhecimento com ostemas acumulados numa dessas camadas e com os fios que aatravessam, e experimentamos at que ponto podemos avanar comnossos meios atuais e os conhecimentos que adqurimos; obtemosinformaes preliminares sobre o contedo das camadas seguintes pormeio da tcnica da presso; abandonamos fios e osretomamos;seguimo-los at os pontos nodais; constantementevoltamos atrs; e toda vez que perseguimos um acervo de lembranas,somos conduzidos a algum desvio que, no obstante, termina porconfluir para o fio inicial. Por esse mtodo, chegamos afinal a um pontoem que podemos parar de trabalhar em camadas e podemos penetrar,por uma trilha principal, diretamente no ncleo da organizaopatognica. Com isso a luta est vencida, embora ainda no estejaterminada. Devemos retroceder e retomar outros fios e esgotar omaterial. Mas agora o paciente nos ajuda vigorosamente. A maior partede sua resistncia foi quebrada.Nessas etapas finais do trabalho convm que possamos adivinhar omodo como as coisas se interligam e diz-lo ao paciente antes que odesvendemos. Se tivermos adivinhado certo, o curso da anlise seracelerado; mas at mesmo uma hiptese errada nos ajuda aprosseguir, compelindo o paciente a tomar partido e induzindo-o anegativas enrgicas que traem seu indubitvel conhecimento.Disso aprendemos com admirao que no estamos em condies deimpor nada ao paciente sobre as coisas que ele aparentemente ignora,nem de influenciar os produtos da anlise pela provocao deexpectativas. Nem uma s vez consegui, ao prever algo, alterar oufalsificar a reproduo das lembranas ou a ligao dos 259. acontecimentos, pois se o tivesse feito, isso inevitavelmente teria sidotrado no final por alguma contradio no material. Quando algomostrava ser tal como eu o previra, nunca se deixava de comprovarpor um grande nmero de reminiscncias indiscutveis que eu nofizera nada alm de adivinhar certo. No precisamos ter medo,portanto, de dizer ao paciente qual pensamos que ser sua prximaassociao de idias; isso no causar nenhum dano.Outra observao, constantemente repetida, relaciona-se com asreprodues espontneas do paciente. Pode-se afirmar que todareminiscncia isolada que emerge durante uma dessas anlises temimportncia. A rigor, a intromisso de imagens mnmicas irrelevantes(que estejam associadas por acaso, de uma forma ou de outra, simagens importantes) jamais ocorre. Uma exceo que no contradizessa regra pode ser postulada quanto s lembranas que, apesar dedestitudas de importncia em si mesmas, so indispensveis comopontes, no sentido de que a associao entre duas lembranasimportantes s pode ser feita atravs delas.O prazo durante o qual uma lembrana permanece no estreitodesfiladeiro diante da conscincia do paciente est, como j foiexplicado | ver em [1]|, em proporo direta com sua importncia. Umaimagem que se recusa a desaparecer uma imagem que ainda exigeconsiderao, um pensamentoque no pode ser afastado umpensamento que precisa ser mais explorado. Alm disso, umalembrana nunca retorna uma segunda vez depois de ter sidotrabalhada; a imagem que foi eliminada pela fala no volta a ser vista.Quando, no obstante, isso de fato acontece, podemos presumir comsegurana que, na segunda vez, a imagem ser acompanhada de umnovo grupo de pensamentos, ou a idia ter novas implicaes. Emoutras palavras, estes no foram trabalhados por completo. Almdisso, freqente uma imagem ou um pensamento reaparecerem comdiferentes graus de intensidade, primeiro como um indcio e depoiscom total clareza. Isso, entretanto, no contradiz o que acabo deafirmar.Entre as tarefas apresentadas pela anlise encontra-se a de eliminaros sintomas passveis de aumentar de intensidade ou retornar: dores,sintomas (como vmitos) causados por estmulos, sensaes oucontraturas. Enquanto trabalhamos num desses sintomasdefrontamo-nos com o fenmeno interessante e no indesejvel daparticipao na conversa. O sintoma problemtico reaparece, ouaparece com maior intensidade, to logo alcanamos a regio daorganizao patognica que contm a etiologia do sintoma, e da pordiante ele acompanha o trabalho com oscilaes caractersticas, queso instrutivas para o mdico. A intensidade do sintoma (tomemos 260. como exemplo o desejo de vomitar) aumenta quanto maisprofundamente penetramos numa das lembranas patognicaspertinentes; atinge seu clmax pouco antes de o paciente enunciaressa lembrana; e, depois que ele termina de faz-lo, diminui de sbitoou at desaparece por completo durante algum tempo. Quando, graas resistncia, o paciente demora muito tempo para dizer algo, a tensoda sensao do desejo de vomitar torna-se insuportvel e, seno conseguirmos for-lo a falar, ele comear mesmo a vomitar.Assim obtemos uma impresso plstica do fato de que o vomitartoma o lugar de um ato psquico (nesse exemplo, o ato de proferir),exatamente como sustenta a teoria conversiva da histeria.Essa oscilao de intensidade do sintoma histrico repetida toda vezque nos aproximamos de uma nova lembrana que patognica emrelao a ele. O sintoma, poderamos dizer, est nos planos o tempotodo. Quando somos obrigados a abandonar temporariamente o fio aque est ligado, tambm esse sintoma recua para a obscuridade, paratornar a emergir num perodo posterior da anlise. Isso continua atque a elaborao do material patognico tenha eliminado o sintoma deuma vez por todas.Em tudo isso, a rigor, o sintoma histrico de modo algum se comportade modo diferente da imagem mnmica ou da idia reproduzida queinvocamos sob a presso da mo. Em ambos os casos encontramos amesma recorrncia obsessivamente pertinaz na lembrana dopaciente, que tem de ser eliminada. A diferena est apenas nosurgimento aparentemente espontneo dos sintomas histricos, aopasso que, como nos recordamos muito bem, ns mesmosprovocamos as cenas e idias. De fato, contudo, h uma seqnciaininterrupta que se estende desde os resduos mnmicos nomodificados das experincias e atos de pensamento afetivos at ossintomas histricos, que so smbolos mnmicos dessas experinciase pensamentos.O fenmeno dos sintomas histricos que participam da conversadurante a anlise envolve um inconveniente de ordem prtica, com oqual devemos poder reconciliar o paciente. inteiramente impossvelefetuar a anlise de um sintoma de uma s vez, ou distribuir osintervalos de nosso trabalho de modo a se ajustarem com preciso spausas no processo de lidar com o sintoma. Ao contrrio, algumasinterrupes que so prescritas de forma imperativa por circunstnciasincidentais no tratamento, tais como o adiantado da hora, muitas vezesocorrem nos pontos mais inconvenientes, exatamente quando nospodemos estar aproximando de uma deciso ou quando surge umnovo tpico. Qualquer leitor de jornal tem a mesma desvantagem ao ler 261. o captulo dirio de sua histria seriada, quando, logo aps a faladecisiva da herona, ou depois de o tiro haver ecoado, ele se defrontacom as palavras: Continua no prximo nmero. Em nosso prpriocaso, o tpico que foi levantado, mas no abordado, o sintoma quetemporariamente se intensificou e ainda no foi explicado, persiste namente do paciente e talvez possa perturb-lo mais do que fazia atento. Ele ter apenas que lidar com isso da melhor forma possvel,pois no existe outra maneira de organizar as coisas. H pacientesque, no curso de uma anlise, simplesmente no conseguem livrar-sede um tpico que tenha sido levantado e ficam obcecados por ele nointervalo entre duas sesses; visto que, por si mesmos, no podemtomar nenhuma providncia no sentido de se livrarem dele, sofremmais, a princpio, do que antes do tratamento. Mas mesmo taispacientes acabam aprendendo a esperar pelo mdico e a deslocartodo o interesse que sentem por se livrarem do material patognicopara os horrios das sesses, aps as quais comeam a se sentir maislivres nos intervalos.O estado geral dos pacientes durante essas anlises tambm mereceateno. Por algum tempo ele no influenciado pelo tratamento econtinua a ser uma expresso dos fatores que atuavam antes. Masdepois surge um momento em que o tratamento se apodera dopaciente, capta seu interesse. Da por diante, seu estado geral se tornacada vez mais dependente do desenvolvimento do trabalho. Sempreque uma coisa nova elucidada ou se atinge um estgio importante doprocesso da anlise, tambm o paciente se sente aliviado e desfrutade um antegozo, por assim dizer, da sua libertao iminente. Todas asvezes que o trabalho se paralisa e h uma ameaa de confuso,aumenta o fardo psquico que oprime o paciente, e seu sentimento deinfelicidade e sua incapacidade para o trabalho se tornam maisintensos. Mas nenhuma dessas coisas dura mais do que um curtoperodo, pois a anlise continua, sem se vangloriar pelo fato de numdado momento o paciente sentir-se bem, e prosseguindoindependentemente dos perodos de tristeza do paciente. Ficamossatisfeitos, em geral, quando substitumos as oscilaes espontneasde seu estado por oscilaes que ns mesmos provocamos e quecompreendemos, da mesma forma que ficamos satisfeitos ao ver asucesso espontnea dos sintomas substituda por uma ordem do diaque corresponde ao estado da anlise.De incio, o trabalho torna-se mais obscuro e difcil, em geral, quantomais profundamente penetramos na estrutura psquica estratificadaque descrevi atrs. Porm, uma vez que tenhamos, pelo trabalho,chegado at o ncleo, a luz aparece, e no precisamos temer que o 262. estado geral do paciente fique sujeito a nenhum perodo grave dedepresso. Entretanto, a recompensa de nossos esforos acessao dos sintomas s pode ser esperada depois de termosefetuado a anlise completa de cada sintoma individual; e a rigor, jque os sintomas individuais so interligados em numerosos pontosnodais, nem sequer devemos ser estimulados durante o trabalho pelosxitos parciais. Graas s abundantes ligaes causais, todarepresentao patognica que ainda no tenha sido eliminada atuacomo uma motivao para a totalidade dos produtos da neurose, e apenas com a ltima palavra da anlise que todo o quadro clnicodesaparece, tal como ocorre com as lembranas reproduzidas deforma individual.Quando uma lembrana patognica ou uma ligao patognica antesretirada da conscincia do ego revelada pelo trabalho da anlise eintroduzida no ego, verificamos que a personalidade psquica assimenriquecida tem vrias maneiras de expressar-se quanto ao queadquiriu. particularmente freqente, depois de havermos impostocom esforo algum conhecimento aopaciente, ouvi-lo declarar: Eusempre soube disso, poderia ter-lhe dito antes. Os que so dotadosde certo grau de discernimento reconhecem, mais tarde, que essa uma forma de enganarem a si mesmos e se culpam por seremingratos. Afora isso, a atitude adotada pelo ego quanto a sua novaaquisio costuma depender da camada de anlise da qual se originaessa aquisio. As coisas que pertencem s camadas externas soreconhecidas sem dificuldades; haviam, de fato, permanecido sempreem poder do ego, e a nica novidade para o ego a ligao delas comas camadas mais profundas do material patolgico. As coisas que sotrazidas luz dessas camadas mais profundas tambm soreconhecidas e admitidas, porm muitas vezes s depois deconsiderveis hesitaes e dvidas. As imagens mnmicas visuaisso, naturalmente, mais difceis de ser renegadas do que os traosmnmicos de simples cadeias de pensamentos. No raro o pacientecomear por dizer: possvel que eu tenha pensado nisso, mas noconsigo me lembrar. E no seno depois de ter-se familiarizado coma hiptese h algum tempo que ele vem a reconhec-la tambm; ele serecorda e confirma tambm esse fato por vnculos secundrios de que realmente, certa vez, a idia lhe ocorreu. Durante a anlise,porm, adoto como norma reservar minha avaliao da reminiscnciaque surge independente do reconhecimento da mesma pelo paciente.Jamais me cansei de repetir que somos forados a aceitar tudo o quenossa tcnica traz luz. Se houver algo nela que no seja autntico oucorreto, mas tarde o contexto nos dir para rejeit-lo. Mas, posso dizerde passagem que raramente tive ocasio de renegar, mais tarde, uma 263. reminiscncia aceita de modo provisrio. Tudo o que emergiu, adespeito da mais enganosa aparncia de ser contradio gritante,acabou por revelar-se correto.As representaes que se originam das camadas mais profundas eque formam o ncleo da organizao patognica so tambm aquelasque so reconhecidas com extrema dificuldade como lembranas pelopaciente. Mesmo quando tudo termina e os pacientes so dominadospela fora da lgica e convencidos pelo efeito teraputico queacompanha o surgimento precisamente dessas representaes quando, digo eu, os prprios pacientes aceitam o fato de terempensado isso ou aquilo, muitas vezes acrescentam: Mas eu noconsigo me lembrar de ter pensado isso. fcil chegar a um acordocom eles dizendo-lhes que os pensamentos estavam inconscientes.Mas como enquadrar esse estado de coisas em nossas prpriasconcepes psicolgicas? Devemos desprezar essa negao dereconhecimento por parte dos pacientes, quando, agora que o trabalhoterminou, no existe mais nenhum motivo para que eles ajam dessaforma? Ou devemos supor queestamos de fato lidando compensamentos que nunca ocorreram, que meramente tiveram umapossibilidade de existir, de modo que o tratamento consistiria narealizao de um ato psquico que no se verificou na poca? claroque impossvel dizer qualquer coisa a esse respeito isto , sobre oestado em que se encontrava o material patognico antes da anlise at que tenhamos chegado a uma elucidao completa de nossasconcepes psicolgicas bsicas, em especial quanto natureza daconscincia. Resta, penso eu, como elemento digno de sriaconsiderao, o fato de que em nossas anlises podemos seguir umacadeia de pensamentos desde o consciente at o inconsciente (isto ,at algo que de modo algum reconhecido como uma lembrana), deque podemos mais uma vez acompanh-la por certa distncia atravsda conscincia, e de que podemos v-la terminar de novo noinconsciente, sem que essa alternncia de revelao psquica causequalquer modificao na prpria cadeia de pensamentos, em suacoerncia lgica e na interligao entre suas vrias partes. Uma vezque essa cadeia de pensamentos se colocasse diante de mim comoum todo, eu no seria capaz de adivinhar qual de suas partes seriareconhecida pelo paciente como lembrana e qual no o seria. Vejoapenas, por assim dizer, os cumes da cadeia de pensamentosmergulhando no inconsciente o inverso do que foi afirmado quanto anossos processos psquicos normais.Por fim, tenho de examinar mais outro tpico, que desempenha umpapel indesejavelmente grande na conduo de anlises catrticas 264. como essas. J admiti | ver em [1]| a possibilidade de a tcnica depresso falhar, de no suscitar nenhuma reminiscncia, apesar de todaa garantia e insistncia. Quando isso acontece, disse eu, h duaspossibilidades: ou, no ponto que estamos investigando, no h mesmonada mais a ser encontrado e isso algo que podemos reconhecerpela completa serenidade da expresso facial do paciente , ouesbarramos numa resistncia que s poder ser superada mais tarde,estamos diante de uma nova camada em que ainda no podemospenetrar e isso, mais uma vez, algo que podemos inferir daexpresso facial do paciente, que se acha tensa e d mostras deesforo mental | ver em [1]|. Mas existe ainda uma terceirapossibilidade que da mesma forma testemunha a presena deobstculo, porm um obstculo externo, e no inerente ao material.Isso acontece quando a relao entre o paciente e o mdico perturbada e constitui o pior obstculo com que podemos deparar. Noentanto, podemos esperar encontr-lo em qualquer anliserelativamente sria.J indiquei | ver em [1]-[2]| o importante papel desempenhado pelafigurado mdico na criao de motivos para derrotar a fora psquicada resistncia. No so poucos os casos, especialmente com asmulheres e quando se trata de elucidar cadeias de pensamentoerticas, em que a cooperao do paciente se torna um sacrifciopessoal, que deve ser compensado por algum substituto do amor. Oempenho do mdico e sua cordialidade tm que bastar na condiodesse substituto. Ora, quando essa relao entre a paciente e omdico perturbada, a cooperao da primeira tambm falha; quandoo mdico tenta investigar a representao patognica seguinte, opaciente retido pela interposio da conscincia das queixas quenele se acumulam contra o mdico. Em minha experincia, esseobstculo surge em trs casos principais.(1) Quando h uma desavena pessoal quando, por exemplo, apaciente acha que foi negligenciada, muito pouco apreciada ouinsultada, ou quando ouve comentrios desfavorveis sobre o mdicoou sobre o mtodo de tratamento. Esse o caso menos grave. Oobstculo pode ser superado com facilidade por meio da discusso eda explicao, muito embora a sensibilidade e a desconfiana dospacientes histricos possam s vezes atingir dimensessurpreendentes.(2) Quando a paciente tomada pelo pavor de ficar por demaisacostumada com o mdico em termos pessoais, de perder suaindependncia em relao a ele, e at, quem sabe, de tornar-sesexualmente dependente dele. Esse um caso mais importante, poisseus determinantes so menos individuais. A causa desse obstculo 265. reside na especial solicitude que inerente ao tratamento. A pacientetem ento um novo motivo para a resistncia, que se manifesta no sem relao a alguma reminiscncia especfica, mas a qualquertentativa de tratamento. muito comum a paciente se queixar de dorde cabea ao iniciarmos a tcnica da presso, pois em geral seu novomotivo para a resistncia permanece inconsciente, expressando-se pormeio de um novo sintoma histrico. A dor de cabea indica que ela nogosta de se deixar influenciar.(3) Quando a paciente se assusta ao verificar que est transferindopara a figura do mdico as representaes aflitivas que emergem docontedo da anlise. Essa uma ocorrncia freqente e, a rigor, usualem algumas anlises. A transferncia para o mdico se d por meio deuma falsa ligao. Preciso fornecer um exemplo disso. Numa deminhas pacientes, a origem de um sintoma histrico especfico estavanum desejo, que ela tivera muitos anos antes e relegara de imediato aoinconsciente, de que o homem com quem conversava na ocasioousasse tomar a iniciativa de lhe dar um beijo. Numa ocasio, ao fimde uma sesso, surgiu nela um desejo semelhante a meu respeito. Elaficou horrorizada com isso, passou uma noite insone e, na sessoseguinte, embora no se recusasse a ser tratada, ficou inteiramenteinutilizada para o trabalho. Depois de eu haver descoberto e removidoo obstculo, o trabalho prosseguiu e, vejam s!, o desejo que tantohavia assustado a paciente surgiu como sua prxima lembranapatognica, aquela que era exigida pelo contexto lgico imediato. Oque aconteceu, portanto, foi isto: o contedo do desejo apareceu,antes de mais nada, na conscincia da paciente, sem nenhumalembrana das circunstncias contingentes que o teriam atribudo auma poca passada. O desejo assim presente foi ento, graas compulso a associar que era dominante na conscincia da paciente,ligado a minha pessoa, na qual a paciente estava legitimamenteinteressada; e como resultado dessa msalliance que descrevocomo uma falsa ligao provocou-se o mesmo afeto que forara apaciente, muito tempo antes, a repudiar esse desejo proibido. Desdeque descobri isso, tenho podido, todas as vezes que sou pessoalmenteenvolvido de modo semelhante, presumir que uma transferncia e umafalsa ligao tornaram a ocorrer. Curiosamente, a paciente volta a serenganada todas as vezes que isso se repete. impossvel concluir qualquer anlise a menos que saibamos comoenfrentar a resistncia que surge por essas trs maneiras. Maspodemos encontrar um meio de faz-lo se resolvermos que esse novosintoma, produzido com base no modelo antigo, deve ser tratado damesma forma que os sintomas antigos. Nossa primeira tarefa tornaro obstculo consciente para o paciente. Numa de minhas pacientes, 266. por exemplo, de repente a tcnica da presso falhou. Eu tinha razespara supor que havia uma representao inconsciente do tipo antesmencionado no item (2), e tentei primeiro lidar com essa representaopegando a paciente de surpresa. Disse-lhe que deveria ter surgidoalgum obstculo continuao do tratamento, mas que a tcnica dapresso tinha pelo menos o poder de mostrar-lhe qual era esseobstculo; pressionei sua cabea e ela disse, admirada: Estou vendoo senhorsentado aqui na cadeira, mas isso absurdo. Que podesignificar? Pude ento dar-lhe os esclarecimentos. Numa outrapaciente, o obstculo costumava no aparecer diretamente comoresultado de minha presso, mas eu sempre conseguia descobri-lolevando a paciente de volta ao momento em que ele se haviaoriginado. A tcnica da presso jamais deixou de nos trazer de voltaesse momento. Quando o obstculo era descoberto e demonstrado, aprimeira dificuldade era removida do caminho. Mas persistia outramaior, que estava em induzir a paciente a produzir informaes quedissessem respeito a relaes aparentemente pessoais e onde aterceira pessoa coincidisse com a figura do mdico.A princpio, fiquei muito aborrecido com esse aumento de meu trabalhopsicolgico, at que percebi que o processo inteiro obedecia a uma lei;e ento notei tambm que esse tipo de transferncia no trazianenhum aumento significativo para o que eu tinha de fazer. Para apaciente, o trabalho continuava a ser o mesmo: ela precisava superar oafeto aflitivo despertado por ter sido capaz de alimentar aquele desejosequer por um momento; e parecia no fazer nenhuma diferena parao xito do tratamento que ela fizesse desse repdio psquico o tema deseu trabalho no contexto histrico, ou na recente situao relacionadacomigo. Aos poucos, tambm os pacientes aprenderam a compreenderque nessas transferncias para a figura do mdico tratava-se de umacompulso e de uma iluso que se dissipavam com a concluso daanlise. Creio, porm, que se lhes tivesse deixado de esclarecer anatureza do obstculo, eu simplesmente lhes teria dado um novosintoma histrico embora, verdade, mais brando em troca deoutro que fora espontaneamente gerado.J forneci indicaes suficientes, penso eu, da maneira pela qualessas anlises foram efetuadas e das observaes que fiz no decorrerdas mesmas. O que disse talvez faa com que algumas coisaspaream mais complicadas do que so. Muitos problemas sesolucionam quando nos descobrimos empenhados nesse trabalho. Noenumerei as dificuldades do trabalho para criar a impresso de que,em vista das exigncias que a anlise catrtica impe tanto ao mdicocomo ao paciente, s vale a pena empreend-la em casos 267. extremamente raros. Permito que minhas atividades mdicas sejamregidas pela suposio contrria, embora eu no possa, verdade,formular as indicaes mais definidas para a aplicao do mtodoteraputico descrito nestas pginas sem entrar num exame do pontomais importante e abrangente do tratamento das neuroses em geral.Em minha prpria mente, tenho muitas vezes comparado apsicoterapia catrtica com a interveno cirrgica. Tenho descritomeus tratamentos como operaes psicoteraputicas e tenho expostosua analogia com a abertura de uma cavidade cheia de pus, araspagem de um regio cariada, etc. Uma analogia como essajustifica-se menos pela remoo do que patolgico do que pelacriao de condies que tenham maior probabilidade de conduzir oavano do processo no sentido de recuperao.Quando prometo a meus pacientes ajuda ou melhora por meio de umtratamento catrtico, muitas vezes me defronto com a seguinteobjeo: Ora, o senhor mesmo me diz que minha doenaprovavelmente est relacionada com as circunstncias e osacontecimentos de minha vida. O senhor, de qualquer maneira, nopode alter-los. Como se prope ajudar-me, ento? E tem-me sidopossvel dar esta resposta: Sem dvida o destino acharia mais fcil doque eu alivi-lo de sua doena. Mas voc poder convencer-se de quehaver muito a ganhar se conseguirmos transformar seu sofrimentohistrico numa infelicidade comum. Com uma vida mental restituda sade, voc estar mais bem armado contra essa infelicidade. 268. APNDICE A: A CRONOLOGIA DO CASO DA SRA. EMMY VON N.Existem srias incoerncias nas datas do caso clnico da Sra. Emmyvon N. apresentadas em todas as edies alems da obra ereproduzidas na presente traduo. O incio do primeiro perodo detratamento da Sra. Emmy por Freud atribudo duplamente a maio de1889 em [1]. Esse perodo durou cerca de sete semanas (ver em [1]).Seu segundo perodo de tratamento comeou exatamente um anoaps o primeiro, isto , em maio de 1890. Tal perodo durou umas oitosemanas (ver em [1]). Freud visitou a Sra. Emmy em sua propriedadedo Bltico na primavera do ano seguinte (ver em [1]), isto , 1891. Aprimeira contradio dessa cronologia aparece em [1], onde a datadessa visita indicada como maio de 1890. Esse novo sistema dedatao mantido em pontos posteriores. Em [1] Freud atribui umsintoma surgido no segundo perodo de tratamento ao ano de 1899, epor duas vezes atribui sintomas que surgiram no primeiro perodo detratamento ao ano de 1888. No entanto, recorre a seu sistema originalem [1], onde indica a data de sua visita propriedade do Bltico como1891.H uma evidncia em favor da primeira cronologia isto , a queatribui o primeiro tratamento da Sra. Emmy por Freud ao ano de 1888.Em [1] ele observa que foi enquanto estudava as abulias dessapaciente que comeou pela primeira vez a ter srias dvidas sobre avalidade da assero de Bernheim de que a sugesto tudo.Externou essas mesmas dvidas energicamente em seu prefcio a suatraduo do livro de Bernheim sobre a sugesto (Freud, 1888-9), esomos informados, numa carta a Fliess de 29 de agosto de 1888(1950a, Carta 5), de que ele j terminara o prefcio naquela data.Tambm nessa carta escreve ele: No partilho das opinies deBernheim, que me parecem unilaterais. Se as dvidas de Freud foramindicadas pela primeira vez pelo tratamento da Sra. Emmy, essetratamento deve ter tido incio, portanto, em maio de 1888, e no de1889.A propsito, essa correo esclareceria uma incoerncia no relatoaceito de algumas das atividades de Freud aps seu retorno a Paris,na primavera de 1886. Em seu Estudo Autobiogrfico (1925d, CaptuloII) ele observa que, ao utilizar o hipnotismo, empregou-o desde ocomeo no s para dar sugestes teraputicas, mas tambm com afinalidade de rastrear a histria do sintoma at suas origens desde ocomeo, em outras palavras, ele usouo mtodo catrtico de Breuer.Sabemos por uma carta a Fliess, de 28 de dezembro de 1887 (1950a,Carta 2), que foi em fins daquele ano que ele comeou a dedicar-se aohipnotismo; j em [1] e [2] do presente volume, ele nos diz que o caso 269. da Sra. Emmy foi o primeiro em que tentou manejar o procedimentotcnico de Breuer. Se, portanto, esse caso data de maio de 1889,houve um intervalo de no mnimo dezesseis meses entre os dois fatos,e, como observa o Dr. Ernest Jones (no Vol. I de sua biografia, 1953,pg. 63, edio inglesa), a memria de Freud era pouco precisaquando ele empregava a expresso desde o comeo. No entanto, sea data do tratamento da Sra. Emmy fosse antecipada para maio de1888, essa lacuna ficaria reduzida a apenas uns quatro ou cincomeses.A questo se encerraria caso fosse possvel demonstrar que Freudesteve fora de Viena por um perodo longo o bastante para cobrir umavisita Livnia (ou qualquer pas que este possa ter representado)durante o ms de maio de 1890 ou de 1891. Mas, infelizmente, ascartas que ainda existem daquele perodo no oferecem qualquerprova de tal ausncia.A questo torna-se ainda mais obscura em virtude de outraincoerncia. Num nota de rodap em [1], Freud comenta sobre aenorme eficcia de algumas de suas sugestes feitas durante oprimeiro perodo de tratamento (a rigor, em 11 de maio de 1888 ou1889). A amnsia ento produzida por ele, em suas palavras, aindaestava atuante dezoito meses depois. Isso por certo se refere poca de sua visita propriedade campestre da Sra. Emmy, pois, emseu relato dessa visita, ele volta a mencionar tal episdio. Ali, contudo,fala das sugestes originais como se fossem feitas dois anos antes.Se a visita propriedade se deu em maio de 1890 ou de 1891, os doisanos devem estar certos e os dezoito meses devem ter sido umlapso.Mas essas contradies repetidas sugerem outra possibilidade. Hmotivos para crer que Freud alterou o local da residncia da Sra.Emmy. No ter ele, como uma precauo extra para no trair aidentidade de sua paciente, alterado tambm a poca do tratamento,mas falhado em manter essas alteraes coerentemente at o fim?Toda essa questo permanece em aberto. 270. APNDICE B: LISTA DE OBRAS DE FREUD QUE TRATAMPRINCIPALMENTE DA HISTERIA DE CONVERSO|Na lista que se segue, a data no incio de cada ttulo a do ano emque a obra em questo provavelmente foi escrita. A data no final a dapublicao; a consulta a essa data na Bibliografia e ndice Remissivode Autores fornecer maiores detalhes sobre a obra em questo. Osttulos entre colchetes foram publicados postumamente.||1886 Observao de um Caso Grave de Hemianestesia numHomem Histrico. (1886d)|1888 Histeria, em Handwoerterbuch, de Villaret. (1888b)1892 Carta a Josef Breuer. (1941a)|1892 Sobre a Teoria dos Ataques Histricos. (Com Breuer.)(1940d)||1892 Rascunho III. (1941b)|1892 Um Caso de Cura pelo Hipnotismo. (1892-93)1892 Sobre o Mecanismo Psquico dos FenmenosHistricos: Comunicao Preliminar. (Com Breuer.)(1893a)1893 Sobre o Mecanismo Psquico dos FenmenosHistricos: Uma Conferncia. (1893h)1893 Consideraes para um Estudo Comparativo dasParalisias Motoras Histricas e Orgnicas. (1893c)1894 As Neuropsicoses de Defesa, Seo I. (1894a)1895 Estudos sobre a Histeria. (Com Breuer.) (1895d).|1895 Projeto para uma Psicologia Cientfica, Parte II. (1950a)||1896 Rascunho K, ltima Seo, (1950a)|1896 Observaes Adicionais sobre as Neuropsicoses deDefesa. (1896b)1896 A Etiologia da Histeria. (1896c)1901-5 Fragmento da Anlise de um Caso de Histeria. (1905e)1908 As Fantasias Histricas e sua Relao com aBissexualidade. (1908a)1909 Algumas Observaes Gerais sobre os AtaquesHistricos. (1909a)1909 Cinco Lies de Psicanlise, Lies I e II. (1910a)1910 A Concepo Psicanaltica do Distrbio Psicognico daViso. (1910i)